O Federal

Cris Araújo · Capítulo 60 de 63

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O Federal

Capítulo 59

 

Camille

 

Assim que Marcone estacionou o carro na garagem principal

da fazenda, eu notei o veículo estranho. Tínhamos passado quase quinze dias em Amsterdã, fora o lugar que escolhemos passar a lua de mel. Eu me sentia completamente feliz, leve, e satisfeita. Sempre quis fazer essa viagem, era um lugar rico em arte e cheio de artistas que eu admirava.

Uma cidade para todas as idades. Era isso que as pessoas de lá nos diziam.

Desviei os olhos do carro escuro e estranho e me virei para Marcone, percebendo que ele estava tenso, pela forma como a testa estava franzida.

— Qual o problema? — perguntei, soltando-me do cinto de segurança.

— Vamos conversar daqui a pouco. — Como se não quisesse entrar ainda, ele me beijou, fazendo-me lembrar de todas as descobertas que fizemos juntos durante essa viagem.

Todavia, eu sabia que não gostaria do que quer que estivesse esperando por nós lá dentro.

Caminhamos juntos para o interior da casa, e além de Mara, Andrea e dois homens vestidos num terno escuro estavam ali. A primeira coisa que me veio a cabeça foi a curiosidade de quem eles eram.

— Agente Ferris. — o homem mais alto o cumprimentou, e minha reação foi ficar inquieta. O assunto era trabalho, com certeza.

— Está tudo bem, Camille. — Os lábios tocaram minha testa, mas eu sabia que não ficaria bem se ele voltasse para a polícia, não depois de tudo.

Marcone cumprimentou a mãe e Andrea, e depois voltou-se para os dois homens.

— Já está tudo pronto para a operação, só precisamos de você.

Eles não ficaram ali, foram para o escritório e eu pedi que a funcionaria de Mara preparasse uma bandeja de café para que eu levasse. Assim que entrei, ouvi um deles dizer o nome Interpol e operação arriscada, quase deixei a bandeja cair, olhei para Marcone com raiva.

Ele tinha prometido.

 

Marcone

 

Entrei no quarto ainda sem saber o que dizer. Pela forma como saíra do escritório, Camille devia estar furiosa.

— Você vai, não é? — Perguntou ela, o tom ácido, sem me encarar.

Olhava a garoa através da janela.

— Eu preciso ir, amor.

Fechei a porta ao mesmo tempo em que ela me encarou, eu já fazia ideia do que viria a seguir: uma acusação que eu merecia.

— Você prometeu que ia parar. — O queixo tremeu um pouquinho, meu peito angustiou-se com a ideia de deixá-la nesse momento.

Pelas informações que eles trouxeram, a operação seria arriscada, podia levar poucas semanas ou meses, dependendo do cenário que encontraríamos. Os mapas que estavam nos arquivos que Bruna me entregara, ajudaria no resgate de várias garotas traficadas.

— Não vá... — Em menos de um minuto, ela estava diante de mim, abraçando minha cintura, olhando-me com os olhos verdes que eu amava. A intensidade era suplicante, uma lágrima rolou e o pior era que eu também estava com medo.

Medo de talvez não voltar para ela, considerando tudo que tínhamos vivido — o sequestro de Nina, o estado lastimável em que Camille ficou entre a vida e a morte, meu medo, minha loucura, o estado deprimente em que fiquei por medo de perdê-las. Tudo ainda vívido para mim e para ela. Camille tinha visto meu pior lado, e tinha permanecido ao meu lado — ela era boa, preciosa, acho que aquela luz que todos diziam existir no fim do túnel, finalmente consegui alcançar a minha.

— Por mim, não vá... — repetiu atordoada, colou o rosto no meu peito e fechou os olhos.

Eu ia machucá-la outra vez.

— Eu tenho que ir. — Aquela baboseira sobre estar entre a cruz e a espada faziam sentido agora. Tinha uma promessa a cumprir, embora as chances da irmã de Bruna ser encontrada viva fossem pouco animadoras, tinha feito uma promessa e depois de ter quase perdido a minha irmã, eu sabia exatamente o inferno que ela estava enfrentando. Pelo pouco que percebi da moça intrigante e geniosa, ela não ia parar de procurar e acabaria morta no processo. Conhecia esse tipo de determinação. — E depois acaba, vamos para o lugar que você quiser, desaparecemos.

— E se você não voltar? — Afastou-se de mim com raiva, magoada. — Qual sentido terá tudo isso? Eu, você, o que sentimos? Nós casamos há menos de um mês, pelo amor de Deus...

— Eu vou voltar. — Caminhei com cautela até onde Camille estava em pé, rígida, contrariada e a tomei nos braços, ela resistiu, tentando se afastar, mas aos poucos relaxou e me abraçou e volta.

— Você vai precisar voltar para o Rio, é isso? — inquiriu já ficando vermelha, sinal que iria chorar de verdade.

— Não, meu amor. — Dei beijos alternados na cabeça quente. — Alguns países.

Ela se afastou, realmente assustada.

— Quando você vai?

A tensão foi terrível, a decepção dela seria ainda pior.

— Amanhã.

Camille deixou escapar uma respiração entrecortada, e sentou na cama devagar, processando a informação.

— Me deixa sozinha.

— Camille...

— Sai.

Ainda olhei por um tempo para ela, mas fiz o que me pediu. Ela estava com raiva, e eu estava nervoso, então era melhor dar um tempo para esfriar os ânimos.

Desci a escada e encontrei minha irmã na piscina, Nina tinha trancado a faculdade para ficar aqui, isso deixou sua relação com Benjamin complicada. Na noite em que a encontramos, se não fosse ele seríamos pegos de surpresa por outro louco, o homem que estava no carro com Marck e que a mãe de Erick estava esperando. Ela estava presa, acusada de ser cúmplice de homicídio e cárcere privado. O que Erick dissera sobre haver ossos naquele lugar terrível não era mentira, a polícia civil encontrou vários corpos em decomposição, meninas que estavam na lista de desaparecidas, mas que nunca mais voltariam para casa. Ouvi a risada de Nina, fazendo as próprias loucuras dentro da água e me senti extremamente aliviado. Ela estava em casa, ao poucos voltando à sua personalidade e eu era grato por isso.

— Achei que você não iria, que aproveitaria esse tempo fora para pedir exoneração. — Andrea disse.

— Não fosse a promessa que eu fiz a mulher que praticamente nos deu todas as informações para fecharmos o caso, eu não iria. — O meu senso de dever me colocava em maus lençóis, às vezes.

— Camille está chateada? — Sentou-se ao meu lado, observando, como eu, os mergulhos da minha irmã.

— Sim, e com razão. Eu já tinha prometido que iria deixar toda essa merda para trás. — respondi, frustrado.

— Converse com ela, lembre-se que não tem muito tempo. Vamos viajar amanhã.

Sem mais palavras, ela levantou-se e foi para onde Nina estava. Saí dali e fui até a garagem tirar as bagagens da viagem do carro. Deixei as malas diante da porta e dei dois toques antes de entrar. Camille não estava no quarto, ouvi o som do chuveiro e girei a maçaneta da porta. Ela estava sob o chuveiro. Despi-me rapidamente e entrei no boxe, sentindo de imediato o cheiro da pele molhada, lembrando-me que a primeira vez que fizemos amor tinha sido exatamente assim, começara no banho, a diferença é que ela tinha ido atrás de mim, diferente de agora.

Eu não suportava ficar muito tempo brigado com ela. Pousei as mãos em seus ombros, Camille não se moveu, ouvi apenas um suspiro. A pele inteira tornando-se arrepiada.

— Está com medo? — inquiri, beijando a cabeça por trás.

Finalmente, ela me encarou. A raiva não estava mais lá.

— Tenho medo de não estar com você...

Segurei o rosto delicado e a beijei, um mal estar repentino se instalando dentro e fora de mim. A ideia de que talvez o que tínhamos fosse perdido era insuportável para mim. Quantos agentes iam nesse tipo de missão e voltavam dentro de um caixão?

— Isso não vai acontecer... — tranquilizei-a, embora não tivesse um controle absoluto sobre isso.

— Você não tem como saber. — retrucou, não com raiva, apenas decepcionada.

Ela tinha razão. Depois de tudo que acontecera nas últimas semanas, a única certeza que eu tinha era que nada estava sob controle. As coisas mudavam em segundos. Nunca cheguei a temer qualquer uma dessas missões, mas agora era diferente.

Não tinha muito o que dizer, então a beijei. Explorei os lábios voluptuosos, enquanto a água morna cobria os nossos corpos, não que isso trouxesse alguma calma ou refrigério, muito pelo contrário, a tensão permaneceu mesmo quando já estávamos na cama, isso não impediu o desejo, o tesão, tornou tudo um pouco mais intenso. A tensão, o medo, a saudade. Eu não queria deixá-la, nem agora e nem nunca, todavia nunca fui um homem de correr de alguma responsabilidade. Ela entenderia e se eu não voltasse, cheguei a estreitá-la mais por causa da sensação ruim que o pensamento me causava — se eu não voltasse, ela não estaria sozinha.

O relacionamento que ela tinha com minha irmã e minha mãe, me garantia isso.

— Eu te amo. — As palavras deixaram-na tensa, diferente do que geralmente acontecia, não houve sorrisos e sim lágrimas.

— Eu tenho a impressão de que está se despedindo... — a voz foi sussurrada, quase um gemido.

Uma de suas mãos entraram por entres os fios do meu cabelo e a outra fazia um vai e vem carinhoso pelas minhas costas. Segurei seu rosto, encarando-a, ainda dentro dela, sentindo o seu lugar mais íntimo me sugar inteiro.

— Não, eu quero que se lembre... todos os dias, eu vou lembrar... até estar de volta.