O Federal
Capítulo 20
Marcone
Enquanto virava a garrafa de água na boca, vi Nina entrar na
academia ainda vestida com uma calça e um moletom de pijama e pantufas, era como se eu estivesse vendo um desenho animado. Só ela mesmo para perambular no prédio desse jeito. As olheiras escuras em seus olhos mostravam que não tinha dormido bem, consultei o relógio de pulso, ainda não era nem cinco da manhã, para mim o melhor horário para malhar — não havia ninguém por ali. Encontrei alguma companhia poucas vezes.
Ela sentou num dos bancos segurando um caderninho que raramente deixava de lado e me olhou de maneira entediada.
— O que foi dessa vez, Nina? — perguntei, voltando a pegar o peso.
— Minha professora é louca.
Revirei os olhos, afinal, falar mal da faculdade era um dos assuntos preferidos dela.
— Por isso levantou a essa hora? Por que sua professora é louca?
— Não, tenho milhões de trabalhos para fazer. — reclamou, parecendo exasperada.
— Isso se chama faculdade. — Travei o equipamento novamente e fiz a pausa necessária. — Quando acabar você vai sentir falta.
— Você sente?
— Claro que não.
Nós rimos muito.
— Você é ridículo. — disse ela entre uma risada e outra.
Deixei o exercício de lado e sentei-me ao seu lado no banco redondo azul. Pela parede envidraçada era possível ver a rua e mais adiante o trânsito parado, algo incomum para o Rio de Janeiro.
— Porque não conseguiu dormir de verdade? — inquiri, conhecendo-a como eu conhecia tinha certeza que havia um outro motivo.
— Eu estou com muitas saudades do nosso pai.
Ela não chorava mais, isso era bom e ruim. Bom, porque ela tinha entendido o significado da morte, ruim porque o entendimento trazia um fardo ainda maior.
— Vai ser sempre assim. — Admiti, entendendo muito bem o que ela estava sentindo. — Que tal um café e voltar a dormir? Eu estou de folga hoje, podemos ir à Poli mix e eu te ajudo com os trabalhos, o que acha?
— Fechado.
Saímos juntos da academia, e dividimos o elevador com uma senhora baixinha e seu cachorro, claramente as roupas inapropriadas da minha irmã chamaram sua atenção.
Para minha alegria o puto sem coração estava de plantão, então, Nina e eu passamos uma boa parte do domingo juntos, no final da tarde finalizamos os trabalhos que ela tinha reclamado e no fim das contas eu concordei com ela, que a professora de fato era louca.
Mais tarde, quando fiquei sozinho no meu quarto, liguei para Camille, embora estivéssemos nos falando todos os dias, fazia quase uma semana desde nosso encontro, e eu estava sentindo falta, muita falta, isso ficou claro, quando o rosto dela apareceu na tela.
Camille
Meu corpo parecia saber quando era ele quem estava ligando, de alguma forma tudo ficava um pouco diferente, soltei os cabelos que estavam presos num coque horroroso e atendi a ligação.
— Achei que ainda estivesse enrolado com Nina... — Puxei minha almofada, enquanto fitava o rosto dele na tela, havia a sombra de barba, e os cabelos estavam numa bagunça charmosa, desalinhados. Percebi que gostava de vê-lo assim, informal e completamente relaxado esparramado na cama grande.
Senti vontade de saber como era o lugar que ele dormia, qual era seu lado da cama preferido, se havia porta-retratos e objetos que me dessem mais pistas de sua personalidade marcante. Os lençóis eram brancos, mas a cabeceira era preta estofada.
— Faz pouco tempo que terminamos. — disse ele, evitando um bocejo e ajeitando o travesseiro embaixo da cabeça.
Fiquei sem ter muito o que dizer, dificilmente nossas conversas seguiam um padrão, era sempre diferente, até mesmo nosso silêncio. Alguns minutos se passaram, enquanto apenas nos olhamos e então um sorrisinho pretensioso surgiu no canto dos seus lábios, fazendo surgir uma das quatro covinhas que ele tinha perto da boca.
— O que foi? — indaguei.
— Nada, como estão os preparativos para a formatura?
Dei um suspiro, uma loucura. Passei a contar para ele como tinha sido a entrega da minha monografia, e que eu tinha convencido a minha mãe a não fazer festa alguma por causa da formatura, era o tipo de evento em que metade do Rio de Janeiro, a maioria pessoas que eu sequer conhecia, estariam presentes. Ela tinha concordado com a condição de que em meu aniversário de 21 anos seria diferente, algo que não estava muito distante.
— Ao contrário de você, Nina diz que quer uma festa aqui e outra na fazenda. — Disse ele, e eu ri, ela realmente tinha tocado nesse assunto comigo um dia desses. — Ela tem uma pasta no pinterest com todas as ideias de decoração e looks para esse dia.
Eu dei risada da forma como ele revirou os olhos ao dizer o nome looks, eu conseguia visualizar a cena perfeitamente. Senti na pele o que ela devia fazer com o irmão no dia seguinte em que saí com Marcone.
Nina me bombardeou com todo tipo de pergunta, depois de me acusar de esconder coisas dela, é claro.
— Ele beijou você? — Perguntou ela, marota como costumava
ser.
— Não, ele não tocou em mim. — Foi a resposta que eu dei, enquanto tomávamos sol na área privada da piscina. — Somos amigos. — Acrescentei.
— Meu irmão é um lorde.
Sim, ele era.
— Quando vamos nos ver outra vez? — A voz grave me trouxe de volta ao presente, e eu pisquei algumas vezes, enquanto meu cérebro processava a pergunta.
Pensei numa resposta não tão clichê, mas não encontrei nenhuma, na verdade meu cérebro não formulou nada coerente o suficiente.
— Já quer me ver outra vez? — perguntei, depois de um tempo, realmente interessada em saber a resposta, porque eu queria. Na verdade pensava nisso todo dia.
— Sim, você não?
Meu coração disparou ante o tom e a expressão que ele fez, parecendo completamente sincero.
— Mais do que eu deveria.
Marcone ponderou por um momento.
— Quando vai me contar quem machucou você?
Faltou-me palavras, ele era extremamente inteligente e observador, mas a pergunta me surpreendeu, era como se de alguma forma Marcone tivesse acesso a minha alma, eu só não sabia se era bom ou ruim.
— Porque houve alguém, não foi? — ele insistiu diante da minha falta de resposta.
— Sim, mas, é diferente... com você. — sussurrei, desviando os olhos da tela.
— É diferente para mim também.
Eu mordi o lábio evitando sorrir. Falamos por muito mais tempo, nos despedimos quando chegou a hora de ele levar a irmã para a hamburgueria. Ainda fiquei deitada, olhando o teto, arrependida de não ter aceitado ir com eles. Ouvi dois toques na porta e pedi que entrasse, minha mãe colocou a cabeça para dentro e fez um gesto entusiasmado com as mãos.
— Tem um moço bonito querendo ver você na sala.
Olhei para o celular e depois para ela, tentando fazer as contas de quanto tempo ele levaria para chegar.
— Estou indo, mãe. — Sorri para ela, e Joice saiu.
Ainda ajeitei os cabelos e dei uns tapinhas no rosto, antes de sair do quarto. Meu sorriso morreu assim que vi o homem louro na sala.
Observei a loucura, que os olhos negros abrigavam. Loucura
essa que apenas eu conhecia, as mãos estavam dispostas ao lado do corpo, mãos finas, que pareciam inofensivas, mas que eram eficientes em machucar, em estapear, agredir, por eu ser uma menina má, por que lhe enchia a paciência com bobagens e coisas vãs, porque os homens me olhavam e eu retribuía como uma descarada. Eram muitas as desculpas que ele dava, eram pequenos assassinatos diários, tirando-me a vida aos pouquinhos, o gosto por ela. Transformando-me numa boneca disposta a aceitar tudo para ter o homem que me apaixonei de volta, o gentil, o carinhoso. Por muito tempo acreditei que a culpa era minha, que o estorvo era eu. Demorei a descobrir que não. Foi inevitável não observar o quanto Marcone e Enzo eram diferentes, fisicamente eram totalmente divergentes. O temperamento não podia ser mais desigual, ainda que Marcone vivesse em meio a violência que seu trabalho envolvia, ele nunca me machucaria. Pelo contrário, eu me sentia segura.
Observei minha mãe se afastar, como se tivesse me feito um maldito favor.
— O que você quer aqui? — inquiri entre dentes.
Enquanto fitava os olhos pretos gelados, fazendo um contraste completamente ruim com o cabelo claro herdado da mãe, perguntei-me o que me prendeu por tanto tempo a esse homem que me fizera tão mal.
— Não é possível que depois de meses você ainda esteja ressentida. — A voz baixa e calma fez meu estômago revirar.
O tom dele me fez reviver vários momentos dolorosos de quando ainda estávamos juntos, a sensação sufocante de pânico de tudo que se tratava de Enzo me deixou sem ar.
— Vá embora. — sibilei, a voz saindo fraca, o emaranhado de sensações ruins que vinham junto com esse homem deixando-me completamnte mal.
A expressão agressiva que eu conhecia surgiu num átimo, a substituição do homem carinhoso e tolerante por um monstro perverso e desconhecido, a transformação acontecia com frenquência, alguns meses atrás eu fazia de tudo para impedi-la de vir a tona, algumas vezes funcionava outras só o deixava ainda mais irado.
— Eu trouxe flores para você. — Usou um tom suave e apontou para o aparador, onde as rosas estavam. — São as suas preferidas, eu tenho tudo gravado aqui, tudo que você gosta. — Dessa vez ele apontou para a própria testa.
— Vá embora, por favor. — Tentei outra vez.
— Você precisa de mais tempo, é isso? — perguntou, parecendo não me ouvir.
— Eu só preciso de você bem longe de mim. Vá. Embora.
Enzo deu um passo em minha direção e eu recuei, enojada com tudo relacionado a ele, até mesmo a beleza que muitas vezes elogiei tinha se tornado asquerosa por tudo que ele era de ruim por dentro. Cada tapa, cada empurrão, cada chute, cada grito era apenas isso que ele representava na minha vida, um período ruim que eu queria esquecer, embora algumas cicatrizes me fizessem lembrar sempre.
Apavorei-me, quando ele deu mais passos e senti a parede gelada em minhas costas quando não havia mais lugar para ir, observei o vaso grande que estava perto, mas ele segurou minha mão com força.
— Não, Cami... — Os lábios dele roçaram minha testa e eu senti o cheiro do perfume que ele usava, até mesmo isso me enojava. — Sabemos que isso nunca acaba bem... para você. — emendou com desdém, a forma crítica e pouco afável que costumava se referir a mim e a tudo o que eu fazia, era como se tempo algum tivesse passado, que eu ainda estivesse presa dentro do mesmo pesadelo de sempre. — Você é minha, entendeu? Não pense que eu desisti de nós dois... — Levantou a mão, onde estava a aliança do nosso noivado e os olhos deles ficaram marejados. — Eu me arrependo por tudo...
A sensação ruim me deixou letárgica, depois de um minuto passei a não escutar mais, via apenas os lábios dele mexendo sem parar e as lágrimas inundando o seu rosto.
Esse sempre foi o meu ponto fraco. Vê-lo chorar. Acreditar numa redenção que nunca vinha. Depois das lágrimas, ele me batia de novo, de novo, de novo era um tormento sem fim.
— Chega... — sussurrei, mas a mão livre dele me imobilizou e eu permanaci presa à parede.
— Acaba quando eu disser que acabou.
— Se você não me soltar eu vou começar a gritar e essa farsa de bom moço que você mostra para todo mundo vai acabar. — Puxei meu braço com força diante do olhar surpreso e irado dele e me afastei.
— A pentelha da sua irmã conseguiu fazer sua cabeça contra mim antes de morrer...
O que eu demorei a entender é que as lágrimas dele vinham tão facilmente quanto iam embora.
— Não fala dela nunca mais.
— Eu ligo para você. — disse, como se não me ouvisse, fazendo pouco caso de mim. — Nós. — Fez um gesto entre mim e ele. — Ainda não acabou.