O Federal

Cris Araújo · Capítulo 35 de 63

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O Federal

Capítulo 34

 

 

Camille

 

Ela seguiu me mostrando roupinhas e mais roupinhas de bebê.

Todas clarinhas e muito pequenas, a barriga estava enorme demais, muito maior do que quando eu a vi na praia, segundo ela a criança iria nascer na semana seguinte. Eu não conseguia deixar de olhá-la, perguntando-me como seria possível. E pior, perguntando-me o que ele sentia quando olhava para ela. Se era saudade da noiva morta.

Faz anos que eu a perdi

Havia dor na frase, e não era pouca. Comecei a me arrepender de ter aceitado vir aqui, nos porta-retratos espalhados pela casa havia inúmeras fotos dela com um homem idêntico a ele. Informações demais para a minha cabeça.

— Vocês brigaram? — Francine era o seu nome, ela recolocou um conjuntinho branco dentro de um plástico transparente e voltou-se para mim.

— Acho que sim, casais brigam, não é?

Ela sorriu e sentou com alguma dificuldade.

— Depende dos motivos. Ele parece apavorado. — Ela riu como se achasse divertido. — Meu marido geralmente fica assim quando faz alguma coisa que sabe que eu vou odiar.

— Eles são parecidos. — disse o óbvio. — Você a conheceu? — perguntei.

— Não, mas ele me contou algumas coisas. — Ela olhou para teto parecendo lembrar de alguma coisa. Fiquei ressentida, porque se eu não tivesse visto as fotos ninguém me garantia que ele me contaria.

Nunca tinha carregado um sentimento de posse tão grande como o que eu tinha por esse homem. Eu não gostava do passado dele, queria ter estado lá, queria ser a única que ele pensasse e era egoísta, eu sabia, mas eu não queria ser perfeita. E não era.

— Ele me contou sobre você. — Isso chamou minha atenção, retribuí pela primeira vez o sorriso que ela me ofereceu. — Ele disse que você é a garota mais especial que ele já tinha conhecido, agora eu entendo. — Ela tocou a própria barriga e suspirou, parecendo cansada.

— Eu gosto dele. Muito. — confessei.

— Então deixe que o passado dele fique no passado, Marcone está fazendo isso, caso contrário nem teria trazido você aqui.

 

*

 

— Ela parece com sua noiva e você parece com o marido dela. — Quebrei o silêncio desagradável. — Como isso é possível?

— Em algum momento a nossa árvore genealógica deve ter se cruzado. — Refletiu ele após alguns segundos. — Isso é mais comum do que você imagina. Não somos um caso isolado.

— O que você sente por ela? — perguntei, incapaz de segurar a língua. Se me perturbava olhá-la, eu imaginava o que ele podia sentir.

— Nós somos amigos, eu me importo com ela e sei que ela se importa comigo.

Olhei-o, sentindo a sinceridade das palavras. Todavia havia outras perguntas, muitas engrenagens estavam se movendo juntas na minha cabeça.

— Não pense demais, e não se afaste de mim também.

Eu não queria me afastar, mas também não queria me magoar de novo.

— Eu não quero me magoar. — Fui sucinta e honesta.

— Eu também não.

Olhei-o rapidamente e flagrei o seus olhos em minha direção, detestando ter olhado aquelas fotos, ter visto quem ele era com outra. Questionando-me até, se o que ele sentia por mim era pelo menos um pouquinho parecido, com o que obviamente ele sentira ou ainda sentia por ela.

— É diferente.

— Não, não é. — Ele estacionou o carro e recostou a cabeça no banco. — Porque você acha que demorei a me aproximar de verdade de você?

Não tive resposta alguma, por que eu não sabia, na verdade eu não entendia os sumiços dele, eles me frustravam muito.

— Não sei. — sussurrei.

Marcone deu um suspiro, parecendo triste agora. Isso deixou meu coração pequenininho, involuntariamente coloquei a mão sobre seu ombro, ele a segurou e colocou no próprio rosto, beijou a palma delicadamente.

— Eu não queria sentir tudo que estou sentindo agora. — confessou, olhando-me com pesar, havia culpa nele, igual ou maior do que a que eu sentia quando pensava na minha irmã.

Ele devia se sentir culpado pela morte dela.

Soltei o cinto de segurança e fui para seu colo, eu não gostava de vê-lo sofrer, não queria ser a causa do seu sofrimento. Nunca.

— Ele está batendo outra vez, por você. — Ele guiou minha mão até seu coração, e eu senti-o disparado como o meu.

Havia culpa e fascínio ao mesmo tempo.

— Eu sinto coisas que achei que não fosse sentir de novo.

Tive a impressão de que ele estivesse dizendo tudo que eu sentia, meu coração estava batendo de novo. Por ele. E eu sentia desejos, sentimentos, que imaginei nunca mais sentir. Embora não parecesse Marcone tinha a sua vulnerabilidade, coisas que ele me disse faziam sentido agora.

A morte tinha levado quem ele amava: a noiva, o pai. Se era o destino ou não, eu queria continuar fazendo o seu coração bater forte, tal qual o meu batia.

— E toda vez que eu te olhava, desde o primeiro momento, eu tive medo de causar a você o mesmo destino que causei a ela. — Ele tocou os meus lábios com os dele, levemente, apenas um roçar suave. — Mas eu estou aqui inteiro para você.

O único medo que senti foi de que em algum momento no futuro as palavras dele se perdessem, ou o significado delas mudasse. Eu o queria inteiro, exatamente como ele era. Porque com a ajuda do destino ou não, fora exatamente cada detalhe, por menor que fosse que me deixou apaixonada. Eu não queria que mudasse nada.

— Eu também estou inteira para você.

Ao contrário do que pensei Marcone não me beijou, delineou por muito tempo os traços do meu rosto, algo que ele fazia sempre. Como se precisasse diversas vezes gravar os detalhes que estavam ali.

— Se algo algum dia acontecer a você por minha causa...

Eu o silenciei com os lábios, sentindo de repente um medo repentino do mundo dele. Eu não tinha parado para pensar no perigo que ele corria o tempo todo, e eu senti medo. Não por mim, mas por ele. Medo que talvez algum dia ele saísse e não voltasse mais, como eu já havia visto nos noticiários. Era um medo tão grande que algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto, ele as enxugou, beijando o meu rosto, sentindo o gosto delas.

— Por que você não sai da polícia e começa de novo, fazendo outra coisa? — perguntei, deitando a cabeça no seu ombro.

Nina me dissera algumas vezes que ninguém da polícia a conhecia, exceto Ben e Andrea, que ela não colocava muitas fotos nas redes sociais, inúmeras coisas que não fazia por ser irmã dele, mas ela não reclamava e obedecia para a própria segurança.

— Eu vou fazer isso em alguns meses.

O alívio foi imediato, sorri e levantei a cabeça para olhá-lo.

— Promete?

— Sim, eu prometo. — As mãos dele alisaram os meus cabelos e eu o beijei algumas vezes.

Eu passei a noite com ele novamente, mas havia sido diferente. Os beijos, as carícias, a forma como ele me olhou, havia mais que desejo, eu senti a entrega, ele se entregou inteiramente para mim, como havia dito e eu para ele.

 

*

 

Marcone

 

Bebi um pouco do refrigerante e olhei outra vez para minha irmã e Camille, ambas ajudavam a mãe de Ben a colocar a mesa, a serelepe parecia estar em casa aqui, perfeitamente a vontade. Fazia tempo que eu não vinha aqui, observei algumas mudanças na casa, o assoalho e o teto estavam diferentes, resultados do intuito de Ben em dar conforto a mãe. O pai dele havia fugido com outra mulher, com todo o dinheiro que ela havia guardado ao longo dos anos, isso tinha acontecido antes dele entrar na polícia.

— Andrea disse alguma coisa a você sobre vir? — ele perguntou, o infeliz ficava cheio de dedos comigo agora, como se eu não o conhecesse.

— Não nos falamos hoje. — Passei o dia fora da delegacia.

A campainha soou e Biana surgiu com um pano de prato para abrir, de onde estava, eu ouvi a voz de Andrea e depois do homem que ela havia trazido a tiracolo.

Andrea entrou e no momento seguinte parecia que todas as mulheres estavam falando ao mesmo tempo, elas eram extremamente barulhentas e cheias de novidades, a mãe de Ben era a que falava mais alto, tomei outro gole do refrigerante. Eu preferia que fosse uma cerveja, mas nada alcoólico entrava na casa, depois de ser abandonada Biana tivera sérios problemas com o álcool.

— Mais que pedaço de homem. — Biana dizia, enquanto rondava o novato, achei engraçado. Eu já tinha passado por isso. Como se adivinhasse meus pensamentos ela virou para mim. — Você não fica atrás. — Ela jogou charme para o terror de Ben, eu pisquei para ela, ciente de que iria irritá-lo.