O Federal
Capítulo 2
Marcone
Saí da casa de Andrea, quando Nina ligou, avisando que eu
poderia ir buscá-la. Ela estava me esperando na portaria do edifício sozinha. A raiva que eu estava sentindo diminuiu quando eu a vi. Ela estava feliz, um sorriso espontâneo espalhou-se em seu rosto quando me viu. Ela acenou para alguém e veio correndo para meu carro, entrou e beijou de leve meu rosto, recostando-se no banco e olhando o trânsito a nossa frente. Havia um pouco de tinta vermelha em sua blusa e na lateral do seu pescoço.
— Estava pintando o quê? — perguntei, quando paramos no sinal vermelho.
— Fui assistir a aula da Cami — respondeu e esfregou o lugar sujo da blusa, como se pudesse limpá-lo, mas o efeito foi contrário, a tinta espalhou um pouco mais no tecido claro.
— Ela pinta? — Pisei no acelerador e girei o volante na curva curta para entrar em nosso bairro.
— Sim, ela tem quadros lindos, e dá aulas a crianças com câncer — contou empolgada. — É muito bonito o que ela faz, Marco. Eu me senti tão bem em ir lá e pintar.
— Você pintou? — Olhei para ela, sentindo simpatia instantânea por essa nova amiga que tinha tirado sorrisos da minha irmã.
— Sim. — Ela mexeu no celular e inclinou o aparelho para que eu olhasse a foto de seu quadro pintado, era uma paisagem.
— Está muito bonito. — elogiei e parei em frente à Polis Mix. A hamburgueria que Nina gostava.
Quando eu queria agradá-la, geralmente oferecer comida era minha maior vantagem.
— Quero levá-la para a fazenda na próxima vez que formos ver a mamãe. — Ela tirou o cinto de segurança e saiu do carro.
— Tudo bem. — Saí atrás dela e fomos para a mesa de sempre próximo ao ar condicionado.
— Oi, vão querer o de sempre? — A garçonete que sempre nos atendia, e que Nina me infernizava dizendo que tinha uma paixão por mim, aproximou-se de nós.
— Sim — nós dissemos ao mesmo tempo e Cáren afastou-se.
— Você poderia chamá-la para sair — ela sugeriu, franzindo os lábios, com o ar petulante que me irritava as vezes..
Minha irmã parecia comigo, os cabelos escuros, curtos na altura do queixo, algumas covinhas perto dos lábios e os olhos da mesma cor que os meus. Azuis. O temperamento era o mesmo, ambos irritadiços e sem paciência. Descobri isso na primeira TPM que presenciei e fiquei horrorizado em como ela podia ser ainda mais irritante que o normal.
— Não comece, Nina — resmunguei, descansando a cabeça na mão para olhá-la de cara feia.
— Ela é bonita. — Deu de ombros, olhando para o cardápio.
— Nunca vai cansar? — perguntei, divertindo-me um pouco.
— Sim, quando você já estiver namorando outra vez. — Ela me olhou com carinho. — Achei que seria a arquiteta...
— Francine é muito bem casada, Nina. — respondi, fazia algumas semanas que eu não falava com ela. Não tinha contado ainda que estava no Rio. Mas sentia falta da camaradagem que construímos em tão pouco tempo.
— O bebê dela já nasceu?
— Não, mas falta pouco.
Cáren voltou trazendo os hambúrgueres artesanais e afastou-se novamente. Comemos em silêncio e depois fomos para casa. Fizemos uma chamada de vídeo com nossa mãe e assistimos a três filmes seguidos no meu quarto e ela adormeceu. Depois da morte de meu pai, ela vinha se refugiar aqui comigo. Dizia não gostar de dormir sozinha no escuro, mas eu entendia perfeitamente. Nina tinha sido fundamental para que eu saísse da depressão que me enfiei quando perdi Sam, ela entrou aqui toda esfuziante e alegre e me contagiou um pouco. Com o carinho, a atenção e as chatices dela. Beijei de leve a sua testa e puxei a coberta para cobri-la.
*
Abri a porta e Bella quase me derrubou com seus pulos e lambidas.
— Nunca mais me peça para trazer esse monstro. Ela quase fez xixi no banco do meu carro. — Ben reclamou, jogando-se no sofá.
— Quanto tempo, hein, garota? — Tirei a coleira do pescoço grosso e dei um abraço, afagando sua cabeça. Ela choramingou e lambeu meu pescoço. — Porque demorou tanto?
— Cara, ela não é dócil assim comigo. Bella só entrou no carro quando liguei para você e ela ouviu sua voz.
Eu ri, afagando a cabeça grande.
— Eu também senti saudades. — Disse para ela e ele revirou os olhos.
— Nina já está na faculdade? — Perguntou, indo para a cozinha e abrindo a geladeira.
Benjamin Constance era agente da PF há menos tempo que eu, Andrea costumava chamá-lo de mascote, ou de outros apelidos que ele odiava. Por um tempo cheguei a pensar que os dois poderiam se envolver de alguma forma, até eu ver o jeito comprido que o idiota olhava para mim irmã.
— Sim, saiu faz tempo. — Peguei a cerveja que ele lançou para mim e sentei direito no tapete branco, tirando a tampa da long neck.
— Quando vai voltar ao campo? — inquiriu.
— Não vai demorar muito. — Dei um gole na cerveja e passei a mão nos pelos de Bella.
— É muito dinheiro?
— Muito, mas já tenho uma ideia de quem seja. — Continuei acariciando o pelo castanho, distraído. A mente vagando para a cara do advogado mentiroso e ladrão.
— E como Nina está lidando com tudo isso? — Novamente o interesse na minha irmã, isso me fez encará-lo. Eu conhecia a fama de pegador do imbecil, isso rolava muito nas rodas de conversa.
— Não se preocupe, Ben. — Vendo a forma como eu estava encarando e provavelmente reconhecendo seu deslize, ele se remexeu no sofá e começou a falar sobre o vôlei que jogávamos contra os civis na praia e há meses eu não aparecia. Um assunto melhor ao meu ver.
Depois de algumas cervejas, ele foi embora e eu saí com Bella, corri com ela até o jardim botânico, quando chegasse a hora ela ficaria em definitivo comigo, mas isso ainda iria demorar um pouco. Ela era a nossa melhor farejadora, e eu podia dizer com certeza uma arma de defesa pessoal, agressiva nos momentos oportunos e completamente educada ao mesmo tempo. Sentei num dos bancos para beber uma água de coco e ela sentou perto das minhas pernas, uma das melhores companhias que qualquer homem podia ter.
Quando eu voltei para casa, a mochila de Nina estava jogada no sofá, sinal de que ela já havia chegado e de que não era um dia bom para ela.
Fui até a cozinha, era melhor dar-lhe um tempo para pensar e refletir. Abri a geladeira e tirei de lá alguns ingredientes para fazer sanduíches. Abri os pães e os recheei com carne, presunto e queijo e coloquei no micro-ondas, sob o olhar astuto de Bella. Escolhi algumas laranjas da fruteira e fiz um suco rápido. Apanhei uma bandeja de madeira de dentro do armário e arrumei rapidamente com os sanduíches e o suco. Caminhei para o quarto de Nina e bati duas vezes, abri ligeiramente a porta — ela estava encolhida com a cabeça embaixo do travesseiro, chorando baixinho.
— Vá embora... — Deu um sussurro abafado pelas cobertas.
— Eu trouxe comida... — confidenciei.
Algo que realmente Nina nunca rejeitava.
Comida.
Ela me olhou de esguelha, provavelmente conferindo se eu estava falando a verdade e sentou-se na cama. O rosto amassado e inchado. Entrei no quarto e coloquei a bandeja sobre a cômoda cor de rosa. Sentei ao seu lado e ela me abraçou.
— Ainda não acredito que ele se foi... — ela sussurrou chorosa, beijei de leve sua testa e permaneci calado. Desde o momento da morte até o enterro do nosso pai essa era a frase que Nina mais tinha repetido. Deixei-a chorar, o luto precisava ser sentido e posto para fora.
Peguei a bandeja e coloquei entre nós sobre a cama, quando ela se afastou e limpou o rosto. Eu não tinha mais palavras para dizer, exceto que em algum momento ela ia sentir menos
. — Ben trouxe Bella, ela está na sala.
— Ela vai ficar aqui? — perguntou de boca cheia.
— Só por hoje.
Meu celular tocou e eu o puxei do bolso, era minha mãe. Uma leve dor na têmpora se insinuou, quase um presságio de notícias ruins.
— Mamãe?
— A fábrica, filho. O setor financeiro pegou fogo, nós perdemos tudo que tinha lá. Documentos, equipamentos. Os bombeiros chegaram a tempo de não deixar o fogo se alastrar. — A voz dela estava firme, qualquer outra em seu lugar já teria desmoronado.
— Vou para aí, mãe. — Consultei o relógio de pulso. — Vou encontrar um voo e chego aí ainda hoje. — Olhei para Nina, ela tinha parado de comer e estava me observando, acenou para o celular querendo do falar com nossa mãe.
— Venha, por favor.
— Nina quer falar com você. — Entreguei meu celular a minha irmã e saí do quarto.
Eu não estava surpreso, muito pelo contrário, já esperava esse tipo de retaliação, queima de arquivo, limpeza de rastro, na verdade eu queria que acontecesse.