Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 73 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

A Namorada

 

Ao cair da noite estou melhor equipada, emocionalmente, para assistir ao noticiário. O apartamento tem cheiro de fumaça de cigarro, então abro a janela e me sento com uma lata de coca-cola e ligo a televisão. O foco do show desta noite, vejo de imediato, é Mathias Rogers.

É um “escândalo” que Rogers, um homem guiado por valores cristãos, um homem com uma carreira política “impecável”, tentaria conspirar para silenciar uma escritora, um agente federal, e, em seguida, contratar um assassino para matar este mesmo agente, e tudo isso para encobrir o sequestro de sua filha, o estupro e o aborto subsequentes. O termo “hipocristão” jorra das bocas de muitas pessoas nas ruas quando são questionadas sobre sua opinião acerca do assunto.

Mathias negou as acusações de Ryan, o que fará o julgamento ser ainda mais emocionante para a imprensa e o público. Sei que Ryan não se importa com nada disso, neste momento. A grande notícia da noite é que Rogers desistiu da campanha e não vai concorrer à reeleição como governador. Isso me dá orgulho e coloca um sorriso fraco no meu rosto.

Há uma matéria sobre o desaparecimento de Ryan também. Era só uma questão de tempo até que as pessoas notassem que ele está longe de ser encontrado. Isso é ruim, eu acho. Isto diz a Roman para ter cuidado. Isto lhe diz que Ryan está atrás dele.

Eu desligo e penso em telefonar para meus pais.

Não há maneira de medir o impacto que isso deve ter tido neles. É preciso coragem, mas pego o telefone e disco. Percebo que não tenho noção alguma do que dizer, e que tenho medo do seu julgamento. Mas continuo com o receptor pressionado à minha orelha, e é o meu pai que atende no terceiro toque, agressivo e cansado.

– Alô?

Meus olhos enchem d’água.

– Pai?

Há um momento, mas antes que eu possa especular sobre o que significa, ele desaba.

– Katherine.

Fecho meus olhos e balanço a cabeça.

– Estou em casa. Estou bem.

– Por quê, por que você não voltou para nossa casa?

Eu não sei. Eu não acho que consiga me sentir segura em Blessfield.

– Eu só queria ficar só – eu finalmente sussurro.

Há sons que não consigo distinguir, então é minha mãe falando:

– Filha... – Ela está chorando, e isso faz com que seja mais difícil. – Nós ficamos com você no hospital...

– Eu sei, eu sei, por dias, eu sei. Está tudo bem, mãe. Você não podia ficar lá para sempre.

– Voltamos porque há coisas que precisamos resolver, coisas... da sua... irmã.

Concordo com a cabeça. Deus, Amanda. O que posso dizer a eles? Como posso lamber minhas feridas quando eles estão passando por algo além da minha compreensão, uma dor que eu não consigo entender? Meu coração se parte pela minha mãe. Eu nunca senti tanta empatia por ela. Perdão, é o que é, deságua sobre mim como uma onda. Eu a perdoo por tudo que ela fez e não fez. Eu a amo com tudo o que sou, mas sinto que não tenho esse direito.

– Katherine, seu bebê ... – Ela chora. – Estou tão feliz.

Concordo com a cabeça novamente, meus olhos borrados de lágrimas.

– Sim, eu também.

– Conversamos com Ryan, sabe? Ele foi gentil.

– Mãe, eu o amo.

– Sim, sim... – Ela soluça. – O amor é algo para ajudá-la agora. Kate, eu decidi ver Morris.

– Não, mãe... – Pavor me preenche. – Mãe, Morris não é... ele não é quem você acha que ele é.

– Kate, ele é meu neto. Eu tenho que vê-lo, tenho que tentar falar com ele, entendê-lo.

– Mãe, você não pode – digo, mais alto do que eu esperava. – A pessoa que você é não é capaz de compreender a pessoa que ele é, confie em mim, uma única vez! Por favor, não o veja, ele só vai magoá-la mais.

– Não há mais, Kate. Eu não posso ser mais ferida, você não vê? Nada neste mundo poderia ser pior do que isso. Eu estou em um estado, Katherine, onde nada mais pode me machucar. Nada.

Limpo as minhas lágrimas.

Estamos em silêncio.

Ela precisa ouvir. Eu engulo e falo.

– Ele matou Manda.

– Não, foi Roman! – Ela chora. Ouço seus soluços. – Isso foi Roman.

– Mãe, ele estava lá. Ele olhou, ele ajudou, ele brincou com seu sangue, eu estava lá! Eu estava lá! Ele me estuprou!

Ela está chorando.

Fecho minhas mãos em um punho e tento manter o controle sobre meu corpo, minhas palavras, minhas emoções. Não contei à minha mãe sobre Dale quando eu era adolescente. Tenho que ter cuidado para não fazer isso agora, de uma forma errada.

– Eu sei que você o ama – digo, baixinho. – Eu também amava. Nós não enxergamos. Mas, mãe, agora sabemos. Não faça isso.

Ela entrega o telefone para o meu pai. É demais para ela.

– Katherine, venha para casa – ele diz com uma voz pesada.

– Não sei se tenho forças, pai.

Por um momento, nenhum de nós fala. Então, meu pai diz:

– Você ainda duvida de sua força, após os acontecimentos recentes?

Sinto gosto de uma lágrima salgada na minha língua. Não tenho resposta.

– Venha para casa, Katherine – ele implora.