O Federal
Capítulo 48
Marcone
Assisti o momento exato em que Enzo parou para fazer
alguma declaração a um dos jornalistas que o esperavam no lado externo da clínica — como imaginei, Heloísa e o motorista estavam com ele, ela inclusive fez questão de dizer algumas palavras. Abri um dos sites que estavam ali para ver se a entrevista era ao vivo, mas não encontrei nada. Estava curioso demais para saber o que ele diria.
Segui-os a distância, o infeliz estava a caminho da delegacia, estacionei em uma vaga qualquer e saí do carro, queria que ele me visse e se lembrasse do que eu havia dito. Não entrei na delegacia, esperei pacientemente encostado no carro até que Enzo saísse, queria que ele se sentisse encurralado como tinha feito com Camille.
E quando saiu, a primeira coisa que o mauricinho viu foi a mim, eu não estava perto da saída, mas como se soubesse, como se tivesse certeza de que alguém o esperava, ele olhou exatamente para onde eu estava, da distância em que fiquei não pude ver claramente seu rosto, a expressão que ele fez, mas tanto a mãe quanto o motorista também olharam na minha direção, sinal de que alguma comunicação aconteceu entre eles. O mauricinho filho da puta entrou no carro, deixando-me desapontado. Queria muito que ele fizesse algo, que agisse como o homem violento que eu sabia que o infeliz era, todavia, ele parecia guardar a fúria para mulheres indefesas, de força e tamanho muito menor que o dele.
O carro passou por mim e eu vi o rosto da mãe dele, tão diabólico quanto o do filho. Deviam ser iguais em maldade e caráter, pensei, relembrando o que Naiá falara sobre ela.
Meu celular vibrou no bolso e eu entrei no carro para atender a chamada de Flávio. Bruna estava sendo levada para a casa da avó dele e estaria sob proteção da polícia até que a data do seu depoimento oficial chegasse.
— Flávio — atendi e liguei o motor.
— Acabamos de chegar. — avisou.
— Ok.
Encerrei a ligação e segui para a delegacia. O dia seguiu exaustivo, e sem muitas surpresas, saí no horário de sempre para almoçar no restaurante ali perto mesmo e no final do dia, saí sem falar com Andrea, raramente fazia isso. Mas, ultimamente minha ansiedade de voltar para casa era maior do que qualquer coisa. Irritei-me com o trânsito como já era habitual e subi para o apartamento. Assim que entrei vi Camille sentada no sofá com o celular na mão.
— Oi. — Olhei-a por inteiro para ver se estava bem e caminhei para sentar ao seu lado.
— Até que enfim. — Ela sorriu, encostando em mim.
— Até que enfim mesmo. — concordei e beijei de leve a boca carnuda e depois a testa fresca e perfumada.
— Vou voltar para o estágio e para as aulas. — avisou ela, após entrelaçar nossos dedos. — Romana me ligou e conversamos muito durante a tarde, com a medida protetiva que ela solicitou Enzo não pode chegar perto de mim.
— Ele saiu hoje da clínica. — Olhei-a, preocupado. Todavia, não ia mantê-la presa aqui. — Eu gostaria que esperasse mais um pouco, mas não vou impedi-la de fazer o que quer.
Camille assentiu apenas.
Deixei-a sozinha para ir tomar banho e logo depois saímos para jantar ali perto, fomos a pé mesmo. Segundo ela estava ficando trancada no apartamento o tempo todo e queria um pouco de ar fresco.
— Você podia trazer Bella permanentemente para cá — disse ela, enquanto caminhávamos de volta para o prédio.
Eu ri e beijei a mão que segurava.
— Agora não dá. Bella tem treinamentos diários, exercícios e eu não teria tempo para cuidar dela com a rotina que temos.
— Nunca tive um cachorro. — Lembrou ela, pensativa.
O comentário me fez lembrar das merdas que Augusto havia falado, um completo idiota.
— Você devia fazer uma lista de coisas que nunca fez e nunca teve — sugeri e ela sorriu gostando da ideia.
*
Alguns dias se passaram, mais calmos do que imaginei. Assim que saiu da clínica Enzo fez declarações ridículas sobre o que aconteceu e ainda foi capaz de dizer que provaria sua inocência. Após essa declaração, eu consegui o vídeo em que ele havia agredido Camille na calçada do prédio e a advogada anexou ao processo, depois disso o idiota foi chamado novamente para prestar esclarecimentos, mas estava extremamente silencioso. O que para mim era pior. Camille voltou a dar aulas e trabalhar, mas eu não conseguia relaxar, o tic tac na minha cabeça não parava momento nenhum.
— Cara, você precisa ouvir isso. — Ben apareceu, nervoso e eu o segui para a sala de inteligência. Aceitei o fone e sentei ao seu lado.
Durante os dias, as únicas coisas que eu tinha descoberto sobre os Coimbra era que Heloísa de fato tinha um caso com o motorista e o mais engraçado de tudo, o pai de Enzo também tinha um caso, mas com um dos estagiários da própria empresa. Pelas conversas aleatórias que acabei escutando, era com essa informação que ela o dobrava. Todos eram eram doentes e tóxicos uns com os outros.
O chiado inconfundível da linha grampeada soou antes das vozes.
— Ele esteve aqui perguntando sobre a garota. — Pausa. —
Acho que está investigando por conta própria.
— Ele não vai chegar a lugar nenhum.
Ao contrário do que imaginei não foi a voz de Enzo que escutei e sim de Heloísa.
— Mesmo se ela lembrar o que aconteceu, ninguém nunca vai
acreditar, quem acreditaria. Quais são as provas?
— E quanto a ele?
— Ele vai procurar e não vai encontrar nada. Quais provas ele tem? — questionou ela. — Quais pontas soltas?
— A ponta solta é que ela continua viva. E ele tem um vídeo em que eu apareço.
— Decubra qual o preço dele. Camille não deve ser tão
importante assim. E mesmo se for, as pessoas costumam perder o valor diante de uma boa quantia de dinheiro.
— Já ouviu falar dele? Ele é odiado por muita gente justamente por não ter um preço.
— Toda pessoa tem um preço, se os pais dela têm, porque ele não terá?— Suspirou. — E quanto ao que vai chegar? — ela mudou de assunto.
— Na sexta-feira depois das onze.
— Passe o endereço para Calixto.
Peguei uma folha de papel e anotei o endereço que ele havia
passado.
Tirei o fone quando a ligação foi encerrada.
— Era o telefone de quem?
— Calixto. — Tirou o próprio fone. — Você vai até lá?
— Sim.
— Eu vou com você.
Ainda fiquei um tempo sentado, o estômago revirado com tudo que podia ter acontecido com Camille se talvez eu não tivesse chegado ao local antes de alguém ir terminar o que quer que tenham feito. E o pior de tudo era o fato da escuta ser ilegal, não serviria em nada para efeito de prova. Como também não tinha me contado a história toda, só confirmou o que eu já tinha certeza. Não foi um acidente comum.
Peguei o celular do bolso e liguei para Camille sentindo a necessidade de saber que ela estava bem, e odiando a quantidade de pessoas ruins que ela tinha convivido.
— Não diga que já está vindo me buscar. — ela brincou, e por
um momento não tive reação. Agora mais do que nunca eu queria que ela se lembrasse do que havia acontecido. — Marcone? Aconteceu alguma coisa?
— Não, eu só queria saber se está tudo bem.
— Na verdade não. — Ouvi o tom divertido. — Isabelle está
reclamando por você não aparecer aqui para vê-lá.
— Mande um beijo meu para ela.
— Oi, tio. — Eu sorri assim que escutei a voz da pequena
tagarela. — Eu não gosto de beijos por telefone.
— Ok, vou passar aí para dar um beijo pessoalmente, só não vou prometer o dia.
— Legal.
— Você acaba de deixá-la mais feliz. — Camille voltou para a
linha.
Ainda nos falamos um pouco e eu voltei minha atenção para Benjamim.
— O que acha que eles estão esperando? — ele perguntou, brincando com o fio do carregador de celular ao seu lado.
— Não deve ser nada bom.
*
Sentei na cama para colocar o outro tênis, sob o olhar preocupado de Camille.
— Aonde você vai? — perguntou ajoelhando atrás de mim na cama. Fazia pouco tempo que eu tinha chegado da delegacia, deveria ter ido de lá mesmo, mas a preocupação que só crescia conforme os dias passavam me fez vir para casa primeiro, ficar um pouco com ela e depois ir descobrir o que eles estavam esperando.
— São coisas de trabalho.
— Todos esses dias você está trabalhando até tarde. — reclamou ela.
— Logo isso vai acabar. — Virei-me para ela e segurei o rosto pequeno entre as mãos, beijei de leve a boca e a atesta e ela me abraçou, como se não quisesse que eu fosse. — Eu não vou demorar.
Camille me acompanhou até a porta, com o mesmo ar aflito, beijei novamente a sua boca e saí.
Durante a semana eu já tinha rondado o lugar, passei de carro algumas vezes, nada mais era que um galpão abandonado no meio do nada. Uma área um tanto quanto desvalorizada do Rio de Janeiro.
— Vamos lá. — Entrei no carro de Benjamin e ele seguiu a avenida.
Seguimos em silêncio, ao que parecia Ben estava tão ansioso quanto eu, curioso na verdade. Consultei o relógio, passava das dez. Ben estacionou o carro num canto mais escuro, a alguns quilômetros de distância do galpão. As horas começaram a passar e eu cheguei a questionar se estávamos no lugar certo. Cheguei a olhar no Google Mapas se estávamos realmente onde deveríamos.
Um caminhão grande estacionou perto do galpão, um instante depois, e dois homens desceram, desconhecidos. Eles conversaram alguma coisa, mas mesmo com o vidro aberto não consegui escutar. Ben tirou uma foto da placa do caminhão e em seguida passou a observar a movimentação estranha, como eu.
— Será que são só dois? — inquiriu ele, esticando um pouco a cabeça.
Um dos caras se afastou para urinar e o outro se aproximou do galpão, estudando-o por fora, antes de abrir o portão.
Juntos eles abriram o baú de carga, e então o som de muitas vozes apareceu. Línguas diferentes, inglês, espanhol. Falavam de forma agitada, porém não consegui acompanhar e entender as palavras, além do vento cortar as palavras, a distância em que estávamos era considerável.
— Caralho! — Ben se remexeu no banco, e passou a tirar foto de cada mulher que desceu do caminhão, estavam amarradas uma nas outras, muito bem vestidas, como se tivessem acabado de descer do avião. — Cárcere privado.
— Tráfico.
De tudo que eu podia pensar, não imaginei que seriam mulheres a sair dali. Não nessa circunstância.
— Será que são só dois?
Passamos cerca de uma hora ali, observando. Contei treze mulheres. Ao que parecia passariam a noite ali, um deles trancou as garotas e voltaram para o caminhão, cheguei a pensar que iriam deixá-las ali, mas se passou mais quarenta minutos e o veículo permaneceu parado.
Meu celular vibrou e o nome de Camille apareceu no visor, fiz um sinal para que Ben fechasse as janelas do carro e atendi a chamada.
— Oi, amor.
— Quando você vai chegar? — perguntou ela, parecendo irritada e com razão, eu não imaginava que iria demorar tanto.
— Vou demorar mais um pouco, por que não vai dormir? — Consultei o relógio. Quase uma da manhã.
Ela encerrou a ligação sem responder, sinal de que eu estava com problemas. Mais problemas, na verdade.
— Vamos lá. — Tirei a arma do coldre e esperei que Ben destravasse a porta para sair do carro.
Não estávamos tão longe do veículo, mas fomos cautelosos para não fazer barulho, o chão de terra extremamente escorregadio, e barulhento por causa do solado dos nossos calçados. Fiz um sinal para que Ben fosse pelo lado contrário ao meu do caminhão, a finalidade era surpreender aos dois de uma vez só. Conforme me aproximava percebi que a janela estava aberta, melhor para nós.
Ouvi o trinco da porta ser aberto e dei um passo para trás, recuando. Vi a perna do homem, e em seguida o corpo cheio ficou evidente. Provavelmente o infeliz tinha escutado algo e saído para conferir, todavia desarmado.
— Fica aí. — Apontei a arma e o desavisado olhou chocado na minha direção, como se esperasse por qualquer coisa, menos alguém com uma arma apontada para sua cabeça. — Ben. — Gritei, preocupado.
— Tenho o controle.
— Quem é você? — perguntou, olhando para os lados, talvez procurando pelo dono da voz que havia me respondido, ou por uma viatura.
— Não interessa. — Revistei-o, tendo o cuidado de manter a arma apontada ainda em sua direção, checando se ele estava armado, encontrei sua carteira e coloquei no meu próprio bolso. — Estou curioso para saber o que todas essas mulheres estão fazendo aqui.
Depois de algemar os dois homens e revistar o caminhão inteiro, além das armas e de um pacote pequeno de cocaína, todos os passaportes das garotas estavam com eles. No baú do veículo algumas malas, água e comida. O reforço chegou um tempo depois.
*
Na delegacia, todas as mulheres foram ouvidas. Para a sorte de cada uma, se livraram do destino terrível antes de realmente sentirem na pele o que estava esperando por elas. O tráfico de pessoas era um dos crimes mais rentáveis do mundo, perdia apenas para o tráfico de drogas e de armas e era, na minha opinião, o mais desumano também.
— Como vocês chegaram a isso? — Andrea perguntou, parecendo exausta depois de pedir a autorização para prisão preventiva dos dois homens.
Não queríamos alarde e muito menos a imprensa sabendo de nada.
Não respondi de imediato, procurei o arquivo da conversa entre Heloísa e Sergio e soltei para que ela ouvisse.
— Grampeou a linha deles pela garota? — inquiriu ela depois de ouvir.
— Sim, depois do que aconteceu, eu preferi ficar de olho no que eles estavam tramando.
— Vou pedir autorização para uma escuta legal. Ela está acabada. — Referiu-se a Heloísa. Com um ar sombrio, aquele que nos fazia ser muito parecidos. — Resta saber se o filho também está no meio dessa merda.
— Duvido muito que não.
*
Assim que abri a porta do apartamento encontrei Camille andando de um lado para outro, torcendo as mãos. A cada noite que eu passava fora por causa do trabalho mais ela se tornava possessiva e irrequieta, eu já tinha vivido isso antes com Samanta. As cobranças para que parasse de viver no meio do fogo cruzado, não era algo novo para mim, todavia estava mais perto do que nunca agora.
— Desculpa.
Esquecendo da raiva, ela veio me abraçar, os olhos inchados, provavelmente por causa do sono que tinha evitado para me esperar chegar.
— Porque demorou tanto? — inquiriu, grudada em mim.
— As coisas acabaram fugindo do controle. — Observei os olhos preocupados e beijei de leve a testa franzida. — Vou tomar um banho e vamos dormir. — Soou como uma piada, se fôssemos realmente calcular as horas, não faltava muito para termos que levantar.
Tomei um banho rápido e me deitei com ela, Camille não demorou muito a dormir, realmente cansada. Eu fiquei acordado até ver o dia nascer, chegava a pensar que só dormiria realmente quando tudo acabasse.
Algumas coisas precisam acontecer...
Para o Bem
Ou para o Mal