O Federal
Capítulo 30
Marcone
Confirmei rapidamente a caixinha embrulhada no bolso do
smoking, e atravessei o saguão rapidamente até o elevador privativo para a cobertura. Miguel, o motorista gente boa, fez um aceno e liberou minha entrada. Não havia tempo para falar dos últimos resultados do campeonato brasileiro e sobre o fato do seu time estar indo de mal a pior, ainda que o sujeito tivesse uma esperança assustadora de tão positiva. Vi os números mudando e olhei-me no espelho, gostando da aparência, eu estava com saudades. E era tão mais fácil não achar isso errado agora, não sentir todas as pontadas de culpa me alertando do quanto aquilo terminaria mal, incitando-me a acreditar que a história se repetiria.
Repeli tais pensamentos assim que saí em direção a porta dela e fui recebido por Naiá.
— Estava aqui de plantão, esperando por você.
Disse ela, animada.
Havia muitas pessoas, a maioria eu não conhecia, outras apareciam na coluna política dos jornais ou revistas de fofoca.
— Onde ela está? — perguntei entrando junto com a senhora.
— Ainda no quarto. — Olhou para mim com atenção.
Observei mais atentamente todos que estavam ali, percebendo que a maioria eram convidados dos pais e não dela. Levando-me a questionar se era realmente uma festa de aniversário, não imaginava Camille convidando todas essas pessoas. Não era muito a cara dela.
Encontrei Nina saindo do quarto de Camille, ela deu um sorriso presunçoso.
— Você está um gato. — Ela deu uns pulinhos, observando-me e depois me abraçou.
Nina vestia um vestido lilás longo, os cabelos estavam molhados e soltos, penteados de modo que ficassem atrás da orelha pequena, o visual leve e descontraído fazia lembrar uma fada, dessas que víamos em desenhos animados.
Beijei de leve a sua testa e tirei a caixinha do bolso.
— Acha que ela vai gostar? — Perguntei, nervoso demais para eu mesmo acreditar.
Os olhos azuis grandes observaram a joia delicada calmamente.
— Claro que vai.
Não me demorei mais ali, entrei pela porta fechada, e senti de imediato o cheiro dela, mas não a vi. Sentei despreocupadamente na cama, imaginando que ela estaria no banheiro. Camille saiu dali um minuto depois, a imagem dela me fez perder o fôlego.
Porra.
O vestido branco longo tomara que caia moldava-se perfeitamente às curvas suaves, os olhos ainda mais incríveis do que o normal me avaliaram com um misto de saudade e alívio. Talvez ela achasse que eu não viria.
— Feliz aniversário. — sussurrei, e levantei para ficar de frente para ela. — Achou que não estaria aqui? — Meus dedos correram pela bochecha aveludada, ela meneou a cabeça afirmativamente, os olhos percorreram o traje que eu vestia e o sorriso satisfeito me fez dar alguns créditos a minha irmã.
— Você está lindo. — Ela tocou a gravata, que eu achava ridícula e os dedos subiram pelo meu pescoço, até estarem em meus cabelos.
— Eu fui obrigado a vestir essa coisa.
Ela riu, e inclinou um pouco o queixo, oferecendo os lábios vermelhos, um contraste com a pele alva. A beleza exótica era apenas um complemento à sua personalidade cativante.
— Eu senti sua falta. — murmurei, introduzindo os dedos pelos cabelos sedosos, antes de encostar os lábios nos dela, entreabri-os, lentamente, sentindo o sabor de toda a carne macia, junto ao gosto de cereja. Percebendo que eu havia sentido muita falta, falta demais dela e de tudo que a agarota despertava em mim.
Desejei que não houvesse festa alguma lá fora, que fôssemos apenas nós dois. Pela intensidade que enchia os olhos dela quando nos afastamos, talvez Camille pensasse o mesmo.
Limpei com o polegar o canto da boca carnuda borrada de batom e sem me conter beijei de novo a carne macia. Afastei-me um pouco para ver o corpo inteiro e percebi que ela ainda estava descalça, embora a calda do vestido longo cobrisse parcialmente os pés delicados.
— O que vai colocar nos pés? — perguntei, excitado.
Ela apontou para uma caixa branca ainda fechada. Caminhei até lá e peguei as duas sandálias de salto médio, pareciam de cristais por conta do peso e do fato de serem transparentes, Camille sentou-se na cama e ergueu um pouco o tecido do vestido, expondo os pés. Talvez ela soubesse do meu fetiche por eles.
— Você gosta deles, não é? — perguntou com malícia, quando me abaixei diante dela e segurei o pé esquerdo.
— Confesso que sim. — Meus dedos subiram pelo tornozelo numa massagem lenta, e ela mordeu o lábio inferior, contendo um sorriso safado. Despertando um desejo já acumulado, e que a cada minuto ficava mais difícil de controlar. — São lindos, você inteira é.
O cheiro suave que vinha da pele fresca, fez-me pensar se entre as pernas ela também tinha esse cheiro, se o sabor era tão gostoso quanto o da boca carnuda, se era quente como eu já havia imaginado tantas vezes.
Sem me conter, eu me ergui para beijá-la outra vez, sugar a doçura que aquela boca tinha, e ela retrbuiu com o mesmo ardor que eu, espelhando o mesmo desejo que eu sentia. O gemido baixinho que ela soltou quase me fez perder a cabeça, todavia o bom senso me lembrou de onde estavámos e de que havia uma festa esperando por ela lá fora.
Voltei para a posição em que estava, coloquei as sandálias nos pés pequenos, não sem antes beijá-los. E me levantei, trazendo-a pela mão, os cabelos castanhos estavam levemente ondulados, emoldurando o rosto bonito. Beijei a sua testa levemente e enfiei a mão no bolso para tirar o que eu havia escolhido para ela.
Uma joia. Preciosa como ela era.
— Feche os olhos. — pedi, ela fez um bico engraçado. — Sem trapacear.
Camille obedeceu, risonha. Abri a caixinha e tirei a pulseira decorada com inúmeras esmeraldas minúsculas, no pequeno bracelete havia uma frase curta, escrita no ouro branco numa caligrafia elegante.
— Agora abra. — pedi, ansioso pela reação dela.
Camille observou a pulseira por um longo tempo, os dedos tocaram todas as pedrinhas e quando ela leu a frase talhada ali, os olhos deixaram a joia e fitaram o meu rosto.
— O seu coração... ele é meu? — inquiriu ela, baixinho.
Senti o coração bater de um jeito desordenado, olhando o rosto dela, a expectativa que havia nele.
— Sim, cuide bem dele. — Corri os dedos pela bochecha macia, sentindo a suavidade da pele, os seus olhos fecharam e eu me inclinei para beijá-la.
A verdade é que eu estava com saudades dela, de quem eu era quando estávamos juntos, de cada detalhezinho inesperado que ela trazia para minha vida, fazendo-me sentir coisas que pensei que nunca mais sentiria. Segurei seu rosto a fim de aprofundar o beijo, sentindo a boca macia derreter sob a minha, procurar-me com uma delicadeza cheia de desejo.
— Eu poderia fazer isso a noite inteira, mas há muitas pessoas... — Afastei-me contra vontade.
— Mas, amanhã, vamos ficar juntos o dia inteiro. — disse ela em meio a alguns selinhos.
— Sim, o tempo que você quiser.
Camille
Assim que saímos do quarto me deparei com um número muito maior de pessoas do que eu havia colocado na lista de convidados, suspirei de forma inaudível e segurei a mão de Marcone, um tanto quanto arrependida de ter concordado com a festa. Minha mãe tinha uma noção distorcida quanto ao que significava poucos convidados, se ela tivesse seguido a minha lista, seriam pouquíssimos.
— Eu quero beber alguma coisa. — sussurrei, assim que vi Georgia. A mulher era amiga de Joice e colunista de um blog de fofoca, desagradável e invasiva como a maioria das pessoas desse meio era.
Lembrei-me do quanto meu pai surtou com as especulações que ela fizera sobre o fim do meu noivado, a notícia fora retirada a pedido de Joice, é claro, mas isso não impediu que outras mídias fizessem suposições a respeito.
— Posso roubar seu namorado por dois minutos? — Ouvi a voz do meu pai, quando segurei um copo com um drink qualquer.
Franzi o cenho, um tanto territorialista.
— Não demoro a devolver.
Assenti, Marcone ainda olhou para trás e eu senti pena dele. Desde que meu pai soube da influência que a família do meu namorado tinha em Minas, as tentativas de incluí-lo nas rodas de conversas sobre política e negócios eram muitas.
— Feliz aniversário.
O susto que levei ao reconhecer a voz, fez com que um pouco do líquido do copo fosse derramado no chão.
— O que faz aqui? — perguntei, olhando para ele e em seguida para onde Marcone estava.
— Sua mãe convidou a minha, ainda que não tenha estendido o convite a mim. — Fez um gesto de pouco caso com os lábios, e eu realmente o observei.
Notei a barba que não lhe era comum, os olhos vermelhos, idênticos a quando ele bebia das bebidas que tinham um cheiro e gosto fortes demais. Desesperei-me com a possibilidade de ele fazer uma cena ali, ainda que não fosse seu estilo, ele era perfeito diante das pessoas e um monstro longe delas, eu tinha visto a transformação muitas vezes.
— Sinto sua falta.
O revirar no meu estômago piorou quando o vi apertar com mais força o copo de vidro que segurava.
— Vá embora. — supliquei, e quando olhei novamente para onde Marcone estava, para meu desespero ele olhava atento na nossa direção. — Vá embora.
— Quando podemos conversar?
— Nunca.
Enzo passou a mão livre nos cabelos visivelmente perturbado, e virou o um pouco da bebida na boca. O rosto branco ganhou uma tonalidade rosada quando ele engoliu.
— Apenas uma conversa.
Na minha mente houve um eco dessa mesma frase, como se eu já tivesse a ouvido antes, mas não era a voz dele perto de mim, era numa mensagem. Recuei um passo, dando-me conta que podia ser uma lembrança, fragmentos. Neguei com a cabeça. Senti uma mão grande na minha cintura, apertando-me de forma possessiva, pela reação automática do meu corpo eu sabia que era ele.
O rosto de Enzo passou de rosado a vermelho como uma pimenta, ele virou novamente o copo na boca, os olhos grudados em quem estava ao meu lado, uma adrenalina estranha passou a correr livremente pelo meu corpo.
— Qual é o problema? — Ouvi o tom irritado de Marcone e congelei, sem saber ao certo se me sentia aliviada ou encrencada.
— Nenhum, meu filho certamente não está encontrando a saída.
Nunca senti tanto alívio ao escutar a voz de Heloísa, ela sorriu falsamente para nós e o motorista dela, o homem que era sua sombra tocou o ombro de Enzo, ele me olhou por um momento e depois se afastou, não sem antes olhar para trás.
— Sua festa está linda, querida. — Heloísa disse e afastou-se.
Eu não o olhei de imediato, se ele fizesse as contas, e Marcone faria, com certeza agora ele sabia exatamente quem era meu ex-noivo.
— O que ele fazia aqui? — perguntou, como eu imaginava.
— Não foi por um convite meu. — respondi, ainda abalada com a lembrança e com a cena tosca que trouxe gatilhos terríveis. Virei-me para encará-lo e então percebi que algumas pessoas nos olhavam, inclusive Joice. — Pode vir comigo? — pedi, segurando sua mão.
Antes que houvesse resposta eu o puxei pela mão, sem me importar com as pessoas que nos olhavam. Eu só voltei a encará-lo quando entramos no elevador que nos levaria ao meu lugar preferido do prédio.
— O que nós tínhamos não era saudável, não me fazia bem, machucava muito... — Contei, porque era o certo e porque eu queria que ele confiasse em mim.
— Isso ficou claro pela cara que você está fazendo até agora. O que ele queria? — A pergunta foi direta.
— Ele disse que queria conversar. — falei a verdade.
Os olhos dele se estreitaram, temi o que Marcone podia estar pensando. Envergonhada com relação doentia que mantive com Enzo por tanto tempo.
— Você ainda sente alguma coisa por ele? — perguntou, impaciente.
— Sim. — Os seus olhos ficaram surpresos, visivelmente. — Eu o odeio. Todos eles. — Referi-me a Enzo e a família inteira.
A surpresa transformou-se em preocupação, um vinco se formou entre as sobrancelhas dele. Mas era exatamente isso, diziam que odio e amor eram muito próximos, se era verdade tudo de bom que um dia senti por aquele homem tinha se transformado em repulsa. Marcone segurou meu queixo, fazendo com que eu o encarasse, como se estivesse avaliando as minhas palavras, o significado delas.
— Eu não quero que isso acabe... — sussurrei sem saber o que se passava em sua cabeça, não havia nada além de sinceridade no que eu disse, senti o afago carinhoso dele em meu queixo e fui encorajada a abraçá-lo, não havia um lugar que me sentisse tão segura quanto ali, nos braços dele.
— Não vai... — Ele beijou minha testa e nos viramos quando o elevador abriu e saímos no terraço, onde ficava a piscina infinita. O único barulho ali era o som do meu salto.
— É um dos meus lugares preferidos aqui. — Sussurrei, segurando a barra do vestido, Marcone olhava para o teto de vidro, com certa curiosidade.
As estrelas pareciam estar especialmente mais bonitas essa noite.
— Acho que suas tatuagens não são tão fora de propósito. — sussurrou ele, e eu o imitei, olhando para cima.
Olhei para o céu estrelado, pensando que realmente eu tinha certo fascínio pelas estrelas e ali, elas pareciam escolhidas a dedo para forrar o céu e torná-lo mais bonito.
Senti a mão quente segurar minha nuca e fechei os olhos, meus cabelos foram afastados e eu senti o dedo esfregar delicadamente os desenhos que eu tinha ali, as minhas próprias estrelas. Logo os dedos foram substituídos pela boca e meu corpo inteiro ficou arrepiado, senti um ardor intenso entre as pernas, conforme os beijos eram deixados ali, quentes como se pudessem me marcar tal qual as tatuagens.
— Você cheira muito bem... — sussurrou ele, o nariz roçou atrás da minha orelha até embrenhar-se nos meus cabelos. E virou-me, grudando os lábios nos meus. As mãos subiram pelas costas até a minha nuca, e a necessidade de me esfregar nele cresceu consideravelmente.
— Me leva para outro lugar... — pedi, ofegante, sem ver qualquer motivo em comemorar o meu aniversário com todas aquelas pessoas que eu nem conhecia, se tudo o que eu queria era ficar com ele.
Marcone ainda roçou os lábios nos meus, mordendo-os de leve, antes de segurar meu rosto e me olhar por alguns minutos.
— Para onde?
— Qualquer lugar.