O Federal
Capítulo 28
Marcone
Assim que cheguei em Brasília, um turbilhão de pensamentos
passou a jorrar na minha mente: recordações, dores, uma vida que eu tinha deixado para trás. Todavia, aqui ainda era tudo muito vivo, tudo muito cheio de lembranças, não havia um canto que eu olhasse que não me fizesse sentir a nostalgia por lembrar de algum fato do passado.
Andrea parecia estar dentro do mesmo conflito, estava quieta, aliás ela permaceu em silêncio desde que eu liguei para avisar da morte de Estevan. Além de sermos os únicos realmente próximos a ele, éramos os únicos citados no testamento, além da governanta que cuidara da casa por tantos anos.
— Vou tomar um banho, tentar dormir... sei lá... — Ela jogou o casaco nos ombros e levantou-se, deu um último gole no expresso que tinha pedido na recepção.
Fazia mais ou menos uma hora que havíamos chegado, embora a chuva fizesse parecer ser bem mais tarde, ainda não era nem nove horas da noite. Consultei o relógio para confirmar e a encarei.
— Faça isso, Andrea.
Esperei que ela saísse e enfiei a mão no bolso da calça jeans, onde além da chave do meu carro, que ficara estacionado no aeroporto do Rio de Janeiro, havia uma outra que trancava um baú de recordações. Tirei-a do bolso e a analisei, pensando seriamente se era uma boa ideia voltar lá depois de tanto tempo.
Liguei para recepção e pedi um táxi, demorou menos de dez minutos para que retornassem. Saí dali ainda indeciso, todavia não hesitei em sair quando o veículo parou diante do meu antigo prédio. Olhando-o ali era como se o tempo não tivesse passado, muito menos que aquela tragédia tivesse acontecido, o peso incômodo da nostalgia encheu meus ombros assim que passei pela portaria, com exceção do porteiro que me reconheceu, não havia nenhum rosto conhecido. Passei por ele e ao invés de entrar no elevador, preferi ir pelas escadas. Subi um degrau de cada vez, seriam cinco lances, eu sempre morei no quinto andar. Samanta costumava dizer que era o número da sorte dela.
Tirei a chave do bolso, quando fiquei diante da porta e a abri.
Num primeiro momento imaginei que ainda fosse sentir o cheiro dela ali, ou ouvir sua voz mesmo que imaginária, como várias vezes aconteceu no passado. Mas não houve nada, apenas o cheiro de casa fechada e escuridão.
Dei um passo a frente, revivendo fortemente emoções passadas e ainda vivas dentro de mim.
A dor. O luto. O remorso.
Juntos podiam enlouquecer qualquer pessoa, e talvez se eu não tivesse usado a vingança como remédio, era o que teria me tornado: louco ou demente.
Lembrei-me de como foi o enterro dela, não consegui ir, não vi o que ela estava vestindo, embora o caixão estivesse fechado a cerimônia inteira, não reconheci o corpo, não pude fazer nada disso. O corpo inteiro fora queimado na explosão.
Dei um passo a frente e procurei pelo interruptor que ficava do mesmo lado do aparador, as luzes se acenderam e uma parte do meu passado se desenhou na minha frente.
Anos atrás
Abri a porta, tentando fazer o máximo de silêncio possível. Antes que entrasse realmente senti o cheiro de casa limpa e melhor: o cheiro dela. Coloquei a mochila no chão, tirei o revolver do coldre e o coloquei num pote ridículo que ela me obrigava a guardá-lo sempre, ainda que a espertinha soubesse atirar. Ela fazia isso muito bem, fiquei fascinado quando fizemos tiro ao alvo juntos pela primeira vez.
Meus olhos subiram pelo banco alto, encontrando as pernas extremamente brancas e a polpa da bunda a mostra, enquanto Samanta se equilibrava tentando colocar um quadro novo na nossa sala, vestindo um de seus blusões brancos. Os cabelos loiros estavam parcialmente presos num coque frouxo, se eu enfiasse os dedos pelos fios, soltaria-os facilmente. Eu diria que o colorido ali era ela, sempre fora ela. Desisti da ideia de surpreendê-la para não vê-la cair.
— Cheguei. — sussurrei, tentando não fazer alarde.
— Me ajude aqui. — chamou ela sem se virar, ainda segurando o quadro na mesma posição. — Acho que estou caindo.
Eu sorri, reconhecendo uma de suas brincadeiras e a segurei, mantendo-a sentada no banco e soltando os cabelos fartos.
— Acabou? — perguntou ela, abraçando meu pescoço, referindo-se a minha saída da Polícia Federal.
Fiz que sim e a beijei.
— Está suado — reclamou, tocando a base do meu pescoço. — Nós vamos comemorar hoje.
Permiti que se afastasse após alguns beijos, ela correu para o quarto e eu a segui.
— Aonde você vai? — perguntei, vendo-a tirar o blusão que vestia.
— Contar ao meu pai que vamos nos casar essa semana. — gritou, eufórica e eu ri.
— Essa semana? — Abracei-a quando se aproximou, vestindo apenas a calcinha cor de rosa.
— Sim, não precisamos mais esperar. — Olhou a própria aliança e então os olhos verdes me encararam. — A não ser que você queira esperar, por mim, pode ser amanhã ou hoje, ou agora. — Enquanto falava, os lábios deixavam beijos pelo meu rosto.
Acabamos no banho e depois na cama, eu só não sabia que seria a última vez.
Esfreguei os olhos úmidos, ainda fitando o quadro, que permanecia na mesma posição que anos atrás. Tudo estava igual, com exceção dos móveis que estavam cobertos, mas a disposição deles era a mesma. Parecia que tínhamos apenas passado uma temporada fora. Ao longo dos anos recebi muitas propostas para vendê-lo, não aceitei nenhuma, sequer ouvi. Não queria outras pessoas ali, substituindo nossas lembranças. A verdade é que eu nunca quis dizer adeus ao que vivemos, mas agora olhando para todo o espaço vazio, para o silêncio ensurdecedor, eu percebia que era preciso. Encerrar definitivamente o ciclo, eu nunca a esqueceria, talvez nunca me perdoasse, mas eu precisava deixar tudo isso para trás. Embora a dor e o remorso fossem me acompanhar sempre.
Anos atrás
— Vá dormir, temos uma noite longa. — sussurrou Samanta, desvencilhando dos meus braços e me deixando sozinho na cama.
— Vai ver seu pai? — perguntei, realmente cansado.
— Sim, e outra pessoa.
Ela fez um rabo de cavalo torto e vestiu um vestido vermelho soltinho, sentou-se cama para que eu fechasse o ecler e parou para pentear os cabelos desalinhados.
— Quem é a outra pessoa? — Arrumei a almofada embaixo da minha cabeça, observando-a, vi quando ela revirou os olhos bonitos.
— Andrea.
— Ela está aqui?
— Sim, eu sou muito amada. — disse em tom de brincadeira, mas visivelmente emocionada. Voltou para perto de mim e me abraçou. — Nem acredito que essa tortura acabou, não vou mais ficar com medo de você não voltar para casa.
— Não, não vai. — Confirmei, e beijei novamente os lábios macios.
E então ela se foi, para um destino que era meu.
Precisei esfregar mais de uma vez o coração sob a blusa, numa tentativa de aliviar a dor que a lembrança trouxe de volta. Parecia que tudo estava acontecendo outra vez, se eu fechasse os olhos eu podia escutar tudo novamente, a sirene, as pessoas gritando, meu descontrole, e o pior: a descoberta de que não havia sido apenas ela que perdi.
Anos atrás
Desisti da ideia de dormir e fui até o closet procurar o que vestir, pensando no que ela estava aprontando para mais tarde. Uma fita de cetim branco chamou minha atenção, em uma das gavetas que ela usava, abri, imaginando ser uma calcinha nova e me deparei com um sapatinho de bebê. Por um momento, não entendi, mas meu coração já estava disparado quando eu segurei o envelope pardo com o nome da clínica que geralmente Samanta fazia exames de rotina.
Com a respiração suspensa e os dedos trêmulos eu abri o envelope e vi o resultado positivo de um exame de gravidez. Olhei milhares de vezes para ver se realmente era o nome dela: Samanta Rissol.
O meu celular tocou sobre o criado-mudo e eu o atendi, ainda segurando o papel.
— Alô.
— Graças a Deus. — Ouvi a voz de Andrea, o tom duas vezes mais alto, amedrontado e aliviado ao mesmo tempo.
— Ela contou a você? — perguntei, eufórico e completamente alheio. — Eu vou ser pai, Andrea. Ela contou a você?
Ouvi um soluço estridente do outro lado da linha.
— Quem estava dirigindo seu carro? — perguntou ela, o tom tão dolorido, que tive medo de responder.
— Sam...
Só então eu passei a realmente escutar o que se passava do outro lado da linha, as buzinas, os gritos das pessoas, a sirene. E o choro dela.
— O que aconteceu, Andrea?
Mas não houve resposta, apenas choro, lamento, algo tão dolorido que eu soube ali mesmo, que o que quer que tivesse acontecido não tinha mais conserto.
Tudo ainda estava ali, o sapatinho, o papel meio apagado. Um serzinho que sequer conheceu o mundo. Peguei a caixinha com a minha aliança, a dela fora destruída na explosão, coloquei-a no meu bolso. Saí do quarto, incapaz de permanecer ali, sufocado por coisas que não voltariam mais, nunca mais. Iriam se passar anos, uma quantidade sem fim deles, mas essa culpa eu sempre carregaria.