Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
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Kate está bebendo uma cerveja. Ela ainda parece não perceber que está grávida. O que foi que eu disse sobre as mulheres e como elas irão, eventualmente, foder tudo como mães? A evidência está bem na minha frente. Ela está sentada no sofá, bebendo cerveja às três da tarde, olhando para o Museu Bardel. Ryan está em silêncio enquanto se senta ao lado dela, com os olhos em tudo, sua mente trabalhando enlouquecidamente. Eu vejo o quão perto ele está.
– A minha primeira pergunta – ele finalmente verbaliza. – Aquela que escapou. Quando?
Kate está imersa em seus pensamentos e a cerveja tem um gosto amargo em sua língua.
– Próxima do fim.
– Sim, Bardel já era experiente e estragou tudo, então foi perto da época em que ele estava perdendo o controle, no final, como eu previ naqueles tempos. Sua última vítima... – Eu entendo que ele faz uma pausa de propósito, para testá-la.
Kate não pisca quando complementa em tom melancólico:
– Diane Meyer, 28 de junho de 2012, dezoito anos. Esfaqueada setenta e três vezes.
– Exatamente. Ele estava surtando. Pegamos ele uma semana depois. A que fugiu deve ter sido logo antes disso. Ele não conseguiu o que queria dela. Deve ter sido bem perto.
– Se você olhar para o que a polícia tem em um intervalo de tempo de, digamos... duas semanas antes de Diane, em termos de sequestros e tentativa de estupro, talvez consiga alguma coisa.
– A menos que o fato tenha sido escondido.
– Então... O que você está pensando, Ryan?
Ele suspira.
– Estou pensando que uma pessoa poderosa foi atacada. Estou pensando que ela deveria estar fazendo algo de errado, dadas as circunstâncias, e é por isso que o caso nunca chamou a atenção de ninguém. Você estava cavando, eles enterraram você. Eu estava cavando, eles me foderam. E Mathias Rogers é uma parte disso.
– Você sabe... – Ela se move em seu assento. – Ele está fazendo um discurso esta noite. É parte de sua campanha de reeleição. Há algum tipo de evento para... – Ela realmente esqueceu. Ela fecha os olhos e o recupera: – Viúvas de veteranos, eu acho...
Os instintos de Ryan estão certos sobre o que realmente aconteceu. Ele só não diz isso porque não tem nenhuma prova ainda. Estou estranhamente cauteloso agora, porque vejo que ele está prestes a descobrir algo sobre mim, algo que nem eu mesmo sei.
Eu não sei quem era a mulher.
E Ryan está certo, filho da puta, como sempre, porque eu estava de fato surtando. Eu posso ver isso claramente agora, e isso não me incomoda, sinto como se estivesse aprendendo algo, algo fundamental sobre a minha própria existência.
Lembro que foi como o desejo por saciedade. Eu precisava matar. Não havia mais lógica para as fantasias, não havia mais prazer na caça. Eu precisava ferir uma mulher, machucá-la até que ela ficasse irreconhecível. Tenho certeza, agora, que quando isso aconteceu foi desencadeado por algo que eu vi no noticiário. Estranhamente, eu não tenho nenhuma ideia do que poderia ter sido. Meu ódio por elas estava no seu auge, e tudo que eu fiz foi pegar uma faca, a minha faca de caça, e saí. Agora que penso nisso, talvez eu quisesse ter sido pego, como Ryan sugeriu.
Lembro-me da conversa:
OWEN: Não houve planejamento em Diane. Você a avistou naquela manhã voltando para casa depois de uma noite na casa de uma amiga.
EU: Sim, agente, isso é verdade. Não houve planejamento. Eu tinha que machucar uma puta.
OWEN: Acho que você queria ser pego.
EU: Por que iria querer isso?
OWEN: Para ver o seu nome no noticiário, para obter o reconhecimento pelo seu trabalho. Então, Natalie poderia vê-lo e pensar: eu sou culpada por isso?
EU: Você sempre a traz para isso. Você tem tesão pela minha irmã, não é mesmo, agente Owen?
OWEN: (longo sorriso). Diga-me uma coisa: Como você se sentiu depois? Quer dizer, foi mais rápido, muito mais rápido do que as outras.
EU: Sim, eu deveria ter tido mais momentos com Diane, mas não houve tempo. Eu ataquei em plena luz do dia no meu desespero e alguém poderia aparecer, alguém fazendo cooper ou algo assim.
OWEN: Se eu não tivesse pegado você, em quanto tempo teria atacado de novo?
EU: Se você, Owen? E você me chama de narcisista... Você me pegou sozinho?
OWEN: Peço desculpas. Tudo o que fiz foi o perfil. A força policial, o laboratório de crime... fizeram o resto.
EU: Assim é melhor.
OWEN: Por favor, responda à pergunta.
EU: Eu teria atacado naquela noite. E na próxima e na próxima.
OWEN: Até que fosse pego.
EU: Até que fosse pego.
OWEN: Eu trouxe o seu pedido. Foi difícil de fazer. Mas cumpro minhas promessas.
EU: Oh, sim, esse era o acordo. Eu falo e você o dá para mim. Estou morrendo de vontade de ouvir Mussorgsky, agente.
OWEN: Aqui está.
Ele me entregou o CD com as músicas clássicas que eu atribuí às minhas vítimas.
Ryan está sentado no sofá com uma carranca no rosto.
E agora percebo que eu não estava recordando aquele momento compartilhado do nosso passado. Ele estava.
Ryan se levanta e coça a cabeça por um momento, olhando o quarto ao seu redor. Está eufórico. Kate observa em alarme e expectativa.
Ele estala os dedos.
– O CD, o... – Ele estala os dedos novamente. – Porra, o CD com as músicas clássicas.
Ela está em pé, indo diretamente para sua sacola de academia. Ela gravou isso, porque é uma doida, tanto quanto nós dois. Entrega a ele, em um envelope azul.
Ryan puxa-o para fora e o enfia no leitor de DVD do hotel. Ele se atrapalha com o controle remoto como se estivesse usando um pela primeira vez e liga a TV. Empurra alguns botões e espera.
Eu ouço a formalidade do Minuet, de Boccherini, dominar o Museu de Horrores do Bardel. Kate dá de ombros, observando Ryan.
– Wilkins – ele diz.
– Sim, eu gravei na ordem.
– Tá... – Ele avança rapidamente pela música, e isso me faz querer estrangulá-lo. O próximo é Debussy, Clair de Lune. Ele estala os dedos, bastante agressivo, na minha opinião, para Kate.
– Maria Cabelli.
Ele salta para Liszt, Liebestraum número 2. Kate diz:
– Johnson.
E eu observo enquanto eles fazem isso, como se fosse um jogo. Só que Ryan não está sorrindo. Ele está apavorado.
Eles passam por minhas músicas favoritas de todos os tempos e cada uma delas tem um significado para mim, cada uma evoca imagens daquela cuja vida eu tomei. As músicas costumavam me encher de orgulho, me davam ereções. Agora o sentimento mudou, estou me sentindo puxar de novo, mas me concentro pra cacete em ficar onde estou porque o agente Owen está fazendo suas coisas.
Ryan para na faixa onze.
– Esta é Coates – ele diz, para si mesmo, em voz alta, olhando para o carpete infestado de bactérias da suíte.
– É... – diz Kate. – Mozart, Número 40.
– OK, então temos o último... – Ele aperta PLAY.
O tema para Diane Meyer, de Romeu e Julieta, de Prokofiev, começa a tocar. É instantaneamente pesado e enche a sala com a porra da tragédia que eu amo. Kate chega mais perto, como se ela fosse a própria senhorita Capuleto.
– Meyer.
– Sim. – Ele desliga, maldito desgraçado, e olha para Kate. – Nada de Mussorgsky.
– Quem é Mussorgsky?
Vadia idiota, eu esperava mais dela.
– Um compositor. Russo, eu acho. Isto é o que ele estava falando. Cara, ele nos deu uma lista das músicas que queria que fossem gravadas no CD. Foi somente durante nossas conversas que eu descobri o que cada uma representava, mas eu realmente não... Caralho, não vi, havia treze músicas.
– Isso não... Isso confirma que havia outra vítima, mas realmente não nos ajuda – ela diz, suavemente.
– Dá um Google nele, o compositor, leia tudo o que puder. Ouça-o. Vou colocar um fim nessa merda agora.
Ryan pega a carteira e deixa Kate sem um adeus.
Ela engole e olha em volta.
Esfrega as mãos nos jeans.
Não sei se deveria ficar com ela para ouvir Mussorgsky ou ir atrás de Ryan e ver o que ele está fazendo.
Decido ficar com ela.
Ela está sentada no sofá e abre o computador.
Em segundos, ela está lendo sobre Mussorgsky e a primeira peça que encontra é a que eu quero. É a da menina que fugiu.
Night on Bald Mountain.
Basta ouví-la, cara, ouça-a agora. É uma obra-prima.