O Federal
Capítulo 45
Marcone
Coloquei a mochila de Camille no banco de trás do carro e abri
a porta do passageiro para que ela entrasse, meu corpo ainda reagindo a todo tipo de sentimento controverso que essa menina despertava.
Fui do desespero ao alívio, enquanto assistia de longe se ela entraria ou não naquele voo. Mas Camille escolheu ficar. Eu teria implorado se fosse o caso, teria pedido milhares e milhares de vezes, mas ela tinha decidido ficar por vontade própria, e esse era um prêmio imenso para quem já tinha perdido tudo no passado. Sentei no banco do motorista e me virei para ela, puxando-a pelo braço para perto, no instante seguinte ela estava no meu colo, abraçando meu pescoço e me dando selinhos curtos com os olhos abertos, com se quisesse ter certeza de que era eu mesmo.
— Como você sabia?
Beijei sua testa e passei a acariciar o cabelo farto caído pelos
seus ombros.
— Andrea me disse o que você estava pensando em fazer.
Ela encostou a testa no meu ombro como se não quisesse me encarar, aproveitei para beijar sua cabeça.
— Você não é um problema, não é um estorvo. — As palavras foram saindo acompanhadas de carinho e alguns beijos. — Você é importante, e está aqui. — Coloquei a palma da sua mão no meu peito.
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto um pouco inchado, perguntei-me quantas vezes ela não devia ter chorado pelos motivos errados, imaginava ainda o tipo de tortura pscicológica que ela já sofrera.
— Não vou me machucar, não por sua causa — salientei, porque nada era culpa dela e Camille precisava entender isso. Beijei mais uma vez seus lábios, com cuidado, ainda estavam inchados. Andrea me falou sobre o laudo médico, sobre como o filho da puta quase quebrou o braço dela. — Vamos sair daqui e conversar em casa.
Camille voltou para o banco de passageiro e eu dei partida no carro. Na noite anterior tive tempo de ver todas as notícias sobre a família de Camille, além das informações de Andrea. Pelas fotos era completamente visível a apatia e falta de felicidade da garota, nas fotos ela não parecia em nada com a minha Camille, do riso solto, carinhosa e maliciosa. Parecia rígida e frequentemente preocupada, até mesmo o sorriso era forçado. Perguntava-me como os pais dela não enxergaram isso. Olhei em sua direção, ela espiava pela janela os carros que passavam por nós.
— Quem foi a primeira pessoa que você viu após o acidente? — perguntei e ela me olhou confusa.
— Ninguém, eu fui transferida e meus pais apareceram no dia seguinte.
Assenti e meus dedos apertaram involuntariamente o volante. Ela estava ferida, assustada, sem lembrar de nada e sozinha. Eu tinha minhas diferenças com meu pai, mas vendo a falta de prioridade que Camille tinha na vida de Joice e Augusto, minha relação com meu pai me parecia muito saudável.
— Eu vou entrar primeiro. — disse eu, já colocando a chave na porta do meu apartamento. — Bella pode te derrubar se você entrar agora.
— Ela está aqui? — Sorriu.
— Sim, ela está. — Abri a porta e fiz um gesto para que Bella ficasse parada, ela sentou, farejando no ar que eu não estava sozinho. O rabo grosso dizia claramente que sabia quem estava comigo, ele balançava furiosamente. — Vem. — Afastei-me para que Camille passasse e tranquei a porta atrás de mim.
— Oi, Bella. — Cami disse e abaixou-se devagar para acariciar o pelo do cão animado. Deixei as duas ali e fui até meu quarto colocar a sua mochila.
Meu celular tocou e eu atendi quando vi que era Nina.
— Encontrou ela? — perguntou.
— Sim, encontrei. Ela está aqui.
— Acho que você precisa dar uma olhada no que está passando na TV. — A voz de Nina foi preocupada. — Está nos jornais o que aconteceu, a foto de vocês está circulando na internet.
Olhei de relance para fora do quarto e Camille permanecia com Bella, as duas completamente entrosadas era algo que eu nunca imaginei, principalmente pelo tamanho do animal, era imenso.
— Fique tranquila, Nina. — tranquilizei-a, era inauguração do restaurante da mãe de Ben, e ela estava lá por isso. — Está tudo bem.
Finalizei a chamada e disquei para Andrea, ela atendeu no primeiro toque.
— Foi você, não foi?
O suspiro audível do outro lado da linha repondia minha pergunta.
— Julia precisava de um furo de reportagem e você de uma boa história. — Ela hesitou por um momento. — Você leu as informações sobre ela?
— Li.
— Então você sabe, esse louco é de uma das famílias mais ricas do país. Tenho certeza que não vão hesitar em comprar a imprensa toda e distorcer o que aconteceu. — Fez uma pausa. — Você vai ser o policial violento e ciumento e ele o ex pacífico e ferido que estava no lugar errado e na hora errada.
Andrea tinha razão.
— Ela está com você? — perguntou, ante o meu silêncio.
— Sim, vou tentar fazê-la comer alguma coisa.
— Ok.
— Obrigado, Andrea.
— Não há de quê, federal.
Encerrei a ligação e coloquei o celular no bolso do jeans, Camille entrou no quarto seguida por Bella. Primeiro ela olhou o quarto ao redor, depois veio até mim e me abraçou.
— Acho eu estou com fome. — admitiu ela e eu achei graça.
— Vou providenciar algo. — Beijei sua cabeça e saí do quarto, deixando-a sozinha.
Pedi uma pizza no delivery e busquei na internet pelo que Nina dissera, até mesmo a foto que nós dois tínhamos tirado no shopping estava nos sites. Camille era citada como a herdeira Alencar, a maioria das notas, na verdade, não passava de sensacionalismo barato. Deixei o aparelho de lado e voltei ao meu quarto, segui o barulho do chuveiro e encontrei-a sob a ducha. De onde estava vi algumas marcas em suas costas, no braço e no pescoço. Todas saindo do tom vermelho para o roxo. Fechei os olhos com força. Não entendia como alguns homens faziam isso e nem porque algumas mulheres aceitavam.
— Você pode lavar meus cabelos?
Abri os olhos, percebendo que ela estava me encarando. Sem responder, eu me despi e entrei no boxe, segurei o xampu que estava nas suas mãos e derramei o líquido nas minhas.
— Ainda está doendo. — ela sussurrou e entrou embaixo do chuveiro para molhar os fios longos, percebi a careta de dor que estava fazendo.
— Então me diga como fazer para não machucar mais. — Esperei que ela desligasse o jato de água e espalhei o líquido transparente pelo comprimento de todo o cabelo, vendo a espuma aparecer, tive cuidado quando cheguei ao couro cabeludo, espalhei devagar o xampu. — Está doendo?
— Não. — Ela sorriu de olhos fechados, dando-me o controle absoluto.
Liguei novamente a água para tirar toda a espuma e passei a lavar o corpo, cada parte dele. As costas estavam formando uma nódoa roxa imensa, o braço também, lavei-a como se estivesse tocando um diamante muito delicado e ela era, era assim que eu a via.
Depois do banho, entreguei um roupão meu a ela e vesti um moletom para atender o interfone, autorizei a subida do delivery e coloquei a pizza sobre o balcão da cozinha, peguei dois pratos e dois copos. Minha mente trabalhando em como ela reagiria a todo o circo que estava acontecendo na internet. Andrea tinha razão, a imprensa se vendia facilmente. Ainda assim era exposição demais. Ouvi-a sentar no banco ao meu lado e eu a olhei. Ela tinha vestido uma de minhas blusas e penteado os cabelos para trás. A falta de maquiagem no rosto me deu uma ideia de outro hematoma no lado esquerdo do rosto, isso me fez lembrar do que Camille dissera no aeroporto.
— Está se sentindo melhor agora? — perguntei, fui até a geladeira e peguei a cuba de gelos. Coloquei algumas pedras nos dois copos e devolvi para o congelador.
— Muito melhor. — Ela segurou uma fatia da pizza, sem escolher o sabor e mordeu, parecendo realmente faminta.
Fiquei em dúvida sobre conversarmos tudo ou deixá-lá descansar, eu realmente não queria vê-la chorar hoje outra vez.
Sentei ao seu lado e me servi também. Além de olhar tudo o que consegui a respeito da família do ex-noivo dela, eu retornei ao hospital em que Camille tinha sido internada. E para minha surpresa quem apareceu nas filmagens logo após eu ter saído de lá foi o mesmo policial responsável pelo resgate dela e que, para mim, tinha feito um péssimo trabalho. Afinal, eles não investigaram como deveriam. Mas o pior de tudo foi ver quem apareceu um tempinho depois, o pai dela.
— Heloísa foi a minha casa hoje. — Camille tomou um pouco do refrigerante e me olhou. — Ela disse coisas horríveis e eu estou com medo, não sei no que acreditar, não sei porque as pessoas são assim...
Infelizmente o que ela via era ainda pouco perto do que algumas pessoas eram capazes de fazer, eu lidava com isso há anos.
— O que ela disse?
— Ela quer que eu retire as acusações...
— De jeito nenhum. — retruquei, irritado.
— Me escuta. — Ela fez uma pausa e eu senti o medo que ela tinha dessa família. Isso só me fez odiá-los um pouco mais. — Enzo sabe quem você é, sabe quem Nina é, ele sabe. E ele disse que ia...
— Fale. — incitei, apesar de já imaginar o que o idiota havia dito.
— Ele disse que ia matar você e depois me levar para um lugar onde ninguém nunca mais me encontraria.
Apesar do esforço para disfarçar, a menina estava apavorada.
— Por isso eu queria ir embora. — Desviou os olhos assim que a primeira lágrima apareceu, ela agia como se fosse errado chorar, tanto é que raramente fazia algum barulho durante o choro. — Ele pode machucar você, ele nunca vai ficar preso, não vai... — Camille ficou agitada.
Ele só estava cavando a própria cova. Não disse isso a ela, é claro, mas era exatamente isso que o imbecil estava fazendo. Saí do meu banco e fiquei de frente para ela, segurei o queixo redondo para que ela me olhasse.
— Você está sofrendo por algo que não aconteceu. Eu estou aqui.
Ela meneou a cabeça numa negativa e segurou o meu braço, como se quisesse que eu realmente prestasse atenção.
— Você não conhece ele. Enzo sente prazer em machucar, eu vi os olhos dele, vi o prazer que ele estava sentindo, enquanto eu me debatia sem respirar. Ele é doente...
Não disse nada, apenas abracei o corpo dela. Estava tremendo, talvez por causa das lembranças, então decidi que o melhor era deixá-la descansar havia muito estresse pela frente.
Camille
Abri os olhos devagar e me virei de bruços sem querer acordar ainda, senti a mão de Marcone no meu cabelo. Pelo cheiro que estava em todo o quarto, ele já tinha tomado banho.
— Você precisa levantar.
Ouvi-o dizer e continuei fingindo que ainda estava dormindo. Ele me beijou algumas vezes nas costas e deu um suspiro, provavelmente já estava sem paciência. Marcone era extremamente chato pelo manhã.
— Quer acordar, amor? — soou suave e eu me virei para olhá-lo.
— Aonde nós vamos? — perguntei, vendo como ele estava vestido, jeans e camisa preta.
— Flávio quer falar comigo e com você, um dos advogados dele vai representá-la durante o processo.
Assenti, sem querer realmente sair da cama, estava dolorida e cansada. Sentei e abracei os meus joelhos, descansei a cabeça sobre eles.
— Você não vai trabalhar?
— Meu expediente já começou. — Ele sentou perto de mim e tocou minha bochecha com as costas dos dedos. — Está com muita dor?
— O remédio amenizou. — Olhei para a minha mochila e depois para o closet dele, algumas roupas minhas já estavam lá. A maioria era vestidos que ele gostava que eu vestisse e roupas íntimas que acabava esquecendo quando dormia aqui. — Eu posso ficar uns dias aqui? — Segurei a mão que me acariciava, mantendo-a no meu rosto. — Só alguns dias.
Eu queria tempo para ficar tranquila e em casa não conseguiria, não depois das coisas horríveis que Heloísa falara sobre os meus pais.