O Federal
Capítulo 52
Camille
Marcone não ficou muito tempo, e me doeu tanto que cheguei
a pensar que estava morrendo por dentro, não sabia se iria vê-lo outra vez. Senti vontade de chamá-lo, de contar tudo. Mas não o fiz, eu devia saber que a nossa história não teria um final feliz. Queria tanto tê-lo conhecido antes. Antes de permitir que aquele monstro entrasse na minha vida e destruísse tudo.
Incluindo a mim.
Arrastei-me até a janela para assistir ao momento em que o carro dele se afastou, desaparecendo. Voltei para onde estava meu celular e liguei para a recepção, pedi que Soraia mandasse um táxi para o estacionamento privativo da cobertura e que pedisse aos agentes que subissem ao meu andar. Só tive tempo de correr para fora do apartamento e entrar no elevador. Apertei o andar do estacionamento e fiz orações para que eu não cruzasse com nenhum deles, que conseguisse sair antes de ser notada.
Só fiquei tranquila quando entrei no táxi e disse o endereço, o lugar o qual eu tinha prometido meses atrás nunca mais voltar a colocar os pés. A medida em que o carro se aproximava da mansão grande, meu corpo dava sinais de reconhecimento de tudo de ruim que senti nessa casa, cada situação constrangedora e mal resolvida. Cada lágrima, cada perdão que concedi, a falta de esperança, a falta de amor próprio, tudo me esmagou. Eu não conseguia achar mais aquela garota aqui dentro, não conseguia mais entender como permiti que Enzo fizesse certas coisas comigo.
Mas essa doença precisava acabar.
Paguei a corrida e digitei o código da garagem, continuava o mesmo. Tive certeza quando o portão abriu, dois carros estavam lá: um deles era de Enzo, o outro desconhecido, a medida em que avançava minha respiração se acelerava, tudo ali me fazia mal, até mesmo a beleza do lugar.
Estava calmo, tudo calmo, como se não houvesse um inferno acontecendo na minha vida, com os dedos trêmulos, eu encostei o indicador na leitura digital da porta, parecida com a da minha casa. Fiquei aliviada quando a porta abriu. Eles não tinham mudado absolutamente nada. Entrei, estranhando não ver nenhum dos empregados, não eram poucos. Olhei ao redor, entrando realmente na sala clara e silenciosa, as chaves do carro de Enzo estavam na mesinha de vidro alta, e um papel que parecia uma intimação, cheguei mais perto para ler, mas o som de passos me chamou atenção.
Era ele.
— O que você fez com ela? — inquiri, enojada.
Ele estava engravatado, pude ver o curativo grande na mão esquerda, a que ele usava para me bater e que usara para apontar a arma para mim.
— Você veio. — Quase sorriu, como se mesmo que eu não tivesse vindo teria ido ao inferno me buscar.
Olhei para os lados, procurando algum vestígio de que ela estivesse aqui, qualquer um.
— Fale, Enzo! Cadê ela.
Com uma calma que me irritou, ele colocou uma pasta sobre o sofá.
— Ele acabou com tudo, sabia? — disse, sem fazer qualquer sentido para mim, os olhos irados, como se tivesse lembrado de algo e de repente estivesse furioso. — O que ele tem que eu não tenho? — inquiriu, e eu senti vontade de chorar, reconhecendo a loucura que esse homem carregava.
Odiando-o ainda mais por causa do que eu iria fazer. Trair a mim mesma. Trair a Marcone e a tudo que eu sentia por ele.
— Eu fico com você. — As palavras saíram engasgadas, ácidas, como se tivessem gosto de veneno. — Só diga onde ela está ...
O rosto dele foi mudando, ficando vermelho .
— Faria isso? — Deu um passo a frente.
— Faria qualquer coisa por ele. — Não devia falar isso, era uma provocação que o deixaria fora de si. Mas, eu queria mostrar a verdade, deixar claro que não tinha nada a ver com ele. Muito pelo contrário, eu faria a pior coisa que poderia fazer a mim mesma pelo amor que sentia por outro homem e pela minha irmã, era dessa forma que eu via Nina.
O que eu disse o deixou transtornado, mas ao contrário do que pensei, um sorriso sádico surgiu em seu rosto e ele me encarou com um prazer diabólico estampado na cara.
— Ele vai morrer, Camille. — Fez a imitação de um revolver com a mão boa e mirou na minha cabeça. — Hoje. E nós vamos embora. Eu e você.
Recuei um passo e depois outro, encostando-me na porta. A minha respiração soando alta e rápida demais, encarei-o com ódio, vendo a forma como estava assistindo as minhas reações. Enzo sentia prazer no meu sofrimento, estava claro.
— O que você fez? — inquiri, precisando me apoiar na mesinha por causa dos tremores do meu corpo. — O que você fez, seu desgraçado?
— O que eu devia ter feito desde a primeira vez que vi vocês dois
juntos.
Olhou para o relógio de pulso e sorriu, divertindo-se.
— Tic. Tac. Tic. Tac. — Sorriu mais uma vez. — O tempo está passando. Depois que eu tiver a confirmação podemos viver livres dele, eu tenho certeza que você vai voltar a me amar como antes.
A ideia me deixou letárgica, apoiei-me novamente na mesa, ouvindo gritos que não sabia mais serem dele ou se eram lembranças, mais fragmentos delas. Eu estive aqui. Antes do acidente, estive aqui. Peguei um vaso pequeno de porcelana, e joguei em sua direção acertando-o em cheio na testa. Catei as chaves do carro e saí correndo, ouvindo-o me xingar e mandar alguém que eu não tinha visto vir atrás de mim. Coloquei o código da garagem às pressas e me detive ao perceber que se eu quisesse sair dali teria que dirigir. Senti o suor escorrer pelo meu rosto, sintoma do mal estar que esse homem me causava.
O carro prata parecia ser muito maior do que era, ouvi a voz dele mais perto e não tive outra alternativa a não ser entrar e travar as portas. Abri a bolsa e tirei o celular de lá, discando furiosamente para Marcone, mas apenas chamou, e fui tomada por um medo irracional de que houvesse acontecido alguma coisa com ele.
Girei a chave na ignição e o som do motor sendo ligado, trouxe clarões incomuns a minha mente.
O momento da batida.
Era o que eu sempre revivia, apenas ele, todo o resto ficava esquecido, mas dessa vez as imagens antes distorcidas foram fazendo sentido.
E eu me lembrei.
Lembrei de tudo, dos socos que Enzo me deu. Das palavras de Heloísa. Da briga dentro do carro que fez o motorista perder a direção e nos fazer bater na lateral de uma carreta.
Lembrei de tudo. Do medo de morrer.
Mas, sobretudo eu me lembrei dele.
Marcone estava lá.
Agora toda a conexão fazia sentido, eu não estava louca.
Meses atrás
De: Enzo
Será apenas uma conversa, quero ver você só um pouquinho.
— Você não está pensando em ver esse cara, está?
Liz me lançou um olhar interrogativo, como se soubesse exatamente o que se passava na minha cabeça
— Claro que não. — soei sem paciência, só de pensar em vê-lo me dava enjoos e dores de cabeça.
As mensagens foram mudando aos poucos, de ameaçadoras elas passaram a ser carinhosas, um ciclo que eu passei a entender com a terapia. Ele não tinha mudado, eram só táticas para me dobrar como tinha acontecido tantas vezes.
Assim que Liz saiu para o projeto que dava aulas há alguns meses, meu celular tocou. Era como se Enzo soubesse quando eu estaria longe dela. Meus pais estavam fora e Naia tinha ido para a jogatina de suas folgas. Recusei a primeira, a segunda, a terceira, a quarta. Ele não me deixaria em paz nunca se eu não deixasse claro que não queria mais.
Eu não ia recuar, não depois de ter admitido para mim mesma que o medo que eu sentia dele não era normal, ou que todas as coisas que envolviam a nós dois eram doentias e pouco saudáveis. Muito diferente do que era no início, na verdade fora um espaço de tempo tão curto que sequer lembrava direito da época boa. Dos momentos em que eu escutava palavras bonitas e não gritos. Quando havia carinho e não socos ou pontapés e empurrões.
Tudo de bom se tornou raro, inexistente.
Aguentei muita coisa.
Traições.
Situações humilhantes.
E para quê?
O toque do celular tornou-se insuportável, ele não iria parar nunca. Era como se não houvesse paz no mundo para mim. Com os dedos trêmulos, atendi a ligação.
— Até que enfim. — Ouvi a forma como ele tentou manter a voz controlada, mas eu sabia que estava irritado.
Ele sempre estava.
— Nós precisamos conversar, Camille. Vou devolver sua aliança.
Fechei os olhos com força, perguntando-me pela primeira vez como uma pessoa podia ser louca assim.
— Não quero mais nada disso — retruquei, estressada. — Devolvi por que não quero mais esse vínculo, não haverá mais casamento. Entenda de uma vez.
— Vou entender quando disser isso para mim, olhando nos meus olhos. — Ele foi calmo. — Não me deixou explicar.
Como se houvesse explicação, pensei comigo mesma.
Deixei uma mensagem para Liz avisando que eu iria até a casa de Enzo e saí em direção ao bairro dele. Dirigi o carro do meu pai, o meu volvo geralmente chamava atenção demais por causa da cor. Não demorei muito a chegar, eu faria aquele percurso de olhos fechados, às vezes tinha a impressão de que passava mais tempo lá do que em casa.
Assim que entrei no quarto dele, senti cheiro e bebida forte e alguma outra coisa que não soube identificar, assim que ele ergueu os olhos para mim, arrependi-me completamente de ter vindo.
Ele era um gatilho em pessoa para me deixar mal.
Deixando o copo de lado, Enzo passou por mim e eu ouvi quando trancou a porta. A primeira reação que tive foi pedir que ele destrancasse.
— Nós vamos conversar — disse ele, com calma.
E eu assenti, temendo deixá-lo furioso.
No entanto, não houve conversa alguma.
Ele apenas gritou comigo, fazendo-me lembrar por que eu tinha terminado o noivado e o motivo para que não tivesse sequer pensado em vir. Foram horas presas no quarto, ouvindo gritos, levando tapas, para logo em seguida ele chorar e me pedir perdão, para depois começar tudo outra vez.
Chegou um momento em que fiquei tão cansada que não reagi mais, nem ao que ele dizia, muito menos aos tapas e chutes que ele me dava, mas nem isso o fez parar. Meu silêncio e falta de reação só o deixou ainda mais transtornado.
— Quem é ele? — perguntou aos gritos. — Diz.
— Não há ninguém, Enzo. — respondi, sem saber se estava consciente ou dentro de algum pesadelo.
Não haveria niguém por muito tempo.
— Se eu descobrir... — ele apertou meu pescoço com força, como se quisesse me matar. — Se eu descobri que está com outro.
Uma batida atrás da outra na porta, o fez me soltar.
— Se você não abrir esse porta, eu vou chamar a polícia, Heloísa...
Tentei sentar, cheia de dores alarmada ao ouvir a voz da minha irmã.
— Me deixa sair, Enzo. — quase implorei, sentindo tanta dor no corpo que cheguei a questionar se conseguiria sair andando dali.
— Para quê? Para não voltar mais? — inquiriu, completamente fora de si.
Eu o encarei como um monstro e não como o homem que um dia fui apaixonada.
Os minutos de tensão se passaram e então a porta foi aberta. Heloísa entrou primeiro, lançou-me um olhar de raiva, como se não fosse eu a estar machucada.
— Seu escroto doente. — Liz aproximou-se de mim, sem saber se me tocava ou não. — Olha o que você fez com ela.
— A culpa é sua. — cuspiu ele para ela, com raiva. — Você não nos deixa em paz hora nenhuma.
— Nós vamos agora a uma delegacia. — A voz de Liz soou tão irritada, mas tudo o que fiz foi tapar os ouvidos, completamente cansada de toda a gritaria.
Evitei olhar o rosto no espelho, horrorizada com a dor intensa no olho direito. Minha boca parecia estar mil vezes maior, inchada e escoriada.
— Ela não vai sair daqui, porra. — A voz colérica demonstrava o tanto de álcool que ele devia ter ingerido. Mas não eram as bebidas que faziam dele um monstro, ele não precisava de nada disso para ser exatamente o que era.
Eu não chorei, só me senti morrer mais um pouquinho, como vinha acontecendo. Uma pequena dose de morte dia após dia. Era o que eu vinha consumindo desde que o deixei entrar na minha vida.
— Calma, Liz. — Heloísa se meteu na conversa, como sempre, tomando partido do filho. — Nós podemos resolver conversando, não há necessidade alguma de polícia.
— É o que vamos ver.
Sem ver direito o que se passava, por causa das lágrimas ou do ardor dos meus olhos, eu levantei e saí amparada em minha irmã. Ouvi apenas Heloísa impedir que o filho viesse atrás de nós.
Estávamos quase chegando a garagem, quando ouvimos a voz de Heloísa.
— Esperem... — chamou.
O motorista, praticamente sua sombra, estava ao seu lado.
— Ele leva vocês.
Eu deveria ter desconfiado, se havia algo que Heloísa não tinha era benevolência.
— Nós vamos a delegacia. — fiz questão de dizer pela primeira vez, desafiá-la.
Sujar a imagem de empresário perfeito que o filho dela tinha.
— Ele vai levar vocês para onde acharem melhor. Liz ainda não está habituada com o trânsito do Rio de Janeiro e você está muito machucada.
— Você está vendo isso agora... — retruquei com sarcasmo.
— Quem demorou muito tempo para perceber foi você mesma, menina. Cada um é responsável pela própria história.
As palavras me feriram, ainda que fossem verdade. Senti muita raiva dela, de meus pais porque não se importavam com o que acontecia comigo. Mas eu mesma fiz vista grossa com todos os abusos que sofri.
Eu era responsável pela minha própria história, mas passei tempo demais deixando essa responsabilidade nas mãos de outras pessoas. Achando que Enzo, Heloísa, meus pais, tinham obrigação de me deixarem feliz, quando na verdade esse compromisso era meu comigo mesma.
Só demorei demais a perceber.
Machucada como estava, não percebi de imediato o caminho que o motorista de Heloísa estava fazendo. Depois de um tempo não havia mais carros ou trânsito, apenas uma pista longa e desconhecida. O telefone dele tocou e de onde estava escutei a voz assassina da mulher.
— Dê um fim nas duas. Essa garota já atrapalhou demais a vida do meu filho.
Meu corpo inteiro gelou, e eu olhei para trás procurando por minha irmã. Pela expressão que ela fazia, Liz tinha escutado também.
— Faça parecer um acidente, só se livre das duas. Se a polícia passar a investigar meu filho, pode ser que outras coisas sejam descobertas também...
Que outras coisas?
Com calma, o sujeito olhou na minha direção.
— Acho que o fim de linha para vocês duas é aqui.
Depois tudo aconteceu muito rápido, Liz bateu com força o salto de uma sandália da nossa mãe que estava no piso do carro na cabeça de Calixto e ele acabou perdendo a direção, eu conseguia escutar o som dos pneus girando no asfalto e então o clarão e uma dor lancinante, apenas de um lado do meu corpo. Não tive como ver o que aconteceu com minha irmã, exceto que ela não estava mais no carro, tudo girava ao meu redor. O sujeito não tocou em mim, apenas saiu do carro em direção ao outro veículo envolvido no acidente, a minha tontura não permitiu que eu visse o que aconteceu em seguida. O medo de que ele voltasse, e a preocupação pelo fato de eu não conseguir ver ou escutar minha irmã, fizeram as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
Fiquei o mais imóvel possível, por causa da dor e por causa do medo. Como se o simples fato de eu respirar pudesse chamar sua atenção para mim. Vi-o se afastar do outro veículo e andar adiante, mas não consegui enxergar o que ele analisava no chão. Fechei os olhos automaticamente, quando o miserável olhou na direção do carro. O medo que ele voltasse, que me matasse. Só o pensamento de me mexer podia causar gritos de dor, a tontura não me deixava saber onde estava ferido, mas eu sentia o cheiro de sangue e de gasolina.
Pingando. Pingando.
— O carro vai explodir. — Ouvi a voz sinistra vindo pelo lado do motorista, ele havia voltado. — Eu não vou precisar nem encostar em você. Sente o cheiro de gasolina vazando?
Um desespero fora do comum me invadiu, uma sensação de ser culpada também.
Eu não devia ter ido até lá.
Eu não devia ter feito muita coisa.
Ouvi o impacto de um murro no vidro e pisei no acelerador, voltando para o presente e deixando Enzo para trás, mas o outro carro logo me seguiu e eu senti medo de não conseguir chegar a tempo. Peguei novamente o celular e dessa vez liguei para Andrea.
— Você está com ele? — inquiri, sem saber se estava fazendo sentido.
— Estou saindo do banho. Está precisando de alguma coisa?
Então, ninguém sabia ainda que eu tinha saído do prédio.
— Enzo fez alguma coisa, Andrea... Você precisa avisar a ele... — Acabei chorando e me culpando.
— Onde você está e do que está falando? — Ouvi-a xingar e depois o barulho como se estivesse se vestindo muito rápido.
— Enzo disse que ele vai morrer.
Marcone
Caminhei a passos largos para o carro que havia deixado estacionado diante do prédio há quase duas horas atrás, quando passei a olhar o sistema de seguraça dos últimos três dias. Como havia suspeitado, Afonso estava no prédio no dia em que Nina fora sequestrada, uma câmera lateral no estacionamento pegou o momento em que o infeliz entrou empurrando o carrinho de compras de uma moradora, provavelmente por conhecê-lo da portaria, ela não estranhou nada. Isso foi alguns minutos depois de Nina e Ben chegarem. O som estridente de uma buzina me fez olhar para o lado, estreitei os olhos, tentando focar no motorista.
Era ela.
Se eu não estivesse vendo com meus próprios olhos, não teria acreditado.
Era Camille na direção de um carro. Ela parecia estar gritando, fazendo gestos nervosos e precipitados, enquanto segurava o volante com uma mão só. Um arrepio severo na minha nuca me congelou.
Era um aviso.
O carro estava chegando perto, e numa brecada ele parou e ela começou a correr. Correr para mim. Numa fração de segundos, eu passei a realmente avaliar o que estava para acontecer.
Minha morte.
Um carro com os vidros insufilmados estava parado do outro lado da rua, três homens estavam saindo de lá. Armados. Ao que parecia não tinham me notado ainda. Meu pânico cresceu consideravelmente, ela ia ficar na mira também. Eu já tinha visto cenas como essas em filmes de ação e todas elas acabavam com alguém morrendo, era como se o ar estivesse faltando, não pelo medo do poderia acontecer comigo, e sim com o que aconteceria se ela chegasse perto de mim. Eu não conseguiria acertar aos três de uma vez só. Se tivesse um pouco de sorte, acertaria um deles sem ser atingido. Puxei a arma do coldre discretamente escondido na minha cintura, Camille estava perto.
— Volte! — Gritei para ela, quando um tiro deles acertou meu ombro de raspão, a expressão dela foi de pânico. Camille olhou para o outro lado da rua e ao invés de me obedecer começou a correr mais rápido, um carro freou, cantando pneus na minha frente e eu consegui atingir um deles, parecia que tudo ao redor tinha se tornado um inferno fora de hora, pessoas correndo, e tentando se proteger. Sem ter o que fazer corri na direção dela, no intuito de arrastá-la para trás do carro mais próximo. As lágrimas silenciosas escorriam pelo seu rosto, meu coração batia de um jeito louco, então nos encontramos no meio do caminho e ela caiu nos meus braços, depois do som oco de uma bala. Tive tempo de olhar seus olhos, as duas esferas verdes, arregaladas, enquanto a vida escorria junto com as últimas lágrimas. Minha mão ficou úmida a bala tinha atravessado e acertado Camille. Abaixei-me com ela atrás de um veículo, desesperado, os seus olhos ainda estavam semiabertos.
— Foi você... — sussurrou, com os olhos nublados, sinal de que a inconsciência estava próxima.
— Pelo amor de Deus, que porra você veio fazer aqui? — Minha voz não saiu brava como pensei. Foi um sussurro cheio de dor. Amparei-a com apenas uma mão, enquanto tirava a blusa com dificuldade. O peso dela tinha aumentado, sinal de que já estava inconsciente. O barulho dos tiros tinha diminuído. — Meu Deus... De novo não... Camille, amor... Meu Deus... — Coloquei a blusa embaixo da minha mão para estancar o sangue e olhei ao redor. Um deles estava vindo, apontando a arma para mim, tudo pareceu estar em câmera lenta e então, o som do tiro. Esperei que a dor bruta viesse, mas não veio. O sujeito caiu de joelhos e depois o corpo inteiro foi ao chão. Andrea veio correndo para perto de mim, depois de guardar a arma.
— Você está ferido. — Foi uma afirmação, mas eu não sentia nada, não na minha carne, todavia sentia-me esfolado por dentro. Ela evitou olhar para Camille. Provavelmente sem querer acreditar no que estava vendo, mas as lágrimas silenciosas que desceram pelo seu rosto me mostravam a realidade nua e crua. — Temos que tirá-la daqui. — Continuou, num tom agressivo, uma reação automática que ela tinha a momentos como esses.
Ergui-me do chão com a garota mole nos meus braços, minha camisa já estava ensopada. Não tive coragem de olhar sua pulsação. Minha mente só pedia para que se houvesse um Deus realmente, que ele não a levasse, que não me fizesse passar pelo inferno de novo. E novamente a culpa era minha. Sempre tive um alvo nas costas, tinha que tê-la mantido longe de mim.
Estou apaixonada, Marcone...
O tom de voz doce que ela usou para me dizer isso foi como uma punhalada no meu peito agora. Eu também estava. Estava apaixonado. E devia ter sabido desde o primeiro beijo que a nossa história terminaria assim. Homens como eu não tinham finais felizes. O que eu esperava? Viver feliz com ela? Com todos os inimigos que eu tinha? Eu realmente esperava isso?
Já tinha socorrido agentes baleados, vítimas, mas o sentimento agora era outro, a dor era lancinante, parecia que não estávamos saindo do lugar, que não chegaríamos a tempo à clínica. Atravessei as portas da recepção desesperado, Alexandre estava saindo por uma porta branca e estancou ao me ver.
— Faça alguma coisa por ela... — Eu implorei assim que cheguei perto dele. — Por favor...
Os olhos dele deixaram os meus e encontraram o rosto inconsciente de Camille. Minha Camille. Os seus dedos longos pousaram no lugar onde não tive coragem de colocar os meus.
— Por favor...
— Doutor. O helicóptero está esperando. O voo para São Paulo está marcado para daqui a vinte minutos. — Uma voz extremamente profissional soou atrás dele, não sei se ela estava ciente do que estava acontecendo, e também não fiz questão de olhar para ela.
— Cancele, Julie. — Ele disse, colocando a maleta que carregava sobre o balcão e acenando para alguém atrás de mim. — Venha.
Eu o segui cegamente pelo corredor, sem me importar com as pessoas que olhavam de mim para ele. Alexandre abriu uma porta e deu espaço para que eu passasse, coloquei Camille sobre a cama, uma garota toda vestida de branco entrou trazendo alguns utensílios, luvas, uma touca. A sala era esmagadoramente branca, cheia de equipamentos, o cheiro de éter estava me deixando com uma sensação forte de ansiedade e sufocamento.
— Você está sangrando também. — A voz forte fez um eco na minha cabeça. — Chame Lucas para tirá-lo daqui, Julie. Ele também está perdendo sangue.
Olhei para ele, provavelmente com cara de poucos amigos.
— Ela não pode morrer, você ouviu?
— Não pode ficar aqui — disse com cautela. — Vai ter de confiar em mim.
Olhei para Camille, as duas enfermeiras já estavam cortando o vestido ensanguentado dela. Insisti olhando para seu rosto, esperando que ela abrisse os olhos. Que aquela intensidade verde me fitasse agora. Todavia, não aconteceu.
Não houve sinal, ou reação.