Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
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Ela está dormindo e eu vou até o meu computador.
Eu digito no Google Mathias Rogers + Nathan Bardel. Os resultados servem para confirmar o que já sei sobre ele: republicano com traços de fanatismo, sua campanha foi muito orientada para valores cristãos. Ele é do tipo ame ou odeie, com seus discursos contra homossexuais, contra o aborto, pregando com fervor sobre o caminho de perdição que a “América” está tomando, e apontando os culpados sem remorso. Eu procuro o que ele pode ter dito em relação à execução de Nathan Bardel. Demora um pouco, mas encontro a seguinte citação:
“O grande estado da Flórida não vai tolerar o tipo de criminoso que o Sr. Bardel é. Que fique claro que nenhum homem ou mulher que age contra a família, a honestidade, o progresso e a decência neste Estado ficará impune. Fizemos nossa parte como homens e agora deixemos que Deus tenha piedade da alma do Sr. Bardel. Deixe-O fazer a Sua justiça agora.”
Então ele odeia o cara. Mas se envolver em algo parecido com a publicação de sua biografia parece um pouco demais para mim.
Assusto-me quando sinto seus braços me envolvendo.
Ela beija minha cabeça.
– O que você está fazendo?
– Savannah disse que o governador pode estar envolvido com a Sahara querer enterrar seu livro. Tem alguma ideia do porquê?
– O quê? Isso não faz sentido algum.
– Sim, bem, é só o que tenho por enquanto.
Ela beija o meu pescoço novamente. Eu toco suas mãos com carinho.
Por um tempo não dizemos nada.
Então eu faço uma coisa idiota.
– Eu vou encontrá-lo para você. O homem que matou Jennifer.
Ela me beija novamente.
– Eu sei que você vai.
Eu não sei se vou. Viro-me e olho para ela. Seu cabelo está caindo suavemente em torno de seu rosto, e ela está sorrindo.
– Kate...
– Ryan.
– Eu quero falar com Natalie Bardel.
– Deixe-me ir com você.
Estou com tanto medo que ela possa se machucar. Mas eu não posso tratá-la como menos do que ela é.
– Tudo bem.
– Conte-me sobre Selena.
– É o que você leu. Eu estraguei tudo com ela.
– Como foram as simulações? Você gostava delas?
– No começo eu gostava sim.
– Então...
– Então parei de gostar, Kate. É simples assim. Hoje eu sei que não deveria nem ter começado. Mas a verdade é que a princípio eu queria a experiência. A verdade é que, em algum nível, todos os homens fantasiam com estupro. Sobre controle e dominação. Mas o jeito que ela queria as coisas era demais para mim.
Eu me levanto e sento no meu sofá. Kate se senta no chão, a luz da TV está brilhando sobre ela e ela está linda.
–Você a amava?
– Não. Eu gostava muito dela e a admirava. Mas não posso chamar aquilo de amor, Kate. Eu ferrei com ela. Sei disso agora. Não há um só dia em que não pense nisso.
– Por quê? Por que você diz isso?
– Foi por causa das coisas que eu disse que a tiraram do caso Richardson, o caso no qual ela estava trabalhando. Selena era da unidade três, ela investigava crimes contra crianças. Ela estava atrás de um sequestrador de crianças chamado David Richardson. Ela estava chegando perto quando a removeram do caso. A equipe que assumiu simplesmente não sabia o suficiente e ele matou mais uma vez, uma menina de quatro anos chamada Gretchen McKenzie. Foi no dia seguinte que Selena colocou uma foto de seus pais, sua arma, seu distintivo na cama e tomou aqueles comprimidos.
Katherine está olhando para mim. Sinto-me aliviado de ter contado para ela, mas é difícil demais lembrar dessa história toda.
– Ryan...
– Eu sei, Kate. Mas queria saber o que teria acontecido se eu tivesse mantido minha boca fechada. Pergunto-me se a menina estaria viva hoje. Selena talvez não, mas Gretchen...
– Porra, isso é alimento para insanidade.
– Sim, eu sei.
Ela toma uma respiração profunda e fica em silêncio por alguns momentos. Em seguida, pergunta:
– Por que Melissa foi embora?
Eu me pergunto se posso contar à Kate. Eu me pergunto se não vou assustá-la.
Talvez não. Talvez Kate seja mais durona do que penso.
– Eu costumava ir fundo na minha pesquisa, Kate. Isso acabou me dando uma reputação de detetive obcecado, daqueles com um parafuso a menos, mas nunca me importei. É por isso que eu era bom. Eu passava horas nas cenas de crime, ouvia o tipo de música que o suspeito escutava, seguia todos os seus passos, montava paredes como a sua. E ajudava. Quanto mais próximo deles, mais fácil era pensar como eles... Nós conversamos sobre isso no seu apartamento. Melissa não gostava. Eu passava horas em silêncio, olhando fotos das vítimas. Via vídeos de mortes reais, assassinatos reais, estupros reais. Tudo. Então um dia eu estava procurando um cara que estuprou e matou uma mulher que tinha um bebê. Os vizinhos disseram que ouviram o choro do bebê por três horas seguidas. Eles não chamaram a polícia ou qualquer coisa porque era esse tipo de bairro, sabe? Bem... Soube que ele ficou com o corpo da mãe por duas horas. Isso significa que ele ouviu o bebê chorar por duas horas inteiras. E ainda assim, foi capaz de se masturbar em seu corpo, cortá-la e molestá-la. Eu precisava entender isso, Kate. Nossos instintos não podem suportar o som de um bebê chorando. Nos faz querer calar a boca dele, ver o que há de errado, o que ele precisa, para que possa estar em paz. Então, consegui uma gravação e me deitei no sofá em casa. E fechei meus olhos e escutei o choro de um bebê por duas horas. Eu não posso começar a explicar essa sensação. Melissa pegou os fones de ouvido de mim e ouviu, naquela época Aidan tinha apenas dois anos.
– Aidan é o seu filho?
– É. Melissa ficou assustada. Ela já estava cansada de mim e do trabalho, mas desta vez se apavorou. E foi embora.
Kate fica tranquila. Eu lhe dou tempo para pensar no que ouviu. Ela pergunta:
– É por isso que você queria que eu desfizesse a parede?
– Sim. Nunca vou voltar a ser a pessoa que eu era, Kate, mas você não precisa ir tão longe. Você não tem que mudar. Você não tem que perder a doçura e inocência que tem.
Ela esboça um sorriso.
– Ninguém nunca me chamou de doce e inocente antes.
– Isso porque eles não sabem o que significa.
Ela está olhando para mim e eu quero beijá-la novamente.
– Eu não me importo – ela finalmente diz. – Se este é o seu pior, eu não me importo, não me assusta.
– Kate, o que eu disse a você... no carro ontem, sobre Dale... Eu estava com raiva, eu não deveria ter...
– Mas você estava certo, Ryan.
– Você merece muito mais do que isso. E eu. Você merece mais do que eu.
– Cala a boca. Vá se foder.
Eu calo a boca porque não quero que ela me deixe.