Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
Katherine
Abro os olhos, imediatamente consciente de que fui sequestrada, consciente de que não consegui identificar a maldade nos olhos de Roman, a extensão dessa maldade, do que ele é capaz. E não era óbvio? Estava tudo lá: as calças camufladas, o tesão por armas e facas, a misoginia, o baixo QI, a percepção que tinha de suas próprias deficiências, de sua posição como “perdedor” nesta sociedade. A violência que ele mostrava em palavras e fisicamente contra a minha irmã, tudo, tudo. Homem, branco, trabalhador manual, entre vinte e cinco e quarenta e cinco anos, ele estava bem na minha frente o tempo todo.
Mas por que Morris? Deus, como, como isso pôde acontecer? Sim, um menino com nenhuma boa figura paterna real, em um bairro pobre com uma mãe distante. Mas eu segurei esse bebê em meus braços. Morris gosta de mim. POR QUÊ?
Estou amarrada com abraçadeiras à cama. Não leva muito tempo para entrar em pânico, porque este é o quarto da minha irmã, eu estou na sua cama. Não posso estar nas mãos deste homem, porque tenho um bebê para proteger. Fecho meus olhos e sussurros saem dos meus lábios contra a minha vontade.
– Por favor, salve-me. – Eu não sei se eu estou falando com Deus ou Ryan.
Minhas pernas estão amarradas aos postes da cama com cordas grossas que parecem nunca ter sido utilizadas. Eu o vejo agora, na porta.
– Ela está acordada, garoto! – ele grita e depois ri. – Olá, Kate.
Eu não sei o que fazer, exceto olhar para ele através das minhas lágrimas.
Ele se aproxima e senta na cama. Isso não é um filme. Eu compreendo isso imediatamente. Ele não vai ficar dialogando sobre o porquê de eu estar aqui, sobre por que ele é quem ele é, sobre o que vai fazer comigo, para que, no último momento, o momento no qual você está se agarrando à borda do seu sofá, Ryan apareça e o mate. Não, vejo imediatamente que essa é a coisa real. Ele coloca as mãos nos meus seios como se não conseguisse se controlar.
– Bem-vinda ao lar. – Ele coloca seus lábios nos meus e tento mexer minha cabeça, mas ele me segura pelo queixo e enfia a língua na minha boca. Chorando, eu o sacudo para longe, e ele estuda meu rosto. Sua respiração é de cerveja, o seu cheiro ácido, pungente e seu rosto não foi barbeado. Grandes olhos castanhos olham para os meus. – Você é minha agora, puta. Não tem nenhuma maneira de encontrarem a gente. Você é minha.
Minha mente procura obter instruções sobre como devo agir. Não há manual sobre como lidar com assassinos em série por uma razão simples: nada vai fazê-los mudar de ideia. Ele tem essa fantasia há anos, se eu for junto estou morta, se resistir estou morta. Não há maneira de escapar. Sou um objeto projetado para uma finalidade, pela sua fantasia, e não há absolutamente nada que eu possa fazer. Vou sentir uma dor inimaginável e vou sofrer antes de morrer.
Então eu tento ganhar tempo.
– Onde está Manda?
A questão o aborrece. Ele provavelmente esperava que eu começasse a implorar.
– Por que você finge ser tão preocupada com sua irmã, Katherine, se nós dois sabemos que você despreza ela?
Eu balanço minha cabeça.
– Eu não desprezo. Amanda e eu nunca conseguimos ser amigas, mas ela é minha irmã e eu a amo e me preocupo com ela. Roman, o que você fez?
– Você vai começar a me chamar de Mestre, a partir de agora, ok?
Concordo com a cabeça.
– Sim, Mestre.
– Sua irmã vai ter o dela. Eu queria que este fosse o melhor que eu já tive, e com irmãs... Você sabe? – Ele sorri. – Nós vamos matar vocês duas juntas.
Sinto uma súbita onda de alívio que Amanda esteja viva. É um arrepiante balde de puro medo na minha cabeça saber que ele tem planos para nós.
– Por que Morris? Como pôde tê-lo arrastado para isso?
– Arrastado?! – Ele bufa. – O moleque é doente até a alma, sua puta idiota! Deixa eu falar sobre Morris... – Ele repousa o cotovelo no joelho e gesticula com a mão. – Ele é um bostinha quieto, sempre foi, e nunca nos demos bem. Você sabe disso. Bem, um ano atrás, o filho da puta começa a agir sinistro e tal. Um dia, sua irmã encontra pornô no quarto dele. Coisa boa, de qualidade. Sadomasoquismo e bondage, esse tipo de merda. Eu fico de olho nele. Um dia alugo uns vídeos e ele fica muito grato, sabe? Eu sei que ele é um doente do caralho porque ele nem fala muito. Ele só lia o dia todo e andava de skate e assistia aos vídeos. Manda costumava dizer que Morris era igualzinho você, Kate. Ela dizia: esse garoto é como a droga da minha irmã, com esses livros. Bem, sei lá. Eu sempre achei que o Morris era algum tipo de bicha e Manda e eu ficamos aliviados quando encontramos a pornografia, juro por Deus. Então um dia estou puto da vida e sua irmã estava sendo a vadia de sempre e eu decidi fazer alguma merda. Levei o moleque pra floresta e dei um pouco de cerveja pra ele. Ele ficou desconfiado no início, já que a gente nunca se deu bem. – Ele sorri para mim e move a mão do meu seio esquerdo ao direito, apertando, medindo. Lambe os lábios. – Então eu contei sobre a minha primeira, a única cadela que eu tinha matado antes daquela noite. Estava testando o garoto. Pensei, naquela noite, que se ele reagisse de uma maneira ruim eu teria uma desculpa pra matar ele. Mas, Katherine... – Ele se inclina mais perto. – Ele se abriu. Ele gostou da minha história. Ele queria mais detalhes. Contei tudo. E foi quando a gente se entendeu.
Estou horrorizada com isso, lutando contra a verdade que eu vejo nisso, lutando contra o que significa.
– Depois disso a gente era parceiro aqui em casa. Comprei bebida, cigarro e pornografia pra ele, e até mesmo o ensinei a dirigir um pouco. Toda vez que Manda começava com suas merdas a gente trocava um olhar, sabe? Ele sacou, ele me entendeu, nem piscava quando eu tinha que dar uns tapas nela de vez em quando. Então, um dia eu faço um favor pro moleque, porque eu sei que ele é jovem e curioso pra caralho.
Eu estou me perguntando se isso é um pesadelo, se eu posso acordar na suíte do hotel Holiday Inn e ver Ryan lá e falar com ele, e é incrível o quão rápido estou perdendo as esperanças. A situação está afundando dentro de mim, como o vinho em um tapete, centímetro por centímetro, ela é escura e está me dizendo que serei mais uma vítima. Está me dizendo que serei uma das fotos na delegacia. Vou estar no banco de dados, vou estar pálida e rígida em uma maca de metal enquanto evidências são coletadas da minha pele. Serei um pedaço de carne podre no subsolo em questão de dias, o meu filho dentro de mim.
Roman fala:
– Deixei a luz acesa e a porta aberta e eu comi tua irmã, do jeito que ela gostava, puxando o cabelo e tal, e eu deixei o moleque assistir a coisa toda, e quando eu perguntei pra ele no dia seguinte: Tá aprendendo alguma coisa? Ele sorri e diz: Sim, Roman, estou. – Ele ri. – Não é um filho da puta doente?
Eu não posso evitar minhas lágrimas.
– Ah, Kate, não chora. Você não é a fodona, durona, “eu moro sozinha” e “eu não preciso de nenhum homem para cuidar de mim” e “eu sou a favor do direito de escolha” e “eu escrevo” e “sou superior” e “eu ganho dinheiro”...
– Não, Mestre – eu digo, em voz baixa. – Sou fraca e sei disso. Você é mais forte do que eu e eu sei disso também. Eu só não entendo por que você vai machucar minha irmã. Ela é sua esposa e o ama.
– Puta merda, você é uma vadia burra. Manda não me ama, sua puta. Manda ama qualquer pau que vai colocar ela no lugar dela e falar o que ela deve fazer. E Manda não ama você tanto assim, não, Katherine. Ela mete o pau em você todo dia. Então, para com isso.
Eu engulo. Essas palavras doeram.
– Morris, vamos!
Morris está entrando no quarto neste momento. Cara, ele parece pequeno. Sua longa franja está no seu rosto e ele parece um menino, a camiseta grande demais para ele, os jeans muito folgados. Mas em seus olhos eu vejo a falta de compaixão. E ela sempre esteve lá e eu nunca entendi o que era. Eu rotulei tudo errado: confusão, falta de amor em sua casa e timidez. Mas era o fator assassino em série, chame-o do que quiser, seja neocórtex pré-frontal danificado, seja Holden Caulfield, seja fator S.K., o diabo interno, seja monstro. Há algo neles que é como um abismo, e está em seus olhos, nos olhos do meu sobrinho quando ele olha para mim.
– Vamos comer, então, tocar esse show, ok? – Roman diz para Morris.
Morris olha para mim, para as minhas lágrimas.
– A comida está pronta. – Então ele olha para o relógio.
– Ei. – Roman tem olhos de besouro enquanto me estuda. – Eu vou começar com a Katherine aqui, vai pra cozinha e me espera, já estou indo.
Mas Morris não se move.
– Posso assistir?
As palavras me agarram e me abalam e eu fecho meus olhos e por um segundo, não tenho medo de admitir que rezo para o mundo acabar, para morrer rápido, para o tempo parar ou para acordar, porque algumas realidades são simplesmente demais para vivenciar.
Roman sorri.
– Sim, você pode assistir, moleque.
Assim que Roman diz: Sim, você pode assistir, moleque, ele desata a corda que prende meu pé direito ao pé da cama. Abre minha calça e começa a puxá-la para baixo enquanto viro meu rosto para longe de Morris, que fica em um canto e vê isso, quase sem se mexer. Roman puxa o jeans pelo meu pé direito e mesmo que eu tente chutá-lo para longe de mim, em um estado de choro e soluços de terror, ele é muito mais forte. Ele me agarra pelo tornozelo e segura a minha perna para baixo, enquanto se atrapalha com os próprios jeans com a mão esquerda. Eu começo a divagar porque estou desesperada:
– Por favor, não, por favor, não, Roman, por favor, por favor, não faça isso. – Mas é como se as palavras fossem numa língua estrangeira e ele me ignora.
Ele puxa a calça jeans para baixo para revelar um pênis ereto de tamanho médio e cheio de veias, a ponta já molhada, menos de um segundo antes de empurrá-lo dentro de mim. Arde, e lágrimas deslizam no meu rosto. A dor me faz morder o lábio e soltar uma espécie de gemido triste. Desejo poder cobrir o rosto com as mãos.
Roman solta grunhidos de satisfação e começa a bombear, bem fundo. Em um movimento rápido, ele rasga minha camisa e move meu sutiã para fora do caminho, a boca quente sobre meu peito. Olho para Morris porque preciso de sua ajuda. Seus olhos encontram os meus, mas não há nenhum sentimento neles, apenas curiosidade. Meu choro fica mais alto, impossível de controlar, e estou em lágrimas e gemendo por favor, não, não, por favor, não, não, não, mas eu sei que as palavras não vão adiantar. Roman me cobre, seu peso esmagando minhas costelas, sua respiração no meu pescoço, na minha orelha, sinto suas coxas nas minha, e a invasão, que não é apenas de uma pequena parte do meu corpo, mas de todo ele, de forma que não consigo descrever.
Um grito atravessa neste momento, esse momento que eu desejo que não fosse real, um grito que diz:
– KATE!
Ah, isso me faz desmanchar. É a minha irmã.
Roman para de bombear apenas o suficiente para olhar para Morris:
– Volta lá e cala a boca daquela puta como você deveria ter feito! – ele grita.
Ele é tão pesado que é difícil respirar, seu membro grosso, me abrindo, deixando-me saber que é dono de mim, me infectando com seu ódio. Morris sai e eu ouço minha irmã gritar:
– KATE!
Mais uma vez antes de seu filho cobrir sua boca. Coloco minha cabeça para trás, vejo minhas mãos amarradas aos postes da cama, grito, porque preciso:
– AMANDAAAA! – E meu peito treme, porque ele está empurrando dentro de mim novamente, desta vez gemendo alto. Ele finalmente para.
O único som na casa agora é do meu pranto impotente contra o tecido da minha camisa, no meu braço.
Quando Roman se puxa para fora, sinto seus fluidos derramarem de mim. Eu não me atrevo a abrir os olhos e vê-lo. Não posso olhar para ele.
Ele está recuperando o fôlego, levantando-se, fazendo as molas da cama chiarem.
Ele sai do quarto.
Quero que ele me mate.