Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
X X X
Compartilhamos silêncio naquela noite.
Kate fuma enquanto pensa em mim. Ela está se colocando no meu lugar. Como eu, ela entende que fiquei do jeito que fiquei por causa da maneira como fui criado. Ela levanta a perna da calça um pouco e olha o X com tristeza. Passa os dedos sobre sua seca e fina crosta de sangue.
Gostaria de saber se ela pode escrever sobre mim de uma forma que mostra como nada disso foi minha culpa. Que ninguém se importava o suficiente para me ajudar quando eu ainda podia ser salvo. A sociedade desempenhou o papel principal. Eu apenas tentei mostrar isso a eles.
Kate pensa em tantas coisas. O tempo urge e ela tem que começar a escrever. De repente, ela senta e, equilibrando um cigarro entre os lábios, puxa um pedaço de papel do bolso traseiro. Olha para seu relógio de pulso e disca alguns números. Acende o cigarro e espera.
– Oi, meu nome é Katherine Dwyer, falo com Ryan Owen?
Ela está ligando para Owen. Que interessante.
– Sou uma escritora e estou escrevendo sobre Nathan Bardel – diz ela em voz baixa. Há uma pausa. Continua: – Só preciso de algumas horas. Poderia ser almoço, eu pago.
Estou inseguro sobre meus sentimentos. Lembro-me de Owen também. Ele me superou, eu sei disso. Não tenho nenhum ressentimento, eu o admiro. Ao mesmo tempo, não gosto da ideia dele falando com Kate.
Eu meio que sinto falta do cara. Já disse isso, né?
– Obrigada, agente Owen. Sim, eu entendo.
Ela desliga o telefone, sorrindo. Kate tem uma maneira de conseguir o que quer. Exceto quando se trata de Dale.
Eu leio suas primeiras palavras.
Uma vida dedicada à materialização de perversas, sádicas fantasias, Nathan Bardel não era nem um homem, nem um monstro. Meu objetivo neste livro é retratá-lo com a maior precisão possível, para que o leitor tenha as ferramentas necessárias para pelo menos começar a entender como a criança doce, cuja irmã chamava de B.B., pôde crescer e se tornar o homem que cuidadosamente planejou e realizou alguns dos crimes mais horríveis da história da nossa nação.
Olha, não há maneira alguma dela ter descoberto como minha irmã me chamava. Ela não falou com Natalie, não falou com nenhum outro membro da família que poderia saber disso. Não está em qualquer relatório, livro ou artigo que leu até agora. Kate pode me ouvir? Pelo menos um pouco? A ideia é intrigante.
É isso o que acontece quando as pessoas dizem que ouvem vozes em sua cabeça, obrigando-as a matar? Posso transformar Kate em uma ferramenta do mal? Para matar em meu nome? Essas ideias me fascinam. Não tenho a intenção, num primeiro momento, de fazer uma coisa dessas. Mas a ideia de que seria possível...
Kate está escrevendo rápido hoje. Ela começou seu primeiro capítulo falando sobre o conhecimento e suposições sobre serial killers em geral. Vejo que Kate não quer fazer isso. Ela acha que um capítulo não é suficiente para descrever a complexidade do assunto, mas ao mesmo tempo não quer simplesmente começar o livro sobre mim sem mencionar os criminosos semelhantes e o esboço geral da história do crime serial. Ela tem um monte de citações de serial killers e profilers. Quando está finalmente satisfeita com o primeiro capítulo, prometendo voltar mais tarde para analisar e rever, está pronta para começar a escrever sobre a minha vida.
É nesse momento que tento. Eu fico bem próximo a ela, desejando poder sentir o cheiro dela, e falo ao seu ouvido: “A casa tinha sido pintada de azul-claro e era uma cor que eu sempre odiei. A pintura estava descascando e o pátio era sujo e cheio de ervas daninhas.”
Eu espero.
Kate escreve o seguinte:
Bardel cresceu em uma pequena casa no lado pobre da cidade. Ninguém se preocupava em cuidar dela. Era pintada de azul-claro e isso é uma cor fácil de odiar em uma casa. A pintura estava lascada e o quintal não era cuidado: era um lugar fértil para ervas daninhas e um lugar de descanso para brinquedos velhos.
Eu sorrio com tudo o que sou. Ela pode me ouvir. Em algum nível, ela pode me ouvir. Minha biografia vai acabar sendo coescrita por mim. Um literal escritor-fantasma.
Minha mente corre. Eu me pergunto se depende de mim, do quanto quero me comunicar com ela. Então me pergunto se talvez Kate tem alguma habilidade inata para me ouvir. Ou talvez seja nosso nível de conexão.
Eu não gosto de pensar sobre a minha infância, mas não tenho escolha agora. Kate está começando o livro dessa forma, e sou obrigado a enfrentar alguns demônios tão cedo neste jogo.
Ela mantém a escrita:
Nesse lar, se pode ser chamado de lar, a mãe, Dolores Greene Bartham, uma mulher frágil de pouca estatura, passava seus dias sonhando acordada na cozinha. Ela era uma coisa passiva que deixava as crianças correrem livres e comerem tudo o que queriam, enquanto se sentava ao lado da janela, fumando, talvez sonhando em estar em outro lugar.
“Não. Ela sonhava em ser outra pessoa”, eu digo.
Kate complementa, os dedos tão ágeis no teclado:
Ou talvez ser outra pessoa.
Isso não é fácil para mim. Mas me forço a continuar.
Ela escreve:
O pai biológico de Nathan um dia decide que aquela rotina de caos silencioso não era a sua ideia de um felizes para sempre, arruma suas coisas e vai embora. Nathan tinha dez anos. Ele não tem agora oficialmente nenhuma figura de pai ou mãe. Ele projeta uma mãe em sua irmã Natalie, que cuida dele o melhor que pode, mas só quando é conveniente.
A memória está me puxando para baixo. Eu luto contra isso, e sei do que se trata. É como saber exatamente o que está em uma caixa antes mesmo de abri-la. Eu sou mais forte e permaneço onde estou, usando as fotos na parede para me fundamentar a este tempo e lugar. Mas tive um vislumbre da memória. É da minha irmã estar na garagem, numa tarde de verão. Ela se encontra em um canto com um menino de cabelos negros e eles estão se beijando quando eu passo. Vejo que ele tem as mãos dentro dos seus shorts, e elas se mexem como gatinhos brincando embaixo de um lençol. Ela grita para eu sair e deixá-la em paz.
Passei a tarde inteira sozinho no quintal, com raiva porque, assim como a minha mãe, ela não se importava o suficiente para passar um tempo comigo. Como vingança, peguei seu bicho de pelúcia favorito, um jacaré, e o rasguei em pedaços.
Antes de me dar conta, Kate está escrevendo sobre isso, sabendo, no fundo de sua mente, que provavelmente terá que excluí-lo mais tarde, porque não tem prova alguma para ir adiante. Ela descreve o incidente do jacaré. Eu me sinto acelerado.
Então para e acende um cigarro. Morde a unha do polegar. Eu ouço seus pensamentos:
O que estou fazendo? Eu não posso escrever por instinto, isso é uma biografia.
Diz isso em voz alta:
– Mas eu me sinto tão ligada a este filho da puta.
E ri disso.
Kate se levanta e decide parar de escrever por agora. Liga a televisão e encontra um filme que já viu antes. É tarde da noite e ela não está com sono. Ela pensa em mim. Eu fico com Kate até que finalmente feche os olhos.