O Federal
Capítulo 15
Camille
— Tenho razão? — Inquiri, chocada. Tentei contar mentalmente
quantas vezes alguém dissera que eu tinha razão, ao invés de me chamar de louca.
Nenhuma vez.
— Sim, você tem. — Ele deu um sorriso suave, olhando-me, enquanto os dedos faziam um vai-e-vem carinhoso na palma da minha mão. — Você está com febre.
— Estou me sentindo horrível, todo o meu corpo está doendo... — reclamei.
— Vou pedir um antitérmico, você devia tomar um banho frio.
Encolhi-me na cama, ainda segurando a mão dele e fechei os olhos, sentindo-os como se pesassem toneladas.
— Você está falando como Naiá. — Tentei abri os olhos para vê-lo, mas não consegui. — De quem você já cuidou?
— Tenho uma irmã irresponsável, Camille.
Eu ri, senti a mão dele na minha testa e então os meus cabelos foram afastados do meu pescoço.
— Está quente demais. — A voz soou preocupada, mas as minhas pálpebras estavam cada vez mais pesadas.
Senti quando ele levantou, fiquei com mais frio. Escutei-o se mexer pelo quarto e depois a porta ser aberta. A muito custo, abri os olhos, tentando ver se ele havia ido embora, mas Marcone voltou a passar por ela trazendo um copo de água alguns minutos depois.
— Você precisa beber isso, está muito quente. — Aproximou-se com a água e o analgésico que deixei sobre a mesa. Eu não era muito fã de remédios, todavia obedeci.
— Eu estou com frio. — Ao contrário do que imaginei, ele retirou o edredom da cama e aumentou a intensidade do ar condicionado , algo como 22° C.
Mesmo um pouco letárgica, perguntei-me como ele encontrava as coisas com facilidade, eu não fazia ideia de onde estava o controle do ar.
— Claro que está com frio. — ele zombou e voltou a sentar perto de mim. — Vou ficar aqui até você estar melhor.
Foi o que ouvi antes de pegar no sono.
*
Antes de abrir os olhos, senti uma umidade quente em meu rosto, custei a acostumar com a luz, embora alguns dos leds não estivessem ligados.
— Está se sentindo melhor? — A voz grave soou acima da minha cabeça.
Ergui os olhos e encontrei o rosto de Marcone, os olhos azuis sonolentos, levantei a cabeça do peito dele, tentando ver a hora no relógio que ficava sobre o criado-mudo.
00:51.
Sentei-me, sentindo-me levemente melhor, mas extremamente suada e pegajosa, a camisa dele estava com uma marca imensa de umidade.
— Você dormiu, a febre deve ter te deixado exausta. — Esclareceu ele, sentando-se também.
— E você ficou aqui?
— Sim. Você é extremamente falante enquanto dorme. — disse ele, parecendo satisfeito consigo mesmo. Claro que estava zombando.
Liz dizia que eu repetia a palavra para muitas vezes, foi prestando atenção em algumas coisas que eu falava durante o sono que ela descobrira muitas coisas.
— Eu molhei você inteiro. — Voltei a olhar a umidade que eu havia deixado na blusa dele e toquei por reflexo, senti os músculos duros do tórax sob o tecido e prendi a respiração, uma curiosidade grande demais para ver como era.
— Está sem febre agora, isso é importante. — Olhou-me, uma de suas mãos envolveu a minha que o tocava e ele a beijou suavemente.
— Preciso de um banho. — Praticamente gemi, puxando o elástico do cabelo, e enfiando o dedos por ele.
— E eu preciso ir.
Parei de mexer no cabelo e olhei para ele, seria ridículo dizer que estava cedo, afinal já passava da meia noite, e pior, eu tinha passado a maior parte do tempo dormindo.
— Já que... quer ver meus quadros — sondei, os olhos dele ficaram mais atentos, mais do que o natural, porque eu tinha a impressão de que ele estava sempre em alerta. — Vá assistir uma aula minha amanhã.
Ele ponderou por um tempo.
— Não é bem uma aula, é mais um encontro com as crianças, mas tenho pinturas minhas lá...
— Hum, porém não posso ver ainda essas daqui... — Foi uma afirmação, assenti. — A que horas é esse encontro?
— Nove.
— Ok, passo aqui antes de nove.
*
Se Naiá me visse de pé antes das oito da manhã, provavelmente ela diria que eu estava com algum problema grave — mas, ansiedade era um problema grave, eu diria. Os espirros tinham diminuído e a febre não tinha voltado. Caminhei para o closet para escolher algo para vestir, sem ter certeza de como deveria parecer essa manhã.
Busquei algo fresco, já que o dia estava previsto para ser quente — vesti um macacão soltinho longo, o tecido levinho me deixou momentaneamente relaxada. Tirei a toalha dos cabelos e fui devolver ao cabide no banheiro, eles ainda estavam úmidos. Penteei-os rapidamente, desistindo de usar o secador.
Saí do quarto, e segui o som do interfone na cozinha.
— Sim?
— Cami, um amigo seu está aqui.
A voz de Miguel soou baixa.
— Quem é? — Eu sabia que provavelmente era Marcone lá fora, mas não custava nada ter certeza.
— Marcone.
Ouvi um dialógo curto entre os dois e então a respiração de Miguel ficou evidente novamente.
— Ele vai esperá-la aqui embaixo.
— Ok, Miguel. — Pensei em pedir que subisse, mas desisti.
Voltei rapidamente para meu quarto para terminar de me arrumar, e peguei o celular e a bolsa. Encontrei Marcone no saguão, sentado numa das poltronas, pensativo.
— Você está uma hora adiantado. — disse, assim que cheguei perto dele.
— Na verdade, podemos tomar um café — sugeriu, olhando-me. — Se você quiser, é claro.
Marcone
O celular tocou no momento em que estacionei o carro diante do prédio que muitas vezes tinha vindo buscar Nina, mas que nunca entrei para conhecer. Algumas crianças ainda estavam chegando, junto com adultos, Aline, a moça que estivera com Camille na noite que nos encontramos no pub estava conversando com um homem alto, que parecia se virar o tempo todo procurando por alguém.
O nome de Andrea estava piscando na tela.
— Preciso atender. — Destravei as portas e olhei rapidamente para Camille ao meu lado. — Só alguns minutos.
— Claro, vou falar com Aline, enquanto espero você terminar.
Ela saltou do carro e eu aceitei a chamada de Andrea, enquanto observava Camille se afastar.
— Andrea.
— O que está fazendo? — Pela voz arrastada, ela ainda devia estar deitada. — Tem agenda para almoço hoje? Já que Nina deve ter esquecido que você existe.
Filha da mãe.
— Estou na rua, Andrea, vim assistir uma aula de Camille.
A tosse histérica que ela deu do outro lado da linha, fez-me rir.
— Espero que você não morra entalada a essa hora da manhã.
— Cretino!!
Afastei o celular da orelha para não ouvir as barbaridades que ela devia estar soltando aos ventos e vi Camille apontar na direção do carro, enquanto dizia alguma coisa a Aline, o homem alto também olhou, por um tempo mais longo.
— Que tal tomarmos alguma coisa a noite? — Resolvi lhe dar atenção.
— Hum...
— Já tem algo marcado, imagino. — Bufei, embora ela não tivesse me contado sobre o seu envolvimento com um dos agentes novatos, eu desconfiava.
— Não, pode ser.
Guardei o celular o bolso, depois de desligar e saí do carro.
— Marcone, esse é Tarcísio. Aline você já conhece. — Cami me apresentou ao homem que pareceu murchar mais a cada minuto, apertei sua mão e dei uma aceno com a cabeça. — Ele é um dos pscicólogos daqui.
Acompanhei-a para dentro do prédio, ainda surpreso que tudo aquilo fosse elaborado por Flávio, não conhecia essa faceta generosa que ele tinha. Passamos por um lavatório, onde lavamos as mãos. Ela abriu a porta de uma sala, e foi como um gatilho em mim, a maioria das crianças estavam carecas, perguntei-me se realmente era saudável para elas estarem ali. Fiquei preso no lugar por um tempo, elas me olhavam com curiosidade.
— Entra, elas devem estar querendo saber quem você é. — Cami sorriu e tocou meu ombro para que entrasse e ela pudesse fechar a porta.
Cada cabecinha olhava na minha direção, perguntei-me como ela lidava com eles, a sala era espaçosa e clara, resultado das inúmeras vidraças espalhadas pelas paredes.
— Olá, crianças. — Ela sorriu, e houve um coro de vozes agitadas respondendo “ oi, tia”.
Ela começou a abrir todas as janelas e por fim cruzou os braços, olhando mais demoradamente para uma garotinha de vestido amarelo.
— Quem é ele? — a menina perguntou, olhando-me.
— Um amigo, ele se chama Marcone e vai ficar conosco hoje.
Ela contou a eles que eu era irmão de Nina e vieram perguntas de todos os tipos sobre nós dois. Isso durou quase meia hora, então as crianças receberam algumas telas e Camille as instruiu a desenharem detalhes de como estavam se sentindo naquela manhã, achei graça quando recebi uma tela igual à delas, sentei meio desengonçado por causa do meu tamanho e fitei por minutos sem fim a tela branca, sem fazer a menor ideia do que tentar desenhar, eu era péssimo em qualquer coisa do tipo.
— E então? O que está pintando? — Ouvi a voz dela uns minutos depois.
Olhei para o espaço totalmente branco a minha frente.
— Tem a ver com o que está sentindo? — Ela colocou o cabelo para trás dos ombros e curvou um pouco o corpo para ver de perto.
— Não tenho essa criatividade. — O magnetismo verde de seus olhos pousaram em mim de um jeito zombeteiro.
— É bom você desenhar algo, as crianças vão te encher de perguntas. — Ela riu, e voltou a olhar para a mesma menininha.
— Qual o nome dela? — perguntei, curioso. Além do vestido, o lenço que estava em sua cabecinha também era amarelo.
— Isabelle.
— O que ela tem?
— Leucemia. — Camille sentou-se perto de mim e cruzou as pernas, ela parecia um pouco diferente de quando nos vimos na fazenda pela primeira vez, parecia mais relaxada, menos arisca e menos melancólica.
— Ela vai ficar boa? — A pergunta chamou sua atenção, ela olhou para mim tristonha.
— Eu não sei. Eu espero que sim.
— É saudável para elas estarem aqui? — Deixei o pincel de lado, olhando para a menina. Tão nova e tão doente.
— Há médicos e pscicólogos aqui, as crianças que tem qualquer tipo de alergia ou intolerância ao que usamos aqui participam de outras aulas, a ideia é que elas aprendam e se sintam normais, como as outras crianças.
— São novos demais, imagino que os pais deles não devem ter paz.
Ela me imitou, observando cada um deles como eu fazia.
A menina que se chamava Isabelle era falante e excelente pintora, num dado momento da manhã ela se sentou ao meu lado para me mostrar o que tinha pintado — uma ampulheta — ela não tinha usado pincel, tinha feito um jogo de cores com hidrocores e lápis, parecia um desenho 3d dada a sua veracidade. A mãozinhas finas pegaram a minha tela, enquanto eu dava uma olhada — estupefata — no desenho perfeito dela.
— Você não fez nada. — O tom dela foi irritado, enquanto olhava-me de cara feia.
— Eu não sei desenhar e usar essas coisas...
— Não são essas coisas, são pinceis e tintas! — Ainda mais irritada.
Olhei para ela tentando desvendar se talvez ela não fosse um et. Os olhinhos lacrimejavam com facilidade, pequenas veias finas eram bem evidentes na testa e no rostinho extremamente branco, em toda a sua irritabilidade me dei conta de que ela era uma das crianças mais lindas que já tinha visto, embora a falta de saúde fosse clara.
— Vou vir aqui outras vezes para você me ensinar.
Isabelle me olhou e depois sorriu docemente, estendeu a mão como se quisesse fechar um acordo e eu a apertei com cuidado, era bem pequena e frágil. Ignorando-me por completo depois disso, ela pegou o pincel e abriu a tampinha da tinta vermelha, molhou-o e tocou sobre minha tela.
— Tem cor de sangue — refletiu.
— Porque desenhou uma ampulheta?
— Porque eu ouvi meu pai dizendo que tenho pouco tempo, se ele não ganhar mais dinheiro. — Ela disse com uma naturalidade inquietante, deixando-me mudo.
Abri a boca para dizer algo, mas me faltaram as palavras, concentrei-me no que ela ia desenhando.
— Vocês são namorados? — a mudança de assunto me pegou desprevenido, eu nem mesmo tinha digerido o que ela acabara de me dizer, porra!
Ela me olhou irritada, quando demorei de responder.
— De quem você está falando exatamente?
— De você e da tia Cami. — A olhada que ela me deu, fez-me parecer um idiota como Nina costumava fazer comigo. — O tio Tarcísio é apaixonado por ela.
A cara murcha que o infeliz fez ao me ver mais cedo fazia sentido agora. Olhei para Camille, ela estava colocando as telas num expositor para secar, estava completamente distraída e ainda mais atraente, era bem possível que ela não fizesse ideia do magnetismo que emanava tão naturalmente, sem qualquer esforço.
— Como você sabe? — Claro que eu ia perguntar isso, uma sensação estranha se insinuou, ele passava mais tempo com ela do que eu, talvez até fizesse parte da sua rotina fora daqui. Talvez fossem próximos, se falassem todo dia.
— Ah, eu sei dessas coisas — a menina disse, concentrada no que quer que estivesse desenhando. — Mas ela não dá muita bola para ele. — Percebi que eu gostava dessa garotinha, parou de desenhar e me olhou atentamente. — Ela dá pra você.
Não pude conter a gargalhada.
— Ela tá vindo pra cá. — Fez um sinal para que eu ficasse quieto, com uma carinha de anjo pouco confiável.
— O que vocês estão cochichando aí? — Camille olhou para mim e depois para Isabelle.
— O tio Marcone disse...
Prendi a respiração com medo do que a pequena espertinha fosse dizer, afinal eu conhecia a falta de filtro que esses pequenos tinham, revirei a minha mente em busca de alguma barbaridade que eu pudesse ter dito, mas não lembrei nada preocupante, na verdade ela é quem não tinha segurado a língua e estava fazendo o mesmo agora.
— ... que vai te levar para almoçar hoje.
— O quê? — A pergunta saiu engasgada, apesar de que já tinha essa ideia em mente. A pequena atriz, olhou-me de cara feia, quando Camille não estava prestando atenção nela.
— Foi exatamente isso que estávamos falando — admiti.
— Vocês dois estão bem estranhos. — Cami riu e depois olhou para a tela que Isabelle acabara de pintar.
— Fiz um coração pra vocês dois.