O Federal
Capítulo 46
Marcone
Anuí, porque eu não queria mesmo tirar os olhos dela.
Saímos logo após Camille tomar banho e comer alguma coisa, Flávio tinha me passado o endereço na noite anterior, quando ela já estava dormindo. Desliguei o alarme do S10 que provavelmente ela não fazia ideia que era meu e virei-me para observá-la.
— Quer dirigir? — incitei, enquanto a garota olhava o carro com alguma estranheza.
Encarou a chave que eu tinha entre os dedos e para minha surpresa estendeu a mão para pegá-la. Sorri de modo que ela ficasse tranquila. Abri a porta do motorista e me afastei para que ela entrasse. Esse foi o momento em que vi a mudança acontecer, a cor foi deixando a face dela e a respiração foi ficando suspensa, não havia outro nome para isso: era trauma.
— Tudo bem, outro dia nós fazemos isso. — Passei a mão no cabelo solto e a ajudei a sair dali.
Camille assentiu, contrariada.
— O que aconteceu com o outro carro? — perguntou ela, após um tempo calada.
— Está aqui, eu só não vou usá-lo hoje. — Coloquei a chave na ignição e a olhei novamente. — Há muitas notícias sobre nós pela internet. — Esperei por sua reação, mas ela permaneceu quieta me olhando. — Tomou uma proporção gigantesca. Há muito sensacionalismo, mas também há profissionais que estão levando o assunto a sério e que podem tentar contato para que você fale e conte a sua versão da história.
Camille fez que não imediatamente com a cabeça.
— Não quero falar com ninguém além da polícia.
— É uma escolha sua — garanti e liguei o motor.
Pelo que eu vinha acompanhando, Enzo sairia da clínica em dois dias, a única pessoa que ia visitá-lo era a mãe e o motorista que eu tinha certeza ser mais do que isso para ela. Calixto, o nome dele, era ex-policial, tinha passado três anos na polícia civil e saíra após quase morrer num acidente entre uma ambulância e a viatura que estava dirigindo.
Como imaginei três ou quatro abutres da imprensa estavam na frente do prédio, ela não percebeu. Segui pela avenida Lineu de Paiva Machado, atento as reações dela.
— Aonde estamos indo?
— Papucaia.
Ficava na zona rural do Rio, eram quase duas horas para chegar até lá.
— Flávio está lá?
— Sim.
Foram mais de duas horas até lá, o trânsito não ajudou, a fila do pedágio estava grande e paramos mais de uma vez para ela ir ao banheiro. Pelo que Flávio falara ao telefone, a propriedade fora comprada recentemente, quase ninguém sabia que era dele e fora esse o motivo para ter levado Bruna para lá. Assim que saí do carro com Camille, vi o verde fresco do lugar, senti o ar tão diferente do que respirávamos dentro da cidade. Lembrei-me da fazenda e me peguei sentindo falta de lá, estava cada vez mais frequente a saudade daquele lugar.
Analisei o espaço em volta e apesar de ser afastado, eu não tinha certeza se era seguro, mas sabia de duas coisas: a primeira era que Bruna tinha algo que alguém queria e segunda é que Flávio estava na merda.
Um homem, que imaginei fazer a segurança do lugar, aproximou-se e me indicou o caminho a seguir até a casa antiga. Camille e eu caminhamos de mãos dadas até lá e Flávio já nos esperava numa sala grande. Toda a mobília era antiga. Pela forma como os móveis estavam dispostos pelo cômodo ele ainda não tivera tempo de reformar a atualizar o ambiente, ainda assim era um belo lugar.
Observei as roupas informais que ele usava, jeans e camisa, diferente dos ternos caros que eu costumava vê-lo ostentando por aí.
— Alguém te seguiu? — perguntou, visivelmente preocupado.
Bruna devia de fato ser importante para ele, se havia algo que Flávio não se afastava era dos negócios, muito menos para ficar no meio do mato.
— Não, troquei de carro e dei algumas voltas antes de vir realmente para cá. — Tranquilizei-o, percebendo que o motivo de eu estar ali era sério, pela sua cara.
— Como você está, Camille? — Ele depositou a atenção nela, procurando por evidências que a minha garota cobrira com a maquiagem.
— Estou melhorando.
Uma mulher baixinha entrou trazendo uma bandeja com água, gelo e uma jarra de suco, ela foi depositada sobre a mesa de canto, e logo depois a mulher saiu por onde entrou.
— Flávio? — A voz de Camille soou baixa, hesitante.
— Sim.
— Eu imagino que você conheça meus pais. — sugeriu ela, Flávio apenas assentiu. — Meu pai fez alguma doação após a morte de Liz ao projeto?
Olhei-a confuso, tentando entender a origem da pergunta, Flávio também ficou.
— Eu posso verificar, porque não lido diretamente com as doações e nem o fundo de lá. Mas eu posso fazer isso. — Sacou o celular do bolso e enquanto discava para alguém, voltou a olhar para ela. — Há algum problema?
— Minha irmã tinha um seguro de vida no nome dela. Eu vi a apólice, e meu pai me disse que o dinheiro tinha sido doado para o projeto que ela sempre fez parte.
Minha curiosidade transformou-se em surpresa, Flávio não demorou mais que três minutos na linha, mas pela forma que ele nos olhou presumi a resposta que viria.
— Não, não houve nenhuma doação.
Camille olhou na minha direção e depois afastou-se para a janela, parecendo querer respirar de verdade.
— Por que essas perguntas, Camille? — perguntei chegando perto dela, num tom baixo.
— Heloísa citou isso, ela disse que talvez não fosse Enzo a me matar já que há um seguro no meu nome também.
Não havia medo ou ressentimento na voz dela, apenas uma decepção cansada. Como se já tivesse visto e ouvido coisas demais. Eu queria ter o poder de apagar cada pequena decepção que ela já tivera durante a vida, queria poder tirar cada pessoa que lhe fazia mal do seu caminho, isso incluía os pais arrogantes e isentos de sentimento que ela tinha. Não conseguia nem mesmo vê-los como pais de verdade. Beijei a têmpora de Camille, numa tentativa de mostrar-lhe que eu estava ali, que ela não estava sozinha, mas o seu olhar tornou-se distante, quase morto.
Queria dizer alguma coisa, algo que fizesse sentido, mas não havia nada que eu pudesse dizer. Na verdade eu não tinha nem como imaginar o tamanho do conflito interno em que essa menina estava agora, desviei minha atenção dela, quando escutei outra pessoa entrar na sala. Virei-me e vi Bruna, ela não parecia melhor que Flávio, havia marcas roxa imensas embaixo dos seus olhos, como se não soubesse o que era dormir há algum tempo.
— Conta para ele o que você me disse. — Flávio retrucou, fazendo um gesto com as mãos.
Bruna me olhou e sentou numa das cadeiras, não estava com toda a hostilidade da primeira vez em que a vi, ela parecia cansada na verdade.
— Acha que faço parte? — perguntou diretamente para mim.
— Não sou juiz, não faço julgamento.
Ela deu um suspiro discreto e olhou para Flávio, parecendo buscar nele certeza de que a coisa certa a fazer era me contar o que quer que soubesse. Ele apenas meneou a cabeça afirmativamente, encorajando-a.
— Como vocês chegaram até a mim? — inquiriu, parecendo curiosa.
— Sua tentativa de alertar uma garota sobre o problema em que ela estava entrando.
Bruna assentiu.
— Eu tentei mais de uma vez, raramente dá certo.
— Então por que mentiu? — Coloquei as mãos nos bolsos e a olhei de verdade. — A impressão que eu tive é que você estava protegendo alguém.
— Eu estou. — Ela fez uma pausa curta e olhou na direção de Camille, parecia ter visto a garota pela primeira vez agora. — Eles levaram minha irmã. E eu só vou entregar o que eu tenho se você prometer que vai trazê-la de volta para casa.
Estreitei os olhos, não era uma promessa fácil de cumprir, afinal muitas mulheres que eram traficadas morriam na fronteira sem nem mesmo chegarem ao destino.
— Viva ou morta. — Bruna com certeza sabia o destino cruel que a maioria dessas mulheres tinham, ela engoliu em seco ao pronunciar as palavras.
— O que eles querem?
A mulher estendeu um objeto pequeno, levei dois segundos para reconhecer um pen drive.
— São policiais, empresários, agências de turismo, políticos. Em todo canto, em todo lugar há gente desse meio, aqui, em Minas, em São Paulo. Não só levam mulheres daqui para fora, como trazem para cá.
Entendi a hostilidade dela, eu era policial, talvez se Flávio não tivesse entrado na história, ela estaria morta agora. Se resumindo apenas a um arquivo queimado.
— O que tem aqui? — Levantei o pen drive.
— A maioria dos arquivos estão codificados, mas há um mapa, com todas as localizações de onde eles atuam, as boates, os cassinos, os leilões, as vendas.
Encarei-a por um momento, mil perguntas na ponta da língua para serem feitas, principalmente como ela tinha conseguido isso.
— Como conseguiu copiar?
— Não é uma cópia.
*
— O que acontece agora? — Flávio perguntou, quando eu caminhei com Camille para fora da casa.
— Ela vai entrar no programa de proteção a testemunha. — Abri a porta para que Camille entrasse no carro e me virei para ele. — Se for pega vai ser morta, sabe demais.
— Não vou deixá-la sozinha agora.
— Eu imaginei que não. — Dei dois tapinhas no seu ombro e entrei no carro.
A volta para o Rio de Janeiro foi mais rápida de certa forma, e antes de voltar para o apartamento, dirigi para a delegacia. Deixei Camille dentro do carro e entrei no prédio imponente, fui imediatamante para a sala de Andrea.
Coloquei o pen drive sobre a mesa e ela me encarou.
— Temos uma testemunha.
— Bruna?
Assenti e os olhos dela brilharam animados. Eu não podia negar, havia uma adrenalina inexplicável no nosso trabalho, um sentimento que só quem sentia entendia.
Levei o pen drive até a sala de inteligência e fiz uma cópia dos arquivos para que fossem decodificados.
— Eu preciso que você grampei essas linhas. — Tirei o papel do bolso do jeans e entreguei a Ben. — Quanto mais rápido melhor.
Ele assentiu e voltou a trabalhar no pen drive, quanto mais rápido esse caso fosse encerrado, mais rápido eu poderia sair da polícia, algo que eu devia ter feito há muito tempo. Não demorei muito mais tempo ali, voltei para o apartamento com Camille e assim que entramos pela porta, notei Joice sentada no sofá da sala ao lado de Nina, ambas caladas. O ambiente estava tão tenso que poderia ser tocado.
Procurei por preocupação no rosto da mãe de Camille, mas o que vi foi um tipo incomum de desapontamento, quase decepção.
— Veio por causa das notícias? — Camille perguntou assim que fechei a porta, os olhos tão inexpressivos que me perguntei se eram realmente as mesmas íris verdes que me encaravam com tanta intensidade.
— Você está expondo todos nós — a mulher foi capaz dizer, sem vergonha alguma. — Seu pai e eu não temos mais paz desde que tudo isso explodiu na mídia, Camille, pense na repercução negativa que isso trará para os negócios.
Houve um minuto de silêncio sepulcral, tamanho o choque que senti.
Camille
Heloísa era uma das piores pessoas que eu conhecia, mas algo que sempre admirei nela era como a mulher se tornava uma leoa quando se tratava do filho. Não importava se ele estivesse errado, não importava qual fosse a situação, ela fazia o que estivesse ao seu alcance para resolver. Eu sabia disso porque convivi anos com os dois, talvez fosse esse o motivo dele ser o monstro que era, as sucessivas vezes em que ela passara a mão pela sua cabeça, todavia Heloísa o amava. Isso eu não podia duvidar, sequer colocar em questão.
— Vocês podem nos dar licença? — pedi, minha voz saiu tão indiferente que me perguntei se era assim mesmo que me sentia por dentro. A resposta era não, eu estava um pouco mais destruída.
Observei o rosto de Marcone se contrair, provavelmente furioso pelos motivos dela ali, mas eu precisava lutar minhas próprias guerras. Um dos motivos que me fizera aceitar tanto de tantas pessoas era a pouca habilidade que eu tinha de lutar por mim mesma, de buscar soluções individuais.
— É bom que Marcone fique. — Ouvi-a dizer e olhei para ela com raiva, nunca seus modos extremamente educados e formais tinham me incomodado tanto, tudo nela estava me incomodando, até mesmo a voz. Até mesmo o fato de Joice ser minha mãe.
Olhei significativamente para Nina e Marcone e após um minuto de hesitação eles saíram.
— Camille, seu pai está louco. — Ela se levantou, deixando a bolsa sobre o sofá e torcendo as mãos, preocupada demais com seu mundinho para se dar ao trabalho de simplesmente me perguntar se eu estava bem. — Estamos a um passo de perder um acordo milionário por conta desse escândalo. — Ela se aproximou com as mãos estendidas.
Eu quase acreditei na sua farsa após Liz morrer. Construir histórias juntas, senti vontade de rir. Joice continuava igualzinha, preocupada com os próprios interesses. Com o dinheiro e o status, as futilidades que estavam acima de tudo, inclusive da família.
— Não encosta em mim. — Recuei, cruzando os braços. — Eu me pergunto quem você e meu pai são de verdade. — Realmente algo que eu tinha curiosidade. — Você sempre soube, não é? — referi-me as agressões de Enzo.
Ela me encarou surpresa, e deu um suspiro longo.
— Eu só quis evitar um escândalo. — admitiu e eu senti meus olhos marejarem, dei-lhe as costas para que não visse o quanto tinha me magoado.
— O status de família perfeita sempre foi mais importante, não é? — consegui dizer ainda sem me virar. — Ostentar a falta de problemas familiares quando sempre tivemos vários deles, mãe.
— Você fala como se eu e seu pai fôssemos monstros. — ela explodiu, erguendo a voz. — Sempre tiveram tudo, escola, roupas, casa, carro. O que mais vocês queriam?
Irritei-me por ela usar o plural, como se Liz ainda estivesse viva, mas ela não estava. Não estava mais.
— Amor? Afeto? Férias normais como todas as crianças têm? — Virei-me para encará-la. Mas, Joice não se moveu.
Ela abriu a boca, mas não tinha o que argumentar. O que diria? Nada, por que não havia explicação mais clara que simples negligência.
— Nós precisamos que retire as acusações, Camille. — Ela ainda teve coragem de dizer. — Nós podemos resolver tudo de outra forma, sem mídia, sem exposição.
— Porque, mãe? O que vocês ganham com isso?
Vi a nuvem da vergonha atravessar seu rosto, por pouco tempo, mas eu vi.
— Seu pai está prestes a fechar um acordo... a empresa é extremamente antiquada e com toda essa movimentação na internet com o nosso sobrenome, eles resolveram adiar.
Dinheiro.
Status.
Posição social.
Essas coisas sempre viriam antes de tudo.
— É melhor você ir agora, Joice. — A voz de Marcone foi contida, embora a severidade em seu rosto mostrasse exatamente qual era seu estado de espírito. Ele tinha escutado tudo.
Não parei para ver a reação dela, entrei no quarto dele e bati a porta, trancando-me do lado de dentro.
Não chorei, a sensação era pior. As lágrimas trariam alívio, eu estava longe de sentir isso.