O Federal

Cris Araújo · Capítulo 58 de 63

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O Federal

Capítulo 57

 

Dias depois

Marcone

 

Algumas feridas seriam sempre nossas, mesmo que dias,

anos se passassem, mesmo cicatrizadas sempre seriam nossas.

Elas mostrariam quem nós éramos, de onde vínhamos e para onde iríamos.

Era uma parte intrínseca, a nossa parte mais íntima, aquela que ninguém via.

Os dias que se passaram foram como anos, dolorosos e lentos. Absurdamente lentos, como se o ponteiro do relógio não mudasse nunca, ou mudasse numa condição errada. A minha impressão era que tinha chegado ao clímax da vida, o momento em que todas as bombas explodiam para depois vir a calmaria, o problema era que a calmaria não tinha vindo ainda.

Minha irmã estava viva, contudo era como se a parte mais bonita dela tivesse sido apagada. Ela não me disse o que o miserável lhe fizera, as marcas das correntes que ficara presa embaixo da água permaneceram em seu braço definitivamente como se fosse para lembrá-la do que acontecera.

Nina não quis a mim e nem a Benjamin, apenas a nossa mãe nos primeiros dias.

Mara estava conosco aqui no Rio de Janeiro, ela não me culpou, apenas disse que enterrar meu pai era uma dor interminável, que não viveria muito se um de seus filhos morresse também. E chegou perto disso.

— Quando vamos poder vê-la? — Nina perguntou, apertando a minha mão, olhando a tela grande da têve na recepção da clínica onde Camille ainda estava internada.

— Daqui a pouco a enfermeira vem nos chamar. — Beijei os dedos frios e encarei o rosto pálido, estranho pela falta de vivacidade característica dela.

Na tevê, Andrea estava dando mais uma coletiva de imprensa sobre a Operação Luxus, tinha sido como uma caçada às bruxas, todos os mandados de prisão que o juiz emitira, todos os depoimentos que a polícia registrara, todos os acusados que estavam com bens bloqueados e impedidos de saírem do país. Acabei me afastando do caso, embora soubesse que ainda havia um trabalho a fazer. Ainda havia a promessa que fiz a Bruna, localizar a sua irmã e trazê-la para casa. O que não seria fácil, principalmente porque a garota poderia já estar morta. Esfreguei os olhos, sentindo-me exausto. Era como se eu quisesse deixar todos os anos que dediquei a polícia atrás de uma porta vermelha que nunca mais teria acesso. As pessoas que matei, que prendi, que investiguei, nada disso tinha significado agora, tudo que eu queria de verdade era uma vida normal. Sem precisar estar alerta sempre, embora em um país como esse o perigo estava em qualquer esquina, mesmo quando você não tinha inimigos declarados.

— Senhor Marcone? — A garota chamada Julie nos guiou até o quarto.

Camille não estava mais sedada, tudo dependia de como o seu organismo iria funcionar daqui para frente, Alexandre me dizia que o pior já tinha passado, mas eu me sentia tão traumatizado que passava as horas esperando pelo pior. Que o quadro regredisse e ela piorasse de novo, ou que eu só recebesse a notícia que não tinha mais o que fazer.

Embora eu quisesse tocar Camille em todas as partes possíveis, apenas para sentir o sangue correndo sob sua pele, o pulsar do coração e o calor que me garantia que ela estava viva, deixei que Nina fizesse isso primeiro. Era a primeira vez dela aqui, apenas depois da minha irmã passar por um pscicólogo é que realmente contei tudo que tinha acontecido.

— Ela está dormindo — garanti, quando vi o bico que ela estava fazendo para chorar, as mãos pequenas alisavam os cabelos de Camille.

Sempre que entrava aqui esperava que os olhos dela se abrissem, esperava ver a intensidade verde que mexeu comigo desde o primeiro instante em que a vi, mas não acontecia. Saber que algumas pessoas passavam anos nessa situação, vivendo uma realidade alternativa dentro da inconciência me deixava louco.

Ultimamente eu não sentia raiva, apenas medo. Medo de não ter por perto as pessoas que eu amava.

As visitas geralmente precisavam ser curtas, embora eu sempre permanecesse na recepção depois, já conhecia a maioria dos funcionários, dado ao tempo que passei aqui nos últimos dias. Vez ou outra eu encontrava Joice ou Augusto, mas não queria contato algum com eles. Era visível que estavam sofrendo, mas eu não dava a mínima, eles mereciam por cada pedido de socorro que negaram. Eles tinham uma parcela de culpa para o estado em que Camille estava agora. Quem realmente cuidava da minha garota como se fosse uma mãe era Naia, ela penteava os cabelos, trazia flores para tirar o ar de hospital do quarto, contava sobre os livros que estava lendo, ou sobre algum filme, a senhora quase sempre saia chorando. O que me deixava pior, sem esperanças.

Quando Nina resolveu sair, eu pedi que esperasse por mim na recepção. Sentei na pontinha da poltrona, como geralmente fazia e segurei a mão da minha garota, não estava fria, coloquei-a contra minha face. Como se fosse ela a fazer esse carinho.

Não suportava vê-la assim, com um aspecto tão sem vida.

Imóvel. Sem reação.

Desenhei os traços tão marcantes de seu rosto com os dedos, já tinha perdido as contas de quantas vezes chorei aqui. Porque era para ser eu e não ela.

— Você precisa acordar. — sussurrei, e encostei os lábios em sua testa. — Precisa fazer a lista das coisas que nunca fez e que quer fazer... — beijei novamente a testa morna. — E eu preciso dizer que te amo. — Dessa vez, eu encarei se rosto, esperando que houvesse algum sinal.

Parecia ser simples nos desenhos animados, o problema era que eu estava na vida real.

Beijos, lágrimas, e eu te amos não tiravam ninguém do coma.

Não funcionava assim.

— Eu te amo — era o que eu mais repetia aqui, era uma necessidade de que ela soubesse. Ela precisava saber, e precisava viver isso.

Nós merecíamos viver isso. Ela ainda mais do que eu. Sempre soube o que era ser amado, Camille não. Os problemas de rejeição que ela tinha não se limitavam a um namorado doente, que lhe mostrara apenas o lado negativo que uma relação podia ter, passava disso. Havia também a crueldade dos pais, a vida mascarada que eles tinham, a idealização de perfeição pouco alcançável. O amor deles era pelo dinheiro e talvez fosse isso que os levasse a loucura em algum momento.

— Eu preciso levar Nina para casa, mas eu volto para você mais tarde

 

*.

 

Naquele mesmo dia fui ao hotel onde Isabelle e o pai estavam, eu tinha pedido a Alexandre que encontrasse um médico capaz de realmente cuidar da menina, um tratamento que realmente fosse eficaz ao tipo de câncer que ela tinha. Depois de ver de perto a situação em que viviam e o medo que Afonso tinha de perder a filha, percebi que a decisão dele de entregar minha irmã fora a única que tinha. Quem faria diferente? Decidi pagar um tratamento que realmente fosse eficaz para a garota, que conseguisse trazer sua saúde de volta, que desse a chance do pai vê-la crescer como qualquer garotinha normal.

 

*

 

Assim que fechei os olhos meu celular tocou sobre a mesa de centro, o sofá havia se tornado o lugar onde mais passava tempo quando estava no apartamento. Depois de trocar todas as fechaduras e instalar um sistema interno de câmeras, eu resolvi que não me livraria dele. Meu coração disparou quando vi que a ligação era da clínica, antes de atender levantei já procurando as chaves do carro e minha carteira.

Era Julie pedindo que eu retornasse a clínica, tinha passado as duas horas anteriores lá, mas parecia que algo havia mudado, eu só não sabia se para melhor ou pior.

A forma como fui recebido pelas garotas, que já estavam cansadas da minha cara na clínica, criou em mim uma certa esperança. Esperança de que talvez a notícia fosse boa. Senti meu coração parar e dar uma disparada quando cheguei diante da porta do quarto dela e a intensidade verde, aquela que me enfeitiçou desde o primeiro momento, os olhos confusos extremamente grandes estavam abertos. Focados no que Alexandre falava.

Embora o que eu quisesse mesmo fosse estreitá-la em meus braços, ter certeza de que Camille estava viva, acordada e bem, permaneci onde estava, apenas apreciando algo que por pouco não fora tirado de mim.

— Consegue sentir as pernas? — perguntou ele, enquanto tocava um ponto da perna dela com um objeto que não soube identificar.

Camille fez que sim, e pela expressão concentrada tentou mexê-la sem sucesso. Prendi a respiração.

— Calma. — ele usou um tom suave. — É uma questão de readaptação, você esteve muitos dias em coma.

Vi quando ela abriu a boca mais de uma vez para falar, todavia sem conseguir, emitia apenas alguns sons arranhados, como se a garganta estivesse muito seca. O bip do aparelho ficou extremamente descontrolado. Sem conseguir ficar mais tempo longe, eu entrei no quarto.

 

Camille

 

Coma?

Muitos dias?

Tudo que eu conseguia pensar era no que tinha acontecido com Marcone, como as coisas tinham acabado naquele dia. Se ele estava bem. Senti as lágrimas se formaram e escorrerem pelo meu rosto, por mais que eu tentasse meu corpo ainda não reagia. A voz não saia, os músculos pareciam pesar toneladas.

E Nina?

Eu queria perguntar, queria saber o que estava acontecendo e porque eu estava aqui.

Fechei os olhos com força, sentindo mais lágrimas descendo. Meu coração estava completamente descontrolado.

— Shii... fique quietinha. — Abri os olhos assim que ouvi a voz dele.

Agitada, tentei me mexer para abraçá-lo, mas não consegui. Com carinho, Marcone colocou meu braço ao redor do seu pescoço, eu conseguia sentir tudo, mas os membros pareciam não querer me obedecer.

— Você... está... — tentei falar, embora doesse a garganta inteirinha.

— Vivo — completou ele, deixando beijos pela minha cabeça. — Sim, eu estou. Por sua causa. — vi uma lágrima escorrer pelo rosto dele, os olhos azuis tinham um brilho que não consegui descrever. — Eu te amo muito mesmo. — Os lábios tocaram os meus com gentileza e mesmo com dores, com medo, eu me senti segura da forma como eu só me sentia quando estava com ele.

Por mais que tentasse não fechar os olhos, acabei dormindo de novo. Não sei por quanto tempo, mas quando acordei ele ainda estava lá, parecendo tão aliviado quanto eu.

— Quantos dias se passaram? — perguntei, embora ainda fosse difícil falar estava mais fácil do que horas atrás.

— Vinte e oito. — Ele tocou meu rosto, talvez para me ajudar a processar a notícia. — Foi uma bala nas costas, por pouco não lesionou sua coluna.

Processei tudo, mas havia outras coisas que eu precisava saber.

— Nina? — inquiri.

— Ela está bem. — Franzi a testa, respirando aliviada e ele tocou o polegar exatamente no lugar.

— Enzo. — Pensar nele me deixou agitada outra vez, absurdamente cansada de tudo que o envolvia.

— Ele está morto. — O dedo longo tocou o meu queixo. — Não vai mais chegar perto de você. Nunca mais.

As lágrimas que deixei escapar foram de alívio, e pouco importava se era certo ou errado. A prisão invisível que permaneci mesmo quando resolvi me separar dele parecia ter sido finalmente quebrada, como se eu pudesse respirar de verdade. Marcone não me contou como ou o motivo, mas sabia que tinha sido ele. A impressão que eu tinha era que não haveria outra forma da minha história torta com Enzo acabar, seria ele ou eu em algum momento. O estado lastimável em que eu estava agora provava isso. Ele morreu dentro da própria doença, porque não era amor, era qualquer outra coisa. Amor não.

O amor não machucava, claro que ás vezes podia doer, doer muito, mas não da maneira como me sentia destruída. Amor mesmo era o que eu via no rosto do homem que me encarava agora. Os olhos dele brilhavam tanto que cheguei a duvidar se era mesmo por minha causa. Amor era o que eu sentia quando ele me tocava, a intensidade pouco contida do que eu me tornava quando estava nos braços dele e não tinha haver com sexo, tinha a ver com quem nos tornávamos quando estávamos juntos: pelados ou não.

E se eu pudesse voltar no tempo, eu teria feito tudo exatamente igual. Teria corrido para ele, por que eu sabia que Marcone teria feito o mesmo. Teria me guardado, como havia feito desde o primeiro dia em que nos conhecemos. Quando ele me encontrou naquele carro, com a alma e o corpo destroçados. Desde aquele momento ele cuidou de mim.

Marcone estava ali para ser meu.

Esqueci de tudo, menos dele. Tinha sido um rosto sem nome, que não se encaixava em nada, mas que representava tudo.

Tudo de mais lindo que eu queria para minha vida.

— Foi você. — repeti o que havia tentado dizer antes de ser sugada para um buraco negro no dia em que fui baleada. — Você estava lá...

Emocionado, ele fez que sim com a cabeça. Mostrando que sabia exatamente do que eu estava falando.

— E nunca me disse. — consegui dizer, entre um pigarro e outro.

— Eu queria que você lembrasse.

— Mas eu nunca esqueci. — Era verdade, de alguma forma eu sempre reconheci um tipo de conexão. — Não de você.

*

 

— Você vai entrar porque ela quer isso. — Ouvi uma pausa, e alguns segundos depois Marcone continuou. — Pense bem no que vai dizer.

Houve um silêncio do lado de fora, eu podia escutá-los porque a porta estava parcialmente aberta, meia hora atrás a enfermeira me avisara que meus pais estavam aqui. Não era algo que eu esperasse.

Saber de tudo que Enzo e Heloísa estavam envolvidos me fez entender o medo que ela tinha dele ser investigado, saber que foi ela quem estava por trás do acidente para mim foi um choque, eu sabia que a mulher era cruel, mas nunca imaginei que fosse capaz de algo do tipo. E nem que ela e o filho fizessem parte de uma organização criminosa. Não conseguia nem imaginar que Heloísa cheia de classe e dona de um nariz empinado pudesse estar agora atrás das grades. Pensei em muitos finais para ela, mas nunca foi algo desse tipo, muito pelo contrário, sempre a achei intocável tal qual o filho parecia ser.

Nunca estive tão enganada.

— Somos os pais dela. — Ouvi a voz de Augusto e quase revirei os olhos, minha cabeça doeu um pouquinho.

— Isso não fez diferença alguma durante todos esses anos.

Em muitos momentos eu me sentia sortuda por ter o lado manso de Marcone, ele parecia ter duas faces: a que protegia e a que machucava.

Eu tinha a melhor delas: a que amava.

Apenas alguns minutos depois, a porta realmente foi aberta e eu os vi. Augusto e Joice. Era muito claro perceber que não estava bem, além de algum tipo de preocupação havia também vergonha. O pior tipo de vergonha.

— Oi, filha. — Joice foi a primeira a dizer alguma coisa, aproveitei que eu realmente não estava conseguindo falar como queria e apenas balancei a cabeça. — Eu juro que nós não sabíamos da gravidade de tudo.

Como se isso mudasse algo.

— Acho que precisamos pedir perdão, Joice. Sem explicações. — Foi meu pai quem disse.

Contudo, eu não senti nada. Não queria pedidos de perdão. Talvez eu realmente os escutasse depois.

Com certa hesitação, os dois aproximaram-se da cama.

— Eu nunca senti tanta culpa. — Vi-a realmente chorar, como nunca tinha visto antes, nem quando minha irmã morreu.

Mas observando os dois, tudo que pensei foi que se um dia eu gerasse uma criança, ela seria o centro da minha vida, seria para mim tudo que nunca fui para eles. Estaria em primeiro lugar.

Tudo que dei para meus pais foi o silêncio, desde o momento em que entraram até a hora que saíram. Surpreendi-me quando ainda escutei a voz da minha mãe, ela já estava fora do quarto.

— Cuida da minha filha. — Foi o que ela disse.