O Federal
Capítulo 27
Enzo
Virei o litro de bourbon na boca e senti o líquido quente rasgar
minha garganta, seco e cru, sem conseguir tirar os olhos das malditas fotos — algumas me deixavam pior que outras, como ela podia? Vendo seu sorriso no papel, era como se eu conseguisse ouvir suas risadas, sendo distribuídas livremente para outro homem.
— Eu não entendo que tipo de controle essa garota tem por você, mas isso é deprimente. — Heloisa soou.
Há dias eu sequer conseguia olhar na cara dela ou de qualquer pessoa. Desde quando voltei, passei a seguir todos os passos de Camille, ver a forma como ela estava vivendo a vida bem, enquanto eu só piorava com a distância, a saudade que eu tinha acabava comigo, mas até aí foi tolerável. Imaginei que ela precisasse de tempo para entender que seu lugar era ao meu lado.
Até vê-la com o desgraçado, um estranho tocando no que era meu.
O pior de tudo foi ver o quanto ela estava gostando, parecia outra, não a garota sóbria e rígida que eu tive do lado por tanto tempo.
— Eu a vi hoje, e ela está muito bem. — Parou na minha frente, como a própria visão do inferno.
Eu a olhei pela primeira vez.
— Eu suponho que você deixe essa menina em paz, Enzo.
— Não consigo. Ela está aqui. — Apontei para minha cabeça, como o louco que até mesmo eu reconhecia que era agora. — O tempo todo.
— Para que você a quer de volta, para marcá-la de novo? Como um animal?
— Cala a boca! — O litro que estava em minha mão voou até a parede e se quebrou em mil pedaços.
Heloisa não se afetou, já acostumada com meus acessos de raiva e descontrole.
— Limpe a bagunça.
Foi o que ela disse, antes de me lançar um olhar cruel e me deixar sozinho.
Peguei o celular disposto a ligar para aquela vagabunda, mas como acontecia há dias a chamada nem mesmo era completada, ela estava cortando todos os vínculos.
Camille nunca entendeu a profundidade do que eu sentia por ela, minha mãe dizia que era doença, eu chamava de amor. Tudo que fiz foi prova disso, e bater nela era apenas um meio que encontrei de ter controle, era isso que meu pai fazia, eu vi muitas vezes que ele calava Heloisa com tapas e então ela obedecia. Embora as coisas tivessem mudado ao longo dos anos, ultimamente quem dava a última palavra em tudo era a minha mãe. Eu desconhecia o motivo da mudança, ele andava silencioso, retraído e afastado dos negócios, até isso Heloísa conseguira. Eu só não sabia que tipo de bruxaria ela tinha feito para conseguir esse resultado.
Peguei a foto que mais me enojava, obeservando a maneira como ela estava abraçada a outro homem, um que eu já odiava sem nem ao menos saber o nome.
Marcone
Encostei a cabeça na cabeceira da cama, ainda agitado e irrequieto, embora cansado. Todavia, eu não conseguia parar de pensar no ambiente tóxico que Camille parecia viver, os pais não passavam de pessoas fúteis e aparentemente alheios e pouco preocupados com o que acontecia na cabeça dela, e agora aquela mulher. Peguei o cartãozinho com o número do psiquiatra ainda tentando entender a forma estranha como tudo parecia ser quando se tratava daquela menina.
Abri mais uma vez o aplicativo de mensagens em que nos falamos até meia hora atrás quando ela reclamara de sono e me dera boa noite. Reli as nossas conversas, revi suas fotos, as muitas fotografias que ela tirava e me mandava.
A visão da foto dela foi interrompida por uma ligação de um número desconhecido.
— Alô?
— Senhor Ferris? — A voz feminina tinha um tom totalmente profissional.
Num primeiro momento pensei ser referente à fazenda e ao caso de Antônio.
— Ele está falando. Do que se trata?
— Sou advogada de Estevan Rissol, estou ligando para avisar do seu falecimento.
*
Bati uma vez na porta e ouvi a voz dela dizendo que eu podia entrar, girei a maçaneta e entrei, Camille estava sentada, digitando no notebook, vestindo uma camiseta e shorts folgados, um rabo de cabelo nada convencional, dado aos fios fora do lugar, e ainda assim adorável. A aparência completamente diferente da mulher que jantara comigo na noite passada e que ficara tanto tempo montada no meu colo.
— Naiá. — sussurrou ela, sem se virar, ainda concentrada no documento que digitava no word. — Nai... — Dessa vez ela virou, o rosto completamente limpo de maquiagem, delicado.
Em meio a sua surpresa e a um sorriso, que o meu ego costumava dizer que ela dava só para mim — Camille pulou no meu colo, as pernas descobertas prenderam-se ao redor da minha cintura, se não fosse a parede atrás de nós, provávelmente estaríamos no chão, os braços envolveram o meu pescoço e uma série de beijos estalados foram depositados pelo meu rosto e pescoço. Esse não saber o que esperar dela, era uma das coisas que eu mais gostava entre nós dois, de alguma forma ela sempre conseguia me surpreender, me prender, me atiçar e isso era natural.
— Você não estava na delegacia?
Equilibrei-me com ela pendurada em mim e sentei na cama e antes que eu pudesse responder, a boca dela já estava procurando a minha, as mãos finas subindo sob a minha blusa. Afastei-me, quando nossas respirações já estavam alteradas, aceleradas.
— Eu vou precisar viajar.
Isso chamou sua atenção, ela se afastou alguns centímetros para me olhar, claramente surpresa.
— Para onde você vai? — Quis saber.
— Brasília.
— Porque?
Os olhos me estudando, ela era problemática e ciumenta as vezes, sempre desconfiada, sempre esperando por ser passada para trás, ela não dizia com todas as letras, mas era a impressão que passava.
— Estevan... morreu, ele é importante. — Toquei de leve o seu queixo, vendo a expressão dela mudar, provavelmente lembrando do homem com quem havia conversado outro dia..
— Quando você vai?
— Hoje a noite. — Beijei levemente seu pescoço, tentando não chateá-la, afinal seu aniversário seria dali a dois dias, se tudo não fosse resolvido com facilidade, talvez eu ainda não estivesse de volta. A parte mais complicada era dizer que Andrea iria comigo, ela nunca dissera isso, mas o ciúme era bem claro. — Andrea também vai.
Como eu já imaginava, ela saiu do meu colo, torcendo as mãos, um bico quase imperceptível formado na boca um tanto quanto inchada pelos beijos.
— Quando você volta?
— Eu espero que no máximo depois de amanhã. — Estendi a mão para que ela voltasse para perto de mim. — Eu e Andrea éramos o que ele tinha de mais próximos nos últimos anos.
— Eu sinto muito. — Camille me deu um selinho e voltou para o meu colo.
A ideia de levá-la comigo passou pela minha cabeça, mas a incerteza de como eu reagiria me fez desistir, em Brasília muitos dos meus pesadelos eram vivos, lembranças, lugares, histórias, assim que eu estivesse fora do avião — uma realidade da qual eu fugia estaria me esperando, coisas que eu tinha deixado para trás. Talvez fosse o momento de realmente deixar no passado, de resolver o que precisava ser resolvido. A hora de recomeçar, do jeito certo, sem culpa, sem dor, sem ter algo me recriminando sempre que eu me sentia feliz.
— Vou sentir saudades. — Ela disse, os dedos brincando no meu cabelo.
— Eu também. — Entrelacei nossos dedos e beijei de leve sua mão. — O que estava fazendo?
Ela olhou em direção a escrivaninha, e depois de volta para mim.
— Uma defesa, minha chefe me pediu. — Ela estava orgulhosa de si mesma, o tom de voz dizia isso. — Já está feita, só estava formatando, acho que é a pior parte.
Eu ri e olhei o relógio — 15:22.
— Eu vou viajar a noite, a gente pode passar o resto da tarde juntos se você quiser.
Camille envolveu meu pescoço e me deu um beijo suave no queixo.
— Eu quero mostrar uma coisa a você. — sibilou ela, embora estivesse visivelmente indecisa. Claro que isso incitou a minha curiosidade.
— O que é?
Sem responder, ela me puxou pela mão até a porta inacessível do seu quarto, aquela que ela sempre negava quando eu pedia para entrar. Esperou que eu entrasse e então acendeu o led e foi até uma das telas cobertas, perdi o fôlego quando o tecido foi puxado e eu vi meu rosto ali, como se eu estivesse diante de um espelho tal qual era a perfeição indêntica dos traços.
— Faz um tempo que queria mostrar, mas eu não sabia como você reagiria. — Ela tocou a tela com a ponta dos dedos, como às vezes fazia em meu rosto.
— Porque eu reagiria mal? — Cheguei mais perto da tela, ainda surpreso com a riqueza dos detalhes. — É linda...
— É a minha preferida. — Ela sorriu para mim, ficou na ponta do pé e me deu um selinho.
Olhei todas as telas, o cheiro de tinta era forte, porém era um canto agradável para estar. A iluminação da folha de vidro deixava o ambiente claro, e a profusão de cores que cada tela possuía fazia um contraste bonito com o tom branco das paredes. Após olhar cada uma delas, eu sentei e a trouxe para perto de mim.
— Há quanto tempo você pintou? — Ela recostou a cabeça em meu peito, esparramando-se entre minhas pernas.
— Um tempo depois que minha irmã morreu.
Endireitei-me para olhá-la, alarmado.
— Eu só escolhi as cores e pintei. Não entendi o motivo de ser um rosto.
Ela voltou-se para mim, desenhando meus traços.
— Eu fiquei muito amedrontada quando vi você pela primeira vez na fazenda. — Deu um suspiro, perdida em pensamentos. — Você acredita em destino?
A verdade era que nem mesmo eu sabia, ou entendia. Eu podia tê-la reencontrado, através de dados, de investigações, mas por ironia do tal destino, minha irmã a tinha achado primeiro, e ela viera naturalmente parar na minha vida. Se era destino, isso eu ainda não sabia. Nem mesmo tinha certeza se era realmente uma ligação saudável, para mim e para ela, dado aos meus traumas e aos dela. Porque eu sabia que ela os tinha, as tempestades nos olhos bonitos diziam muito sobre eles, a cena que presenciei na noite passada também.
— Não sei, Camille. Ainda não entendo a intesidade disso tudo em tão pouco tempo.