O Federal

Cris Araújo · Capítulo 41 de 63

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O Federal

Capítulo 40

 

Marcone

 

Estacionei o carro diante do prédio em que Camille estagiava e

encarei por um tempo o arranha-céu, nos últimos dias eu estava sempre com ela, exceto, é claro, quando a garota não dormia comigo, o que estava se tornando cada vez mais raro. Já tinha pensado em dar outro passo no relacionamento, mas preferia esperar até estar fora da polícia, algo que estava atrasado devido a falta de provas e de avanços na investigação da Luxus, quanto mais procurávamos, menos informações tínhamos, e era a falta de ponta solta que atrasava o nosso trabalho.

Saí do carro e caminhei até a entrada do prédio grande, tinha vindo aqui poucas vezes. Uma das garotas que me conhecia levou-me até a sala de Flávio, o puto estava regozijado diante das telas de onde monitorava até mesmo as moscas que voavam pelos andares.

— É preciso fazer sua namorada trabalhar num sábado para você aparecer. — ele bufou, quando viu que era eu.

— Minha rotina é igual ou pior que a sua.

— Pior, eu diria.

Flávio fez um gesto, oferecendo-me uma bebida, mas eu recusei com a cabeça.

— Onde ela está?

Ele apontou um controle pequeno para tela e centralizou a câmera no andar que Camille estava, ela parecia guardar alguns documentos numa pasta vermelha, vestia uma calça jeans e uma blusa branca, uma roupa diferente dos terninhos que geralmente vestia durante a semana.

— Não sei o que ela viu em você. — O bastardo disse, assistindo, como eu, ao que ela estava fazendo.

— Eu também não sei — concordei e ele riu.

Conversamos mais um pouco e eu fui encontrá-la, permaneci uns bons minutos sem surpreendê-la, apenas observando a forma mecânica como ela separava os documentos e os guardava em classificadores de cores diferentes. Como se tivesse a mesma eficiência caso precisasse fazer de olhos fechados.

— Que tal ir para casa? — perguntei, quando percebi que ela não me veria ali.

Uma das pastas caiu da sua mão por causa do susto, abaixei-me para pegá-la e devolvi a ela.

— Há quanto tempo está aqui? — perguntou, guardando tudo num armário branco e aproximando-se, ela olhou para os lados para ver se havia alguém e encostou a boca na minha, mal sabia que Flávio devia estar vendo tudo no zoom.

— Algum tempo. Vim buscar você.

Saímos alguns minutos depois.

— Eu preciso comprar um presente para Aline. — Camille disse de forma aleatório, como se tivesse acabado de lembrar desse detalhe.

Ela abriu o fecho da anabella que usava nos pés e os trouxe para cima do banco, as tiras da sandália deixaram marcas vermelhas na pele branca.

— Vai passar no shopping?

— Sim, a gente pode almoçar.

Fiz o retorno e depois de quase vinte minutos parei no lava a jato a alguns quilômetros de distância do nosso destino. Ela me olhou sem entender.

— Vou deixar o carro para lavar — expliquei.

Enquanto esperava que ela colocasse as sandálias novamente nos pés, vi a mãe de Enzo a uma distância não tão grande de nós, o mesmo homem que havia tirado o filho dela da festa de Camille estava ao seu lado. Ele tocou a cintura da mulher de modo íntimo e ela deu um sorriso antes de entrar no carro branco que ainda ficou parado por um tempo antes de sair dali.

Olhei rapidamente para Camille, mas ela continuava o trabalho de recolocar as sandálias nos pés.

— Aquele homem que estava com Heloísa no seu aniversário...

— Ele é motorista dela, mas está mais para sombra — retrucou, colocando a alça da bolsa no ombro.

Ou amante, pensei comigo mesmo.

Caminhamos de mãos dadas até o prédio grande e lotado. Ela estava falando sobre uma festa que iríamos hoje que eu sequer sabia, antes era apenas o presente de Aline que tínhamos que comprar, mas depois de entrarmos em duas lojas de perfumes importados, ela se lembrou que também precisava de um vestido novo e talvez outro salto e outras coisas que eu parei de acompanhar quando ficou difícil saber o que cada nome significava.

— Eu quero algo branco... — explicou para a garota uniformizada que a seguia para lá e para cá.

— Um vestido? — A vendedora caminhou até uma vitrine e trouxe algo.

Camille entrou mais uma vez no provador e pela demora ou ela tinha gostado muito ou odiado. Coloquei as sacolas no tapete e fui até lá, quando ela me chamou para fechar o zíper do macacão. Ajudei-a a fechar e olhei seu reflexo. As pernas estavam nuas, o tecido não chegava nem ao joelho.

— O que achou desse? — perguntou, colocando minhas mãos na própria cintura.

Ao invés de responder, passei a mão pelo tecido até encontrar o decote discreto e deslizar o dedo pelo meio dos seus seios.

— Está linda. — Puxei de leve os cabelos castanhos para o lado e beijei de leve ali, estava frio por causa do ar condicionado.

Ela sorriu e a expressão tornou-se zombeteira.

— Eu preciso repor as suas camisas que mancho de tinta.

Não respondi, apenas dei risada porque era verdade. As minhas opções de camisas estavam cada vez mais reduzidas, ela manchava todas. Eu podia contar uma ou duas situações constrangedoras que já havia passado por causa disso.

Depois de fuçar todas as roupas masculinas, ela encontrou uma camisa branca para mim, do mesmo modelo esporte que eu costumava usar.

— Eu posso tirar uma foto de vocês dois? — a garota perguntou já com o celular na mão.

— Claro. — Cami respondeu.

Nós posamos para a foto segurando a sacola com o logotipo da loja e então saímos para procurar um lugar para almoçar.

— Eu pago hoje. — ela disse animada.

— Vou escolher algo bem caro já que é você quem vai pagar.

Camille riu e trouxe a cadeira para mais perto da minha. Passou muito tempo me dando beijinhos no rosto, enquanto esperávamos a comida chegar. Ela pegou meu celular e trocou minha foto no aplicativo de mensagens para uma nossa que ela acabara de tirar.

 

*

As oito em ponto, estacionei o carro diante do prédio de Camille. Não sabia que Aline morava no mesmo lugar, fiquei surpreso quando ela me contou. Fomos para o décimo sexto andar, Camille segurava o pequeno embrulho em uma das mãos e a outra estava entrelaçada na minha.

— Ela está completando que idade? — perguntei, apontando com o queixo para o perfume embrulhado, segundo ela o preferido da amiga.

— Não é aniversário dela. — Camille riu, e num gesto distraído afastou os cabelos dos ombros. — Aline vai embora, conseguiu um contrato com uma agência de modelos fora do Brasil.

Ela passou a me contar sobre os trabalhos de Aline, as loucuras que já tinha feito para chamar atenção nesse meio. No apartamento, havia uma quantidade grande de pessoas, vi Flávio assim que entramos, ele conversava com senhor bem vestido.

 

Camille

 

Segui Aline até o quarto dela para retocar a maquiagem e deixei Marcone com Flávio.

— Porque Nina não veio? — ela perguntou, ajeitando a juba cacheada com os dedos.

— Ela deve chegar a qualquer momento. — Abri minha bolsinha e tirei o batom vinho para retocar a aplicação.

— Nem acredito ainda. — Deu alguns gritinhos e depois voltou a retocar o rímel.

— Seu pai está louco, não está?

Ela deu risada.

— Estou com medo que no último momento ele não me deixe entrar no avião.

Acabei rindo também, enquanto devolvia o batom para a bolsinha.

Saímos e encontramos Tarcísio, ele parecia estar esperando por nós ali, no corredor perto do quarto dela.

— Você vai mesmo? — ele questionou para ela, evitando-me por alguns minutos. Isso estava acontecendo há algumas semanas.

— Claro. — Aline só faltou dar alguns pulinhos de felicidade outra vez.

— Vai fazer falta. — Ambos se abraçaram.

Ela pareceu entender naquele momento que realmente estava indo embora, porque olhou para nós e em seguida ao redor, o rosto foi mudando gradativamente, entendendo que estava se despedindo de uma vida para começar outra.

— Eu ainda não consegui assimilar o que eu estou fazendo. — O rosto ficou um pouco vermelho e foi minha vez de abraçá-la.

— Não era isso que queria?

Ela fez que sim e bebeu um gole do drink que segurava, alguém a chamou e eu acabei ficando com Tarcísio ali parada, sem saber o que dizer, afinal ele vinha me ignorando.

— Então, é sério?

Ouvi sua voz, mas não entendi a que ele se referia. Apenas quando apontou para Marcone com o queixo é que me dei conta do sentido da pergunta.

— Por que não seria?

Tarcísio ponderou por alguns minutos e me encarou em seguida.

— Achei que fosse demorar um pouco mais para se envolver com alguém.

Fiquei irritada, não com o comentário, eu também imaginei que ficaria mais tempo sozinha, cheguei a pensar que nunca mais ficaria com ninguém. O que me irritou mesmo foi o tom de reprovação que usou, como se tivesse algum direito.

Permaneci em silêncio.

— Eu devia ter dito a mais tempo... — a forma como ele se virou na minha direção, me fez dar um passo para trás.

— Não quero escutar nada. — Desde que comecei a dar aulas para as crianças, eu via a forma como ele me olhava demais. Aline chegou a me encorajar a dar abertura, mas nunca senti nada, exceto amizade e gratidão à forma com que os dois me acolheram lá.

— Se eu tivesse dito antes, se tivesse me aproximado, mostrado minhas intenções. — Ele segurou meu braço, não com força, mas de um jeito invasivo que eu não gostei.

— A resposta seria não.

Ao contrário do que imaginei, ele não me soltou.

— Solta, porra! — A voz de Marcone soou tão irritada que eu me encolhi.

Eu encarei Tarcício com raiva, ele soltou meu braço imediatamente e eu me perguntei quando uma mulher seria respeitada a ponto de não precisar de um homem por perto. Se fosse eu a pedir ele não teria soltado, muito menos me deixado em paz.

— Sai.

Como um cachorro com o rabo entre as pernas, Tarcísio saiu sem olhar para trás, eu me virei para Marcone, o rosto dele suavizou quando olhou para mim e eu me senti extremamente privilegiada por ter o seu lado humano, vez ou outra eu conseguia ver por trás das camadas, dos sorrisos, e da beleza o homem que tinha matado por vingança. Mas não o temia. Eu achava uma causa justa.

Eu não era perfeita e ele também não, tínhamos nossos passados, não me orgulhava do meu. Ele sofria com o dele, de alguma forma nós dois estávamos marcados, a vida tinha nos presenteado com cicatrizes eternas.

— Eu acabei de receber uma mensagem no instagram da recepcionista da Luxus. — Aline disse, aproximando-se junto com Flávio, alheia ao que tinha acabado de acontecer.

— Como é? — Senti Marcone enrijecer atrás de mim. — Você disse Luxus?

Aline nos encarou e assentiu lentamente, sem entender o tom de voz dele.

— O que diz a mensagem? — ele perguntou.

Aline mostrou o texto para nós, ainda mais confusa.

— Ela está me pedindo para pensar melhor na proposta, parece que quer que eu desista.

Flávio segurou o aparelho e o rosto ficou tão branco que achei que ele teria um treco.

— Bruna.

— Você a conhece? — Marcone perguntou, e eu dividi minha atenção entre um e outro sem entender nada.

— Infelizmente sim. — Flávio respondeu.

— Eu não estou entendendo. — Aline soou alarmada. — Eu fiz alguma coisa de errado?

— Não, mas você vai precisar responder algumas perguntas na delegacia.

— O que?