O Federal
Capítulo 44
Camille
Não consegui dormir, minha conversa com Andrea me deixou
ainda mais dividida entre o que eu achava que era certo e o que eu queria, quando acordei estava péssima. As marcas dos tapas estavam piores, e as dores também, tomei um comprimido para dor logo após o café da manhã simples e maluco que ela ofereceu, Andrea parecia ser viciada em doces, algo que se enchia e ficava arrependida depois. Ela me deu um café extremamente doce e uma fatia de torta de coco que claramente havia comprado pronta em alguma padaria aqui de perto.
Durante o percurso até meu prédio, ela atendeu ao celular mais de uma vez. Eu sabia que era relacionado a mim, porque de vez em quando ela olhava na minha direção.
— Enzo pagou ao vigia para deixá-lo entrar e dar um passeio, enquanto ele estava lá dentro. — Ela deu um suspiro longo como se estivesse sem paciência. — A mãe dele pagou a fiança, isso quer dizer que ele não está preso.
Nem ficaria nunca, Heloísa não deixaria isso acontecer.
— Eu preciso ir para a delegacia, Camille. — explicou ela. — Se precisar de qualquer coisa, ligue para mim.
Quando entrei em casa não encontrei ninguém na sala ou no hall, mas me assustei ao ver Heloísa no meu quarto.
— O que você faz aqui? — indaguei, tentando entender como ela tinha entrado.
— O que você fez? — ela soltou com raiva, exigindo como no passado que eu desse explicações sobre atitudes do filho dela. — Enzo está ferido Camille, passou por uma cirurgia na mão, mas os médicos não garantem que ele tenha o movimento dela novamente. O que você fez, garota?
Era como se todos os hematomas no meu rosto não existissem para ela, que as minhas dores não fossem válidas, que eu não merecesse atenção. O filho dela sim, eu demorei muito a vê-lo como um agressor doente, mas era isso que ele era, e ela se igualava por cobrir todas as pequenas e grandes falhas dele.
— Você deveria estar do meu lado. — sussurrei já sem forças, eu sabia de cor e salteado todas as acusações que ela faria, a lavagem cerebral que viria para que eu me sentisse errada. Era o mesmo maldito discurso do filho, quem a via nas rodas da alta sociedade não imaginava o ser humano mesquinho que ela era.
— Vá embora, Heloísa. — sibilei, querendo apenas tomar um banho e dormir mais um pouco, meu couro cabelo ainda parecia queimar por causa dos puxões de cabelo, minhas costas latejavam por causa da minha queda, meu pescoço estava dolorido e eu estava exausta, parecia que todos os anos, todos os meses, tudo tivesse resolvido se amontoar sobre mim no intervalo da noite anterior e dessa manhã, e pesava muito. Cada decisão ruim, cada conselho que não escutei, cada perdão que concedi. Tudo pesava, machucava e me tirava a esperança de que algum dia fosse acabar.
— Você foi a pior desgraça que aconteceu na vida do meu filho.
Ela já havia me dito isso antes, em um dos jantares que, às vezes, ela promovia, porque mesmo depois de apanhar Heloísa queria que eu fosse a noiva perfeita, e tão sobrecarregada como estava na época, comecei a chorar durante o jantar e todos viram, todos questionaram e claro que não fui eu a responder o motivo.
— Retire as acusações, retire tudo, pare o processo ou...
— Ou o quê? — Cruzei os braços, com raiva. — Você vai me matar? Vai precisar entrar na fila por que seu filho já prometeu fazer isso. Vai me espancar? Olhe a minha cara, olhe o que ele fez comigo. Você não vê?
— O que você esperava que ele fizesse depois de sair desfilando com outro por aí?
Recuei chocada, ela era um monstro como o filho. A fruta não caia muito longe do pé, não é?
— Ele tem o mesmo sangue ruim que você.
— Sim, e você tem o mesmo sangue ruim que seus pais. Somos todos iguaizinhos, Camille. — Ela olhou ao redor, e eu sabia que ela iria me ferir um pouco mais. — Que tipo de mãe não percebe o estado mental fragilizado que a filha está? — Eu sabia que ela se referia a Joice. — E que tipo de pai vende a própria filha? Você não passa de um negócio, Camille. Seu pai está na merda há muito tempo, tudo isso é status por que ele não admite e nem aceita a falência. Você seria o melhor negócio dele, ou você acha que ele não sabe exatamente quem Enzo é? Eu fui você um dia, o pai de Enzo fazia o mesmo comigo. E seu pai e sua mãe sabiam, e faziam vista grossa, do mesmo jeito que fizeram com você.
O gosto amargo que senti na boca, não era pior do que o estado esfolado que eu estava por dentro.
— O que seu pai fez com o dinheiro do seguro de vida de Liz?
A essa hora eu não conseguia mais enxergá-la, nem conseguia falar mais nada. O choro estava me sufocando por que eu não queria permitir que ele saísse, eu não queria chorar, eu não queria ser um negócio, no momento eu não queria nem ser eu.
— Talvez não seja eu ou Enzo a matá-la, há um seguro no seu nome também, não há? — Ela fez menção de se aproximar, mas eu me afastei e peguei o primeiro objeto pesado que vi, um vaso de porcelana branco, a mulher manteve a frieza de sempre. — Retire a queixa, desfaça a merda que fez ou eu não vou fazer nada quando Enzo decidir machucar quem você gosta, porque é o que ele vai fazer assim que sair do hospital. — Ela caminhou para a porta, mas me olhou antes de sair. — Pode ser difícil acreditar, mas no fundo não quero seu mal. Nunca quis.
Ainda fiquei um tempo olhando para a porta, sem saber realmente quem eram as pessoas que viviam comigo. Eu não fazia ideia, mas muito do que ela dizia fazia sentido. Nunca recebi amor dos meus pais, nunca me senti realmente desejada por eles. Ouvi uma batida na porta e segurei com mais força o objeto pesado, sabendo que podia ser ela novamente, mas não era.
— Ah, amiga, eu sinto muito. — Era Aline, com minha bolsa que eu havia deixado no prédio ontem. Ela me abraçou com carinho, e embora tivesse causado um pouco de dor, me senti reconfortada. — Eu fiquei preocupada quando Flávio me ligou dizendo que a polícia precisaria ir até o prédio.
— É o mesmo pesadelo outra vez. — Sentei na cama e ela fez o mesmo, retirando o vaso da minha mão..
— Marcone já sabe?
— Sim, eu não sei como lidar com ele agora. Eu sinto que estou sendo um estorvo, um problema. Estou envergonhada. — Abracei os meus joelhos, mas desisti quando doeu muito e me deitei de lado.
— O que ele disse?
— Não conversamos ainda depois, não tenho coragem de encará-lo. É constrangedor, Aline. Você não imagina como essa situação é constrangedora. — Olhei para a porta e depois para ela. — Como entrou?
— Heloísa estava saindo, Naiá está no supermercado com Miguel e seus pais estão em Parati. Sandra me disse quando eu perguntei se você tinha aparecido.
Sandra era uma das funcionárias mais antigas do meu pai, além de Miguel e Naiá.
— Se essa história vazar, a imprensa não vai te deixar em paz.
Aline ainda ficou um pouco comigo, mas foi embora um tempo depois. Tomei outro banho, vesti uma roupa folgada e tirei o celular da bolsa para colocá-lo para carregar. Enquanto isso saí do meu quarto e fui até a suite dos meus pais, eu não sabia exatamente o que estava procurando ou por que, mas as palavras de Heloísa não saiam da minha cabeça. Nunca imaginei que o pai de Enzo fosse agressivo, o homem parecia mais uma marionete nas mãos dela, mas também nunca sequer pensei que meus pais fossem ainda piores do que imaginei. O envelope com a apólice de seguro de Liz não estava mais onde eu tinha encontrado da outra vez, abri algumas gavetas que eu sabia que meu pai usava, mas não havia nada. Nada que realmente me desse algo para pensar. Minha cabeça começou a latejar por algo pior que a dor física, o medo começou a ser mais um dos motivos.
— Talvez não seja eu ou Enzo a matá-la, há um seguro no seu
nome também, não há?
Mesmo que eu não quisesse fazer associações, mesmo que eu não quisesse ficar pensando no que ela falara, essa frase não parava de voltar a minha mente, irritante como o som de sinos, repetitiva e enfadonha. Olhei o quarto em volta completamente frio, nunca um lugar pareceu tão frio, tão pobre de sentimento, tão sem vida. Era completamente diferente da avalanche de sentimentos que eu vivenciava quando saía do meu mundo e entrava no mundo de Marcone, era tão diferente. Ele estava cercado de pessoas que o amavam: a mãe, a irmã, Andrea, Bella havia muito mais calor, muito mais vida. Eu não conseguiria me acostumar sem isso outra vez, todavia seria egoísta em permanecer na vida dele, levando problemas, angustias que eu tolerei e engoli por muito tempo. O mais certo era ir embora, para longe, sem ninguém saber, nem mesmo Naiá.
Ninguém.
Voltei para meu quarto e peguei a mala maior, coloquei as primeiras roupas que encontrei pela frente, sem nem ao menos saber qual seria meu destino. Liguei o celular e algumas notificações começaram a chegar, eu sabia que fraquejaria caso fosse lê-las, sabia que havia mensagens dele ali. O som da notificação era diferente, eu sabia quando era ele. Cheguei a parar de colocar as roupas para olhar o celular, quase o peguei, mas respirei fundo e continuei a encher a mala. Chequei minha bolsa com documentos e conferi se o passaporte estava lá, quando vi que estava ok, abri o notebook e entrei no site para comprar as passagens. Eu tinha algum dinheiro no banco, nunca precisei gastar muito, teria como me manter por alguns meses, eu era fluente em mais de um idioma, então não seria difícil sobreviver em qualquer país.
Optei por uma passagem noturna, por volta das oito da noite. Eu só precisava sair sem ser vista, sem que ninguém fizesse perguntas. Passei as mãos no rosto reconhecendo a loucura que eu estava preste a fazer.
Voltei a pensar nos meus motivos, nas ameaças, em quem eu não queria que saísse machucado ou ferido, saí da cobertura e fui até a recepção do prédio, Sandra estava lá com uma mulher que eu nunca tinha visto, mas que também estava uniformizada.
— Cami. — Ela sorriu, mas ficou séria ao olhar meu rosto. — O que houve com seu rosto?
Eu estava acostumada a mentir, na verdade era a primeira vez que eu não cobria as marcas para interagir com outras pessoas. Fiquei sem saber o que responder, mentir eu não iria, nunca mais.
— Eu preciso da chave de uma apartamento desocupado. — Ignorei a pergunta e estendi a mão para que ela andasse rápido.
— Eu preciso olhar no sistema... — ela gaguejou sem saber se continuava a me olhar ou se fazia o que tinha de fazer.
Depois de alguns minutos, Sandra me deu a chave do apartamento 103 no décimo andar.
— Eu devolvo logo.
*
Sair do prédio foi mais fácil do que imaginei, menti para Naiá dizendo que iria passar uns dias na casa de Marcone, ela não estranhou, também não contei o que aconteceu. Como no passado usei a maquiagem para camuflar a agressão. Enquanto o táxi se afastava do prédio, eu comecei a sentir um pouco de falta de ar e vontade de chorar, mas não fiz, engoli o choro como já tinha feito várias vezes e fechei os olhos até que chegássemos ao aeroporto. Ao contrário do que eu queria, comprei uma passagem para São Paulo, lá conseguiria ver como estavam a minhas contas e decidir o que faria a seguir. Cheguei com meia hora de antecedência, acabei fazendo o check’in pelo celular no caminho para o aeroporto.
Sentei num dos bancos e coloquei a bolsa ao meu lado, eu nunca conseguiria sair do prédio com uma mala daquele tamanho sem que ninguém desconfiasse. Na bolsa tinha o básico, em São Paulo eu teria tempo de comprar algumas roupas.
O celular na minha mão vibrou mais uma vez e eu fechei os olhos, a cada minuto que se passava o pânico crescia. Os motivos para ir e para ficar criavam um conflito tenebroso dentro de mim e eu comecei a sofrer mesmo antes do avião ter decolado, por que assim que isso acontecesse não teria volta. Eu teria que recomeçar em outro lugar, longe de tudo. Engoli em seco com a possibilidade de que talvez nunca mais fosse ver Marcone.
Ouvi a primeira chamada do voo e meu coração disparou, algumas pessoas começaram a levantar, mas eu parecia estar presa no banco. Meu corpo começou a tremer como se estivesse com muito frio.
A segunda chamada ecoou e eu segurei a bolsa, o coração acelerando outra vez. Eu não queria ir.
Não queria.
Ouvi a terceira chamada e a sala estava praticamente vazia, deixei a mochila cair no chão e o baque veio junto com o som de alguns passos. O banco ao meu lado foi ocupado, mas fui incapaz de ver através das lágrimas que se formaram, mas pelo cheiro, pela reação automática do meu corpo. Eu sabia que era ele.
— Eu sabia que você não iria.
Enxuguei os olhos, inconscientemente, porque não tinha percebido que haviam lágrimas. Pude enxergar o rosto dele, e não havia desprezo ou raiva como imaginei, apenas carinho, preocupação e cuidado.
— Eu não queria ir... — admiti, sem ter muito o que dizer. — Mas eu também não quero que você se machuque por minha causa.
Marcone sorriu e se voltou na minha direção, segurou meu rosto e encostou a testa na minha, e eu me perguntei como ficaria longe de tudo ele representava para mim.
— É exatamente por isso que você não pode ir.
— Ele disse coisas horríveis... — Envolvi o pescoço dele, o alívio misturando-se ao medo.
Medo de dar tudo errado no final.
— Nós vamos conversar, agora não chore mais. — sussurrou ele com carinho, afastou-se e tocou o meu rosto, o lado machucado, mas foi um toque tão suave que não senti dor, só vontade que ele não parasse de me tocar. — Você comeu alguma coisa?
Lembrei-me que não, passei a tarde inteira numa briga interior tão grande que não tinha comido nada além do café da manhã com Andrea. Balancei a cabeça que não e ele olhou ao redor.
— Vou te tirar daqui.
Marcone beijou levemente a minha testa e pegou a minha mochila, antes de saírmos dali, passamos na agência de viajem para estornar a passagem.