O Federal

Cris Araújo · Capítulo 27 de 63

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O Federal

Capítulo 26

 

Marcone

 

Bebi mais um gole do café preto, um vício que adotei aos

longos dos anos e ouvi o banco ao meu lado ser movido e ocupado. Mantive minha atenção na foto que Camille me enviara logo pela manhã, mostrando-me como tinha acordado. Os cabelos mantinham uma trança quase desfeita e os olhos meio inchados apresentavam um brilho matinal intenso. Senti uma pequena euforia ao ligar a foto ao fato de ela pensar em mim ao acordar. Ridículo, eu sei. Mas analisando cada parte delicada e marcada pelos lençóis do seu rosto, eu constatei que eu queria sim fazer parte de cada pensamento que ela desse ao longo do dia, não era isso que ela vinha fazendo comigo?

Ignorei a xícara onde o café jazia frio, o que me fez perder completamente o interesse e passei a repassar o almoço em que conheci os pais de Camille no último domingo, a maneira como fizeram questão de saber o quanto de dinheiro minha família tinha não me passou despercebido, era como se a condição social fosse o que eles colocassem em primeiro lugar, acima de tudo, inclusive da índole, que para mim era muito mais importante e muito mais válida. Entendi, até mesmo, o motivo do almoço: sondar se o homem pelo qual a herdeira estava interessada não era um fracassado, não pelo bem da garota, pelo que percebi. Passei a entender melhor o que Camille queria dizer quando falava em sufocamento.

— Minha mãe vai fazer um jantar legal lá em casa, Nina falou com você?

Desviei a atenção do celular e olhei para Benjamim, que havia se sentado ao meu lado.

— Sim. Há algum motivo especial?

— Ela quer reabrir o restaurante, precisa de algumas cobaias para provar o tempero.

Eu ri.

— O tempero dela é ótimo. — Era verdade, eu lembrava muito bem do sucesso que era o restaurante.

— Então, fechado? — Ele me olhava, desconfortável.

— Fechado.

— O plantão é seu hoje?

— Não. — Coloquei uma nota sob a comanda no balcão disposto a sair dali. — Não vejo a hora de ir para casa.

Ainda falamos sobre o vólei na praia e depois eu voltei à delegacia e à burocracia, assim que entrei no carro recebi outra mensagem.

 

De: Camille

Não encontrei nenhum filme legal em cartaz.

 

De: Marcone

Quer desistir do cinema?

 

Enviei, imaginando que talvez ela não quisesse me ver hoje. Travei as portas e liguei o motor deixando o carro em ponto morto.

 

De: Camille

Não sei, podemos decidir quando você já estiver aqui?

 

De: Marcone

Ok.

Camille

 

As mãos dele subiram pela lateral do meu corpo, espalhando calor e calafrios, meus seios queimaram esperando pelos seus dedos, mas a mão parou na minha cintura. Eu me sentia uma tarada, perto desse homem, perguntava-me de onde ele tirava tanto autocontrole.

— Seus hormônios vão acabar me matando. — Suspirou ele, encostando a cabeça no banco do carro, quando me afastei para olhá-lo.

— Vou ficar quieta da próxima vez. — Tentei me afastar, mas as suas mãos me mantiveram no mesmo lugar.

— Eu quero que você continue assim...

A barba por fazer, fez um caminho gostoso, enquanto ele beijava meu pescoço, fechei meus olhos, enfiando as mãos nos cabelos espessos, esperando que a boca dele encontrasse a minha. Eu não conseguia descrever como eu gostava do beijo desse homem, era como se minha boca fosse feita para se moldar a dele, tudo encaixava. Meu corpo ardia numa necessidade que me atormentava, a cada beijo, a cada vez que a mão dele me tocava de um jeito mais íntimo, tudo em mim, clamava por ele, por satisfação, por atenção. Eu não podia negar, estava apaixonada, louca. Toda noite, ele era o meu último pensamento, toda manhã o primeiro. Cada momento que passávamos juntos, cada mensagem, cada ligação, tudo isso me embrulhava num turbilhão de emoções que eu sabia nominar. Era amor, conexão emocional, entrega, e quando eu dormisse com ele pela primeira vez não haveria mais volta para mim.

— Que boquinha gostosa... — Todo o meu corpo ficou arrepiado, mexi-me como pude para me grudar mais nele. Os faróis do carro do meu pai clarearam o estacionamento, e embora eu soubesse que não podíamos ser vistos por causa das janelas insufilmadas, deitei minha cabeça no peito dele, meu cabelo chegou a cobrir meu rosto, por pouco tempo. Marcone colocou-os atrás da minha orelha e beijou minha testa.

— Sobe um pouco. — Pedi. — Ainda é cedo.

Ele consultou o relógio de pulso e me olhou rapidamente.

— Tudo bem.

Ainda trocamos alguns beijos antes de sairmos do carro de mãos dadas. Observei-o olhar em direção ao meu carro — um Volvo Xc60 — eu sentia falta da liberdade que era dirigir.

— É meu. — contei para ele, e paramos diante do carro. A aparência dele era assustadora para mim, o medo de dirigir era um dos traumas que aquele acidente tinha me deixado.

— Você costuma tentar dirigir? — perguntou ele, andando ao redor do veículo para ver todos os ângulos.

— Algumas vezes, mas, não consigo...

— Talvez você precise de um incentivo. — Disse ele, colocando as mãos no bolso e vindo para o meu lado novamente. — É uma sequela do acidente, não é?

Fiz que sim, ele me olhou mais atentamente, como se quisesse me dizer mais alguma coisa, por fim, estendeu a mão e saímos dali.

— Eu gostaria de tentar de novo, mas é tão ruim... — Lembrei-me da sensação esmagodora. — É como se eu fosse reviver tudo de novo... mesmo sem lembrar.

Marcone levou minha mão aos seus lábios e no olhamos pelo reflexo do espelho, enquanto o elevador se movimentava.

— Eu me pergunto porque você tem medo de lembrar.

Mais uma vez ele acertou em cheio, o polegar afagou levemente minha mão, não soube dizer o que se passava na cabeça dele, havia uma frustração evidente em sua expressão.

— Podemos tentar juntos se você quiser. — ofereceu ele com carinho.

Apenas assenti, assim que a porta do elevador abriu, vi Heloísa parada, provavelmente esperando para descer, por um momento ela pareceu não me ver, enquanto olhava o homem ao meu lado. Olhar não, comer com os olhos. Demorou alguns instantes antes que ela me visse ali, e quando isso aconteceu, ela voltou a encará-lo com um pouco mais de interesse.

— Camille. — cumprimentou, uma curiosidade crua estampada na cara dela.

Fiz um aceno completamente desgostoso e segurei com mais força a mão de Marcone.

— Que pena que não estava aqui para jantar conosco, sua mãe conversou algumas coisas comigo. — Abriu a bolsa e tirou um cartãozinho, estendeu-o para mim.

Meus olhos encheram-se de lágrimas com a possibilidade de Joice ter contato a ela sobre o que eu tinha falado sobre Enzo, vendo que eu estava parada encarando a mulher loira e bem vestida a minha frente, Marcone pegou o cartão e leu rapidamente.

— Porque está dando o cartão de um psiquiatra a ela? — ele perguntou e eu senti as lágrimas descerem, nunca senti um ódio tão cru e violento por alguém como sentia agora por essa mulher.

Heloísa encarou-o, os olhos azuis frios como gelos.

— Talvez você tenha que perguntar isso a mãe dela.

O que senti foi como uma punhalada nas costas, perguntava-me como Joice podia duvidar de mim a esse ponto e como uma noite tão linda tinha se transformado completamente em algo tão dolorido, era como se eu tivesse me tornado uma estátua: incapaz de encará-lo, completamente envergonhada das pessoas que faziam parte do meu mundo e que eram tão diferente do mundo dele.

— Tenham uma ótima noite.

Soltei a mão dele e cruzei os braços imediatamente, pedindo várias vezes mentalmente que ele não fizesse perguntas, eu não queria mentir, mas também não queria expor nada do lado feio da minha vida para ele, não para ele. Era como se algo puro fosse ser manchado por sangue, pelo meu sangue.

O clima que era tranquilo até ela aparecer, se tornou pesado, quase impossível. Havia um peso tão grande nos meus ombros que levantar a cabeça para olhá-lo não era algo fácil de fazer.

Sem dizer nada, caminhei para a porta, o reconhecimento da digital parecia estar demorando mais tempo que o comum. Eu sentia os olhos dele nas minhas costas, ultrajada pelas lágrimas e pela cena patética de Heloísa, em pouco tempo Enzo saberia que eu estava acompanhada por outro homem e o inferno retornaria. O meu inferno particular. Não soube identificar o que o silêncio de Marcone queria dizer, todavia eu sabia que ele não era idiota, muito pelo contrário, era inteligente e atento demais para não ter percebido que algo estava fora do lugar. Eu só me perguntava porque ele não tinha começado com as perguntas ainda.

Para meu alívio apenas Naiá estava a vista, pelo olhar carregado que me lançou as coisas realmente não eram boas.

— Você ainda me quer aqui?

A despeito do que imaginei, a voz dele soou baixa, suave.

Virei-me para olhá-lo, mesmo temendo encontrar desprezo ou qualquer outro sentimento negativo que por muitas vezes despertei em Enzo.

— Sim.

Até mesmo ele parecia aliviado por não encontrarmos ninguém. Esperei que Marcone sentasse na minha cama, para tirar os saltos e me aninhar ao seu corpo como fazíamos sempre que estávamos juntos aqui, dessa vez ele não mexeu em nada como costumava fazer, nem mesmo mencionou ver meus quadros.

— Sabe que precisamos conversar, não é? — perguntou com suavidade, afagando meu cabelo.

— Sim, mas não agora. — retruquei, fechando os olhos e aspirando o perfume dele, agora tão misturado ao meu.

— Diga-me apenas quem ela é então. — insistiu ele, mas não me incomodou realmente.

— Ela é amiga dos meus pais há muito tempo e mãe do...

— Do o quê?

— Fui noiva do filho dela.

Isso o incomodou, senti o corpo dele tensionar.

— Eu prometo conversar sobre isso, mas, por favor, hoje não. — Pedi, desejando voltar aos momentos antes de encontrarmos aquela megera.

Ele assentiu, embora contrariado e num humor bem diferente do de horas atrás, mesmo quando tudo que queria era esquecer o passado, ele vinha me lembrar que existia e que eu não o deixaria para trás tão cedo.

— Só não minta para mim, é algo que eu não sei lidar. — pontuou após um tempo, e nesse instante eu percebi que eu não era a única que podia sair machucada dessa história, ele também podia. Consegui enxergar certa vulnerabilidade, algo que ele nunca deixara a mostra antes, percebi que dentro do homem forte, havia outro machucado.

A verdade é que eu era uma verdadeira mentirosa, da pior espécie. Sempre menti para encobrir meus próprios hematomas, para manter a imagem impecável de homem de negócios sob nenhuma suspeita que Enzo nunca fora, eu mesma criei um monstro, fingi uma felicidade tão real que agora era difícil convencer até mesmo minha mãe do contrário, embora Liz nunca tenha acreditado.

— Me abraça.

Enquanto os braços dele me envolviam e o cheiro grudava em mim, senti certo medo de perder esse conforto, e essa tranquilidade, ergui o rosto, oferecendo minha boca a ele, ansiosa pelo gosto característico que ele tinha, se beijo podia viciar, eu, claramente, estava viciada. Consegui escapulir, de modo que fiquei por cima, as mãos dele subiram pelas minhas costas e uma delas parou em torno da minha nuca, enquanto a outra manteve meu cabelo afastado do meu rosto, reconheci nos olhos dele o que praticamente vinha transbordando em mim: luxúria.

Cada parte do meu corpo respondeu, cada pelo ficou arrepiado e involuntariamente meus olhos fecharam, mas ele nem mesmo tinha me tocado, não com as mãos, apenas o pensamento do que ele poderia fazer comigo me deixava assim, senti a boca em meu queixo e me movimentei para ser beijada, se o beijo dele me deixava assim, eu imaginava o que todo o resto faria.

— Você sente isso? — A voz rouca tão nublada de desejo, deixou-me ainda mais arrepiada.

— Sim... — Soei num fio de voz, completamente inebriada por ele.

Deixei que minhas mãos descobrissem o que havia por baixo da blusa branca que ele usava, os músculos duros e nem sequer um fio de cabelo, pelo tato eu pude visualizar o tanquinho perfeito que ele tinha.

— Onde você encontra tempo para malhar? — perguntei, sentindo a dureza dos músculos dele nos meus dedos, olhei para cima e vi a expressão debochada em seu rosto.

— Meu dia tem mais de 24 horas. — Ele brincou, e o olhar ficou mais intenso, o dedo correu por minha bochecha de um jeito suave e então ele ergueu o meu queixo. — Você não faz ideia do quanto está se tornando importante para mim.

Eu queria dizer o mesmo, mas minha voz permaneceu escondida em um lugar inalcansável por alguns instantes, perdida nas muitas emoções e no sentido que cada letrinha significava.

A porta foi aberta por Naia, e eu tentei sentar da forma mais decente possível.

— Vim ver se vocês precisavam de alguma coisa. — Disse ela, aparentemente alheia ao meu estado de espirito.

— Não, eu também já estou indo.

Marcone respondeu, e beijou de leve a minha testa.

— Está tarde, nós dois temos compromissos amanhã. — reforçou ele.

Assenti e nos despedimos.

— Foi uma boa ideia ter aparecido aqui agora. — Bufei, caindo na cama, Naiá sentou-se, depois de trancar a porta.

— Sua mãe passou muito tempo trancada no escritório com aquela mulher. — Disse baixinho, eu procurei uma posição melhor para me sentar e abracei meus joelhos.

— Eu sou burra por achar que ela me ouviria.

Naiá me lançou um olhar condescendente e postou-se atrás de mim, alcançou a escova no meu criado-mudo e passou a pentear os fios dos meus cabelos. Ela sempre fora muito cuidadosa comigo, muito mais do que era com minha irmã. Segundo Naiá, Liz sempre tivera vida própria, desde muito pequena, eu não.

— O que os médicos disseram aos meus pais sobre a minha cabeça? — perguntei, sentindo o relaxamento por todo o corpo conforme ela partia e penteava as mechas do meu cabelo.

— Eles disseram que você poderia ficar confusa, misturar acontecimentos, confundir realidade com coisas que não aconteceram.

Fechei os olhos com força, buscando, onde só havia o vazio, lembranças daquele dia.

— Não tente se lembrar, criança. — Ela sussurrou, como das outras vezes em que eu forçava minha mente para isso.

— Eu preciso.