Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 68 de 80

Páginas do PDF

Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

A Paciente no Quarto 1407

 

Consciência, mais uma vez, mas desta vez é diferente. É como acordar não de um sono profundo, mas de toda uma vida atrás. Eu pisco, eu consigo piscar. Viro minha cabeça. Percebo que sou capaz de me mover e isso me dá uma leve euforia. Quando olho ao redor do quarto, vejo um vaso de flores que estão começando a parecer murchas e cansadas. Não vejo ninguém lá. Há uma poltrona cinza vazia ali, olhando para mim.

Movo minha mandíbula, minha boca está seca e o movimento dói um pouco. Tentando manter a calma, eu respiro, examinando a sensação de respirar, ciente dela. Então movo meus braços. Surpreendentemente eles se movem. É bom sentir minhas mãos, tocar meu rosto.

A porta se abre e as pessoas estão falando alto enquanto andam. Eles param em frente à minha cama com garrafas de água na mão, eu não as reconheço. Estão falando ainda, olhando um para o outro.

Uma mulher na casa dos quarenta anos, de aparência oficial, está lendo seu visor do telefone celular. Sei que ela acabou de escovar os dentes depois do almoço, porque há um pequeno resíduo de pasta de dente branca em sua mão. Vejo a ausência de uma aliança de casamento, vejo um FBI BAU4 em seu peito. A forma como as unhas são feitas profissionalmente sugere que ela ganha um salário bom e não tem crianças pequenas em casa.

O homem que fala com ela é um agente mais jovem, por suas roupas e identificação; um fumante, pelas manchas amareladas nos dentes e dedos; e recém-casado, pela maneira como sua aliança reluz à iluminação. Seu relógio é pesado e caro, um presente da família rica de sua nova esposa, ou talvez sua própria. Ele não se importa com o dinheiro, ele é um idealista, do tipo que puxa ferro e gosta de dar porrada.

O terceiro é mais velho, talvez alguém na mesma posição que Anderson Moore pela facilidade de seus movimentos e suas bochechas flácidas e o olhar calejado. E eu estou certa, porque é ele quem finalmente olha para mim.

– Ela está acordada – ele sussurra e, de imediato, faz com que os outros se calem. Dá alguns passos para a frente até estar ao meu lado. – Senhorita Dwyer – ele fala, com cuidado. – Você sabe onde você está?

Posso falar? Separo meus lábios e tento. Fora o fato de que minha garganta arranha e minha voz sai rachada e rouca, eu me saio bem:

– Em um hospital.

Ele parece aliviado. Posso ver os outros dois se reunindo em torno de mim, mal respirando. Eles estavam aqui como uma formalidade, ou para obter informações específicas a caminho de algum outro lugar. Eles definitivamente não esperavam me ver acordar.

– Correto. Você se lembra do que aconteceu com você?

– Sim. Onde está Ryan?

Eles trocam olhares. O jovem está morrendo de vontade de impressionar e fala:

– Esse é na verdade um dos nossos problemas atuais, senhorita, e precisamos de você para...

O mais velho o silencia com um gesto de impaciência.

– Katherine, posso chamá-la de Katherine?

– Sim.

– Katherine, você precisa de alguma coisa? – Ele está puto quando olha para os outros dois. – Você pode mover sua bunda e chamar um médico aqui?

É a mulher que vai.

Ele se vira para mim novamente.

– Vou responder a qualquer pergunta que vocês tenham para mim – digo, lentamente. – Mas me diga primeiro: o bebê conseguiu?

Ele tem o prazer de responder:

– Sim, da última vez que verifiquei eles disseram que o bebê estava bem, crescendo.

Sinto-me agradecida e abençoada por ouvir isso. Minha preocupação com Ryan cresce na mesma proporção que o meu alívio.

– Ryan sumiu?

Ele balança a cabeça.

– Ryan ficou com você por quase um mês. Há quatro dias ele se foi. Ninguém tem ideia de onde ele está. Eu estava esperando que você pudesse me ajudar.

– Então você deve se apresentar.

– Eu sou Jack Shapiro, do FBI. O homem que você vê aqui é um agente da BAU Rick Westbrook e a outra agente é Carla Baker.

Carla Baker entra com um médico e uma enfermeira atrás dela.

Ele dá um passo entre Shapiro e eu como se dizendo você pode ser FBI, mas aqui eu sou Deus. Ele sorri para mim e eu vejo o queixo com covinha. Eu o reconheço, mas não consigo lembrar de tê-lo visto.

– Katherine, estou contente de ver que você está bem e funcionando, como está se sentindo esta tarde?

– Tudo bem.

– Algum desconforto?

– Não.

– Nós vamos fazer alguns testes de reflexo, está bem?

– Tudo bem, faça o que tem que fazer.

Ele olha em volta ao mesmo tempo em que a enfermeira puxa as cobertas de mim.

– Vocês podem nos dar espaço para fazer o nosso trabalho?

Shapiro hesita, mas eles saem.

O médico toca minhas pernas:

– Sente isso?

– Sim.

Ele faz a mesma coisa com a outra. Eu confirmo. Em seguida, ele pisca uma lanterninha nos meus olhos.

– Huh-hmm... bom, bom. – E verifica as máquinas que estão monitorando meu coração e minha respiração.

– Você parece bem, mas nós vamos pedir mais exames, certo? Pode me dizer sobre você?

– Meu nome é Katherine Dwyer e eu sou escritora, nascida em 7 de setembro de 1985, filha de Joe e Roberta Dwyer em Blessfield, Flórida. Há quanto tempo estou aqui?

Ele pega uma prancheta e checa.

– Vinte e sete dias.

– Preciso falar com os agentes lá fora, doutor.

 

Eles explicam que Ryan partiu, sem comunicação com o FBI, e que suspeitam que alguém de dentro lhe passou informações.

– Portanto, Kate, qualquer coisa, qualquer coisa que você puder nos dar sobre para onde ele poderia ter ido... – o jovem diz, a mão no bolso.

– Por que estão indo atrás de Ryan se Roman Boyd ainda é um fugitivo?

– Estamos fazendo o que podemos com Boyd, Katherine. – É o que a mulher, Carla, tenta me assegurar.

– Ou... vocês não têm nada para pegar Boyd e acham que se encontrarem Ryan, ele vai levá-los a ele, porque... – Eu sorrio. – Porque ele é bom pra cacete nisso.

Eles estão silenciosos. Sentem pena de mim, pelo que passei e eu odeio esse sentimento. Estou começando a entender que vou receber uma boa dose dele por muito tempo.

Carla se aproxima.

– Katherine, Ryan está se colocando em perigo. Se você se preocupa com ele, você deve nos ajudar.

Eu não gosto dela. Não, eu não saí do coma em algum estado de espírito zen. Eu simplesmente não gosto da maneira como ela está olhando para mim.

– Se eu tenho sido um vegetal há quase um mês, como poderia saber onde Ryan se meteu?

– Talvez algo que ele disse da última vez em que se viram? – O cara está mascando chiclete.

– Sinto muito.

Shapiro lhes lança um olhar que eles entendem imediatamente e saem.

Ele olha para mim.

– Ele está agindo fora da lei, Kate. Ele vai se machucar. Ele poderia matar alguém ou ser morto. Por favor, faça algumas reflexões hoje à noite, e me chame se tiver alguma coisa, qualquer forma de comunicação com ele, qualquer coisa.

– Traga Moore aqui.

Ele franze a testa.

– Esta é a minha investigação.

– É. Mas eu realmente quero falar com Moore.

Moore vem no dia seguinte. Eu não sei por que, mas me sinto mais segura com esse cara. Ele conhece Ryan, e Ryan gosta dele, estou feliz que esteja no quarto comigo.

– Senhorita Dwyer, é um alívio vê-la tão bem, não é nada menos que um milagre.

Eu sorrio.

– Sim, eles me fizeram passar por uma tomografia digitalizada ontem e não tenho nenhuma lesão cerebral ou qualquer coisa. E o bebê parece estar bem.

– Isso é... – Ele balança a cabeça repetidamente. – Esta é uma boa notícia.

– Moore, eu preciso que me ajude a compreender o status quo, sem mentiras.

Ele lambe o lábio.

– Morris não vai... cumprir pena de verdade, sabe?

Concordo com a cabeça.

– Eu sei.

– Ele vai ser arrastado para alguma instituição e vai ficar lá por alguns anos, Kate, mas ele vai, mais cedo ou mais tarde, ser libertado.

– Não minta para mim. Como Ryan reagiu a isso? Ao que aconteceu comigo?

Ele respira, fazendo barulho. Agarra o protetor do lado da minha cama com grossos e brancos dedos compridos.

– Ele te viu saltar da van. Pegou você e a segurou até os paramédicos chegarem. Mas ele teve seus momentos, Kate.

– Você sabe... me colocar no noticiário, dizer ao mundo que estou acordada... não vai funcionar, isso não vai trazê-lo de volta. Ele não vai voltar para casa sem o sangue de Roman nas mãos e você sabe disso.

Moore fecha os olhos.

– Sim, sei disso.

– Então não há nada que possamos fazer além de esperar.