O Federal
Capítulo 16
Camille
Isabelle foi a última criança a sair, tagarela como sempre. Era
sempre a sua vizinha que vinha buscá-la, era a única criança que eu ainda não conhecia os pais. O pai. Ela sempre falava do pai. Marcone me ajudou a fechar as janelas e colocar as cadeiras no lugar.
— Agora entendo por que Nina sempre vem quando pode. — Ele disse, olhando as telas pintadas, cada uma com sua particularidade, no expositor.
— Deixe-me mostrar a você o que ela desenhou da última vez. — Fui até o armário branco, onde ficavam as telas secas, busquei pela letra N e puxei o desenho nada bonito que ela fez dele. — Não conte a ela que mostrei a você.
— Os segredos que você me obriga a guardar só aumentam. — retrucou ele, aproximando-se, interessado no que eu mostraria.
Coloquei a tela sobre a mesa e meu pensamento voou para a cachoeira, para o tempo que passamos juntos, de como fora tranquilo e do quanto eu gostaria de repetir.
— Ela disse que é você.
Os olhos azuis tornaram-se divertidos, zombeteiros, então ele soltou uma gargalhada gostosa — o desenho de fato estava ridículo, mas muito cheio de afeto.
— Cami.
Olhei para trás e vi Tarcísio, que permanecia a soleira da porta, observando-nos taciturno.
— Oi. Está precisando de alguma coisa?
Ele tinha me ajudado muito no meu início aqui, meus traumas, a dor de perder minha irmã, a melhor maneira de lidar com as crianças, ele era um bom amigo.
— Não, achei que você estivesse sozinha. — Dessa vez Tarcísio olhou para Marcone, fiz o mesmo, ele observava nossa interação em silêncio.
— Marcone está me fazendo companhia, vou embora com ele. — Sorri e ele acenou com a cabeça antes de afastar-se.
— Então, vocês são amigos? — Desviei a atenção para ele, erguendo umas das sobrancelhas.
— Sim. — Dei uma resposta simples.
— Então, nada de namorados? — O olhar dele tornou-se intenso e eu só fiz que não com a cabeça.
Não ficamos mais muito tempo ali, saímos em silêncio e durante o trajeto até um restaurante que eu escolhi, conversamos um pouco mais. As perguntas dele eram sobre mim, giravam em torno da minha infância, mas nunca mencionava minha irmã, parecia saber que me machucaria. Era difícil não gostar dele, Marcone e Nina tinham o mesmo nível de encantamento, um que não era encontrado com facilidade por aí.
— É aqui? — Perguntou ele, encarando-me, depois de estacionar.
Fiz que sim e nós descemos, era simples, tranquilo e bonito. Eu gostava da comida e do lugar, geralmente vinha quando conseguia sair sozinha sem ninguém perceber — sempre me sentava no mesmo lugar, de frente para as vidraças de onde eu podia ver toda a movimentação diurna, as pessoas, a risada delas, a forma como todas pareciam muito felizes, satisfeitas. Houve um período que me senti exatamente assim, feliz, satisfeita, até mesmo egocêntrica, depois tudo desandou. O que era encanto virou pesadelo, e o que era felicidade virou medo, inconstância, insegurança e então eu não era mais eu, parecia submersa em algum mundo paralelo, distante de mim mesma, do que queria, do que precisava. Escondida, presa, acorrentada, atada a circunstâncias doentias que no mundo que eu tinha criado na minha cabeça eram normais, aceitáveis, o que eu merecia.
— Costuma vir aqui?
Marcone me fitava interessado, perguntava-me se ele me visse por inteiro, todas as minhas camadas, todos os meus eus, toda a minha história, se ele continuaria sendo tão gentil comigo.
— Qual o problema, Camille? — Ele parecia frustrado, provavelmente por causa do meu silêncio.
— Nenhum, só estava pensando algumas coisas. — retruquei, presa no rosto dele. A capacidade que ele tinha de perceber, de ler, de ver era constrangedora, às vezes.
— Coisas ruins, suponho. — As sobrancelhas grossas se franziram e um pequeno vinco surgiu, bem parecido com o que aparecia em Nina, quando ela estava irritada ou muito empolgada.
— Ser observador é parte do seu trabalho ou é uma qualidade natural? — Peguei um guardanapo e comecei a dobrá-lo, sem qualquer efeito.
Ele não respondeu de imediato, apesar de não estar fitando-o, podia sentir seus olhos em mim.
— Acho que os dois.
— Você recebe treinamento para isso, você sabe quando alguém está mentindo? — Olhei-o, de repente interessada no que ele fazia. Afinal, Nina dissera que ele respirava trabalho.
— Sim para as duas perguntas.
— E quanto a mim? — perguntei, sem saber se tinha formulado a questão com as palavras certas.
Marcone ponderou por um tempo, parecendo olhar além do que as pessoas normais viam em mim.
— Ainda é uma incógnita, muda de personalidade muito rápido. Às vezes, não sei bem o que esperar. Acho que você vai fazer uma coisa e você faz outra. É inconstante e desconfiada. — Minha pscicóloga tinha dito algo parecido, algo sobre a inconstância e a minha impulsividade. — Contudo, eu acho que vou acabar me habituando e entendendo melhor, conforme formos nos conhecendo.
Mordi o lábio, evitando um sorriso, eu não queria mostrar que tinha gostado do que ele falara e muito menos dar asas a minha imaginação.
— Se você não desaparecer outra vez, não é?
Tentei fazer pouco caso, olhando para o cardápio, mas falhei pela risada que ele deu.
— Você pode me ligar ou mandar mensagens a hora que quiser, Camille. — disse ele, mas logo se virou para chamar alguém para nos atender, foi bom por que eu não tinha resposta para dar.
Uma das comidas que eu mais gostava aqui eram as carnes que eles ofereciam, Marcone pediu o mesmo que eu, apesar de nunca ter provado — podia ser ridículo, mas esses pequenos espaços que ele dava para que eu dissesse o que achava melhor me deixavam tão bem, faziam com que eu me sentisse útil de alguma forma.
— E então, você costuma vir muito aqui? — ele voltou a perguntar.
— Faz algum tempo que não vinha, mas é um lugar que eu gosto muito.
Senti o tempo voar de uma forma leve, agradável a comida estava boa, percebi que nunca tinha conhecido um homem como ele, as figuras masculinas que eu conhecia não tinham nada a ver com a personalidade dele, a diferença era gritante. Inúmeras vezes pedi ao meu subconciente para não fantasiar nada, embora eu me sentisse ligada a Marcone de alguma forma inexplicável, até mesmo estranha dado ao tempo em que nos conhecíamos. Subi para o apartamente satisfeita com o meu dia, e ao mesmo tempo saudosa por vê-lo ir embora.
Entrei em casa, esperando ver Naiá em qualquer canto do apartamento, foi um alívio ouvi-la cantarolando na sacada, lógico que havia um livro sobre a mesinha de vidro ao seu lado, sem que ela me visse, eu abracei seu pescoço.
Marcone
Estranhei não ter precisado esperar muito para ela abrir a porta, geralmente Andrea tinha problemas para encontrar tudo, inclusive suas chaves e seu celular, todavia, não foi ela quem me recebeu. O novato, aquele que eu já desconfiava, estava bem na minha frente, sem blusa e perfeitamente a vontade. Não lembrava o seu nome, apesar de já termos participado da mesma operação mais de uma vez e de termos nos encontrado no café próximo a delegacia que geralmenmte todos os policiais do departamento iam, ainda assim, ele me parecia familiar quando eu realmente parava para prestar atenção nele, algo na boca, um gesto que ele fazia, como que torcendo os lábios, era familiar de alguma forma. Olhei com certo desprezo para os pés descalços, a calça apesar de abotoada caia um tanto folgada nos quadris, ele definitivamente não combinava com ela. Fiz um aceno com a cabeça e passei pelo sujeito, guardei as chaves extras que Andrea deixara comigo para o caso de não achar as próprias, no bolso, e suspirei desconfortável.
— Onde ela está? — perguntei, olhando-o, prestando atenção, buscando na minha memória algo que fizesse ligação com ele.
— Erick. — O homem robusto era da minha altura, um pouco mais largo, o cabelo tinha um corte incomum que eu não tinha reparado antes. — Acho que você não lembra meu nome.
— Por acaso a gente já se conhece? — resolvi perguntar, e tirar minha dúvida de uma vez.
— Já trabalhamos no mesmo departamento em Brasília, mas nunca na mesma equipe. Entrei um pouco antes de você sair. — Esclareceu ele, considerando o número de agentes que entravam e saíam, eu não duvidava muito, apesar de não gostar dele, e geralmente minha primeira impressão sobre alguém não mudava.
Assenti e sentei, sem saber porque diabos ela me chamara para vir aqui se estava acompanhada.
— Eu quem vim sem avisar — avisou ele, sentando no outro sofá. — Vocês se conhecem há muito tempo? — Fez um gesto em direção ao quarto de Andrea com o queixo, sinal de que ela estava lá.
— Trabalhamos juntos por um tempo longo, eu diria. — Minha relação com Andrea não era conhecida pela maioria dos policiais do departamento, muito menos minha vida pessoal. Apenas ela e Benjamin sabiam que eu tinha uma irmã que morava comigo, podia ser exagero da minha parte, mas eu não confiava em ninguém. Fardado ou não. Confiança era um prato caro no meu mundo. E as maiores trairagens vinham de quem usava a mesma farda que eu, já tinha visto isso acontecer muitas vezes, então todo cuidado era pouco quando se tratava das pessoas que eu amava, eu tinha sofrido na pele uma vez, não queria sofrer de novo, se alguém tivesse que ser alvo, que fosse eu mesmo.
— Costuma vir sempre aqui?
— Acho que bem menos que você. — respondi, irritado. — Onde ela está?
— No quarto.
Depois de alguns minutos de silêncio pouco agradável, Andrea apareceu, atrapalhada como sempre, chegou a tropeçar e quase cair, honestamente, eu me surpreendia que nunca tivesse atirado no próprio pé.
— Oi. — Ela deu um sorriso amarelo na minha direção, uma reação de quem tinha sido pega no flagra. Andrea sabia exatamente o que eu achava sobre seus eventuais relacionamentos, principalmente porque eu via como eles acabavam, minha camisas sofriam ensopadas de lágrimas e meus ouvidos também com as lamentações que ela fazia, Andrea era escandalosa e dramática em algumas situações, principalmente as que ela mesma criava.
— Oi, Andrea.
— Erick está de saída, não é? — disse docemente para ele.
Depois de me olhar por alguns minutos o homem saiu em busca do resto de suas roupas.
Ainda escutei os dois se despedindo a soleira da porta, algo lamentável.
— Meu Deus do céu... — Sibilei, ouvindo os estalos dos beijos que trocavam, então ela apareceu.
— Eu ia te contar. — começou ela. — Não era para ele estar aqui, sabe?
Revirei os olhos, sem entender qual era o problema dela.
— Eu não gosto nem um pouco dele. — retruquei, sabendo que ela se irritaria, para num futuro próximo me dar razão.
— Você não gosta de nenhum dos meus namorados. — rebateu ela, andando para a cozinha, fui obrigado a segui-la.
— Sim, você tem razão. — Porque eram todos babacas que não a mereciam. Encostei-me na geladeira cheia de bugigangas e a olhei. — Não vou chatear você quanto a isso, sabemos que no fim não funciona, não é? — Sorri de leve e beijei sua testa, isso pareceu amolecê-la.
— Que tipo de aula você foi ver? — perguntou, sentando-se na cadeira e batendo a palma na outra para que eu fizesse o mesmo.
— Ela pinta.
— Quadros de verdade?
— Sim, ela dá aulas a crianças com cancêr.
— E?
— Almoçamos juntos. — Olhei-a, seriamente. — Não vou me afastar dela.
Andrea me olhou por um tempo e deu um sorriso curto.
— Você está com medo, não é? — sussurrou ela, com carinho. — Medo dela entrar aqui. — Colocou a palma da mão no meu peito, Andrea me conhecia muito bem, todas as partes mim, inclusive as escuras, as cinzas, as menos bonitas, às vezes tinha a impressão que ela me conhecia bem mais do que eu mesmo.
— Eu tenho meus motivos. — Motivos que ela conhecia muito bem, medo de falhar de novo, de errar, de colocar outra vida em risco.
— Acho que existe um motivo para vocês terem se reencontrado dessa forma.
— Não sabia que você era supersticiosa. — brinquei, ainda que sem muito humor.
— Não sou.
Deixando minha vida lado, passamos a falar sobre uma pedra que já estava fazendo hora extra no meu sapato — o advogado. Segundo algumas investigações que nós tínhamos feito, o homem possuia alguns imóveis não reconhecidos pela receita federal, alguns deles em nome dos filhos, outros da esposa.
— Sabe que não vai poder participar de operação nenhuma, envolvendo esse caso, não é?
Fiz que sim, nunca entenderia algumas coisas na polícia, pelo fato do crime estar envolvendo a minha família, eu não poderia participar diretamente da investigação e de todas as buscas nesse sentido.
Depois da troca do sistema da fábrica nada suspeito ocorreu, embora eu estivesse lidando com todos os contratos depois de passar por Antônio, minha sorte era a grande ilusão de sagacidade que o homem tinha, eu poderia rir de todas as pontas soltas que ele deixara em vários áspectos diferentes nos roubos que fez. Todo o roubo era usado num esquema de lavagem de dinheiro, distribuídos em paraísos fiscais. A minha raiva era ver que o legado do meu pai estava fazendo parte de toda a sujeira, mesmo que indiretamente e se todas as evidências estivessem certas, o dinheiro sujo vinha do tráfico de pessoas, meninas, mulheres, todas enganadas por acreditarem num sonho. O problema todo de casos assim era a burocracia, um nome que eu tinha aprendido a odiar, mesmo com provas, nomes, evidências a prisão de qualquer indivíduo não dependia só de nós, dependia de outras pessoas e de muitos fatores.
— Tudo que você reuniu está com o delegado de Minas — retrucou ela. — Entrei em contato com ele hoje.
Havia uma infinidade de documentos assinados por minha mãe autorizando contratos, lançamentos e transações pouco comuns, tudo isso porque ela confiava tão cegamento no advogado que não lia nada, agora a grande questão era agir de uma forma que a fábrica e nem o nome da minha família fosse ligada a nenhum dos crimes que ele estava envolvido.