O Federal
Epílogo
Marcone
Dois anos depois...
Virei a poltrona para a janela, como geralmente meu pai fazia quando estava vivo. Ele passava muito tempo nesta mesma poltrona olhando essas terras, devo admitir que com o passar do tempo passei a entender o que tanto o fascinava aqui.
A paz.
Fazia dois anos que saí da polícia e passei a viver aqui, longe de toda loucura que era o Rio de Janeiro e a maioria das capitais do Brasil, durante esse tempo, permaneci ao lado da minha mãe em todas as decisões tomadas com relação a fábrica, tudo estava ampliado, além da sede aqui em Minas, agora havia um projeto em andamento para abertura de outra fábrica em Ouro Preto, e eu assumiria por lá.
Peguei o celular que vibrava com uma mensagem de Andrea, ela parecia ter colocado finalmente a cabeça no lugar. Ela era a única coisa que me fazia sentir falta da polícia. A nossa cumplicidade, tudo que já tínhamos passado juntos, ela era uma parte ácida e doce da minha vida.
— Você não ia me contar, não é? — inquiri, quando percebi que
Andrea iria embora sem sequer se despedir de mim, dois anos atrás, depois de uma das piores operações que já participei na vida. Não pelo perigo que era estar lá e sim por tudo que eu perderia se eu não voltasse para casa.
— Sabe que sou péssima com despedidas...
— Para onde você vai, Andrea?
— Gastar a fortuna que herdei. — Ela fez graça e eu me aproximei, tinha muitos motivos para agradecer a ela, inúmeros motivos.
Assim como eu, ela também resolveu sair. O que aconteceu com Erick, acabou deixando-a completamente cética com relação a algumas coisas. Principalmente dentro da polícia.
Abracei-a, já sentindo sua falta, pensando seriamente nós nunca tínhamos passado um dia sequer sem nos falarmos, sem nos vermos.
— Obrigado por tudo, Andrea.
Essa tinha sido a última vez que nos vimos e raramente eu a encontrava no celular, era como se Andrea realmente estivesse se reconstruindo, se adaptando a uma outra vida.
Longe da polícia e longe de mim.
De: Andrea
Está tudo bem. Eu espero que seu filho seja menos insistente que
você.
Foi impossível não rir, a mensagem ácida por conta das três ligações que eu havia feito e que ela não atendera a nenhuma.
De: Marcone
Só queria ter certeza que está tudo bem.
Pela janela vi Camille caminhando de mãos dadas com Isabelle, e Bella ao lado das duas. Depois de muito fazer rodeios o pai da menina tirou coragem do amor que sentia por ela para me pedir um emprego, depois de um ano e meio de tratamento a menina estava praticamente curada, mas ainda havia riscos de a doença voltar. Sorri ao me lembrar da ligação de vídeo que nós fizemos, quando ela recebera alta do tratamento.
— Eu queria que você me visse com cabelo, tio.
Até mesmo a lembrança fazia meus olhos encherem de lágrimas.
A menina era extremamente especial. Ela e o pai estavam em Minas Gerais desde que o tratamento dela chegou ao fim, Afonso estava trabalhando na produção da fábrica. Meu pai já tinha ajudado muitas pessoas da região quando estava vivo, isso explicava a lealdade que esse povo tinha por ele e minha mãe. De alguma forma eu me sentia bem em dar assistência aos dois, com todo o dinheiro que Estevan deixara para mim, precisava usar ao menos um pouco para ajudar alguém.
Minha mulher e a menina acenaram para mim. A barriga de Camille estava cada dia maior, embora algumas pessoas ainda não percebessem. Mas para mim era evidente, eu conhecia cada pinta que ela tinha no corpo.
Grávida há três meses.
E praticamente sem sintoma nenhum. Sem enjoos matinais. Sem cansaço excessivo, todavia parecia estar sempre de tpm. Tudo a deixava brava, pelo menos o que eu fazia, é claro. Camille acariciou a barriga distraidamente, ainda era surreal que algo tão precioso estivesse crescendo dentro dela, um fruto de nós dois. Do amor que sentíamos um pelo outro. Ela não quis engravidar rápido, embora não fôssemos cuidadosos de verdade, ela esquecia de tomar os remédios para evitar, e eu achava que tinha até demorado para acontecer.
Ela queria viajar, trabalhar, pintar e me amar. Era o que Camille costumava dizer e eu concordava. A minha garota era muito jovem quando nos casamos, e ainda era. Ela merecia viver plenamente, fazer tudo o que tinha vontade antes de ter um filho meu.
Um filho.
Eu estava louco para saber se era menino ou menina. Nina já estava dando ideias de temas e brincadeiras para fazer no chá de revelação, revirei os olhos ao lembrar da serelepe. Minha irmã não mudava. Ela estava estudando em Belo Horizonte, fazendo novos amigos, vivendo novas experiências, aproveitando as fases da vida, isso incluía seus términos e reconciliações com Benjamin. O infeliz era cheio de defeitos, todavia ele gostava realmente dela, eu admitia isso.
— Vá dar um beijo nele, seu pai já deve estar chegando.
Virei-me para a entrada do escritório e vi Camille dar passagem para Isabelle entrar, a garotinha tinha crescido um pouco, os cabelos extremamente pretos batiam no seu queixo, cheios de cachos. Curiosa como sempre era quando entrava aqui, ela primeiro mexeu no que não devia antes de vir me dar um beijo de tchau.
— Sabe, tio. Hoje a tia Cami deixou que eu desse aulas no lugar dela. — A menina passou a tagarelar de modo doce com uma expressão estranha. — Acho que ela está cansada por causa do bebê que está na barriga.
Camille e eu rimos.
— Vamos lá, Belle. O beijo e tchau. — O tom maternal que minha mulher usou para falar com a menina me deu uma pista de como ela seria com nossos filhos. A ideia me agradou.
Isabelle me deu finalmente o beijo e em seguida saiu correndo, como já era o costume.
— Você passou o dia todo aí? — inquiriu ela, e veio se sentar no meu colo, algo que seria praticamente impossível se a barriga estivesse realmente grande.
— Não — respondi, levantando o tecido fino da sua blusa para ver a barriga redondinha que se formava. — Tive que ir à cidade e fui a fábrica também.
Introduzi os dedos pelos cabelos fartos, ainda mais compridos, embora ela tivesse aparado as pontas uma semana atrás, a cor cobre estava mais evidente, uma mudança natural que eu gostava. A cor pouco comum em conjunto com os olhos mais expressivos que eu conhecia, deixavam-me sempre bobo quando eu a olhava. Mal podia esperar para vê-la com a barriga maior.
— Me leva para o quarto no colo. — Ela fez um biquinho gostoso, era melhor do que estar irritada, pensei comigo mesmo.
Cinco anos depois....
Parei o carro na vaga de sempre e caminhei para dentro da escola de ballet, acho que todos ali sabiam exatamente a hora que eu chegava para deixar e buscar minha filha, sempre com dez minutos de antecedência, como se eu sempre tivesse sido um homem pontual, mas quando se tinha crianças em casa tudo mudava drasticamente. Ainda tive tempo de ver o final da aula, esse era um dos motivos para chegar sempre antes, admirar um pontinho cor de rosa dançando no salão grande.
Alícia era a criança menor nesse horário, aliás, horário era outra coisa que me enlouquecia ultimamente.
Horário de aula.
Horário do ballet.
Horário do banho.
Havia hora para tudo.
— Papai!! — A pequena e serelepe arteira, como a tia, sempre me via e vinha correndo para que eu a pegasse no colo.
Eu diria que esse momento tinha se tornado um dos preferidos do meu dia, havia outros também. Chegar em casa e encontrar a minha mulher, era um exemplo.
— E então, meu amor, como foi o ballet? — A pergunta de sempre.
— Foi bom, papai. Eu dancei sozinha hoje.
— Sério? — Beijei a bochecha macia, equilibrando-a em meu colo.
Ela era extremamente parecida com a mãe. Tudo. Os olhos, o formato do rosto. Só os cabelos que não tinham herdado o tom cobre, eram mais parecidos em cor e textura com o meu.
— Tchau, tia Luci — brinquei, sabendo que minha filha me imitaria, num tom muito mais alto.
— Tchau, tia Luci — foi o que ela fez, enquanto acenava efusivamente.
Saímos, enquanto ela tagarelava sobre ter ficado com vergonha de dançar sozinha na aula. Alícia estava tendo uma aula a mais na semana por causa das apresentações de final de ano.
— A gente vai buscar a mamãe? — inquiriu ela, observando enquanto eu fazia o retorno no estacionamento.
— Sim, meu amor.
Tínhamos nos mudado para Ouro Preto há dois anos, por causa da filial da fábrica que abrimos aqui e também por causa da escola de arte de Camille, agora ela tinha a própria escola. Além de ser um fenômeno no mundo da arte, seus quadros estavam nos maiores museus do mundo. Todavia ela nunca mostrou o rosto, era a anônima mais famosa no meio artístico.
Camille costumava dizer que amava sua vida normal, ficar famosa só mudaria isso e traria exposição para todos nós.
Do carro pude vê-la conversando com Barbara, sua sócia e uma das poucas amigas que Camille tinha aqui na cidade. Minha garota tinha se transformado numa mulher maravilhosa, embora a menina que me encantara estivesse dentro nela, fazendo com que eu me apaixonasse cada dia mais. Por ela e pela família que nós tínhamos.
— Ela tá demorando, papai. — Alícia reclamou, impaciente, às vezes eu não sabia de quem tinha herdado esse temperamento. Camille reclamava que eu era exatamente igual a nossa filha, principalmente pela manhã, quando as duas me tiravam do sério na hora de levantar cedo. — A tia Barby tá namorando com o vizinho nosso.
Dei risada da forma como ela falou e meneei a cabeça, ainda observando minha mulher de longe.
— E ela conta tudo a mamãe.
Ri de novo.
— Você é fofoqueira e terrível como sua tia.
A menina franziu a testa sem entender e voltou a olhar para a mãe, que dessa vez caminhava para o carro. Os olhinhos da minha pequena chegavam a brilhar e um sorrisinho imperceptível surgiu na boca pequena quando Camille entrou no carro.
— Amor. — Ela beijou de leve minha boca e depois se virou para olhar nossa filha, sentada na cadeirinha no banco de trás. — Filha.
— Oi, mamãe.
Durante todo o caminho até em casa, minha filha contou para nós como seria a apresentação de final de ano e que ela iria dançar sozinha.
— Mas só se eu tiver coragem, papai. — Era o que ela repetia o tempo todo.
Assim que entramos em casa, Bella veio nos receber como acontecia sempre, embora não tão efusivamente como antes. Ela já estava envelhecendo, com menos energia. A nossa casa era grande, Camille queria ter um quintal já que não estávamos mais na fazenda. Queria ter plantinhas para regar e um pouco de verde. No projeto incluímos um jardim de inverno enorme na sala. Além da luz do sol, a ideia de verde dentro de casa dava um ar de tranquilidade e paz.
Almoçamos os três na cozinha, geralmente tanto Camille quanto eu trabalhávamos apenas na parte da manhã, nossa família sempre viria antes de tudo. A primeira coisa que minha mulher me disse quando nossa filha nasceu é que ela nunca deixaria nosso bebê sob os cuidados de alguém que não fosse um de nós dois. A relação dela com os pais nunca melhorou, embora em um momento ou outro tanto Joice quanto Augusto tentassem se aproximar, ela não os rejeitava completamente, mas também não os tinha como prioridade.
Naquela noite, enquanto eu colocava minha filha na cama para dormir, me dei conta de que não imaginava que um dia viveria isso. Segurei a mãozinha pequena e cheia de pulseirinhas coloridas que ela não tirava por nada, questionando-me se eu merecia realmente tudo que eu tinha: uma esposa linda, uma filha adorável, amor, era o que mais tínhamos. Várias coisas do passado ainda me machucavam, machucavam bem lá no fundo, na parte mais íntima que havia dentro de mim, e seria sempre assim. Mas eu era extremamente grato e satisfeito com o que tinha agora, o meu final poderia ter sido completamente diferente do que eu vivia agora se eu recusasse o que tinha sido oferecido a mim pelo destino. Se eu deixasse o medo e o receio falarem mais alto.
Umas das coisas que mais tinha mexido comigo na carta de Estevan, anos atrás, foi a forma que ele usou para me dizer que eu tinha feito sua filha feliz enquanto ela respirava.
Enquanto ela respirava.
Enquanto ela estava viva.
Após a morte nada mais podia ser feito. Os mortos não escutavam os eu te amos que eram deixados no caixão, muito menos sentiam o cheiro das flores que eram colocadas lá e carregadas pelo vento.
Depois que o coração parava de bater, nada mais era visto. O funeral era para os vivos e não para os mortos.
E era essa constatação que me levava a fazer tudo o que podia para deixar Camille e Alícia felizes, colocando-as sempre em primeiro lugar. Aproveitando de cada respiração que elas dessem, de cada batida do coração, usufruindo de cada momento, entendendo que tudo podia mudar num segundo.
— Ela demorou para dormir? — Ouvi a voz de Camille e beijei a mãozinha de Alícia antes de me afastar dela.
Fiz que não.
— O que foi, então? — Ela me sondou quando me aproximei e a abracei, enterrando o rosto no pescoço perfumado.
Eu a amava. E era fácil como respirar.
— Estava pensando que eu amo muito vocês — admiti, segurando o queixo delicado, os olhos febris, ariscos e cheios de brilho me encararam de volta. — Não consigo imaginar um futuro diferente desse que temos.
— Foi escrito para ser assim, exatamente do jeito que é. — Ela ficou na ponta do pé para me beijar, cada beijo dessa mulher me deixava mais enfeitiçado. — Você precisava ser meu e eu precisava ser sua, exatamente do jeito que é...
Fazendo uma retrospectiva de tudo que vivemos, eu me dei conta de que minha mulher tinha razão.
Nas linhas do destino, o nosso final já estava escrito.
Escrito para ser exatamente assim.
Beijei a boca carnuda, admirando o que o tempo tinha feito conosco, ele só tinha tornado tudo mais intenso.
O amor e o desejo que eu tinha por essa mulher pareciam não ter fim.
— Eu te amo. — repetiu ela, oferecendo novamente os lábios.
Eu também a amava.
Com a minha própria vida.
Cris Araújo vive no interior da Bahia. Além de ser uma leitora
ávida e apaixonada pela escrita, é também fascinada por música,
filmes e seriados. Começou a ler aos doze anos, e a partir daí a
paixão pelo universo da literatura aconteceu. A escrita também
começou cedo, caneta e papel sempre foram seus companheiros
inseparáveis. Em suas histórias tenta esboçar tudo o que gosta de
encontrar nos seus filmes e livros prediletos: histórias capazes de
gerar identificação entre os leitores e os personagens, conexões essas baseadas na construção de personalidades cativantes, fortes
e sobretudo reais.
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[1] A roupa foi desenvolvida para aprimorar a atuação de cachorros durante um resgate, o dispositivo facilita a comunicação entre cão e treinador através de sensores, câmeras mesmo a distância.
[i] A garota é sua? (Tradução de expressão em espanhol)
[ii] Sim (Tradução de expressão em espanhol)
Você terminou O Federal
Cris Araújo