O Federal

Cris Araújo · Capítulo 1 de 63

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O Federal

Se eu estivesse morrendo de joelhos

Copyright © 2021 Cris Araújo

Todos os direitos reservados.

 

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e

acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora.

Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é

mera coincidência.

 

Capa: E. S. Designer

Diagramação: Sophie Carla

Ilustração: Rosa Aguiar

Revisão: Carla Teles

 

É proibido o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer

parte dessa obra, através de quaisquer meios — tangível ou

intangível — sem o consentimento escrito da autora.

 

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei n°.

9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.

O Federal é um romance contemporâneo, porém, pode conter

gatilhos.

Há cenas de violência física e psicológica, luto, câncer.

Caso não se sinta confortável com leituras que contenham esse tipo

de conteúdo, não leia.

O Federal é uma história que me ganhou pelo personagem principal. Ele passou na

frente de outros projetos e por mais que em alguns momentos, pela complexidade do enredo e dos personagens, eu tenha pensado em desistir do livro, as constantes loucuras que os personagens diziam na minha cabeça não me deixaram em paz.

Não foi um livro fácil, saí completamente da minha zona de conforto como escritora e muitas vezes como leitora também. Ainda durante as pesquisas, me emocionei em como a história da personagem é uma realidade cruel na vida de muitas mulheres da vida real, as que sangram de verdade.

Já adianto que não é só uma história de amor, é uma história sobre família. Sobre o que somos capazes de fazer para proteger quem amamos.

Esse livro arrancou meu coração e o devolveu, quando quis, devo salientar, com uma nova perspectiva sobre histórias de amor e de ódio

Essa é um história fictícia. Não há obrigação de retratar a verdade.

Algumas operações policiais não condizem com a realidade.

Marcone Ferris é um sobrevivente, agente da polícia federal há

anos, ele sente na pele a culpa pela morte de alguém que amava.

Quando ele encontra uma mulher totalmente ferida no meio do nada, Marcone não imaginava as implicações que esse encontro traria para a sua vida, muito menos a atração visceral que ela despertaria de maneira sutil.

O mistério, a beleza e a personalidade imprevisível que ela tem, despertam nele sentimentos que há muito tempo estavam adormecidos e que ele imaginara nunca ser capaz de sentir novamente.

E se a vida ti desse uma segunda chance, apenas para causar uma dor ainda maior que a vivida no passado?

Se eu estivesse morrendo de joelhos

Você seria o único a me salvar

E se você estivesse se afogando no mar

Eu lhe daria meus pulmões,

Assim você poderia respirar

 

Brother/ Kodaline

Alguns meses atrás

 

Lancei o brinquedo preferido de Bella e assisti ao salto que ela

deu para apanhá-lo no ar. Uma menina, e uma das melhores agentes do nosso Canil.

Um Pastor-Belga Malinois.

A maioria dos cães do nosso canil era desta raça, com exceção de dois rottweilers.

Rápida. Feroz. Letal. Bela.

E irresistivelmente dócil, ao menos comigo.

— Ela está totalmente recuperada. — Társio comentou ao meu lado, cruzando os braços.

Em nossa última operação na fronteira — três meses atrás — ela tinha saído machucada, uma das patas fora fraturada durante a perseguição aos contrabandistas. Eu não fazia parte dos agentes da fronteira, mas quis ir nessa busca, em especial. Eu tinha localizado o ponto exato de repasse das drogas depois de meses de investigação, queria que tudo saísse do jeito certo e que nenhum dos traficantes conseguisse escapar, e teria sido um sucesso completo se ela não tivesse se machucado. Foram três presos e seiscentos quilos de cocaína apreendidos.

— Vai levá-la hoje? — Ele perguntou, observando, como eu, as piruetas e o estrago que ela fazia no coelhinho de pelúcia.

— Sim.

— E seu pai?

— Continua na mesma. Amanhã cedo vou deixar Bella aqui e sigo para Minas Gerais.

— Boa viagem, então. — Ele afastou-se para o lado onde os outros cachorros ficavam e eu permaneci observando o cão.

Fiz um aceno e ela veio correndo com o rabo grosso dançando.

— Senta — pedi, tentando impedir que me derrubasse com o entusiasmo esfuziante. — Você só vai comigo se ficar comportada, ok? — Abaixei-me perto dela e recebi lambidas por todo o pescoço, enquanto acarinhava a sua cabeça. Bella era grande, mesmo sentada. O pelo marrom tinha rajadas sutis de preto pelo pescoço grosso, típico da sua raça. Tirei a coleira com o nome Polícia e caminhamos lado a lado para o Fluence estacionado perto da viatura. Ela pulou para o banco do carona do meu carro e sentou imediatamente. Uma das coisas que mais me deixava impressionado nos cães era a inteligência inquestionável deles, e também a lealdade que não podia ser discutida.

O canil ficava em Niterói, um pouco antes do primeiro galpão de pedágio. A pista estava vazia, e considerando o número de carretas que geralmente aglomeravam a Br, fiquei surpreso e aliviado. Queria chegar em casa, tomar um bom banho e me preparar para o dia seguinte, não seria um dia fácil. E eu sei, que bem dentro de mim, eu faria qualquer coisa para adiá-lo, mas não devia e nem podia. Os latidos de Bella ecoaram pelo carro, me sobressaltando.

— O que foi, garota? — perguntei, olhando rapidamente na direção dela. Aumentei os faróis e freei o carro, ao entender o que ela já tinha visto.

Um corpo.

No meio da pista, a poucos metros de distância de nós. Peguei a minha arma do porta-luvas e abri a porta para que Bella descesse primeiro, acendi a lanterna do celular e girei o corpo para uma visão melhor. Eu estava no meio do nada. Os pelos da minha nuca se eriçaram e eu caminhei para perto de quem quer que estivesse caído ali. Foquei a luz e abaixei perto da garota. Era apenas uma menina. Devia ter dezesseis ou dezessete anos, cacos de vidros perfuravam a pele ensanguentada de seu rosto, uma enorme nodoa roxa estava presente em sua testa. Toquei a base do seu pescoço em busca da pulsação e nada. Não houve nada. A artéria tinha parado de pulsar.

Ela estava morta.

Os latidos de Bella me assustaram outra vez, ouvi o som das patas dela em alguma parte não iluminada. Parecia estar arranhando alguma coisa, tentei iluminar todo o espaço, mas ainda assim não consegui enxergar. Mais latidos. Caminhei, tentando segui-los. De repente ela estava ao meu lado, mordeu o tecido da minha calça como se quisesse me levar a algum lugar. Só então eu vi o carro. Um Corolla branco com a lateral destruída, se houve uma batida quem estava no outro automóvel devia ter fugido, Bella começou a arranhar a janela do carona e eu corri para perto, havia outra pessoa lá. A porta do motorista estava aberta e eu teria acreditado que a garota morta estivesse dirigindo se o buraco no vidro para-brisa não contasse outra história.

Disquei imediatamente para os socorristas e para a Polícia Rodoviária, tentei ser o mais claro possível com relação ao lugar exato em que estávamos e quando encerrei a ligação iluminei a outra vítima. Entrei no carro e a observei: era uma mulher, o rosto estava coberto de hematomas, mas a julgar pelo cinto de segurança firme em volta de seu corpo, não deviam ser frutos da batida.

Em alguns segundos minha mente trabalhou.

Devia haver mais alguém ali. Provavelmente o motorista. A garota morta devia estar, quando tudo aconteceu, no banco de trás, e com o impacto da batida o corpo devia ter sido arremessado para fora do carro, a pancada na cabeça ao quebrar o vidro era a provável causa do hematoma roxo e também da sua morte. As pessoas não entendiam como um cinto de segurança fazia diferença em momentos como esse. A julgar pela forma como apenas um lado do carro estava destruído, o motorista, que por sinal não era nenhuma dessas duas garotas, devia ter jogado o lado do carona para o maior impacto na batida, protegendo a si mesmo e deixando as duas por conta da sorte ou de um milagre como as pessoas costumavam falar.

Toquei a base do pescoço da mulher ali e respirei aliviado, apesar de extremamente ferida, ela estava viva. Iluminei seu corpo e fitei a barra de ferro perfurando sua coxa. Um pequeno gemido saiu de seus lábios, voltei a iluminar seu rosto e um par de olhos verdes me encarou. Algo neles me fez recuar. Havia medo, sofrimento e pânico. Emoções que eu já estava habituado a lidar, mas eram quase gritantes nela, parecia que a garota estava olhando além de mim. Instintivamente olhei para trás, mas não havia ninguém lá, além de Bella e do cadáver.

— Consegue sentir suas pernas? — Perguntei.

— Liz... — Gemeu, os lábios tremendo, os olhos piscando veementemente. Tentou se mexer e ficou paralisada, provavelmente dando-se conta do ferimento na coxa.

— Não se mexa, ok? Está muito machucada, fique quieta, o socorro já está vindo.

— Liz... — O sussurro dessa vez foi fraco, ela parecia estar fazendo um esforço enorme para manter os olhos abertos.

As sirenes do socorro chegando ecoaram pela noite e depois tudo foi muito rápido, contei o que encontrei aos policiais ao mesmo tempo que não conseguia tirar os olhos do resgate, infelizmente a barra de ferro estava muito fincada entre a pele e o osso da coxa, o que deixou tudo mais demorado, ela tinha desmaiado, provavelmente por não conseguir suportar a dor, o corpo da garota morta já tinha sido removido e uns três policiais desceram pela mata em busca de qualquer indício do motivo do acidente. Nunca critiquei o trabalho dos agentes rodoviários, mas era estranho perceber que eles não tinham chegado à conclusão que eu cheguei.

Aquelas duas garotas não eram as únicas ali.

Eu tinha certeza absoluta disso.

Observei aliviado o momento em que conseguiram remover o corpo dela, e caminhei para o Fluence a fim de acompanhar a ambulância e saber seu real estado. Bella deitou no banco do carona tomando todo o espaço e eu dei partida no carro. Parecia que o carro esperou apenas que ela fosse removida, porque primeiro o motor começou a pegar fogo, alertando quem estava por perto a se afastar e em seguida toda a lataria pegou fogo.

Uma mulher. Um carro. Uma explosão. Algo familiar ao que eu tinha vivido no passado.

Acompanhei todo o processo de internamento da garota, esperei horas enquanto ela era examinada sem ter qualquer notícia e sem saber realmente porque ainda estava ali, mas esse meu senso de dever ainda me traria muitos problemas. Fui pela milésima vez ao balcão e pedi informações.

— Ela já foi examinada. Está sedada. E passará por outros exames e por uma pequena cirurgia se o raio x detectar ainda presença de metal no ferimento da perna. — A enfermeira respondeu de maneira educada, depois de olhar as informações no computador.

— Eu posso vê-la? — perguntei.

— Você tem algum parentesco com ela?

Não respondi, apenas mostrei o distintivo e ela aquiesceu, saindo de detrás do balcão e indicando para onde eu devia ir, depois de registrar meus dados e colocar um adesivo de visitante na minha blusa.

Entrei no quarto, onde mais dois enfermos estavam, além dela e a olhei, algo estranho me deixou arrepiado novamente.

Os olhos dela. Mesmo fechados eram marcantes.

Achava até que jamais esqueceria deles. Balancei a cabeça, talvez o estado lastimável do meu pai estivesse me deixando sensível. Sentei diante da cama e observei o rosto machucado da mulher que eu não fazia ideia de como se chamava, de onde vinha ou de que maneira tinha se metido naquele acidente. Segurei sua mão, estava fria. Novamente os olhos verdes abriram-se e o mesmo efeito se esticou dentro de mim. Uma pequena confusão, algo estranho. Pensei em outra mulher, a mulher que amei e que tinha morrido dentro de um carro, como quase aconteceu com essa aqui, que agora me fitava. Sinal de que a medicação não havia surtido efeito ainda.

— Liz... — ela sussurrou, uma lágrima escorreu pelo seu rosto e o bip da máquina que media sua pulsação ficou louco, desenfreado. Os olhos dela se fecharam, mas sua mão apertou a minha com força como se não tivesse ficado inconsciente novamente.

Médicos e enfermeiras entraram rapidamente no quarto e eu fui obrigado a sair. Nervoso e instável, me aproximei do balcão novamente.

— Qual o nome dela? — perguntei, dando-me conta de que Liz devia ser a garota morta.

— Ainda não sabemos, senhor, não foi encontrado nenhum documento no carro.

Minas Gerais

 

Remexi-me desconfortável na cadeira de couro acolchoada e

passei os olhos novamente por aqueles papéis. Havia muita confusão ali, dados que não batiam, valores que não faziam sentido, e histórias que precisavam ser contadas.

Eu tinha voado para Minas Gerais essa manhã, depois de voltar ao hospital e ser informado que a garota que encontrei na noite passada fora transferida para uma clínica pela família, e não poderia ser informado sobre mais nada porque era dever do hospital proteger a privacidade dos pacientes. Bom, meu dia começou a ficar complicado a partir daí. Eu tinha salvado a vida dela, eu tinha o direito de saber. Mas acabei pegando o voo sem ter notícia alguma, e isso estava me incomodando até agora.

O celular tocou novamente e eu o atendi, sem paciência.

— Nina?

— Marco, porque não avisou a ninguém que já tinha chegado? — Minha irmã mais nova e com certeza a pessoa mais irritante que eu conhecia estava pegando no meu pé do outro lado da linha e a alguns quilômetros de distância.

— Precisei resolver algo antes, na verdade ainda estou resolvendo. — respondi, e tirei outro classificar abarrotado de papéis mal organizados de dentro da gaveta.

— O que é mais importante que nosso pai? — ela perguntou, e eu podia imaginar os seus olhos cheios de lágrimas e as sobrancelhas unindo-se e criando um pequeno vinco em sua testa.

A verdade é que eu tinha me enfiado na fábrica desde que cheguei justamente para adiar encontrá-lo. Meu pai sempre quis que eu administrasse tudo isso aqui junto com ele, mas minha natureza me levou a fazer outra escolha. E desde então, as coisas deixaram de ser fáceis entre nós dois, na verdade eu quase nunca vinha para cá e quando aparecia por aqui era difícil vê-lo, ele sempre estava cuidando do seu império, das suas vacas de ouro e de seu grande amontoado de queijos de primeira. Ele era o número um na região em produção, venda e exportação de queijos. Eu tinha orgulho do meu pai, mas não era recíproco, ele nunca aceitara o fato de me tornar um agente federal, ao invés de investir minha vida no sonho dele.

— Marco? — Ouvi-a soluçar e fechei os olhos, passando a mão livre pelo cabelo e percebendo que eu realmente tinha feito merda em vir para cá ao invés de ir logo para casa.

— Eu já estou indo para lá, certo? Não vou demorar... não fique assim. — sussurrei, esperando que ela não chorasse mais. — Você deveria estar na aula e não na linha comigo.

— Já vou voltar para aula.

— Está bem. Até mais tarde. — Encerrei a ligação e coloquei o celular sobre a mesa.

A porta foi aberta e um homem careca de seus cinquenta anos estancou ao me ver ali.

— Não pode entrar aqui. — Ele foi dizendo e entrou na sala. — O que está fazendo mexendo nesses papéis?

Ele realmente não fazia ideia de quem eu era, e não podia culpá-lo, a maioria dos empregados do meu pai não me viam há muito tempo. Mas eu o conhecia, era Antônio Oliveira, o advogado e amigo de longa data da família e a pessoa que eu realmente queria ver para que me contasse o porquê de toda essa bagunça. Tirei o distintivo do bolso e mostrei para ele.

— Você precisa de um mandado. Quem o chamou aqui?

— Eu sou o dono dessa porra toda. Agora porque você não senta a bunda na cadeira e me conta quem está roubando o meu pai? — Coloquei o distintivo sobre a mesa e vi em câmera lenta o homem engolir em seco.

— Marcone...

— Ah, você lembrou de mim — retruquei com ironia e me recostei no couro macio, observando-o. Pequenas gotículas de suor surgiram em sua testa e eu tentei ser paciente. Fazia parte do meu trabalho estudar pessoas, tudo que escapava direta ou indiretamente delas nos dava uma resposta para uma pergunta feita ou não feita.

— Faz tanto tempo. — Ele sentou-se e uniu as mãos sobre a mesa olhando para mim preocupado. — Recentemente descobri alguns desvios, na verdade, já vem acontecendo há bastante tempo.

— Isso eu descobri no momento em que coloquei os olhos nesses papéis. Nada bate nos relatórios, e a produção de queijos continua igual ou maior, porém o faturamento está quase pela metade. — Fui colocando os documentos diante dele, enquanto falava e por fim o encarei. — Eu quero saber quem é.

— Não sabemos ainda.

— Meu pai sabe do que está acontecendo? — Eu quis saber.

— Não, sua mãe não quer que ele saiba.

Pensar nela resolvendo todos esses pepinos me incomodou, era uma carga pesada demais.

— Vem para ficar? — ele perguntou, analisando o meu rosto.

— Porque está interessado nisso? — inquiri, sentindo antipatia imediata pelo infeliz.

— Tadeu gostaria...

— Minha vida não é aqui. — Levantei e fui até a janela grande. Dali era possível ver todos os processos da fábrica, desde a inserção de matéria prima até o processo de embalagens dos queijos. Meu pai tinha feito um belo trabalho, eu vi aquilo acontecer. Mas agora, alguém que ele confiava estava roubando-o embaixo do seu nariz. Voltei-me para Antônio. — Eu vou para casa agora, mas quero a relação de todos que entram em contato direto com o dinheiro... Todos os nomes, quero saber quem são. Quero isso hoje. — Peguei o distintivo e o celular que estavam sobre a mesa e saí da sala sem esperar pela resposta dele.

Eu devia ir para a fazenda, estava aqui para isso. Para vê-lo, para me despedir. Nina ainda não sabia, mas nosso pai tinha poucos dias de vida. Talvez nem pudéssemos contar com isso. Eu devia estar com ele, aproveitando cada segundo em que ainda pudesse escutar sua voz, mesmo que fosse para reclamar de algo, mas não. Eu estava dirigindo sem rumo, acho que o medo era de desabar quando o visse, quando eu entendesse que a vida dele estava mesmo no fim. Não fui o filho que ele queria, passei anos longe, construí minha vida pulando de cidade em cidade, de estado em estado, por causa do trabalho e aqui estava eu agora, arrependido por ter dado pouco do meu tempo para ele. Para meu pai.

 

*

 

Encarei a placa de boas-vindas da fazenda e respirei fundo. Fazenda Mara Ferris. Era esse o nome do aglomerado de campos verdes e bem cuidados do meu pai. Eu tinha esquecido de como era bonito aqui. Através do portão de madeira já era possível ver a casa grande e totalmente branca em frente à piscina retangular infinita. Como flashes, as imagens da minha infância vieram com tudo. O cheiro forte do café que meu pai tomava pela manhã antes de sair, o canto dos passarinhos que entravam pelas janelas quase sempre abertas, a rotina de tirar leite das vacas, as viagens que fazíamos até a cidade para vender os queijos. Eu devia ter treze ou catorze anos, e Nina era ainda um bebê de dois anos. Ela e minha mãe ficavam na carroça, enquanto meu pai e eu perambulávamos pela feira oferecendo o produto.

A sensação de nostalgia apareceu e eu me recostei no banco, ainda sem coragem de sair do carro.

Nasci em São Paulo, na capital. Mas com a morte de meu avô, meu pai recebeu um pequeno pedaço de terra como herança. Mudamos para cá, quando eu tinha seis anos, moramos num casebre minúsculo por um bom tempo e ele usou as economias para comprar a primeira vaca, acho que desde aquela época meu pai já tinha um bom olho para os negócios, ele a chamava de vaca de ouro. As coisas começaram a melhorar aos poucos, a partir daí.

Dois toques na janela chamaram minha atenção.

Minha mãe.

Meu coração se apertou, e deu uma disparada. Ela estava usando um vestido longo preto, parecia já estar de luto. Mas era exatamente isso, minha mãe, mais do que ninguém, acompanhou a vida deixar meu pai aos poucos. Destravei a porta e saí. Ela deixou a cesta com laranjas no chão e me abraçou forte, deslizei a mão pelos seus cabelos pretos cheios de fios brancos e um misto de paz junto com agonia se instalou em mim.

— Mãe... — Minha voz saiu embargada.

— Eu estava apavorada achando que você não viria — ela sussurrou, ergui seu rosto e beijei sua testa. — Ele tem pouco tempo, filho...

— Não vamos pensar nisso. — Beijei outra vez a testa dela.

Mara Ferris olhou para mim e sorriu, os olhos azuis como os meus. Os cabelos pretos já tinham inúmeros fios brancos, e as rugas, que na minha opinião a deixavam linda, estavam por todo o rosto bronzeado. A pele dela era mais enrugada do que deveria, por causa dos anos de trabalho embaixo do sol. Suas mãos seguraram meu rosto, e eu me curvei para que ela depositasse um beijo maternal em minha testa. Calma era o sentimento que minha mãe despertava em mim, sempre foi dessa forma.

— Por que estava aqui e não entrou? — perguntou ela, apanhando a cesta de frutas do chão.

Abri a porta do carona e entrei em seguida, ligando o motor. Ela abriu o portão com o controle remoto pequeno que estava dentro da cesta e olhou para mim. Eu não podia deixar de perceber o quanto minha mãe tinha envelhecido em poucos meses, o sofrimento realmente corroía as pessoas, e eu estive longe todo esse tempo. Passei uma das mãos pelo cabelo, sentindo um revirar desagradável no estômago.

— Por que não entrou, filho?

— Não tenho coragem de vê-lo, mãe. — Meus olhos arderam.

Ela me olhou com carinho, os olhos azuis mais compreensivos que eu conhecia. Entrei na cozinha ao seu lado e analisei como tudo estava diferente, dinheiro era o reflexo daquele lugar e mais uma vez eu senti orgulho de como o meu pai tinha transformado um casebre e poucos metros de chão num verdadeiro império.

— Seu pai pergunta todos os dias sobre quando você iria chegar. — Mara sussurrou, pegando um copo de dentro do armário. Fiquei ansioso de novo. — Tadeu foi duro com você, mas ele tem orgulho do homem que você se tornou. Todas as entrevistas que você deu durante o caso daquela moça da Inglaterra, ele assistiu a todas. No início fingiu que não estava interessado, mas eu vi como ele ficou orgulhoso.

Fiquei surpreso, lembrei-me de como ficava chateado com todas as coletivas que dei para a imprensa sobre a Operação Enfermeira, de como quase enlouqueci com aquele caso. Aceitei o suco que ela me ofereceu e dei um gole, ainda digerindo suas palavras.

— Onde ele está agora? — Perguntei.

— No escritório. Mesmo com as dores que sente não sai de lá... — Ela meneou a cabeça, um sinal claro que já devia ter se irritado muito por conta disso.

— O que ele sabe sobre os desvios? — perguntei de forma direta, pela forma que ela estava agindo provavelmente não me diria nada a respeito se eu não perguntasse. O seu olhar perplexo também entregou tudo.

— Como sabe sobre isso?

— Eu passei na fábrica antes de vir para cá...

— Antônio está cuidando disso, não se preocupe — objetou e aproximou-se de mim, passando os dedos pelos meus cabelos. — É bom ter você em casa, meu filho. — Ela beijou meus cabelos e segurou meu queixo para olhar meu rosto. — Senti tantas saudades... seu pai também. Vá vê-lo. Não tenha medo. — Ela beijou inúmeras vezes minha testa e depois se afastou.

Enchi-me de coragem e caminhei para fora da cozinha, apesar de toda a reforma as conexões eram as mesmas, então não foi difícil encontrar o escritório do meu pai. Bati na porta duas vezes. Uma voz feminina me mandou entrar. Girei a maçaneta, depois de respirar fundo e entrei no aposento iluminado pelo céu nublado, as janelas todas abertas e os móveis claros deixavam o ambiente agradável. Não o vi de imediato, observei a enfermeira sentada num sofá de canto com uma revista na mão, mas ele estava na poltrona virado para a janela maior.

— Saia, Ana. — A voz dele saiu fraca, ainda assim eu reconheci o tom rude que tantas vezes usou comigo.

A mulher deixou a revista de lado, me deu um sorriso brando e se retirou. Ainda fiquei estático no mesmo lugar, segurando a maçaneta.

— Você veio... — Outro sussurro fraco. — E Marina?

— Nina vem depois, pai. — Fechei a porta e respirei fundo. Dei dois passos incertos em direção ao som da sua voz e parei ao seu lado, olhando o horizonte pela janela, o ar puro tocando suavemente meu rosto.

— É bonito, não é? — Ele apontou para os campos verdes lá fora e eu finalmente olhei para Tadeu Ferris.

Minha primeira reação foi engolir um bolo imenso que se formou no meu estômago e subiu até a garganta, eu já tinha ouvido falar e lido sobre o que o câncer podia fazer com uma pessoa. Como a doença comia cada pedacinho de vida que ainda restava, mas eu, honestamente, não estava pronto para ver de perto. Por isso me esquivei tanto, eu não queria ver. A cabeça dele não tinha mais um fio sequer de cabelo, o corpo magro podia ser carregado por qualquer rajada de vento que entrasse pela janela, não fosse o cobertor grosso que estava sobre suas pernas.

— Me perdoa, pai. — sussurrei, quando meus olhos arderam e ficaram tão embaçados que eu não consegui mais enxergá-lo. — Me perdoa... — Abaixei perto dele e coloquei minha cabeça sobre seu colo.

Senti sua mão fria no meu rosto e fechei os olhos, deixando que as lágrimas descessem pelo meu rosto.

— Eu achei que policiais não chorassem. — Ouvi sua voz fraca numa insinuação de humor, os dedos tocaram meus olhos. — Tenho orgulho de você.

Aquela dor de perder alguém estava ali e ele nem tinha ido ainda, mas a falta de tempo agora era palpável, todo o tempo que eu não tive com ele. Aquela dor estava me cobrando agora, me acusando por não ter aproveitado o suficiente.

— Fui duro com você, não é? — Os dedos frios fizeram um percurso até meu cabelo. — Eu fui. — O carinho continuou e eu me senti um idiota por estar desperdiçando o tempo que ainda restava deixando que ele me visse chorar, eu devia mostrar que eu era forte, que ele não devia se preocupar com nada. — Eu te amo, filho.

— Eu te amo, pai. — Ergui os olhos para a face dele, eu tinha sentido tanto medo de ser rejeitado por ele quando aparecesse aqui. Tinha sido um tolo por ter me afastado tanto. — Eu te amo, pai. Eu estava com saudades.

— Eu pedi para sua mãe comprar as coisas que você gosta de comer. — Ele disse suavemente, e eu sentei no chão, absorvendo cada minuto dele vivo e falante. Chorando e sorrindo ao perceber que ele me conhecia mais do que imaginei, e que tinha acompanhado minha carreira também. Ele sabia praticamente todos os nomes das operações das quais liderei. Tinha acompanhado tudo.

Passamos horas conversando até a enfermeira dizer que era o momento do banho e da alimentação, acompanhei tudo de perto. Ele estava fraco, parecia uma criança dependente. O câncer inicial era no estômago, mas já havia tomado quase todo o corpo, e o médico já tinha parado com todos os tratamentos. Segundo ele, a medicina não podia fazer mais nada. Ana me chamou para levá-lo e eu o carreguei até a cama, estava leve, muito magro. Mas os olhos estavam tranquilos, tinham até um brilho e nos lábios um sorriso fraco. Deixei-o com ela e saí do quarto, tirando o celular do bolso.

Nina atendeu ao primeiro toque, parecia estar esperando por isso.

— Marco? — A voz era chorosa.

— Oi. Como foi a aula? — Desci a escada e saí para a área da piscina.

— Foi boa.

— Hum.... Nós precisamos de você aqui. — Sussurrei, já esperando pelos soluços dela.

— Porque? — Ela choramingou.

— Para se despedir.

Meu pai morreu dois dias depois, sentado na sua poltrona, olhando as terras que amou por toda a vida.