Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 28 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

A primeira coisa que faço é ensiná-la…

A primeira coisa que faço é ensiná-la a mexer no alarme. Dou-lhe o código, 2839, e garanto que, se disparar, a polícia local chegará em dois minutos.

Ela permanece em silêncio enquanto isso. Sei que falei demais, sei que a lembrei de coisas ruins.

Nós só temos esta noite antes de eu ir embora, e já estraguei tudo.

Fico na dúvida se deveria ensiná-la a usar minha arma. Mas muitas coisas poderiam dar errado, então opto por não fazer.

Ela quer tomar um banho e eu mostro onde fica o banheiro.

Enquanto ela está no chuveiro, deito no meu sofá e fecho os olhos. Quero pensar sobre a situação, sobre o caso de Jennifer, mas não consigo. Minha mente fica voltando para a mulher no andar de cima e como eu gostaria que as coisas que aconteceram com ela não tivessem acontecido. Eu odeio esse ex-namorado dela, e me pergunto o que faria com ele se o encontrasse. Um desejo me preenche, o desejo de colocá-lo na prisão. Eu adoraria fazer isso, enfiar este menino-bonitinho-almofadinha em uma cela com outro estuprador com um pau grande.

Mas isso não vai acontecer, não é?

Sorrio quando penso, cansado, na imagem que os filmes e os livros tentam pintar de nós, agentes e profilers. Indivíduos frios, reservados, intelectuais e éticos que são capazes de fazer este trabalho e ainda serem tão corretos, e bons pais e maridos. Queria que o mundo soubesse que não é nada assim. Que pegamos esses caras por causa de horas batendo de porta em porta, horas de trabalho de polícia, ajuda do laboratório, ajuda do banco de dados. Nós os pegamos quando é tarde demais para tantas vítimas, os pegamos na maioria das vezes porque eles cometem erros, não porque “deciframos” sua psicologia através dos nossos “métodos”. Na maioria das vezes estamos cegos. O perfil só serve para restringir as opções de suspeitos, para nos dizer que tipo de pessoa procurar. Nós somos humanos, ficamos abalados com o que vemos, e choramos em nossas camas, enquanto, ao mesmo tempo, somos viciados no sangue e terror do trabalho. Somos em parte serial killers de nós mesmos, quando se trata do que está acontecendo em nossas mentes.

Kate desce as escadas com o cabelo pingando.

Olho para ela por um tempo.

– Não estou com sono – ela diz, suavemente.

– Você dormiu até tarde. – É a minha resposta. – O que quer fazer?

– Desculpa por ter batido em você, no carro. Passei dos limites.

Eu sorrio para ela.

– Eu aguento.

Kate está olhando para seus pés.

– Eu não sou a pessoa que você acha que eu sou.

Sento-me e a estudo.

– Desde que você me conheceu – ela começa –, tudo o que viu foi uma megera chorona que está apaixonada por um idiota machista. Esta não sou eu, Ryan.

– Nunca a vi dessa forma. Fiquei com o pior de você, sei disso. Não importa, Kate. Estou começando a gostar do pior de você.

Ela está calma.

– Só não fala isso de novo, na minha frente, certo? – eu digo.

– Dizer o quê?

– Que você é apaixonada por esse filho da puta do Dale. Nunca diga isso de novo na minha frente.

Ela respira profundamente.

– Eu não sou. Já o superei, não o quero mais na minha vida. Já me puni o suficiente. Acabou.

– Ótimo.

Ela está olhando para mim com olhos tristes.

– Ryan, estou apaixonada por você.

Isso é tudo que eu quero ouvir. Mas não posso ser irresponsável com Kate.

– Eu não quero você machucada.

– O que isso significa? Seja homem e me diga como se sente sobre mim.

Eu me levanto. Aproximo-me dela e sinto o cheiro do sabonete. Toco a mão de Kate e olho em seus olhos.

– Estou apaixonado por você, Katherine. Mas este não é um bom momento para nos apaixonarmos.

Ela apenas se inclina para mim, de uma forma que sua testa está tocando meu queixo.

– Eu não me importo.

Fecho meus braços em volta de Kate. Queria saber se esta é outra mulher que vou ter que enterrar, ver morrer. Não acho que tenho forças para passar por isso. Alguém a quer silenciada, e não há melhor maneira de calar uma mulher do que colocá-la embaixo da terra.

De repente, o medo toma conta de mim. Temo por ela.

– Você não vai sair de casa – eu digo.

– Talvez precise.

– Você não vai. A não ser que esteja pegando fogo, você está me ouvindo? Tem comida aqui, tem tudo.

– Tudo bem. – Ela só diz isso para me calar.

Kate e eu não fazemos amor esta noite. Mas dormimos juntos, nos braços um do outro, pensando em coisas que não estamos prontos para verbalizar.

Quando amanhece, sei que preciso ir. Ela está num sono profundo. Eu separo suas coxas e começo a lambê-la até que ela acorda, geme e goza sem abrir os olhos. Daí ela flutua de volta para o sono.

Eu arrumo minhas coisas, olho-a dormir por alguns minutos e depois saio.

No carro coloco meus óculos escuros quando o sol bate no para-brisa com força total. Coloco um CD que conheço bem, mas não ouço há algum tempo.

 

EU: Você foi até o final, na sua educação, quero dizer. É interessante.

BARDEL: Não até o final, eu só terminei o Ensino Médio.

EU: Mas você gosta de livros.

BARDEL: Sim, gosto de livros. Suponho que você vai me perguntar se o meu favorito é O Apanhador no Campo de Centeio.

EU: (risos) Não, Nathan, eu não perguntaria isso. Mas qual é? Estou curioso.

BARDEL: As pessoas que leem muito raramente têm um livro favorito, agente Owen. Tenho diversos que li muitas vezes ao longo dos anos. Eu gosto de Crime e Castigo.

EU: Então, você conseguiu o emprego na Biblioteca de Blessfield? Foi difícil?

BARDEL: Não, parecia um trabalho constante das nove às cinco. Gosto da tranquilidade da biblioteca, eu gosto das pessoas que ela atrai. Preenchi um formulário. Pelo salário, não havia uma grande quantidade de pessoas dispostas a assumir um trabalho como aquele, isso foi bem antes da recessão. Mas eles me chamaram e eu fui. Colocava os livros de volta onde pertenciam, durante o dia inteiro, preenchia as informações no sistema, catalogava. Eu amava aquele trabalho.

EU: E foi lá que você conheceu algumas de suas vítimas. Os livros que elas pegavam emprestados, foram eles que influenciaram as suas escolhas?

BARDEL: Às vezes influenciavam, sim.

EU: Você se lembra de alguma coisa assim?

BARDEL: Sim, lembro. Joan curtia eróticos. É por isso que eu sabia que ela queria o que eu tinha para dar. Eu a via ali, lendo algumas coisas e me perguntava o quanto ela estava molhada. Eu não aguentaria aquilo por muito tempo. Pensei sobre Joan por tantos meses. Então simplesmente não consegui mais me conter. Então comecei a seguí-la.

EU: Você tinha fácil acesso ao endereço da casa dela.

BARDEL: Sim. E então eu a peguei.

EU: Como isso aconteceu?

BARDEL: Você sabe.

EU: Sim, eu sei, mas eu realmente gostaria de ouvir o seu lado da história, se não for problema.

BARDEL: (pausa) Ela morava sozinha. Bati uma noite. Ela não abriu. Eu sei que ela me viu pelo olho mágico. Foi quando eu soube que teria que arrombar.

EU: Isso foi arriscado para você.

BARDEL: Mas ela valeu a pena. Esperei e quebrei uma janela. Quando cheguei lá em cima ela estava lá, mas não tinha chamado a polícia. Eu disse que se ela cooperasse viveria. Joan me reconheceu. Ela chorou e implorou, então eu a amordacei, amarrei e falei com ela. Olha, eu queria que aquela noite durasse. Eu estava com muito tesão, mas queria ir devagar. Então disse que eu sabia o que ela queria, que a tinha visto ler a porcaria que ela costumava ler. Ela chorou, sabe? Eu pude ver a vergonha em sua cara. Então tirei a mordaça e pedi a ela para dizer, e ela disse.

EU: Dizer o quê, exatamente?

BARDEL: Que ela era uma puta e que merecia. Eu a fiz dizer isso durante os estupros. Eu a fiz falar: “Sou uma puta, eu quero isso. Me estupre. Me fode e me machuca porque eu gosto.”. Ela disse isso tantas vezes. Ela sabia que era verdade.

EU: Quanto tempo você ficou com ela?

BARDEL: Umas duas horas. Queria ter ficado mais tempo, mas como você disse, agente Owen, era um grande risco. Então eu a estrangulei e a vi morrer. Aí fodi ela pela última vez, então a esfaqueei.

EU: O que você sentiu depois?

BARDEL: Fiquei triste que ela estivesse morta. Eu queria um lugar onde eu pudesse mantê-las por dias, até semanas, como aqueles caipiras assassinos que construíram um galpão na floresta.

EU: Você a teria mantido? Como uma companheira? Como uma escrava?

BARDEL: Uma escrava, sim. Ela faria qualquer coisa que eu mandasse. Cozinhar, limpar, chupar o meu pau enquanto eu lia livros. Mesmo... Talvez até me ajudar com outras vítimas.

EU: Isso é uma fantasia para você.

BARDEL: Bem, para ser sincero, eu tinha pensado nisso algumas vezes. Pensei sério sobre essa possibilidade depois da última. Se você não tivesse me pegado, talvez eu tivesse feito isso. Construir um lugar, sabe?

EU: Se Coates estivesse indo para a biblioteca para ler, digamos... A Bíblia... Ela teria chamado sua atenção?

BARDEL: (pausa) Bem, sim, agente Owen. Mas, certamente, a noite teria sido diferente, compreende? Eu não teria feito ela dizer tudo o que ela disse.

EU: Mas você a teria estuprado e assassinado.

BARDEL: Certamente. Ler a Bíblia não faz de uma mulher uma santa.

EU: O que faz?

BARDEL: Nada, elas são animais como nós. Cadelas para cães.

 

Escuto atentamente enquanto dirijo. Já ouvi isso inúmeras vezes antes. Ouço a entrevista da tarde seguinte:

 

EU: Conte-me sobre sua irmã, Nathan.

BARDEL: Eu não quero, Ryan. Você está risonho hoje. Comeu sua esposa esta manhã?

EU: Desculpe se eu o ofendi, Nathan. Eu não sabia que era doloroso falar sobre Natalie.

BARDEL: Não é doloroso.

EU: Bem, certamente arrancou uma reação de você. Nunca foi agressivo comigo antes.

BARDEL: (pausa) Não é? Aposto que sua esposa é loira.

EU: Minha esposa não lhe diz respeito. Nem a minha vida pessoal. Então, acredito que você e eu não vamos discutir Natalie hoje.

BARDEL: Vou parar de falar com você se disser o nome dela mais uma vez.

EU: Então por que não mudamos a dinâmica? Você decide sobre o que quer falar.

BARDEL: Por que não falamos sobre você?

EU: O que você gostaria de saber?

BARDEL: Alguma vez já matou alguém?

EU: Devido à natureza do meu trabalho, fui diretamente responsável por dois óbitos. Mas a maioria dos profilers nunca esteve envolvido com isso. Não havia outra maneira de proceder naquelas situações.

BARDEL: Mentira (sorrisos). Você gostou. Quem eram eles?

EU: O primeiro era um viciado em drogas que tinha sido responsável por quatro mortes. Ele estava em uma killing spree, matando pessoas num surto, descontroladamente, era um esquizofrênico paranoico e tinha assassinado sua esposa e seu bebê. Ele disse que o bebê não era seu filho. Em seguida, dirigiu até uma pré-escola e atirou em duas crianças. O cercamos, na época eu era da unidade um, e tentamos negociar a libertação dos reféns, mas ele não estava em condições de negociar. Nós conseguimos entrar na escola e o cara estava armado. Ele não respondeu ao meu pedido para largar a arma e então eu atirei no peito dele. Ele morreu no caminho para o hospital.

BARDEL: O bebê era dele?

EU: Sim.

BARDEL: (sorri) Você gostou.

EU: Quem sabe?

BARDEL: Você sabe. Conta.

EU: Fiquei aliviado por ele não ser mais uma ameaça. Ao mesmo tempo, triste que as coisas tivessem chegado até aquele ponto. Ele só atingiu aquele estado mental porque estava doente e não foi ajudado.

 

Eu penso sobre isso. Eu estava mentindo. Estou feliz que o matei.

 

BARDEL: E o outro que você matou, Ryan.

EU: Não, primeiro vamos falar sobre você. Conte-me sobre Natalie.

BARDEL: (Longa pausa 2’13) Ela gostava. Do que meu padrasto fazia com ela. Acho que no início não, então ela começou a gostar.

EU: Eu não acho que gostava, Nathan. Ela foi abusada.

BARDEL: Por que ela não o matou enquanto ele dormia?

EU: Nem todo mundo reage dessa forma. Ela provavelmente estava com muito medo. Ela pensou em você, sua mãe e aguentou a dor do que acontecia com ela em silêncio, porque achava que era melhor para sua família.

BARDEL: Como você sabe que ela não gostou? Perguntou para ela?

EU: Se eu perguntei a uma mulher se ela gostava de ser abusada? Não, não perguntei.

BARDEL: Então você não sabe com certeza.

EU: Eu sei, com certeza, Nathan.

BARDEL: Você não é mulher. Você não foi abusado. Você não sabe com certeza.

EU: Eu sei, com certeza, Nathan. Você a odeia por causa disso?

BARDEL: Não a odeio. Só não sinto nada por ela.