O Federal
Capítulo 1
Rio de Janeiro
Dias Atuais...
Marcone
...150, 151, 152... continuei contando mentalmente a
sequência, enquanto levantava o peso. Suar na academia, ou durante uma corrida me dava o privilégio de manter minha mente quieta por alguns momentos. Flexionei mais uma vez os braços e travei o Power Rack, antes de colocar o equipamento de volta ao lugar. Caminhei até o banco, onde estava minha mochila e peguei minha garrafa quase vazia de água, virando-a em seguida na boca, peguei o iphone do bolso lateral e retornei à ligação de Andrea de hoje mais cedo.
— Até que enfim, federal. — A voz cheia de humor me fez sorrir.
— Imagino que tenha me ligado porque tem alguma coisa para mim, não é? — retruquei, fechando a mochila e saindo da academia direto para o elevador. Apertei o meu andar e esperei pela resposta dela.
— Sim e não. — Pausa. — Que tal você pagar meu almoço e a gente ter uma conversa? — ela brincou e eu suspirei achando graça.
— Ok, Andrea — anuí, saindo do elevador e tirando as chaves do bolso para abrir a porta.
— Como está Nina? — perguntou.
— Está instável, é a primeira vez que ela lida com o luto. — Fazia quase quatro meses que o meu pai tinha morrido, durante esse período descobri que a fábrica estava mais cheia de problemas do que imaginei, o afastamento temporário que solicitei ao meu departamento teve que ser prolongado devido a tudo que eu ainda teria que resolver, estava me dividindo entre Minas e Rio de Janeiro por causa de minha mãe e de Nina.
Eu era agente da polícia federal há sete anos, vivi a maior parte desse tempo me mudando de estados e superintendências, ganhei visibilidade fora do país por liderar um número considerável de operações da Interpol e ter sucesso em todas elas. Ganhei muitos tapinhas nas costas e muitos inimigos também, trouxe fantasmas e sombras para a minha vida e para vida das pessoas que eu amava. O sangue que eu tinha nas mãos ainda me assustava, não era uma profissão fácil, mas eu gostava do que fazia, a adrenalina que era estar em campo, a frieza para seguir os passos dos criminosos mais improváveis, o gosto da vitória ao fechar cada cela com um monstro dentro. Tudo isso me excitava.
— Conversamos durante o almoço, então.
Caminhei para o meu quarto, a falta de barulho indicava que minha irmã ou estava dormindo, ou já tinha saído para a faculdade. A primeira opção era a mais concreta. Nina tinha vindo morar comigo menos de um mês após a minha transferência de Brasília para cá, sem me consultar, é claro. Numa bela manhã eu estava sentado na minha sala quando recebi uma mensagem da serelepe me dizendo para ir buscá-la no aeroporto porque já estava em solo carioca.
Revirei os olhos com a lembrança.
Segundo minha irmã estávamos a muito tempo afastados e gostaria de me conhecer de verdade, devo dizer que a experiência tinha saído melhor do que imaginei. Ela era terrível, chata, a pessoa mais intragável que andava pelas ruas do bairro. Isso não era exagero. Mas ainda assim minha melhor companhia. Na época, meus pais acharam que não ia durar, que logo ela voltaria atrás por não se adequar à minha rotina, mas ela ainda estava aqui, eu não a deixaria saber que eu gostava disso nem sob tortura, mas eu gostava, e não imaginava mais o apartamento vazio sem ela para me atormentar.
Deixei a mochila sobre o tapete branco e despi a camiseta e o short encharcados de suor, embolei tudo e joguei no cesto de roupa suja como se fosse uma cesta de basquete e fui para o banheiro, passei um bom tempo embaixo do chuveiro e quando resolvi sair me senti inteiro de novo. Vesti calça e camisa pretas e saí do quarto. Nina estava sentada num dos bancos do balcão, bebericando um suco verde que devia ser indicação de alguma blogueira do youtube.
Eca.
— Bom dia. — Beijei o topo de sua cabeça e analisei seu rosto. Estava corado e menos grave que ontem. — Dormiu bem?
— Sim. — Ela sorriu e apontou para uma caçarola vermelha. — Tem ovos cozidos ali, ainda estão quentes.
Caminhei até lá e escorri a água da panela na pia, coloquei os quatro ovos num prato e sentei ao seu lado.
— Não precisa ir me buscar hoje na faculdade, vou para a casa de uma amiga. Vou almoçar lá — avisou, dando um último gole na bebida indigesta.
— Tudo bem — anuí. — Só me avise quando for sair de lá. Não quero você andando por aí sozinha a noite. Ela estuda com você? — perguntei sem querer ser invasivo ou chato.
— Não, nos conhecemos na biblioteca. Ela está se formando já. Vai a universidade poucas vezes.
— Onde ela mora? — arrisquei.
— Ah, não banque o federal comigo. — bufou, colocando uma mecha de cabelo curtíssimo atrás da orelha e pulando do banco.
Não havia dúvidas que eu tinha razão sobre ela ser intragável.
— Tenho que ir, ou me atraso para a primeira aula. — A serelepe saiu, jogando coisas na mochila e batendo a porta.
Ignorei a irritação e terminei de descascar os ovos para comer. Outro momento em que ficava em paz, a concentração na comida impedia que os pensamentos voassem para outros lugares, ou até mesmo para o passado, que vez ou outra ainda vinha me atormentar. Terminei a refeição e fui até o home office, era hora de encostar o advogado na parede. Fechei a porta atrás de mim e sentei na cadeira giratória. Abri o macbook e fiz uma chamada de vídeo para Antônio Oliveira. A cara dele apareceu relaxada no outro lado da tela.
— Marcone. Como vai? — inquiriu.
— Eu gostaria de estar melhor, Antônio. — retruquei. — Tem alguma novidade para mim? — Provavelmente a resposta era não, pensei comigo mesmo coçando o queixo.
Ele tinha se tornado o principal suspeito dos desvios na fábrica, não que houvesse algum fato concreto em que me baseasse, mas eu não conseguia confiar, o jeito que ele rondava a minha mãe, sempre entretendo, sempre oferecendo, sempre por perto, ouvindo, explicando, mostrando apenas uma parte da história. Eu já tinha lidado com pessoas como ele, a ganância os entregava.
— Estou fazendo o que posso par..
— Não precisa fazer mais nada — eu o cortei, sem paciência. — Deixei você cuidar disso por causa da minha mãe, porque ela confia em você. Mas, vou fazer as coisas do meu jeito a partir de agora.
— Do seu jeito?
— É, do meu jeito.
— E como acha que vai fazer isso? — A voz irônica me surpreendeu, mas considerando que não estávamos no mesmo ambiente, a evidente coragem dele estava explicada. — Você não tem ideia de como as coisas funcionam por aqui...
— Você tem razão. — concordei. — Mas, fique tranquilo. Eu sei o que procurar.
— Pretende resolver tudo daí?
Ignorei sua pergunta e encerrei a vídeo chamada.
Saí de casa para encontrar Andrea quando já passava do meio dia, depois de tagarelar uma enorme lista de restaurantes que poderíamos ir, resolveu pedir algo em seu apartamento mesmo. Ela abriu a porta para mim e consertou óculos de grau antes de me dar um abraço e ir catando os livros que estavam sobre o sofá.
— Senta aí. Já volto. — Desapareceu no corredor e eu caminhei até o aparador perto da mesa de jantar de quatro lugares, que ela praticamente me obrigara a comprar uma igual, atraído pelo porta-retratos que estava ali ao lado de mais três.
— Às vezes ainda acho que ela vai me ligar, ou me mandar uma mensagem me pedindo opinião sobre que roupa vestir para sair com você. — Andrea tinha se reaproximado e eu não percebi. Senti algo como uma pancada no peito com as palavras dela, por um tempo eu também esperei.
Esperei que meu celular tocasse e a foto dela sorrindo aparecesse no visor, esperei que o perfil do aplicativo de mensagens dela aparecesse online e ela respondesse todas as mensagens pedindo perdão que eu enviei durante dias seguidos.
Quatro anos sem ela. Sem Sam. Sem sua doçura, sem sua delicadeza.
Continuei olhando a foto, duas mulheres loiras fazendo careta para a câmera.
Eu conheci Andrea na faculdade, nos tornamos amigos desde então. Ela era a garota estudiosa e esquisita que sentava sempre na primeira fileira de cadeiras e eu o garoto desorientado que não fazia ideia do porquê estava escutando todas aquelas loucuras dos professores. Ficamos próximos rapidamente e nos separamos depois que nos formamos para nos reencontrarmos dois anos depois, quando me mudei para Brasília e descobri que ela era agente da mesma superintendência que eu. Foi uma grata surpresa. No mesmo dia, ela me convidou para o aniversário de uma amiga e eu conheci Samanta, não sei se foi amor à primeira vista. Mas assim que a olhei, ela mexeu comigo.
A beleza, o senso de humor sagaz, e sobretudo a delicadeza. Eu me apaixonei muito rápido.
Depois de um ano com ela, tive certeza que a queria para o resto da vida. Oficializamos o noivado e eu prometi que sairia do campo, que depois do último caso que estava investigando sairia da polícia federal e iria trabalhar na minha área de formação.
Bom, as coisas não saíram como nós planejamos e ela foi morta num atentado contra mim. Eu estava vivo hoje por que ela tinha morrido no meu lugar, e isso me assombrava ainda. Não tive escolha a não ser superar a dor, a agonia que não me deixava. Encontrei todos que estavam envolvidos na morte dela, um a um. E desde então eu nunca mais parei, acho que acabei endurecendo com as circunstâncias, fiquei cara a cara com muito criminoso temido no mundo e nunca vacilei. Sempre fiz o que tinha que fazer.
— Ela é uma lembrança boa. — sussurrou, retirando a fotografia de minhas mãos, um sorriso suave apareceu em seus lábios e o dedo indicador deslizou pela imagem de Sam.
No início não falávamos dela sem chorar, foi um período que desejei morrer para aplacar a dor e o remorso. Acho que por isso me tornei tão destemido, sem medo de nada. E no meio da dor, fizemos um pacto. Encontrar todos eles. Por trás dos óculos de grau e do ar atrapalhado, Andrea era uma fortaleza. Ela quis se vingar junto comigo e foi até o fim. Nos aproximamos mais depois da morte de Sam, ela era a única parte viva da minha garota. Era quem me fazia ter certeza de que Samanta tinha sido real, que os momentos que tivemos foram de verdade.
— O que você quer comer? — Andrea colocou a fotografia de volta ao lugar e entrelaçou meu braço me puxando para a cozinha pequena com a voz calculadamente animada.
— Achei que a essa hora você já teria pedido. — Sentei na cadeira próxima a geladeira cheia de ímãs engraçados e a observei se movimentar em busca do celular.
Algumas coisas nunca mudavam, e a impressionante falta de organização dela continuava a mesma.
— Onde está o Caio?
— Na casa da mãe dele, está estranho há alguns dias. — Ela finalmente achou o celular dentro da cesta onde ficavam os pregadores na área de serviço.
Fiquei quieto e evitei alongar a conversa sobre o namorado babaca dela.
— Pedi yakissoba, deve chegar em quarenta minutos. — Colocou o celular sobre a geladeira e saiu da cozinha, voltou minutos depois trazendo o notebook.
Andrea sentou-se ao meu lado e ligou o aparelho.
— Não achei nada sobre a garota. — objetou ela, digitando, sem olhar para mim.
— Não conseguiu entrar no sistema do hospital? — perguntei, contrariado.
— Sim, mas não há nome, nem destino da transferência. Apenas o registro de óbito, porém sem informações sobre a identidade do cadáver.
— Quantos óbitos? — inquiri.
— Apenas um. Ela está viva, só não a localizei ainda.
— E a polícia rodoviária?
— Não estão investigando nada sobre isso, provavelmente é mais um caso que caiu na estatística de acidente por descuido e falta de atenção.
— Havia mais alguém lá... — sibilei quase para mim mesmo.
Andrea girou um pouco o corpo para mim e sorriu de leve.
— Você fez o que tinha que fazer... salvou a vida da garota. Por que está tão mexido com essa história?
— Acho que o fato de ela estar sangrando dentro de um carro me fez lembrar de quão vulnerável Sam ficou quando morreu, e eu não estava lá. — Passei as mãos no rosto e a olhei. Um olhar conciliatório foi depositado em mim. — Não consigo esquecê-la... lembro dos olhos dela.... Ela estava com medo de alguma coisa ou de alguém. Gostaria de vê-la novamente...
— Você vai, nós vamos encontrá-la... Sempre há uma pista. — Ela sorriu e tirou sarro de mim. — Você me ensinou isso, lembra? — Deu um aperto no meu ombro e voltou a digitar, adquirindo um ar profissional.
Andrea era bonita, tinha cabelos loiros que geralmente estavam presos num rabo de cavalo ou num coque frouxo e que chegavam até um pouco abaixo dos ombros. Eu os vi soltos poucas vezes. Era o típico mulherão escondido atrás de óculos fundo de garrafa e roupas pouco atraentes.
— Eu estudei os contratos da fábrica e, bom, há alguns investimentos milionários em uma empresa aqui do Rio de Janeiro, a maioria deles sem retorno algum. Apenas fazem um caminho de saída e nenhum de retorno.
— Aqui? — Fiquei surpreso.
— Sim, o nome da empresa é Luxus Models e ela agencia modelos para fora do Brasil.
— É um tipo de investimento sem sentido...
— Não é a pior parte. — Ela mudou a tela e me mostrou um gráfico. — O dinheiro sai de lá e vai para uma conta bancária na Suíça.
Antes de conhecer o mundo da corrupção em que estávamos enfiados e às vezes nem nos dávamos conta, eu me perguntava porque todo corrupto escolhia a Suíça para enfiar o dinheiro sujo. A resposta era o sigilo fiscal que as cadeias desses bancos internacionais possuíam, as identidades de seus clientes não eram reveladas com facilidade. Então todo tipo de dinheiro, lavado ou não, abundava a economia sueca.
— A empresa é de fachada?
— É provável que sim.
— E quanto às modelos?
— Essa é outra parte interessante. Ninguém ouve falar delas depois...