O Federal

Cris Araújo · Capítulo 23 de 63

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O Federal

Capítulo 22

 

Camille

 

— Queria falar comigo? — Joice sentou-se na minha cama e

eu me perguntei se realmente era a coisa certa a fazer.

— Sim, mãe.

Desde o dia em que Enzo esteve aqui, ela tinha me evitado. Discutimos logo após ele ir embora, não sem me avisar que voltaria, não sem me dizer que não tinha acabado.

— Se for algo relacionado ao que houve na outra noite...

— Enzo sempre me bateu, mãe. — soltei, envergonhada.

Houve uma mudança drástica na expressão dela: primeiro surpresa e depois, o que eu já esperava, indiferença.

— Onde você está com a cabeça, Camille? — Ela levantou, agitada.

— Você não acredita, não é? — Foi inevitável as lágrimas não surgirem.

— Eu conheço aquele menino há anos, Enzo sempre foi um exemplo de criança...

— E quanto a mim, mãe... — Eu queria gritar, mas o que saiu dos meus lábios foi apenas um fio de voz dolorido. — Que tipo de criança eu fui?

As minhas palavras fizeram efeito nela, Joice deu um passo para trás atordoada.

— A criança que você não conheceu porque estava ocupada demais... — sussurrei ressentida e magoada.

Joice parou completamente por alguns minutos para me olhar, e então disse algo que me rasgou inteira:

— Eu acho que a morte da sua irmã mexeu muito com a sua cabeça.

Abri a boca algumas vezes, sem conseguir encontrar palavras para o que ela tinha dito.

— Não acredito que está dizendo isso. — Meneei minha cabeça e meus olhos ficaram cheios de lágrimas, até mesmo meu chefe prestou atenção nas crises que eu tive durante a tarde e ela vivendo comigo nunca sequer desconfiou. Ou talvez só não se importasse o suficiente para perceber.

— O médico nos disse que você ficaria confusa por um tempo. — Ela sentou-se, mas eu me levantei furiosa.

— Mãe, você ouviu o que eu disse?

— Sim, eu ouvi. — Fez uma pausa. — Enzo sempre fez o melhor por você, Cami. Como você pode dizer algo desse tipo?

— Porque é a verdade. — disse horrorizada com a cegueira dela.

— Você nem ao menos lembra o que houve a você e a sua irmã...

— Isso não impede que eu me lembre de todo o resto, mãe... Por favor. — Foi quase uma súplica para que ela me ouvisse ao menos uma vez, que me desse crédito, que prestasse atenção em mim.

— Eu quero que você descanse, Camille. — Ela encobriu o rosto com as mãos e me olhou seriamente, perguntei-me o que se passava em sua cabeça, mas ela não disse mais nada, apenas saiu do quarto, deixando-me sozinha.

Encarei a porta por um longo tempo, mas não houve ruído ou qualquer movimentação, mas minha mente gritava, um pensamento atropelava o outro, os sentimentos colidiam, enquanto eu tinha a impressão de que tudo estava murchando a minha volta, o que já não tinha cor parecia ainda menos colorido ou interessante. Caminhei metodicamente até o meu closet e peguei um dos meus biquínis favoritos e uma toalha no banheiro, saí sem que ninguém me visse para a piscina e passei uma boa quantidade de tempo embaixo da água, ali eu não escutava nada, nem a mim mesma. Os meus sentidos permaneciam completamente ligados ao movimento da água envolta ao meu corpo, nada mais importava. Era como se eu estivesse num universo paralelo, longe de tudo e de todos.

Ousei olhar as estrelas através do teto de vidro, lembrei do que minha vó contou quando meu avô morreu. Ela dissera que ele era uma estrela, que seria sempre a estrela maior do céu, perguntei-me se Liz era uma também, se eles estavam juntos em algum lugar designado aos mortos ou se simplesmente tinham deixado de existir.

Chorei sem fazer barulho, as lágrimas misturaram-se à água gelada da piscina, o tempo ficou indeterminado e quando saí dali não fazia ideia de quanto tempo tinha se passado. Não vi ninguém, quando caminhei pelo corredor, parei em frente ao quarto de Liz, ciente de que estava pingando, mas sem realmente me importar.

Pela primeira vez desde que ela morreu, eu girei a maçaneta, demorei a ter coragem de entrar, mas quando o fiz, meu coração parecia estar sufocado pela saudade. Tudo estava ali, menos ela, liguei o interruptor, enquanto o meu próprio lamento enchia o ambiente.

Deitei na cama no lado que geralmente disputávamos quando vínhamos assistir filmes juntas, a sensação era péssima, como se faltasse um pedaço de mim, a parte mais forte. Por quantas vezes ela não me abrira os olhos, quantas vezes não fora ela a enxugar minhas lágrimas. Ela era só uma menina, tinha tanto pela frente.

 

Liz abriu a porta de uma vez e eu me encolhi com a cena, Enzo sobre Nadja, a garota que ele dizia nunca ter chegado perto. Quantas brigas tivemos e em quase todas elas eu tinha apanhado. Um tapa, um soco, um empurrão, e depois a mão carinhosa em meus cabelos, dizendo que era culpa minha, que eu o pressionava demais, que eu o julgava com minhas desconfianças por que eu era a adúltera da relação, e então eu me via dando explicações para erros que não cometia. De vítima passava a ser algoz da história, suplicando de forma deprimente que ele acreditasse em mim, que eu era fiel, que nunca o trairia.Eu estava morrendo aos poucos, sendo sacrificada pela minha própria ignorância, pela esperança que aquele homem mudasse, que voltasse a me amar como antes.

Senti asco. Dele e de mim.

— É essa vida que quer? — Liz objetou para mim, olhando-me com desespero. Minha irmã de apenas dezessete anos, dando-me uma lição de moral, como todas as outras que já havia me dado.

Enquanto eu sempre fui fraca, sabotando a mim mesma, buscando aprovação, carinho e atenção de meus pais e de qualquer ser que respirasse, desdobrando-me para agradar, para dizer sim, quando o que eu realmente queria era romper aquele casulo deprimente de condescendência, ela sempre fora luz, razão, independência, desapego. E eu a amava, era a parte bonita da minha vida.

Fechou a porta, no entrosamento que estavam não nos perceberam ali, mas Heloísa surgiu subindo a escada e encarando-nos, como se as erradas fôssemos nós.

— Eu disse que ele estava dormindo. — ralhou entre dentes.

— Você é ainda pior do que ele. — Liz cuspiu as palavras com desprezo. Heloisa sabia de tudo que eu já havia sofrido nas mãos do filho, mas nunca fizera nada. Dava apenas advertências a mim.

“ Não o aborreça, Camille.”, “ Homens são assim.”, “ Ele não faz por mal, cubra isso com maquiagem.” , “ Ele só está em um dia ruim, as coisas não foram bem na empresa.” ,“ Quando você deixar de viver emburrada, ele vai parar de procurar outras mulheres. ”

Meus olhos encheram de lágrimas, os ruídos que vinham do quarto estavam doendo como tapas certeiros no meu rosto. Antes que me desse conta encarei a aliança no meu dedo, vendo-a como uma espécie de prisão. Uma muito amarga, por sinal. Tirei-a, deixando Heloisa e Liz mudas por um tempo, expectando as minhas reações, aquela coisa parecia estar me queimando, segurei-a entre o polegar e o indicador, encarando-a. Percebendo o dano que estava fazendo a mim mesma, insistindo tanto nisso, desviei o olhar para Heloisa.

— Não é a vida que quero ter. — sussurrei, e estendi o objeto sem valor algum para mim agora. Ela permaneceu estática, então deixei a aliança cair no chão aos seus pés.

— Todas as marcas que Enzo já deixou na minha irmã, ele vai pagar por cada uma delas.

Fui puxada pela mão e me deixei levar, ainda desnorteada com o clarão que se abriu em minha cabeça, as palavras de Liz fazendo sentido, os gemidos daquela garota provocando uma repulsa ainda maior do que jamais senti por ele. Não era amor. Era dependência e uma da pior espécie.

O que eu estava fazendo?

Entrei no carro e dei a ré para sair da garagem assim que minha irmã entrou no banco de trás, dirigi, sentindo a angustia sendo tirada de mim a cada distância imposta entre mim e aquela casa onde eu nunca mais poria meus pés.

 

Abracei a almofada, e enxuguei os olhos com as costas das mãos. Terminar o noivado tinha sido a coisa mais sensata que fiz na minha vida. Levantei e fui até a escrivaninha, o livro que ela mais lia estava lá: O morro dos ventos uivantes. Tinha perdido a conta de quantas vezes ela finalizara e reiniciara a leitura, uma vez perguntei o motivo para ler tantas vezes.

— São personagens intragáveis, eu leio para tentar entender

porque fazem tão mal uns aos outros e a si mesmos. — Liz dissera, e eu senti ainda menos vontade de ler.

Mas havia os mocinhos perfeitos, ela também me falava deles, do amor romântico e de relações saudáveis. Pensei em Marcone, e em todas as ligações que eu tinha recusado, um medo absurdo de que a história se repetisse, de que talvez ele não fosse tão bom como parecia. Afinal, eu precisei de quanto tempo para realmente conhecer Enzo?

Meu coração ficou apertadinho com a ideia de não vê-lo mais, eu gostaria de tê-lo conhecido antes de tudo. Peguei o porta-retratos com a foto dela e voltei a me encolher na cama, deslizei o polegar pela imagem, lembrando de muitas coisas, boas e ruins.

— Eu não sei o que eu faço. — Solucei, olhando a fotografia como se ela pudesse me responder.

Lembrei-me de quantas vezes ela citou a polícia e medidas que o deixasse longe de mim, eu mesma já estudei a lei Maria da Penha, entendia como funcionava, só não sabia se na prática era fácil como estava escrita no papel. Enzo nunca seria preso por nada, a influência e dinheiro que a família Coimbra tinha nunca deixaria que isso acontecesse. Coloquei o porta-retrato de volta ao lugar e olhei ao redor, saí um tempo depois.

Tomei um banho quente assim que cheguei ao meu quarto, sequei os cabelos e fiz uma trança neles, retirei o celular do carregador e olhei as notificações, não havia nenhuma ligação de Marcone, apenas uma mensagem solitária.

 

De: Marcone

Me diga apenas se está tudo bem.

Estou com saudades.

 

Senti uma vontade súbita de ouvir a voz dele, ao menos um pouquinho e meus dedos traidores fizeram a ligação, a expectativa transformou-se em decepção quando ele não atendeu.

Marcone

 

 

Abaixei-me para tirar o coturno e caminhei devagar até o meu quarto, onde eu sabia que Nina estaria dormindo, como em todas as noites em que eu tinha plantão. Dei uma olhada na encrenqueira e tomei um banho demorado, frio e despertador. Deixei a farda separada para mandar para lavanderia e saí do quarto na ponta do pé, indo em direção à cozinha. Eu quase conseguia sentir o gosto do café na boca. Enquanto procurava uma caneca, desbloqueei a tela do celular e vi imediatamente uma ligação de Camille, senti um alívio indescritível.

04:04 da manhã.

Não era uma boa hora para retornar a ligação, enviei uma mensagem boba e fui surpreendido pela resposta imediata.

De: Marcone

Ainda acordada?

 

De: Camille

Sim, não consigo dormir.

 

De: Marcone

O que aconteceu?

 

De: Camille

Estou triste hoje.

 

Senti-me novamente afetado pela tristeza dela.

De: Camille

 

A gente pode tomar um café amanhã?

 

De: Marcone

Claro, na hora e no lugar que você quiser.