Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
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Concentro-me em Kate agora.
Aproximei-me quando ela disse meu nome, em voz alta, pela primeira vez. Está radiante com a ideia e empolgada por ter um novo projeto. Kate estava sentada com as pernas flexionadas, pés sob a bunda, falando ao telefone com sua editora e amiga Savannah. Está sorrindo quando diz, cigarro na mão:
– O interessante é que o cara é de Blessfield e isso é no estado. Serial killers estão na moda. Quero fazer algo tão detalhado e substancial quanto Zodíaco, mas muito menos entediante como leitura. Eu quero o sangue, as tripas e o sexo da coisa. Isso é o que as pessoas querem também.
Ela ficou calma enquanto ouvia Savannah na linha. Fiquei feliz por ainda não ter começado a me xingar. Feliz pelo seu interesse. Sim, sinto coisas. Tenho emoções. E confiem em mim, sempre tive. Na verdade, assassinar sempre foi algo emocional.
Kate desliga e fica ali, imóvel, fumando. Sua mente tenta organizar as ideias. Ela está linda. Sei que, se estivesse vivo, não descansaria até tirar sua vida. Eu não dormiria até sentir sua pele quente contra a minha. Teria sonhado com a sensação do calor de seu sangue pingando em mim, e teria tido ereções perigosamente intensas e duradouras com esses pensamentos.
Kate apaga o cigarro. Ela caminha com os pés descalços até a mesa da cozinha, onde o seu caro notebook está aberto com a tela preta esperando por algo. Seu teclado desejando, como eu, ser tocado. Senta e move o mouse em rápidos e pequenos círculos, trazendo a tela para vida. Kate começa a sua investigação sobre mim. Toma nota de todos os livros (não muitos) que mencionam meu nome ou meus crimes. É por aí que vai começar, mas antes faz algo que tem um impacto forte e definitivo sobre mim. Kate salva uma imagem minha, uma fotografia colorida em tons de magenta e amarelo profundo do julgamento que confesso adorar, na qual estou piscando para meu advogado, e a define como fundo de tela.
Isso me faz sorrir.
Eu não sorrio mais com os lábios, é um sorriso da alma, de tudo o que sou.
Kate é uma mulher pequena. Tem vinte e nove anos e odeia sua pele pálida e branca. Gostaria de ter um bronzeado dourado que pudesse mostrar em calças capri brancas. Acha que, se tivesse essa cor, esfregaria apenas uma gota de óleo de bebê nas pernas e elas adquiririam um brilho bronze. Para Kate, isso “seria a coisa mais sexy”.
Ela tem cabelos pretos e brilhantes que passam ligeiramente dos ombros. Eu absolutamente estou apaixonado pelo cabelo dela.
Seus olhos verdes são minha característica favorita. Eles têm os mais grossos e longos cílios que me lembro de ter visto. Seus lábios são carnudos, e hoje estão secos. Sua família é composta de caipiras babacas e ignorantes e eu sei disso porque Kate sabe disso. Ela sente vergonha do fato de que eles não têm cultura suficiente para compreender sua obra. Quando ela menciona o nome de um autor popular contemporâneo, como Dan Brown, eles não têm ideia de quem ela está falando. Envergonha-se de sua irmã ter feito papel de idiota quando ficou grávida na escola e teve que sair no primeiro ano do colegial para cuidar de seu sobrinho Morris. Sua família reside em Blessfield até hoje. Gostaria de saber se por acaso cheguei a conhecer alguma dessas pessoas no minimercado local. Eu me pergunto se já coloquei os olhos em sua irmã e a desejei febrilmente.
Kate gosta de correr, não por causa dos resultados em seu corpo, mas porque a atividade a bombeia com hormônios que a deixam mais animada e eufórica. Isso a moldou e, embora seja magra, ela tem braços, abdômen e coxas durinhos. Ela tem peitos pequenos que terminam em mamilos castanhos-claros. Suas unhas são curtas porque as rói. Há finas cicatrizes, praticamente invisíveis, em seu corpo porque costumava se cortar quando era adolescente. Ninguém sabe desse fato. Kate tem vergonha disso. Sempre que o assunto surgiu no passado, durante um jantar com amigos ou algo do tipo, ela permaneceu em silêncio. Cortar-se não é tão absurdo ou doloroso como a mídia gosta de mostrar. Algumas pessoas nem sequer sabem que são cortadoras. Depois de ter feito isso por muito tempo, a dor é secundária. Kate sabe disso. Kate já pesquisou sobre a química que nosso cérebro libera em nossos corpos quando frequentemente nos expomos à dor. Ela acredita que o corte liberta os demônios interiores, pelo menos por um tempo. Ela leu sobre tribos da África cujos membros se cortam como parte de rituais espirituais de purificação. Um de seus livros favoritos, Love: A História de Lisey, de Stephen King, fala basicamente a mesma coisa.
Kate foi dormir quase às quatro da manhã quando estava satisfeita com a pesquisa. Tomou uma ducha. Observei-a e percebi que ela gosta de água bastante quente, quase fervendo. Acho que ela deve se sentir suja por algum motivo que ainda não consegui captar dos seus pensamentos, porque é para isso que serve água fervendo, não é? Purificação. Ela sai e se seca, metodicamente, com uma velha toalha azul. Envolve o cabelo com a toalha e caminha para o quarto sem olhar para si mesma no espelho. Passa direto por mim, e eu desejo com toda minha vontade ser capaz de tocá-la.
Vejo como ela desliza em si uma calcinha branca e abre três gavetas em busca de uma camiseta que não encontra. Ela murmura e escuto:
– Ele levou? Porra, não acredito que ele levou! – E sinto o quão nervosa e triste ela está. Concentro-me e entendo que ela ama alguém. Alguém que recentemente a deixou e levou sua camiseta preferida.
Kate suspira, fecha os olhos e não se move por um tempo. Adoro quando fica nua. Reabre sua segunda gaveta e tira um top de algodão estilo nadador que comprou na liquidação de uma loja de departamento três meses atrás. Ela o veste e vai até a cômoda. Aperta brutalmente os botões de um telefone celular com os polegares. Eu leio o que está escrevendo enquanto acha as palavras: “O desgraçado pegou minha camiseta do Frankenstein”, e pressiona enviar. Vejo que está pensando em Savannah. Há mais nessa história, mas eu não sou capaz de compreendê-la agora. Sou limitado.
Kate recebe imediatamente uma mensagem. Eu vejo como está aliviada. A mensagem diz: “Mate-o”.
Eu sorrio com toda a minha alma novamente. Kate sorri também.
Nós já temos tanto em comum.
Kate dorme com a televisão ligada, sem escovar os dentes. Tomou sorvete enquanto assistia a um episódio de sua série favorita, algo sobre investigação criminal e completamente irreal. Fumou um cigarro e adormeceu. Eu me aproximo e sento em sua cama. Observo-a. O tempo para mim não é o mesmo que o tempo para aqueles que, como Kate, estão vivos. Eu não me canso de vê-la. Fico lá até ela acordar.
Quando isso acontece, ela se senta no vaso sanitário e urina. Lava o rosto e as mãos, escova os dentes e faz café na cozinha. Assim que sente o gosto da bebida, ela acende um cigarro e fuma um pouco mais. Está calma e contente. Sua felicidade é como um cobertor de esperança sobre uma camada de tristeza. A tristeza está relacionada ao homem que a deixou. A felicidade está relacionada com o novo homem em sua vida.
Eu.