O Federal
Capítulo 36
Marcone
Quando estacionei na garagem do prédio era mais tarde do
que imaginei chegar em casa hoje, Nina e Camille estavam vendo uma série qualquer na têve e Bella estava deitada no tapete de sempre. Eu teria que levá-la ao canil antes de viajar para Minas, aliás eu precisava fazer muitas coisas antes disso. Meu celular tocou assim que entrei na sala, era minha mãe querendo falar com Camille e obviamente preocupada por que ia receber os pais dela.
— Oi, tia. — Ela me seguiu para o meu quarto, respondendo a uma série de perguntas que minha mãe parecia fazer uma trás da outra.
Tomei um banho rápido e me vesti, enquanto elas ainda se falavam. Notei uma mancha vermelha no queixo dela e passei o polegar por ali, senti-a retrair e parei de tocá-la. Após um tempo interminável de conversa, Camille me devolveu o celular. Ainda troquei algumas palavras com minha mãe sobre a hora que chegaria — Nina, Camille e os pais dela iriam primeiro, eu só chegaria no dia seguinte.
Camille veio para perto de mim assim que coloquei o aparelho sobre o criado-mudo, o pequeno hematoma chamou a minha atenção outra vez, eu segurei seu queixo e beijei os lábios macios.
— Vocês querem pizza de que sabor? — Nina entrou no quarto sem ao menos bater, isso me irritava ao extremo e ela sabia.
— Qual o problema de bater na porta?
— Pare de implicar com ela. — Camille sussurrou, mas riu baixinho, com o rosto escondido no meu peito.
A encrenqueira sentou na cama como se eu não tivesse dito nada e me deu o celular no aplicativo de delivery. Eu com certeza chegaria a falência se ela morasse comigo por muito mais tempo. Nós três escolhemos os sabores e enquanto a pizza não chegava, as duas conversaram sobre os episódios da série que estavam assistindo antes de eu chegar, era a mesma que eu e Nina já havíamos maratonado uma vez quando ela estava de férias da faculdade, eu só comentei alguma coisa quando uma das duas me perguntava algo. A pizza chegou quase quarenta minutos depois.
A noite passou rápido, acordamos mais cedo por conta da viagem, eu teria que deixar as duas no prédio de Camille antes de ir para a delegacia. Notei minha irmã embrulhar um sanduíche a mais, enquanto tomávamos café da manhã.
Assim que terminamos, a campainha soou e eu fui atender. Era o homem que Nina costumava dar os sanduíches, mas ele nunca vinha aqui, com exceção de quando trazia alguma correspondência, mas não havia nada em suas mãos. Deduzi que ele devia estar querendo o café da manhã de todo dia. Todavia, ele estava nervoso, como se não esperasse que eu estivesse aqui ou talvez fosse o nervosismo por ter mais afinidade para lidar com minha irmã.
— Quer falar com Nina? — Perguntei, estudando o homem um pouco mais. Ele assentiu com a cabeça e eu fiz um gesto para que entrasse.
Deixei-o na sala e voltei para o meu quarto, onde Camille penteava os cabelos já pronta para ir.
— Você bem que podia esperar para ir comigo. — Beijei de leve o pescoço esguio, e ela se virou para me beijar com gosto de creme dental.
— Porque não me disse antes?
Respondi com mais beijos.
— Ah, qual é, nós vamos nos atrasar. — Ouvi a voz da serelepe e revirei os olhos, Camille riu e me beijou de novo depois de fazer uma careta para Nina.
Camille
Assim que desci da picape o ar bucólico me envolveu, o verde, e a paz que eu sentia ali. A nova advogada tinha ido nos buscar no aeroporto, e havia uma movimentação diferente na fazenda. Marcone disse que haveria alguns festejos durante esses dias, estava curiosa para ver como era. Olhei ao redor, matando a saudade do verde e do ar totalmente diferente do Rio de Janeiro. Nina e eu caminhamos juntas para onde Mara já nos esperava, meus pais vinham um pouco mais atrás junto com Celine. Depois das apresentações e de algumas conversas paralelas, Mara realmente me abraçou, era a primeira vez que eu a via após ficar de verdade com Marcone, nosso contato desde então era pelo celular dele, mas cara a cara era diferente, eu me senti subitamente envergonhada principalmente por ele não estar ali. Quanto aos meus pais, eles pareciam desnorteados com a beleza do lugar.
Nina e eu subimos para tomar banho e os deixamos na cozinha.
— O que vai acontecer aqui? — perguntei, indo até a janela.
Numa área plana a alguns quilômetros da casa havia algumas barracas armadas, eu diria que a distância era bem maior do que parecia.
— Todo ano meu pai fazia uma festa enorme para o povoado. — Ela aproximou-se e olhou na mesma direção que eu. — Em agradecimento aos frutos que a terra sempre nos deu. — Ela fez uma pausa e apontou para as barracas. — As pessoas têm oportunidade de ganhar algum dinheiro, os mais velhos contam lendas, as mulheres dançam. Eu sempre adorei. — Por fim ela olhou para mim. — Depois de anos é a primeira vez que Marcone vem.
— Ele me contou que tinha algumas diferenças com o pai de vocês.
— Papai era arcaico. — Ela sorriu tristemente, mas sem perder a vivacidade. — Ele queria que Marcone assumisse a fábrica e tudo na fazenda. Mesmo após a morte, é o que ele ainda deseja. Está no testamento como último pedido.
Fiquei arrepiada e olhei novamente para os arbustos, o verde intenso das folhas e da grama, senti o ar puro.
— É aberta ao turistas? — Referi-me à festa.
— Sim, vários gatinhos aparecem por aqui.
Eu a olhei divertida.
— Ben vai gostar muito de saber disso.
Ela não respondeu, mas riu, espevitada e marota.
O resto do dia passou rápido, depois do almoço Mara e eu fomos até onde estavam as barracas, como eu havia suspeitado era mais longe da casa do que parecia. Percebi o respeito que todos ali tinham por ela, eles não chamavam Marcone pelo nome, chamavam-no de primogênito de Tadeu. Eu passei a tarde inteira com ela, enquanto escutava como tinha surgido a festa da colheita, a história de vida deles era muito bonita. Havia um impacto muito grande no legado que o pai de Marcone havia deixado e não se tratava apenas de dinheiro e sim da lealdade que as pessoas pareciam ter, do respeito profundo, preciosidades que não se compravam. Totalmente diferente do jogo de interesses que acontecia na capital e que inclusive era o que meu pai estava fazendo aqui.
A noite, após o jantar, ela contou algumas histórias de Nina e Marcone de quando eram crianças e eu vi alguns álbuns, a maioria das fotos de quando eles eram muito pequenos. Estavam gastas, a semelhança que ele e Nina tinham era enorme, embora houvesse uma diferença grande de anos entre o nascimento de um e de outro.