O Federal
Capítulo 5
Marcone
Observei do modo mais impassível todos os rostos presentes
na sala, a maioria tinha me visto uma ou duas vezes durante as poucas visitas que fiz a essa fábrica, alguns também eram novidade para mim. Mas, o que mais me deixava intrigado era o fato de os dois filhos de Antônio Oliveira, serem gerentes financeiros. Eu sabia quem eram eles, tinha feito associação ao sobrenome e ao fato de serem os mais próximos de minha mãe no enterro do meu pai, o puxa-saquismo exacerbado daquele dia não me passou despercebido.
A reunião era para falar acerca do incêndio, minha mãe estava ao meu lado direito e Nina ao esquerdo, enquanto Antônio e o perito justificavam o que desencadeou as chamas no sétimo andar, senti vontade de rir quando li o documento: Incêndio causado por vapor. Não era nada diferente do que eu já esperava, porém imaginei que ele encontraria um jeito mais concreto de tentar enganar, mas não sei que espécie de idiota esse infeliz achava que eu era. Todavia, permaneci calado, engolindo suas explicações, até porque de acordo com o que vinha percebendo havia algo incomum e mais complicado por trás desses desvios, encostá-lo na parede agora não seria o certo a fazer. Eu só precisava de uma resposta do banco suíço com relação ao titular da conta que recebia esses depósitos. Com a certeza de que ele era o ladrão, os próximos passos seriam menos complicados, fáceis até. E pelo que eu estava assistindo agora, o cara era extremamente burro.
Houve uma sucessão de opiniões sobre quais medidas tomar para que algo daquele tipo não voltasse a acontecer, os engenheiros expuseram melhorias na formatação do prédio e no novo layout do departamento financeiro e o ego, já grande, do advogado pareceu inflar ainda mais, completamente satisfeito consigo mesmo. Minha mãe disse algumas palavras em agradecimentos aos funcionários e logo depois os dispensou.
— Um prejuízo incalculável. — Antônio disse para nós ainda no mesmo lugar.
— Muito obrigado. — Estendi a mão para ele. Sim, eu era traiçoeiro, do tipo que dava corda para se enforcar. Mas o homem ficou surpreso com meu cumprimento, só meneou a cabeça afirmativamente e pediu licença para se retirar.
— Como ele pôde? — Minha mãe gemeu contrariada.
— Nós nunca conhecemos ninguém o suficiente, mãe. — Tranquilizei-a, ciente de que ela falava do advogado.
— Vamos para casa. — Levantei-me e saí da sala com as duas.
No testamento do meu pai, seu desejo era que esse lugar nunca fosse vendido ou passado para a direção de alguém que não fizesse parte da família, assim que isso foi lido, senti remorso automático, não era meu lugar. Eu não me via vivendo e administrando isso aqui. A tolerância que administradores tinham que ter em seus negócios era completamente desconhecida por mim. No momento o que eu queria mesmo era torcer o pescoço do advogado mentiroso, esmagar a verdade na sua cara, mas essa hora chegaria.
Saí do elevador e a primeira coisa que vi foi o filho do diabo rondando Camille, não sei o que o sujeito estava dizendo, mas ela estava claramente desconfortável, quase apática. Os braços cruzados, como se estivesse se protegendo, os olhos baixos tensos, e o imbecil sorrindo de lado como se estivesse dizendo algo muito interessante. Ia começar a caminhar até lá, quando Andrea aproximou-se com um sorriso educado e disse algo no ouvido do cara que o deixou branco como uma vela, depois delicadamente puxou Camille para as poltronas que estavam decorando a recepção.
Nina foi direto para onde Ben estava com uma cara de boba, eu sabia que teria fortes dores de cabeça a respeito desses dois. Aproximei-me de Andrea que lia uma revista sobre o ramo industrial do século XXI e de Camille que estava ao seu lado. Minha mãe não estava mais por perto.
— Bom dia, Camille. — Cumprimentei-a, não a tinha visto ainda essa manhã. Vim cedo para cá e a garota permaneceu na fazenda com Andrea e Ben.
Os olhos — a parte que eu realmente mais gostava em seu rosto — estavam claríssimos.
— Bom dia. — O rosto ficou corado, mas ela não desviou os olhos, umedeceu os lábios num gesto mais de nervosismo que de provocação.
Andrea pigarreou de um jeito teatral, reprimi um sorriso e a olhei. Uma de suas sobrancelhas estava arqueada de forma arrogante. Honestamente, não entendia a mim mesmo por gostar tanto dela.
— A que horas você volta para o Rio? — Dirige-me à loira, sentando-me entre as duas.
— Minha mala já está no carro. — Respondeu, voltando a olhar para a revista.
— O que você disse a ele? — Perguntei para que só ela ouvisse.
— Considerando a cara que você estava olhando para o desavisado, eu fiz um favor para o coitado.
Cínica.
— Certo. Fez um favor dizendo o que para ele?
— Disse que enfiaria as unhas nas bolas dele caso não desse o fora.
Não consegui segurar a gargalhada.
— Você é louca. — Retruquei em meio a risada. Andrea riu também e encostou a cabeça no meu ombro, algo já rotineiro entre nós.
Silenciosamente Camille levantou-se e caminhou para onde Nina estava com Ben. A reação me incomodou de certa forma, talvez a garota estivesse entendendo minha relação com Andrea de uma forma diferente do que realmente era.
— Ele entregou um laudo falso.
— Já esperávamos por isso, não é? — Ela ajeitou-se e olhou séria para mim. — Esses dias que vai ficar por aqui, tome cuidado. O cara sabe quem você é. Todos aqui sabem, Marcone.
— Ele não é esperto. Ninguém é esperto quando se trata de dinheiro. Tudo que ele quer é uma oportunidade para roubar mais.
Andrea lançou um olhar sombrio para o advogado que mais uma vez estava em volta da minha mãe.
— Só tome cuidado.
Ficamos mais cerca de dez minutos ali e eu saí com Andrea para levá-la ao aeroporto. Infelizmente, Ben não iria acompanhá-la. Ainda trocamos algumas palavras, enquanto esperávamos o seu voo e eu voltei para a fazenda. Durante o almoço e o resto do dia, Camille não apareceu e nem se juntou a Nina e Ben na piscina. Senti vontade de ir até seu quarto, mas achei que seria uma atitude meio invasiva e não o fiz. Durante o jantar a garota também não apareceu, isso me deixou nervoso. Durante a madrugada eu escutei novamente o ruído na área da piscina, sem pensar duas vezes saí do quarto e fui até lá. Dessa vez caminhei para a piscina, novamente a madrugada estava fria, a água devia estar um gelo e ela estava boiando de olhos fechados, o vestido estava grudado no corpo. O mesmo vestido vermelho que ela estava usando ontem. Não falei nada para não a assustar. Sentei na borda e coloquei as pernas para dentro da água. Arrependi-me assim que senti a umidade gelada envolvê-las.
O rosto dela era sereno enquanto estava ali dentro, ela parecia relaxada como nunca a vi. Acabei me sentindo intruso por estar observando seu momento. Os olhos tão marcantes abriram-se lentamente, prendi a respiração achando que ela fosse gritar assustada, mas Camille apenas me olhou e moveu os braços ainda submersa sob as águas. Ela afundou dentro da piscina por um longo tempo e quando emergiu estava diante de mim, olhando-me com ar arisco.
— Oi. — Sussurrei.
— Oi.
— Porque ficou no quarto durante todo o dia? — Perguntei, movendo as pernas dentro da água.
— Tive que fazer algumas ligações. E estava com dor de cabeça.
Senti vontade de que as luzes ali fossem acesas e eu pudesse ver seu rosto direito.
— Porque vem nadar a essa hora? — Eu realmente estava curioso sobre isso.
— Gosto do silêncio.
— Minhas pernas estão congelando aqui dentro, o que acha de terminarmos a conversa lá dentro. — Olhei por sobre os ombros para a cozinha.
Estava esperando pela recusa, mas ela assentiu. Levantei-me e esperei por ela, entramos juntos na cozinha, ambos deixando um rastro de pingos de água pelo piso.
— Você sabe usar a chocolateira? — Perguntei.
— Sim. — Ela respondeu, franzindo as sobrancelhas de um jeito fofo.
— Pode aquecer o chocolate enquanto busco umas toalhas para nós?
— Claro. — Deixei-a tremendo e pingando água no meio da cozinha e subi a escada de dois em dois degraus. Fui até meu quarto e peguei um roupão e uma toalha. Enxuguei-me, troquei o short parcialmente molhado por uma calça de moletom e olhei as minhas blusas dentro da gaveta, pensando se era uma boa ideia levar uma para que ela vestisse ou não. Puxei a primeira que vi, e desci a escada, com um bolo de roupas nas mãos. O cheiro do chocolate já estava evidente.
Entrei em silêncio, detendo-me a soleira da porta, havia algo de fascinante em olhá-la quando ela estava distraída, Camille mantinha o olhar concentrado, enquanto enchia uma caneca de chocolate.
— Trouxe uma toalha. — Retruquei para que ela me visse e entrei na cozinha.
Camille foi até o lavabo e voltou vestindo minha blusa, sob o roupão parcialmente aberto, com a toalha na cabeça. Ela sentou-se diante de mim e pegou sua caneca, levando-a a boca.
— Ela morreu. — Sussurrou depois do primeiro gole.
— Hã?! — Não compreendi.
— Minha irmã. Ela morreu. — Fez uma pausa, unindo as sobrancelhas. — Você me perguntou onde ela estava na outra noite.
— Eu sinto muito. — Tomei um gole da bebida. — O que houve com ela?
— Eu não gosto de falar muito sobre isso. — Respondeu sem me encarar, brincando com a alça da caneca. — Não me faz bem...
— Tudo bem. Não fale, então.
Ela me lançou um olhar curioso, os olhos verdes intensos como duas esmeraldas.
— Nina diz que você é bem chato. — Ela deu um pequeno sorriso, pelo franzir de sua testa devia estar lembrando de alguma atrocidade que minha irmã dissera sobre mim.
— Bom, no lugar dela eu também diria isso. — Dei outro gole, esperando pelo que ela iria perguntar ou dizer.
Camille parecia ponderar sobre o assunto, ela estreitou os olhos, observando-me. E então algo fez com que suas bochechas ficassem mais coradas.
— No que está pensando? — Inquiri, curioso.
— É bom estar aqui... eu me sinto segura. — O olhar dela foi para a madrugada lá fora, e permaneceu por um tempo longo.
A sirene de quando algo estava muito errado soou na minha cabeça assim que ela fechou a boca.
— Você está segura aqui, Camille. — Senti a necessidade de dizer, de passar uma certeza para ela.
— Não queria ir embora. — Ela sussurrou mais para si mesma.
— Ainda vamos passar uns dias aqui. — Tranquilizei-a.
Ela olhou para mim e assentiu, deixando a caneca de lado. Algo a incomodava, parecia melancólica.
— Quantos anos você tem? — Perguntei, sorvendo mais um pouco da bebida.
— Quase vinte e um. — Deu de ombros, fazendo uma espécie de biquinho.
Descansei a cabeça na mão esquerda e me permiti olhá-la.
— Porque quase?
— Faço aniversário daqui a um tempinho. — Recostou-se na cadeira e suspirou. — Ela é sua namorada? — O rosto voltou a ruborizar.
— Ela quem? — Eu sabia que Camille se referia a Andrea, mas ainda assim perguntei.
— Aquela loira...
— Não, Andrea é uma amiga e trabalha comigo também. — Respondi, o rosto dela ficou ainda mais vermelho, digamos que, quase escarlate.
— É que ela parece bem à vontade aqui... por isso imaginei... — Retrucou, num tom quase desinteressado, sem me encarar.
— Nos conhecemos há muito tempo.... — Expliquei. — Nina me contou que você pinta. — Mudei de assunto, eu realmente queria conhecê-la.
— Sim, sempre desenhei, e depois comecei a pintar telas. — Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Gostaria de ver seus quadros.
— Claro. — Outro sorriso.
Voltamos a bebericar o chocolate, agora menos quente, em silêncio.
— A gente podia ir ver os cavalos outra vez... — Ela disse, brincando com a alça da caneca.
Achei graça.
— A essa hora? — Zombei, adorando o fato de ela propor passar algum tempo comigo.
— Não... quando amanhecer. — Os olhos esverdeados pousaram no meu rosto. — É como se eu já conhecesse você. — Ela sussurrou, mas parecia não gostar disso.
— E isso é ruim?
— Não sei. — Perscrutou-me por um longo tempo, minha vontade era descobrir o que se passava na sua cabeça. O olhar era desconfiado, afiado, arisco.
Camille tinha dificuldade de confiar, estava claro, desde o primeiro momento em que me viu. E isso me levava a questionar o porquê? Ou quem? Alguém devia tê-la ferido de uma forma muito forte para todas as atitudes defensivas que ela adotava.
— Porque não me deixa ser seu amigo? E com o tempo você escolhe se pode confiar em mim ou não. — Toquei levemente sua mão, fazendo um leve afago com o polegar.
— Amigo. — Ela ponderou, era como se testasse o som da palavra. — Amigo. Tudo bem.