O Federal
Capítulo 54
Marcone
O terreno cheio de pedras que me levou até o destino escrito
no pedaço do papel, ficava numa cidadezinha do interior do Rio de Janeiro chamada Magé, com exceção de conhecer a história da estrada de ferro construída pelo Barão de Mauá, eu não sabia nada sobre aquele lugar e nem conhecia ninguém. Não era distante, em menos de uma hora eu já estava passando pela entrada da cidade. Também não foi difícil encontrar a casa estranha e distante do centro, embora houvesse supermercados pequenos e farmácias por perto.
Estacionei o carro num lugar onde quem estivesse dentro da casa não me veria, o chão cheio de capim alto dava a impressão de que não havia ninguém para cuidar realmente do lugar. A casa era média, num estilo que denotava a herança histórica da cidade. O silêncio que na maior parte do tempo era agradável para mim, tornou-se agourento, ensurdecedor de algum modo. Conferi se a arma estava carregada e me aproximei da casa, antes de entrar observei os fundos, se havia mais de uma porta que desse acesso ao interior e opções de fuga para quem quer que estivesse ali dentro.
Para minha surpresa a porta da frente estava aberta, não fez barulho ao ser aberta, mas o assoalho sim, esse gemeu com a minha entrada. Na mesa baixa também de madeira, alguns esboços de desenhos estavam empilhados, junto com três lápis coloridos, sinal que a menina realmente estava aqui. Andei pela sala, observando ao redor. Apesar de velho e gasto tudo parecia muito limpo, uma janela grande estava aberta para que o vento entrasse e tomasse o espaço.
— Você conhece o meu papai? — Ouvir a voz da criança me fez paralisar por um momento, a inocência da pergunta me deixou um tanto quanto envergonhado por tudo que pensei em fazer com seu pai quando o encontrasse. Guardei a arma na cintura para que ela não visse e me virei devagar, absorvendo a imagem da menininha careca.
— Sim. — admiti e me aproximei. Eu gostava dela. Era uma garotinha especial. — Onde ele está? — Olhei em volta, tentando escutar qualquer barulho dos outros cômodos.
Isabelle estreitou os olhinhos antes de responder, como se soubesse que minhas motivações não fossem boas.
— Ele foi comprar tomates pra fazer molho.
Com a espontaneidade que já lhe era habitual, a menina se sentou no sofá. Tranquila, como se um inferno não se passasse na minha cabeça.
— Você gosta de macarrão com molho de tomate, tio Marcone? Meu pai faz e é muito bom.
— Sim, eu gosto. — Abaixei-me perto dela, com a cabeça quente e nervoso. — Eu estou procurando uma garota. Peguei o celular e procurei uma foto de Nina e mostrei à pequena. — Você a viu com seu pai?
Isabelle olhou a foto e os olhos se iluminaram.
— Sua irmã. — Fiz que sim, implorando a Deus ou a qualquer Ser Superior que a menina me desse uma pista, qualquer uma. — Não vi.
A porta da frente se abriu e eu me levantei, esperando que o sujeito me visse e quando isso aconteceu as sacolas de compras que estavam em suas mãos caíram no chão. Meu primeiro impulso foi de torcer seu pescoço, no entanto eu não ia machucá-lo na frente da criança.
— Onde ela está, Afonso? É assim que se chama, não é?
Com uma aparência lastimável, o homem me olhou permanecendo quieto como se o gato tivesse comido sua língua.
— Deixe minha filha ir embora. — o tom foi cansado, após um tempo e o medo de eu fazer alguma coisa com a criança verdadeiro. — Eles a machucaram? — perguntou, parecendo preocupado de verdade.
Pela janela, vi o momento em que Andrea se aproximou da entrada da casa, não demorou muito para que ela entrasse.
— Quem se machucou, papai?
Isabelle não devia estar ali, porra. Não devia. Andrea e eu trocamos um olhar e ela aproximou-se da criança com calma, e a tirou dali, todavia a menina só saiu quando o pai a encorajou.
— Eles a machucaram? — voltou a perguntar e minha raiva aumentou um pouco mais.
Eles.
— Onde está minha irmã? — perguntei, ignorando a pergunta
ridícula e sem sentido.
— Eu não sei, eu juro que não sei. — respondeu, nervoso, suando e... arrependido.
— A quem você se refere quando diz eles?
O sujeito suou mais e permaneceu quieto, cheguei a me perguntar se ele tinha realmente me escutado.
— Quem são eles? — Quase gritei dessa vez e a falta de resposta me fez perder a cabeça e avançar, segurando o infeliz pelo pescoço. A coloração do rosto branco e gordo tornou-se vermelho vivo.
— Alivie vai matá-lo. — Ouvi Andrea dizer, nem mesmo tinha percebido a entrada dela. — Alivie agora! — disse com mais força quando não me movi.
Soltei-o abruptamente de modo que ele se curvou tossindo.
— Ela fazia lanches para você. — Gritei, com raiva. Minha voz se sobrepondo às tosses estéricas. — Ela admirava você. — Lembrei-me da forma orgulhosa como Nina tinha se referido ao fato de Afonso trabalhar várias horas por dia para pagar o tratamento caro da filha. — Ela admirava você. — repeti, extremamente cansado.
Passei por Andrea e saí da casa, precisando desesperadamente respirar. A minha respiração estava acelerada, meus batimentos cardíacos da mesma forma. A sensação que eu tinha era que iria enfartar a qualquer momento, cansado de toda a merda ao redor. A esperança de ver minha irmã outra vez escorrendo por meus dedos a cada minuto que passava, e eles estavam voando. Procurei me acalmar e não olhar para a menininha dentro do carro distante dali. Voltei para dentro a tempo de escutar o que ele estava dizendo a Andrea.
— Era ela ou a minha filha. — Os olhos do infeliz diziam a verdade e as lágrimas que ele deixava escapar também.
— Dois homens. — Encarou-me. — Eu os abordei por ficarem muito tempo em frente ao prédio e no mesmo dia eles apareceram na porta da minha casa... ameaçaram a minha filha. — Olhou a porta agora fechada e depois me encarou novamente. — Era sua irmã ou Isabelle. Eu nunca quis machucá-la.
Ele estava curvado, como se estivesse carregando um grande peso nas costas.
— Nunca quis machucá-la — repetiu mais de uma vez, deixando-me nervoso outra vez.
— Porque não me disse? — inquiri.
— Eles disseram que saberiam se eu contasse a você. — Endireitou o corpo, ficando de pé.
— Você vai conosco, vai dar todas as características deles.
Afonso meneou a cabeça negativamente várias vezes, como se tivesse alguma alternativa.
— Vão machucar a minha filha... — suplicou.
— Você vai. E eu espero para o seu bem que não esteja mentindo.
*
Observei através do vidro a figura inconsciente de Camille, parecendo miúda e vulnerável demais presa a todos aqueles aparelhos, vê-la desse jeito era tornar real a possibilidade de perdê-la.
— Ela é jovem e saudável. Vai se recuperar. — Ouvi a voz de Alexandre, mas não olhei para o lado.
Permaneci atento a todos os detalhes que me diziam que o coração dela ainda estava batendo.
— A coluna dela... — O medo de que a bala deixasse sequelas irreversíveis era outra coisa a me atordoar.
— Não houve lesão — disse num tom sério. — O primeiro impacto da bala foi na sua mão, isso mudou de alguma forma o caminho dela.
Meneei a cabeça ainda custando a acreditar que ela tinha levado um tiro no meu lugar.
— Foi uma emboscada?
— Sim, ela só não devia estar lá.
— E quem fez isso?
— Está morto. — Olhei para ele pela primeira vez, encontrando pela primeira vez a semelhança que tanto Francine como Camille viam em nós dois. — Era importante? — referi-me ao voo que ele perdeu para cuidar da minha garota.
— Digamos que sim.
— Obrigado.
Ele assentiu uma vez.
— Já estive em seu lugar.
Embora não fizesse muito tempo que minha história cruzou com a dele, tudo que vinha acontecendo de maneira rápida demais dava a impressão de que anos já tivessem se passado.
— Acho inclusive que devíamos parar de nos encontrarmos em situações como essas. Um chope no final de semana é algo mais normal.
Concordei em silêncio.
Saí dali direto para meu apartamento, a fim de tomar um banho e ir para a delegacia. Ainda sem saber o que fazer com Isabelle, não podia simplesmente entregar a menina a vizinha e deixá-la à própria sorte, até porque se o que o pai dela dissera fosse verdade eles já deviam saber que eu estava com ele e tanto ela quanto o pai corriam risco também.
A caminho do meu quarto, detive-me a soleira da porta de Nina. Estava aberta, entrei, com saudades da encrenqueira, observando as coisinhas dela, sentindo uma dor tão insuportável a ponto de me fazer sentar na cama pequena, que parecia caber apenas ela.
A vida podia mudar drasticamente em um segundo. Num piscar de olhos.
Uma pontinha prateada chamou minha atenção no canto em que a cama estava encostada na parede embaixo da prateleira. Afastei os lençóis revirados para ver o que era e encontrei o celular dela, toquei a tela, mas não houve resposta: descarregado. Saí do quarto com o aparelho na mão e o conectei ao meu carregador. Deixei-o ali e fui tomar um banho, o momento em que o meu corpo me lembrava de que eu tinha dois furos de bala. Assim que saí da ducha, tomei os comprimidos para dor.
Ainda enrolado na toalha, liguei o aparelho de Nina e coloquei a minha digital, que ela tinha cadastrado para desbloqueio além da dela. Olhei imediatamente as últimas ligações — eu tinha sido o último contato, a sua última ligação. A primeira pessoa que ela pensou em pedir socorro. E até agora eu não havia feito nada para trazê-la de volta. O histórico de chamadas girava em torno de ligações da nossa mãe, Ben e eu. Pensar em Mara deixou meu coração apertado e ainda mais preocupado, eu não ficava um dia sequer sem entrar em contato com ela, mas o medo de como minha mãe iria reagir a tudo que estava acontecendo me fez ser cauteloso. Coloquei o celular sobre a mesa e esfreguei os olhos, o movimento fez o ferimento do ombro queimar. Peguei novamente o aparelho sem saber ao certo o que estava procurando nele, mas algo me chamava. Abri a galeria com as fotos e vídeos e acessei a pasta de arquivos recentes.
Abri um vídeo que estava no topo, o mais recente dos arquivos- — primeiro o rosto dela apareceu, os olhos inchados, a expressão provando que estava chorando, embora não fizesse som algum. Um nó que ameaçou me asfixiar se formou no meu estômago, esfriando-me completamente de dentro para fora e parou na minha garganta, quando me dei conta de que aquele vídeo devia ser do momento em que ela fora pega. O rosto de Nina sumiu quando ela ajeitou o aparelho na prateleira, deixando-o ali e caminhando para a porta do quarto com a intenção de impedir quem a estava forçando de entrar, provavelmente. O que não deu certo.
— Minha garota esperta. — Ela queria que eu soubesse quem eles eram. — Esperta demais.
O empurrão que o homem deu, fez minha irmã cair e bater a mão no alicate de unha, o que devia explicar a gota de sangue. Pausei o vídeo no momento em que ele abaixou-se para segurá-la. A tatuagem de caveira na costa da mão. Um reconhecimento que me gelou inteiro, corri para o quarto dela em busca do caderninho que raramente via longe de Nina e onde ela escrevera a placa do carro que nos seguia, agora eu tinha certeza.
Semanas atrás
— Eles estão nos seguindo? — Nina perguntou, parando de rabiscar no caderno pequeno e olhando de relance para trás, ela era esperta de um jeito que me deixava orgulhoso.
— Vamos descobrir agora. — Peguei a arma do porta-luvas e coloquei sob a minha coxa, enquanto reduzia a velocidade e parava no acostamento. Travei as portas e esperei.
O carro, um Sedan escuro, passou por nós numa velocidade moderada, de onde eu estava só pude ver a mão tatuada de quem estava no banco do passageiro e pendia meio para fora pela janela, a caveira desenhada tomava todo o dorso da mão, ainda tentei ver a placa do carro, mas só memorizei as três primeiras letras — LPT.
— Já vi esse carro perto da faculdade algumas vezes. — retrucou ela, olhando-me, depois me mostrou o que estava rabiscando. — Anotei a placa. — Deu sorrisinho convencido e fechou o caderno, recostando-se no banco.
— Garota esperta. — Coloquei novamente o veículo em movimento. — O carro fica apenas parado por lá?
— Eles devem ir buscar alguém que estuda na faculdade.
— Quero que me conte, caso continue acontecendo.
— Marco, não vai acontecer nada comigo. — Ela fez uma careta. — A universidade é segura.
— Lugar nenhum é 100% seguro.
Revirei o quarto em busca do caderno e o encontrei junto com seus livros da faculdade, fui passando as folhas rapidamente e só consegui respirar outra vez quando encontrei o número da placa escrita ali.
*
Pior que temer pela vida de alguém, era ter certeza absoluta de que algumas situações eram irremediáveis.
— Nós vamos encontrá-la. — Benjamin repetiu veementemente, como se quisesse acreditar em si mesmo. A pena que senti dele só não foi maior da que sentia de mim mesmo.
— Vou avisar a minha mãe.
Desde que Nina fora levada eu não atendia e nem ligava para Mara, não tinha palavras para contar a ela o que havia acontecido. Mas agora não tinha mais como esconder, tudo se tornava pior a cada descoberta. Olhei para a ficha do dono do carro na tela do computador.
Marck Tund.
A expressão severa do homem de meia idade não dizia nada para mim, o sobrenome dele sim. Dizia muito na verdade. Que talvez o corpo da minha irmã fosse o próximo a ser encontrado e provavelmente com alguma mensagem explícita para mim.
Uma vida por uma vida.
Não haveria pedidos de resgates, seria apenas uma execução, uma vingança relacionada a um caso de anos atrás. Marck era primo de primeiro grau de Will Tund e tão fanático quanto ele, após algumas buscas não foi difícil encontrar a ligação. Ele estava no Brasil quando Wiil foi preso, ele apareceu em algumas poucas fotos públicas do primo. Ignorei a vontade de vomitar e levantei abruptamente, fazendo a cadeira cair.
Eu só conseguia pensar que iria enfartar a qualquer momento, eram muitas emoções guardadas, que eu não conseguia colocar para fora. Minha vontade era gritar até perder a voz.
— Aonde você vai? — Andrea inquiriu preocupada demais, até mesmo ela parecia ter perdido qualquer esperança quanto a vida da minha irmã.
— Eu preciso ficar sozinho. — Saí dali desnorteado, como se cada esforço que fiz durante anos tivessem sido em vão.
Vi-me como num livro onde os vilões esperavam o momento certo de atacar, de mostrar que eles estavam ali, que eles prestavam atenção em silêncio, que algumas coisas aconteciam para o nosso mal e para o mal de quem nós amávamos. Só percebi que estava chorando quando ficou difícil demais enxergar o trânsito a minha frente, os carros nada mais eram que borrões vermelhos e amarelos, enxuguei o rosto com o pulso, sabendo exatamente para onde estava indo, embora duvidasse muito que o desgraçado estaria lá.
Entrei no prédio de pouca qualidade e segurança, havia apenas uma senhora de cabelos extremamente brancos na recepção estranha e mal decorada. De imediato mostrei o meu distintivo a ela, o que a deixou assustada e curiosa ao mesmo tempo.
Sem muita hesitação a senhora me deu a chave extra do quarto de Marck.
Deixei a arma pronta se fosse o caso, e abri a porta. A sala estava vazia, silenciosa. O último cômodo em que entrei foi o quarto e esse me deu uma ideia de quem ele era.
— Fanático do caralho!
Em todas as paredes havia uma foto de Will e num quadro os recortes de todas as notícias vinculadas aos assassinatos dele. A certeza que minha irmã estava com ele me deixou sem chão, sem ter mais certeza do que aconteceria com ela ou até mesmo se ela ainda estava viva. Relembrar o estado deplorável que as garotas estavam quando eram encontradas, deixou meu coração gelado. Imaginar qualquer um dos abusos acontecendo com Nina me tirava o controle, o raciocínio.
Abri a porta do armário e retirei o notebook de lá, havia fotos de Nina, do prédio e dela conversando com Afonso. Sinal de que o homem estava falando a verdade, eles acompanharam a rotina dela, e de alguma forma souberam que eu não estaria em casa naquele dia e naquela hora.
Vasculhei tudo em busca de qualquer indício de onde ela pudesse estar, mas não encontrei realmente nada que me levasse a algum lugar. Os arquivos eram apenas fotos, não havia e-mails trocados, conversas paralelas, apenas fotografias.
Voltei para sala quando escutei o ruído de porta sendo aberta e encontrei o infeliz parado a soleira, como se soubesse que alguém estava ali. A aparência e porte físico dele fez-me lembrar de outra pessoa, o corte de cabelo, os olhos iguais aos de Will continham o mesmo brilho cruel.
Com calma, ele fechou a porta atrás de si, parecia completamente tranquilo quanto a eu estar ali.
Como se soubesse.
— Não vai me matar enquanto não souber onde sua irmã está, não é? — O sotaque deixava a voz ainda pior. — Confesso que estou impressionado. Como me encontrou?
Sem paciência alguma para qualquer uma de suas perguntas, eu mirei a arma na sua cabeça, sem saber ainda se teria coragem de matá-lo se ele era a única pessoa que podia me dizer onde Nina estava.
— Cadê ela? — inquiri.
Marck me estudou por alguns segundos.
— O desespero que sentimos quando algum ente querido morre é... terrível. — filosofou, com evidente prazer. — Mas, o que você está sentindo é infinitamente pior. O estresse antes de ter um fato concretizado, a esperança misturada ao medo de achá-la viva... ou morta, isso é pior. — Coçou o queixo ainda no mesmo lugar.
Ele tinha razão. Era exatamente isso.
— Claro que o fato de você ser o culpado deixa as coisas piores.
— Fala onde ela está, porra! — Gritei, atingido pelas palavras que eu dizia a mim mesmo com frequência.
O culpado era eu.
— Sabe que não vou dizer. — A calma num momento como esse era pior que a violência, o que Marck demonstrava era que não tinha nada a perder.
Eu sim.
Demonstrando uma fraqueza que eu não queria, encarei o desgraçado.
— Ela está viva? — O meu tom fez o homem sorrir, gostando do meu tormento.
Houve um momento de tensão e então ele tirou a própria a arma da cintura, no entanto ao contrário do que esperei ele mirou na própria cabeça.
— Você nunca vai saber.
O som da bala junto com o tombo do corpo dele no chão, manteve-me sem reação por muito tempo, o que me tirou do estado letárgico foi o toque do celular dele, caminhei até o corpo inerte, vendo o sangue se espalhar pelo assoalho e encontrei o aparelho em um dos bolsos.
Atendi a ligação e a voz do outro lado da linha me fez olhar de novo para o morto. Percebendo somente agora porque todos os meus alertas gritavam contra um sujeito em especial. Entendendo porque eu o reconhecia mesmo sem saber de onde, o quebra-cabeça se encaixando perfeitamente. Os motivos pelos quais eles sabiam da viagem. Porque sabiam da minha irmã.
— Ele está morto. — A raiva falou por mim, ouvi o silêncio sepulcral do outro lado da linha ciente de que Erick reconheceria a minha voz. Após um engolir em seco audível a chamada foi encerrada.
Após uma ligação minha para os civis, o prédio foi tomado pela polícia, dei o meu depoimento e saí dali. Questionei minha confiança em Andrea pela primeira vez, meu lado racional me dizia que ela nunca armaria contra mim e estava sendo tão enganada quanto eu. A minha parte irracional, essa dizia que eu não devia confiar em ninguém.