O Federal
Capítulo 19
Marcone
Ela veio, e como imaginei, senti com mais intensidade a
frangrância suave que vinha dela. Vê-la murchar ao falar da irmã me fez perceber que me afetava vê-la triste, não de um jeito bom.
— Assim está melhor. — Coloquei, suavemente, uma mecha do cabelo cheiroso atrás de sua orelha, algo que queria fazer desde que a vi. — Posso fazer uma pergunta?
— Sim.
— O que te deixou tão incomodada em mim quando nos vimos pela primeira vez na fazenda? — inquiri, curioso.
— É algo que você só vai entender quando eu mostrar.
— Mostrar o quê?
Ela desviou os olhos do meu rosto para as pedras grandes que resvestiam as paredes, o lugar era acolhedor ao mesmo tempo que medieval, mas não estava realmente prestando atenção nisso.
— Não tenho certeza do que você vai achar e pode ser que não goste, então prefiro mostrar depois.
Como sempre era quando se tratava dessa garota, minha curiosidade se intensificou ainda mais, mas não insisti.
— Ok. — Minha resposta chamou sua atenção, ela voltou a me encarar.
— Você é sempre compreensivo assim? — Percebi a desconfiança na pergunta.
— Não. — Dei a resposta sincera, eu não era mesmo.
Como imaginei a noite passou muito rápido, precisei admitir que entendia o porquê desse ser o restaurante preferido dela. A comida era boa, o ambiente também, embora eu tivesse focado completamente na companhia. Camille mostrava um pouco da sua personalidade real a cada nova conversa, na risada, nas manias. Confesso que fiz um caminho mais longo para levá-la para casa, apenas para passar um tempo a mais, este parecia ter ficado curto ao extremo.
A rua estava em silêncio, quando estacionei o carro diante do prédio grande.
— Está em casa.
— É.
Virei-me para olhá-la, a garota estava olhando para a entrada do prédio.
— Não foi tão ruim assim, foi?
O rosto pequeno assumiu uma expressão zombeteira e ela riu baixinho, o som reverberando dentro do carro como encantamento.
— Claro que não. — Ela me olhou, sem nem perceber como falava com os olhos, eles gritavam muita coisa, na verdade. — Eu gostei... muito.
— Quer repetir? — Sem conseguir evitar, eu toquei o rosto delicado e frio por causa do ar condicionado com os dedos, os lábios bem desenhados abriram-se como se quisessem ser beijados.
Era o que eu queria fazer, todavia controlei o instinto e mantive o carinho apenas ali, por alguns minutos, Camille fechou os olhos, com um leve maneio afirmativo de cabeça — não sabia se o gesto era um sim para a pergunta que eu fiz ou um incentivo para que eu continuasse a tocá-la. De qualquer forma, mantive os dedos ali e quando ficou difícil conter a vontade de beijá-la, susbistiui-os por meus lábios. Ela abriu os olhos assim que sentiu o beijo na bochecha.
— Você deveria entrar agora. — sussurrei, afastando-me, ao mesmo tempo em que meu celular vibrou e eu o ignorei.
— Está bem.
Permaneci ali até que ela entrou, só então conferi o celular. Meu sangue ferveu assim que reconheci a notificação que eu tinha esperado por todos os últimas dias.
*
Rolei a página da internet até ler o final da notícia, cujo alvo era Antônio Oliveira. A notícia de sua prisão chocou tanto sua família, que a filha mais nova do infeliz estava acabando com o nome da minha família nas redes sociais. O pai dela, claro, era inocente. Alguns dias atrás tivemos acesso a última movimentação dele na fábrica, a quebra de sigilo bancária foi autorizada e todos os movimentos dele dentro e fora do Brasil estavam sendo investigados pelo polícia federal de Minas.
O enriquecimento ilícito foi um dos motivos da prisão preventiva do filho da puta, ele não tinha como comprovar para a Receita Federal de onde o dinheiro vinha, e muito menos a origem dos bens que acumulara durante os últimos anos às custas do meu pai e de todas as outras merdas que estava envolvido, é claro.
Passei o dedo pelos olhos, sentindo a dor de cabeça se espalhar.
— Você deveria dormir. — Andrea retrucou, sem tirar os olhos do próprio computador.
— Você também. — Devolvi, passando os dedos entre os meus cabelos, a dor de cabeça era tão forte que parecia que o couro cabeludo estava dolorido também.
— Falta pouco, federal. — ela disse, fechando o notebook e se recostando na poltrona em frente a minha.
Estávamos no escritório do meu pai, e já passava das duas da manhã. Tomei um gole da água com gás, totalmente quente direto da garrafa e analisei com cuidado as palavras de Andrea.
— Eu acho que acaba de começar.
Ela riu, concordando e retirou os óculos para esfregar os olhos.
— A filha dele é surtada, não é? — Ela mesma tinha visto os primeiros ataques da garota mais cedo, raramente eu acompanhava esse tipo de mídia.
— Eu não tive tempo de conhecer a advogada nova, mas é a primeira coisa que ela fará. Um processo muito bem detalhada para cada vez que a filha dele toque no meu nome ou da minha mãe.
— Isso vai calar a boca dela.
A pedido de minha mãe, as acusações foram direcionadas apenas a Antônio, ela dizia que tinha visto os dois filhos dele crescerem, todavia em algum momento os dois seriam incriminados também.
— O caso é nosso. — ela mudou de assunto, e eu entendi perfeitamente a que Andrea se referia.
Às garotas.
— Ele disse algo?
— O homem é raposa velha. Ele não diz absolutamente nada. — retrucou, irritada. — É um advogado vigarista, conhece muito bem os direitos que tem. — Ela novamente retirou e colocou os óculos. — Acho que vou dormir.
— Vá, está tarde.
Ainda fiquei ali, e como meu pai geralmente fazia, girei a poltrona e abri a janela para receber o vento da madrugada no meu rosto. Peguei o celular pela primeira vez no dia e vi uma ligação de Camille no mesmo horário em que costumávamos ligar um para o outro. Ouvindo o som da água da piscina, lembrei-me de nossas conversas noturnas, e fiquei ainda mais curioso para saber o que ela tinha para me mostrar. Procurei por seu contato no aplicativo de mensagens para me desculpar.
A mensagem foi curta, eu ligaria no dia seguinte.
*
Fechei a mala pequena e deixei perto da cama, ainda envolto na toalha de banho. Comecei a me vestir com a atenção voltada para o celular sobre o aparador, mas ele tinha resolvido ficar em silêncio até para as notícias ruins. Pus a roupa e saí do quarto, encontrei minha mãe e Andrea tagarelando na cozinha, sentei-me junto com elas à mesa e servi-me de café.
— Mãe. — Olhei-a, odiando que ainda estivesse se vestindo inteiramente de preto. — Bom dia.
Com um sorriso ela fez um afago em minha testa.
— Dormiu bem?
— Sim, mãe.
— Eu estava dizendo a ela que é provável que algum meio de comunicação tente entrar em contato para alguma entrevista. — Andrea retrucou, com a xícara de café a meio caminho da boca.
Olhei de uma para outra, completamente nervoso com toda a situação envolvendo minha mãe.
— Só se você se sentir a vontade para isso, mãe. — Tomei um gole do café e depositei a xícara na mesa.
Mara assentiu, e eu fiquei preocupado novamente por deixá-la sozinha aqui.
— O que você acha de passar uns dias no Rio, mãe? — perguntei, no meu tom mais conciliador possível.
— Não, filho.
— Apenas alguns dias. — insisti.
Ela meneou a cabeça numa negativa.
— Vou manter alguém aqui para sua segurança. — avisei. — É a única forma de tentar ficar tranquilo no Rio.
Ela tentou retrucar, mas Andrea foi sucinta em lhe dar bons motivos para isso. Liana, uma da mulheres da região que viera para fazenda auxiliar minha mãe após a morte do meu pai, entrou na cozinha para para avisar que uma moça tinha chegado.
— Deve ser ela. — Consultei o relógio. 9:00, ao menos era pontual. — Pode liberar a entrada.
Levantei-me e caminhei para a sala. A mulher bem vestida estava ainda de pé, olhando o jardim através das paredes inteiriças de vidro. Os cabelos curtos e extremamente pretos, faziam constraste com o terninho branco que ela usava.
— Celine Vilarim. — Estendi a mão e os olhos castanhos me avaliaram rapidamente.
— Isso — anuiu ela.
Conversamos por algumas horas, fizemos uma viagem até a fábrica para que minha mãe explicasse a situação com o antigo advogado, segundo ela já tinha lido a respeito do caso.
*
Guardei o celular depois de atender uma ligação de Nina, ela estava na casa de Camille, então falei com as duas. Eu estava com saudades delas.
— E a garota? — Andrea disparou, assim que encerrei a ligação.
— Ela se chama Camille ou Cami, se preferir. — brinquei, atento ao painel com os voos listados. — E está bem sim.
— Você não passa de um cretino. — Ela riu.
— Você sabe que não. — Minhas tendências eram mais tradicionais, ela sabia disso. — E quanto a Erick? — perguntei. Por que, embora, ela fingisse não se importar, Andrea tinha uma carência extremamente grande, não sei se era isso que a fazia se envolver com tantos homens diferentes em pouco tempo, mas era o que me preocupava. Principalmente por que eu sabia como ela ficava depois.
— Não nos falamos hoje. Ao contrário de você, não sou tradicional. — retrucou, claramente ativando o modo ácido e desapegado, mas completamente fajuto ao meu ver.
— Não, não é.
— Ela é interessante ou só bonita? — perguntou, interessada.
— É interessante e bonita.
A mão dela pousou sobre a minha, num gesto muito cúmplice. Não sei o que estava se passando por sua cabeça, mas eu sabia o quanto ela torcia por mim, sempre fora assim, e eu por ela.