Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
Woods está esgotada quando almoçamos juntos.
O restaurante está lotado e sujo, a comida é gordurosa e estou no meu segundo refrigerante para empurrá-la goela abaixo.
Voltamos aos básicos e focamos no assassino.
– Abundância de tempo livre... Talvez seja autônomo.
– Ou desempregado – acrescento.
– Sim, isso também. Com um veículo próprio. As marcas de pneus não nos deram muito.
– Caucasiano, forte, com mãos grandes.
– Achamos que mede cerca de um metro e oitenta pela pegada na cena do crime.
Concordo com a cabeça. Não é suficiente.
– Temos de começar a pressionar pessoas próximas à Kate. Pessoas na Sahara, seus amigos, seu ex-namorado, todos.
– Talvez isso não seja sobre ela.
– Talvez seja.
– Nossa última vítima não tem nada a ver com ela. Ainda assim, você acha que é o mesmo cara.
– Eu sei que é o mesmo cara. Às vezes você tem que esquecer o que os livros ensinaram.
Woods limpa as mãos com um guardanapo de papel.
– O que aprendi nos livros é a única base que tenho a seguir, Ryan.
– Então, se eu contar que uma vítima de estupro e assassinato foi encontrada com objetos estranhos introduzidos em sua cavidade vaginal, você me diria...?
– Um assassino inexperiente, mais jovem.
– Sim, mas então eu digo que Ted Bundy, que definitivamente não era um jovem e inexperiente assassino penetrou uma de suas últimas vítimas com uma lata de spray de cabelo.
Ela abre os lábios.
– Isso é verdade?
Eu apenas aceno.
Woods suspira.
– Ele não estava curioso, estava apenas sendo um babaca. Mas, calma, no quadro deve haver uma explicação para ter agido assim. Não era sexualmente incompetente, então por que...
Eu dou um sorriso de admiração.
– Sim, verdade. Ele estuprou outras vítimas no mesmo local, então é possível que com essa não tenha conseguido ir até o final por cansaço físico e a atacou dessa maneira.
– Saquei. Nenhuma indicação por si só é definitiva. Só conseguimos algo sólido com uma análise completa do crime e das ações do assassino.
– Exatamente. Vamos encarar a verdade: nós não sabemos tanto quanto o mundo pensa que sabemos. Trabalho policial é o que temos que fazer para pegar esse filho da puta.
– Você é um profiler. Como pode dizer isso?
Estou cansado demais para mentir.
– Se eu sou o profiler que todo mundo acha que sou, eu deveria ter percebido que minha amante estava prestes a cometer suicídio. Que minha esposa levaria meu filho para longe de mim. Que talvez um serial killer fosse destruir uma vida no apartamento ao lado de onde eu estava dormindo profundamente.
– Então você está me dizendo que deveria ter sido inteligente o suficiente para prever que um assassino que você nem sabia que existia atacaria, quem, onde e que horas.
Eu sacudo minha cabeça.
– Estou envolvido demais, Woods. Minhas emoções estão nublando meu julgamento.
– Certo. Você deu um jeito de se apaixonar pela escritora.
– Quando você diz deu um jeito soa como se eu tivesse escolha.
Ela sorri, cansada, para mim.
– Para onde vamos daqui?
– Eu acho que alguém deveria investigar Kate – digo, as palavras ardendo na minha língua. – Não pode ser eu.
Woods me dá um aceno de cabeça.
– Eu posso fazer isso. E ser imparcial.
Minha mente me diz que eu não deveria, mas vou fazê-lo de qualquer maneira.
Meu carro está estacionado em frente ao escritório de contabilidade onde Dale Chase trabalha. Estou passando por relatórios preliminares da autópsia nas duas últimas vítimas. Não há nada que me diga que foi o mesmo assassino, exceto meu instinto. Meu telefone toca e é Kate, da minha casa.
– Ei – eu digo, surpreso por estar quase em lágrimas ao ouvir a voz dela.
– Eu sinto sua falta.
– Conheço a sensação.
– Tenho trabalhado sem parar, Ryan. Eu acho que o livro está praticamente pronto.
Penso sobre isso.
– É assustador. – Sua voz sai entre risos nervosos. – É como se ele estivesse ao meu lado, ajudando e dizendo o que escrever.
– Tenho certeza que muitos escritores se sentem assim, num frenesi. Como está?
– Bem. Solitária.
Vejo Dale sair do edifício.
– Volto à noite, Kate.
– Está bem.
– Tenho que ir. – Quero acrescentar eu amo você. Decido falar. – Amo você.
Posso ouvir seu sorriso, de alguma forma.
– Que bom – Ela desliga o telefone.
Dirijo, de olho em Dale enquanto ele caminha um quarteirão e em seguida entra em uma lanchonete chamada Almoço Serenata. Encontro um lugar para estacionar, enfio os relatórios sob meu braço e entro no restaurante.
É um lugar acolhedor e está lotado. Vejo Dale sentado em um canto, perto de uma janela, onde dois homens chineses estavam sentados alguns segundos atrás, e agora estão saindo pela porta. Dale está conversando com um garoto magro que anota os pedidos. É um negócio de família e acho que o garoto, com cerca de vinte anos, não tem muita escolha.
Ele anota o pedido de Dale, estilo tradicional: lápis e bloco de papel.
Caminho até ele, tentando dizer a mim mesmo para me acalmar.
Dale olha para cima.
Ele é loiro escuro como eu, mas não poderia ser mais diferente, fisicamente. Dale parece mais jovem do que é, tem olhos azuis, dentes brancos e perfeitos e está bem barbeado e limpinho. Há um olhar de jogador de futebol americano e posso facilmente vê-lo na capa da revista Men’s Health, levantando uma camiseta branca para revelar um abdômen tanquinho sem pelos. Quando ele sorri, o filho da puta tem covinhas.
Eu apenas sento em frente a ele. Revelo meu falso distintivo do FBI, já que o verdadeiro conseguiu um carimbo enorme de APOSENTADO. Não, eu não sou o único agente aposentado que tem um distintivo falso. E sim, parece muito real.
– Ryan Owen, FBI – é tudo o que eu digo, observando sua reação.
Comum: um pouco de apreensão, curiosidade. Mas não com medo.
– Sim? – É tudo o que ele diz.
– Você é Dale Chase?
Ele balança a cabeça.
– Sim, como posso ajudá-lo? – Ele realmente não sabe por que estou ali.
Estou desapontado. Sei que quero que seja ele.
– Onde você estava na noite de 13 de setembro entre onze da noite e oito da manhã do dia seguinte?
Ele abaixa o rosto um pouco e pensa sobre isso.
Eu o imagino com Kate. Meu coração faz um salto mortal e eu engulo para manter a calma.
Dale está olhando para mim agora.
– Bem, nesse dia eu visitei a minha namorada em seu apartamento. Ela vai confirmar isso. Depois...
– Quanto tempo ficou lá? – Estou com raiva de mim mesmo por isso.
Dale sorri.
– Cerca de meia hora no máximo.
Até agora estou indo bem em esconder meus sentimentos. O trabalho fez isso comigo. Então, apenas fito seus olhinhos azuis de bebê e finjo que sua observação não me fodeu completamente por dentro.
– Você é rápido. – É tudo o que eu digo.
Ele ri um pouco. Mas há algo mais lá.
– Bem... depois que saí...
– Que horas saiu?
– Deve ter sido quatro e meia ou algo assim. Uma maneira que eu poderia verificar é que Kate, minha namorada, estava assistindo Seven, no canal cinco. Eu me lembro disso. – E ele mostra um pouco mais de apreensão por um momento fugaz. – De qualquer forma, fui embora por volta das quatro e meia e depois fui para a praia para um jogo de vôlei com alguns amigos. Tinha um monte de gente lá, e eles podem confirmar isso também. Fui para casa por volta das oito e fiquei lá com a minha... outra amiga até as onze no dia seguinte.
– Então, você tem bons álibis.
– Sim, mas para quê? Estou sendo acusado de alguma coisa?
O jovem garçom interrompe, colocando um copo de suco de laranja e um hambúrguer em cima da mesa. Ele se vira para mim, mas eu o dispenso com um gesto. Ele sai rápido e Dale começa a comer.
– Houve um assassinato no edifício de apartamentos de Katherine Dwyer no dia 13 de setembro.
Ele não demonstra surpresa.
– Eu li. Sua vizinha Brenda.
– Jennifer.
– Sim. Isso é horrível. – Ele parece estar sendo sincero.
– Você a conhecia?
– Jen? Brenda? Kate? Você não está sendo direto.
Eu me inclino para a frente.
– Nós dois sabemos que eu sei que você é ex-namorado de Kate.
– Bom, então você está me perguntando se eu conhecia a vítima, Jennifer? Sim, eu tinha visto ela por lá algumas vezes. Ela era uma menina tímida, reservada. Gostava de gatos.
Eu o observo atentamente, começando a compreender as dimensões de sua arrogância.
– Conte-me sobre você e Katherine. Você me disse há poucos minutos que é o namorado dela, mas quando eu perguntei, ela disse que vocês terminaram meses atrás.
Ele dá uma mordida grande no seu hambúrguer de soja. Engole.
– Kate é... um pouco confusa. Eu ainda tenho esperanças que vamos superar nossos problemas.
– Conte-me sobre sua outra amiga, aquela com quem estava na noite do crime.
– Cara, isso está ficando bem pessoal. – Ele se mexe em seu assento.
– Assassinato e estupro geralmente são, Dale.
Ele suspira e bebe um pouco de suco. Olha para o relógio.
– Olha, cara, eu estou resolvendo as coisas com a minha garota. Enquanto isso, estou explorando algumas possibilidades. O que você quer de mim? Eu disse onde estava, você pode verificar e aí me riscar da sua lista de suspeitos. Tudo bem?
– Alguma vez você já estuprou alguém, Dale?
Ele quase engasga agora.
– O quê? Não.
Eu o estudo. Ele realmente acredita que não.
– Não? – pergunto novamente. – Nunca foi um pouco longe demais porque alguma vadia disse não quando queria dizer sim?
Ele está me olhando como se eu fosse uma ameaça agora.
– Não, Sr. Federal, como você pode ver eu não preciso desse tipo de coisa. – Ele está puto agora.
– Você quer dizer que as mulheres se atiram em você, gracinha?
– Isso mesmo.
Eu sei que acabei. Mas pressiono:
– Onde você estava há duas noites?
– Em casa, com Alice. Telefone pra ela e verifique. Verifique as câmeras de segurança no meu prédio, eu não dou a mínima, não fiz nada.
Eu sei que ele não fez.
Eu me levanto e antes que possa me controlar, visto meu policial malvado e olho em seus olhos.
– Fique longe de Katherine Dwyer. – E saio.