O Federal
Capítulo 47
Marcone
Abri a porta, quando ouvi ser destrancada e entrei no quarto.
Não vi Camille na cama, passei pela porta aberta da sacada, se eu não tivesse certeza que ela estava ali não a teria visto, considerando a forma como estava sentada encolhida.
— Eu sinto muito... por tudo. — Sentei ao seu lado e coloquei uma mecha de cabelo atrás de sua orelha, um pretexto para ver seu rosto.
Camille não estava chorando, e eu até gostaria que ela o fizesse, que colocasse para fora. As dúvidas que eu tinha sobre os seus pais não existiam mais, eram dois seres desprezíveis. E se era o dinheiro que eles tinham como bem maior, eram exatamente isso que eu faria de tudo para que perdessem.
Olhei para ela, parecendo tão frágil, machucada demais.
Por dentro e por fora.
Na carne e no coração.
Aos poucos fui me aproximando, e quando cheguei perto ela veio se encolher no meu colo, mas não chorou, ficou em silêncio.
— Não há problema em chorar, sabia? — Encostei a boca na sua testa, segurando-a. Querendo mantê-la sempre assim, protegida e longe de tudo que lhe fizesse mal. — Desabafar, colocar para fora.
— Não consigo. — respondeu após um tempo, agarrada a mim. — Eu não consigo sentir nada. — Ela ergueu os olhos e o que vi, foi diferente de tudo que já tinha visto nela. — É errado odiá-los? Todos eles?
Ódio era um sentimento forte, e às vezes destrutivo demais.
— Ela nem ao menos perguntou como eu estava. — sussurrou, a dor foi real.
Senti-me incomodado, inútil por não ter como resolver tudo da forma e na velocidade que eu queria.
— Eu vou cuidar de você. — prometi, era o que eu iria fazer. Cuidaria dela com minha própria vida. — E vou te ensinar a cuidar de si mesma. — Camille precisava aprender.
— Sempre? — inquiriu, desconfiada. Sem acreditar em mim.
— Enquanto eu estiver vivo.
Ela relaxou e descansou a cabeça no meu peito, parecendo exausta demais e devia estar, todavia não chorou e nem dormiu, só não quis que eu me afastasse. Não me afastei e enquanto estávamos envolvidos no silêncio, passei a pensar em tudo que eu precisaria fazer daqui para frente.
Eram muitas coisas a serem resolvidas e pouco tempo, esse nunca me pareceu tão escasso.
Enzo, os pais dela, a conclusão da investigação.
Queria tirá-la do Rio de Janeiro o mais rápido que pudesse, dar a ela o que queria. Viver na fazenda, saber o que era ter uma família de verdade, viver os próprios sonhos. Ser amada, acho que ela nunca tinha se sentido assim. Amada. Deixei beijos suaves em sua cabeça, querendo ser suficiente para ela.
Fazê-la feliz. Era isso que eu queria.
*
Cobri o corpo de Camille com o edredom e desliguei a luz do abajur antes de deixar o quarto. Nina estava sentada no tapete da sala, em meio a cadernos e folhas de ofício. Sentei ao seu lado no tapete e ela deixou o que estava fazendo de lado e me deu um beijo na bochecha.
— O que você vai fazer? — perguntou, encostando-se no encosto do sofá como eu fazia. — Não quero que se machuque.
— Não vai acontecer nada comigo.
Já tinha me livrado de tanta coisa que era difícil acreditar que algo aconteceria agora, logo agora.
O meu celular tocou sobre o balcão da cozinha e eu me levantei para atender. Era Benjamin.
— Ben.
— Não há nenhum número de telefone fixo ou celular cadastrado no cpf de Heloísa Coimbra.
— E o marido e o filho?
— Sim, não foi fácil, mas já estão grampeados.
Eu sabia que não seria fácil.
— O motorista, então. — Nada me tirava da cabeça que a relação dele com Heloísa ia além da profissional.
— O ex-civil?
— Sim.
*
Tirei os óculos escuros e sentei diante do agente que conduzira o resgate e a locomoção de Camille até o hospital na noite do acidente.
— Ferris? — Parecia surpreso e curioso com a minha visita.
— Eu não vou fazer rodeios, então... — Olhei ao redor, até parar no rosto do homem. Eu me lembrava muito bem dele. — Eu imagino que você lembre do acidente que aconteceu alguns meses atrás...
— São tantos acidentes.
— Claro, mas você não me vê em todos eles, então eu suponho que se lembre exatamente do acidente que estou me referindo.
Ele estreitou os olhos, mas o ar cínico não mudou. Tirei o celular do bolso e mostrei o vídeo a ele. Mostrando que assim que eu saí, o infeliz tinha rondado o lugar, feito perguntas sobre o estado da garota. Vi a expressão altiva mudar.
— Se você esteve todo esse tempo lá, por que não houve nenhum tipo de investigação sobre o que aconteceu?
De repente ele suou um pouco, claro que se eu não tivesse evidência nenhuma. Sérgio, não teria respondido nada.
— O pai da garota não quis. O estado da menina não era dos melhores, ele não quis.
Recostei-me na cadeira, perplexo.
— Mas por que o interesse? — inquiriu ele, talvez notando a minha preocupação.
— Alguém estava lá com elas, fugiu, não chamou o socorro, isso é crime e devia ter sido investigado. — O homem se empertigou na cadeira, desconfortável.
Lidar com a corrupção na polícia era como nadar no meio de um rio de piranhas, dificilmente você conseguia sair vivo.
— Eu me pergunto porque você não fez seu trabalho, porra.
— Eu já disse, o pai dela não fez nenhum boletim e não quis. — revidou a mesma raiva que eu estava sentindo.
Levantei-me e encarei bastante a cara dele. Dirigi para o prédio dos Alencar e como já me conhecia, Miguel liberou minha entrada assim que entrei no saguão. Nunca os números de um elevador demoraram tanto para mudar. Naiá abriu a porta para mim, parecendo aliviada em me ver.
— Onde Augusto está? — perguntei, antes que ela começasse com perguntas sobre Camille, elas viriam. Ao que parecia a senhora era a única que realmente se importava com ela.
— No escritório.
— Onde fica?
Ela apontou, parecendo aflita agora.
Caminhei até lá e abri a porta sem bater. Augusto estava sentado atrás da mesa de mogno escura, levantou-se imediatamente assim que me viu.
— Era com você mesmo que eu queria conversar. — Ele disse, com o ar arrogante de sempre, ajeitando freneticamente a gravata.
— Não diga. — Fechei a porta atrás de mim e realmente olhei para o homem desprezível a minha frente. — Onde você estava na noite do acidente das garotas que moravam nessa casa? Não sei se posso chamá-las de suas filhas. — perguntei sem rodeios.
— É sério isso? — questionou, depositando toda a atenção em mim.
— Mais sério do que você imagina.
Augusto recostou-se no assento da poltrona e me encarou, talvez tentando entender se eu estava falando sério mesmo.
— Se você tem alguma coisa a ver com aquele acidente, é bom que me diga agora. — explodi ante a falta de resposta dele.
— Está me ameaçando?
— Entenda como quiser. — Cruzei os braços. — Porque não quis que investigassem?
— Eu devia pedir que investigassem a minha própria filha?
— Como é? — inquiri, sem entender.
— Camille estava dirigindo. O que eu devia fazer? Eu deveria pedir que a polícia a acusassem de assassinar a irmã?
— A polícia disse que ela estava no volante? — Abri o vídeo que Sérgio aparecia pela segunda vez e mostrei para ele. — Esse policial?
— Sim.
Guardei o celular novamente, ser inteligente quando a pessoa que você amava era o alvo tornava tudo diferente, você não conseguia pensar friamente. O sentimento se metia no meio da razão, era tudo mais complicado.
— Como sabia onde ela estava, como soube do acidente?
— O rastreador. Quando as duas não voltaram para casa, Miguel foi até lá, o último lugar em que o carro esteve. Encontrou apenas os destroços da explosão.
Respirei fundo.
Virei-me para sair.
— Preciso pedir algo a você. — disse ele.
Fiquei curioso e parei por um momento, esperando o que ele diria.
— Peça para Camille...
— É bom que você nem termine o que ia dizer, porra.
O homem murchou, ficando vermelho, não sei se de medo ou de vergonha. Também não me importava.
— Não consigo entender como uma mulher como ela é filha de pessoas como vocês. — Meneei a cabeça numa negativa, enojado em como algumas pessoas ricas eram ricas apenas de dinheiro mesmo. — Ela é diferente de tudo isso aqui. — Olhei com desprezo o lugar ao redor. — Ela vale mais do que qualquer dinheiro, como não consegue ver isso?
O rosto de Augusto ficou rubro de raiva, e eu esperei pelo momento em que ele iria jogar a merda no ventilador.
Foi exatamente o que ele fez.
— O único lucro que Camille nos deu foi o relacionamento com um homem rico e que me rendeu muitos contratos, fora isso sempre foi uma garota problemática e grudenta. Como se o mundo tivesse que girar ao seu redor.. — Ele ousou dizer sem nenhum sentimento. — Poderia estar a frente dos negócios da família, mas veja o que ela está fazendo. Pintando quadros com crianças moribundas, que não trarão nenhum benefício.
Cheguei a avançar alguns passos, perdendo a cabeça por alguns minutos, mas ele não valia os problemas que me traria, e eu já tinha problemas demais.
— Você não vale a pena. Eu espero que um dia Camille possa esquecer de vocês. — Eu desejava mesmo. — Esquecer que vocês existem.
Augusto ainda resmungou algo, mas não parei para ouvir, querendo sair desse lugar o quanto antes. Naiá, que parecia estar atrás da porta escutando, começou a chorar quando saí. Não estava com paciência, mas de todos ali, ela era a única que realmente merecia alguma atenção. Abracei com cuidado os ombros da senhora e beijei a testa enrugada como a da minha mãe era.
— Como está minha menina? — perguntou, enquanto caminhávamos para a cozinha.
— Ela vai ficar bem em breve — tranquilizei-a.
— Eu ouvi o pessoal do prédio comentando, ela não me contou nada. Só disse que ia passar uns dias com você. — lamentou, baixinho.
— Ela estava com tudo pronto para fugir, ir embora do Brasil. — Segurei a mão pequena, cheia de rugas e pintinhas. Eu tinha um carinho instantâneo por ela, o jeito tranquilo parecia muito com o da minha mãe. E eu era profundamente grato pelo interesse que ela demonstrava ter por Camille, ao menos alguém nessa casa tinha sentimentos. — Eu vi quando ela estava entrando no táxi e a segui até o aeroporto. Camille está comigo.
— Graças a Deus.
Naiá me olhou e colocou a palma da mão no meu rosto.
— Eu preciso que me diga uma coisa. O que aconteceu no dia em que Liz morreu?
— Eu não estava aqui, fui jogar baralho nesse dia. — Fez uma pausa e olhou para a porta, certificando-se se estávamos sozinhos. — Mas, depois... depois um médico veio aqui com aquela mulher.
— Quem é aquela mulher?
— Heloísa.
— O que ela queria?
— Fingir que se importava, mas eu tenho certeza que o filho dela causou o que aconteceu as minhas meninas.
Eu compartilhava da certeza dela.