O Federal
Capítulo 9
Marcone
Coloquei a xícara de café sobre a pia e fitei, curioso, a cozinha
completamente organizada. Minha irmã acordara mais cedo que o habitual, fizera café, lavara a louça e estava tranquilamente sentada no sofá me esperando para pegar uma carona. Claro que havia algo de extremamente errado com ela, isso significava que provavelmente eu ficaria irritado por algum motivo em breve.
Voltei ao quarto para pegar a carteira e as chaves do carro, ainda era cedo. Se o trânsito ajudasse, eu estaria na delegacia em menos de uma hora. Chequei o distintivo sob a camisa preta, preso numa correntinha, e saí, fechando a porta atrás de mim. Nina levantou-se e me seguiu até a porta.
— Por que está saindo tão cedo? — perguntei, tocando o botão do elevador.
Encarei-a, quando não me respondeu.
— Não quero ficar sozinha, no campus sempre tem alguém para conversar.
Acariciei de leve a sobrancelha espessa, o coração ficando apertado. A rotina mudaria daqui para frente, eu não estaria o tempo todo por perto, fazendo companhia, checando se estava bem, talvez fosse melhor mandá-la de volta para Minas, em Belo Horizonte ela poderia terminar a faculdade e estaria perto da nossa mãe. A última vez que toquei nesse assunto, ela tinha ficado quase uma semana sem falar comigo, gastei uma fortuna em comida para que a encrequeira intragável olhasse na minha cara. Apesar dos seus dezoito anos, para mim ela não passava de uma criança.
— Você bem que podia deixar eu usar seu carro, não é? — Incitou ela, enquanto saíamos do elevador.
— Talvez, quando você melhorar suas técnicas de direção. — Que são péssimas. Completei mentalmente.
Ela deu uma série de bom-dias e olás, enquanto atravessávamos os saguão do prédio. Na portaria, tirou um embrulho da mochila e caminhou até um homem de meia idade, abri a porta do carro e encarei o sujeito, baixo, estatura mediano e rosto quadrado.
— Vamos, Nina. — Chamei-a. — Vamos acabar nos atrasando.
O homem deu um sorriso amistoso para ela e em seguida mordeu o sanduíche que minha irmã lhe entregara. Entrei no carro passando a observar a interação dos dois através do retrovisor. Era uma tagarela, perguntava-me onde encontrava tantos assuntos e como fazia amizade tão rápido, ele mostrou algo no celular e um sorriso radiante surgiu no rosto dela. Liguei o motor, quando Nina acenou e começou a caminhar para o carro.
— Ele faz dois turnos, Marco. — Começou a tagarelar, como de costume, colocando o cinto de segurança.
— De onde você conhece esse sujeito? — perguntei, girando a chave na ignição. Dei partida no carro e a olhei rapidamente, esperando que respondesse.
— Do prédio. — Meneou a cabeça, ligeiramente impaciente. — Ele tem uma filhinha, ela está fazendo um tratamento muito caro, por isso ele faz dois turnos. Aqui e em outro prédio a noite. Ele não tem tempo de comer, por isso sempre levo algum lanche para ele.
— Está sendo gentil com ele. — Sorri para ela e voltei a me concentrar na direção.
Deixei-a dentro do Campus da FMU e segui para a delegacia, parecia que fazia anos e não apenas poucos meses que estava afastado, esse período distante me deu uma prévia de como seria minha vida caso eu mudasse de carreira. Estacionei o carro e fiquei ainda alguns minutos quieto dentro do veículo, pensando no que me esperava lá dentro, talvez apenas a maldita burocracia, a papelada irritante ou algum caso interessante, deixei de lado as divagações e entrei no prédio. Estava tudo como eu me lembrava, alguns agentes para lá e para cá, o cheiro fétido de merda e estresse em damasia, nada que eu já não estivesse habituado e depois de tanto tempo longe, devo dizer, cansado. É, eu estava cansado disso.
— Ferris. — Artur, o perito e um dos caras mais inteligentes do departamento, chamou-me assim que passei pela porta.
— Como vai? — Estendi a mão e ele a apertou de volta.
— Tudo do mesmo jeito, a delegada quer falar com você. — Olhou para os lados e depois para mim, o cara era estranho, estilo nerd espinhento.
— Estava indo para a sala dela. — Acenei rapidamente e continuei caminhando, a quantidade de vezes que meu sobrenome foi mencionado por alguém era incontável, dei atenção a alguns, passei direto por outros, recebi alguns pêsames e tapinhas nas costas por causa da morte do meu pai e entrei na sala dela. — Queria me ver, delegada?
Andrea me lançou um olhar enviesado por sob os óculos de grau ridículos e voltou a analisar o que quer que estivesse em sua mesa.
— Bem-vindo de volta, federal. — sussurrou de modo entediado, colocou duas fotos diante de mim, uma ao lado da outra e descansou o queixo na mão. — Lembra alguma coisa?
As duas cenas eram de um assassinato, embora as vítimas fossem pessoas diferentes. Duas mulheres, jovens, morenas, seminuas e o que provavelmente ela queria me mostrar era a marca entre os seios das duas. Idênticas. Um W de Will, isso tinha me aterrorizado quase um ano atrás, os pelos da minha nuca ficaram arrepiados num átimo.
— Ele fugiu?
— Pensei a mesma coisa, mas curiosamente ele foi morto. — Estendeu outra foto a minha frente. Um caso nunca foi tão terrível para mim do que o desse monstro amarrado e decapitado na imagem diante de mim. — O pai de uma das garotas que ele assassinou conseguiu comprar alguém de dentro do presídio.
Will Tund, esse era o nome do americano que tinha encabeçado por anos a lista de procurados da Interpol, acusado de estupro, assassinato e tortura ele fora rastreado em mais de quatro países, até chegar deixar um rastro no Brasil.
— Ao que parece alguém está seguindo os passos dele. Já são seis garotas desaparecidas, duas com confirmação de morte.... e estupro. A coisa que está por trás disso retomou a contagem. Você lembra?
Assenti, alguns lapsos de memória vindo freneticamente. Havia uma parcela torpe de seres humanos no mundo, uma quantidade inimaginável de abutres civilizados, eu tinha me deparado com muitos ao longo da minha carreira, Will fora um deles. A forma fria, e até mesmo filosófica com que se referia às vítimas despetara em mim um desejo insano de matá-lo com minhas próprias mãos, não suportei ouvi-lo contar o que fez ou por que fez, só um tempo depois consegui ouvir a gravação inteira do depoimento escroto que ele deu. O assassino era um fanático por religião, seitas e afins, depois de pesquisar, ao longos dos anos tudo que a história podia contar sobre o céu e o inferno, sobre a morte e a vida, ele resolveu criar a sua própria lei, segundo ele, sagrada. Para o lunático, todas as jovens que matara estariam esperando por ele no paraíso, um lugar onde elas sempre seriam virgens e ele estaria sempre muito disposto, não haveria tempo ou trabalho, apenas sexo. Isso me intrigou tanto que cheguei a pesquisar tópicos a respeito, na época. Senti-me tão enojado que desisti da ideia e resolvi esquecer que o desgraçado e suas divagações existiam, mas o pior de tudo é que ele tinha seguidores.
Não era o certo, mas eu gostaria de parabenizar quem tinha conseguido fazer o que eu não pude, eu teria feito o mesmo se fosse com minha irmã.
— A polícia civil está com o caso?
— Sim. As famílias estão cobrando resultados, a mídia já está em cima disso, você mais do que ninguém sabe como é. Mas não há nada, pista alguma, absolutamente nada.
— Tem uma teoria? — perguntei, Andrea sempre tinha.
— Sim, estou cansada de lidar com mortes. — reclamou, parecendo ter estado em minha mente de alguma forma.
— Você não é a única.
Ela devolveu as fotos para o envelope pardo e me encarou, dessa vez com um tipo diferente de interesse, ou curiosidade.
— Como as coisas ficaram na fazenda?
— Flávio me passou um contato de confiança para instalar um sistema novo na sede, qualquer ação excusa vai chegar diretamente a mim. É o que estou esperando.
— E a garota?
Claro que esse era o assunto x da questão.
— Deve estar na casa dela a essa hora. — Dei uma resposta vaga.
A verdade era que passei muito tempo dizendo a mim mesmo para não ligar ou mandar qualquer mensagem àquela menina, além de ser jovem demais, a melancolia que carregava não parecia ser seu único problema, e meu instinto já me avisava para ficar longe.
— Sabe exatamente a que estou me referindo. — rebateu direta.
— Não, Andrea. — resolvi dar a explicação que ela queria de uma vez. — Não houve nada, não há nada.
— Hum. — Houve um silêncio longo da parte dela, observei a bagunça espalhada por sua mesa, esperando pelo que ela tinha a dizer. — Ela lembrou de alguma coisa?
— Não, mas há muita culpa nela quando se refere à irmã.
— Não deve ter sido uma perda fácil. — Ela olhou para mim, eu sabia exatamente o tipo de pensamentos que se passavam por sua cabeça, aprendi a entendê-la. Questionamentos silenciosos sobre o meu envolvimento com a garota.
— E quanto aos novatos? — Mudei de assunto, lembrando-me que alguns rostos não eram familiares. O rosto dela assumiu um tom rosado pouco comum, uma pista de que ela já devia ter se metido em algum problema e que provavelmente Caio já estava fora da equação, preferi não perguntar nada a respeito.
— Já faz um mês que estão aqui. Três deles são de Brasília e um de São Paulo. — Ela tirou e recolocou um clipe que prendia uma papelada qualquer, evitando me encarar.
Andrea já era a delegada chefe quando fui transferido para cá, ela tinha passado no concurso muito antes de tudo desmoronar ao meu redor, e como o plano era que eu deixasse a polícia, não me interessei em concorrer ao cargo. Eu sabia o quanto ela tinha lutado para conseguir o respeito, pricipalmente quando se tratava de homens que teriam de seguir suas regras, claro que, apesar do ar atrapalhado que ela tinha, ninguém precisava ajudá-la a exigir respeito, a mulher era difícil de engolir às vezes.
— Interessante. — divaguei.
— Eu pago o almoço hoje. — Disse ela, antes de me dispensar.
*
Entrei no saguão do prédio ao mesmo tempo que o sujeito que tinha falado com minha irmã mais cedo estava saindo, olhei o relógio de pulso, verificando que faltava alguns minutos para as sete, como se minha rotina fosse sempre assim. Uma das coisas que sempre gostei em ser policial era justamente a falta de rotina. Às vezes tínhamos dias tranquilos numa carga horária comum, outras vezes passávamos mais de doze horas na delagacia e ainda ficávamos de sobreaviso, caso algum plantão surgisse. Isso sempre incomodou Samanta, na verdade até hoje eu não conseguia entender como consegui conquistá-la em meio ao caos que era a minha vida, apesar que ela sempre fora extremamente direta. Estevan, o pai da minha noiva, costumava dizer que ela sempre tinha o que queria desde criança, então eu fui um sortudo por ela me querer, ainda que não fizesse ideia do motivo ou do que ela vira em mim.
Entrei no apartamento e imediatamente fui até o quarto da minha irmã, ela estava sentada com o notebook sobre as pernas, dei duas batidas, embora a porta estivesse entreaberta
— O que trouxe para comer? — perguntou ela, mantendo a atenção na sacola que estava em uma das minhas mãos.
— Venha ver. — Afastei-me ciente de que ela me seguiria. Coloquei a sacola sobre o balcão e fui até a pia lavar as mãos, notando a organização impecável do lugar.
O que quer que Nina estivesse aprontando devia estar sendo muito bom para ela, mas traria alguns fios brancos para mim, essa amabilidade não era muito corriqueira.
Peguei dois pratos e os coloquei sobre balcão. Mas resolvi tomar um banho antes de comer. Enquanto caminhava para o quarto, chequei as mensagens no celular. Nada de interessante, meus olhos caíram no contato de Camille, fiquei tentado a dar um oi, mas não fiz. Eu mesmo sequer sabia porquê pensava tanto nela, os seus olhos pareciam me atrair como a luz atraia os vagalumes.
Resolvi mandar uma mensagem para Francine, eu realmente estava sentindo falta dela.
Tomei um banho rápido e voltei a cozinha, Nina estava dando uma mordida no hamburguer enorme.
— Quando você vai me contar o que está aprontando? — Contornei o balcão e enchi um copo com a soda que estava ao lado do prato dela.
— Não estou aprontando nada. — respondeu de boca cheia.
Assenti, apenas e sentei ao seu lado no banco.
— Como você voltou para casa hoje? — Mudei de assunto.
— Táxi. — Fechou a cara e deu outra mordida. — Já tenho idade para dirigir. — reclamou ela pela segunda vez hoje.
— Só não tem coordenação motora o suficiente.
Ouvi o palavrão que ela soltou baixinho, mas fiquei em silêncio. Nina também não voltou a tocar no assunto.
— Quero conversar com você. — disse baixinho, depois de assassinar a comida.
— O que você está aprontando? — inquiri, por que eu sabia que havia algo.
— Não se trata de aprontar. — Os olhos fitaram o prato. Eu a conhecia muito bem, na verdade eu imaginava o que era e já odiava a ideia com todas as minhas forças, mas era melhor que ela me falasse. Eu a conhecia o suficiente para saber que não haveria problema nenhum para que Nina fizesse o que quer que estivesse aprontando escondido. — Eu gosto do Ben.
— Hum, você acha que eu não sei? — retruquei tentado não soar irritado, por que eu estava.
— Não vou pedir permissão a você. — Com o gênio que ela tinha, éramos iguais no temperamento, não esperei que me pedisse nada.
— O que exatamente você quer que eu saiba, Nina?
— Gosto dele, Marco, quero que seja legal...
Cocei a testa, irritado, não com ela, mas porque eu conhecia a fama de Benjamin.
— O que ele disse a você?
— Que você vai matá-lo se ele encostar em mim. — retrucou num tom estridente, uma acusação, é claro.
A ideia não era ruim.
— Amanhã vou falar com ele, quero saber que tipo de intenção ele tem. — O olhar que ela me lançou me faria rir se eu não estivesse tão zangado.
— Você não vai fazer isso! — Soou horrorizada.
— Claro que vou. — Olhei-a de cara fechada. — Conheço aquele pu... eu o conheço há muito mais tempo que você, tenho meus motivos.
Ela me encarou e depois saiu pisando duro. Não me importei, ela nem ao menos sabia o favor que eu estava fazendo ao seu coração. Eu não ia proibi-la de nada, não tinha esse direito, mas eu conhecia o infeliz, sabia o que já tinha feito a várias mulheres, inclusive na delegacia, então seria bom avisá-lo de onde ele estava se metendo.
Recolhi a louça do balcão, por que ela não faria nada disso tão cedo. Era uma menina intragável até o último fio de cabelo. Depois de lavar tudo, voltei ao quarto, havia uma chamada perdida de Francine. Sentei na cama e retornei uma chamada de vídeo. O rosto dela não demorou a aparecer na tela, mais cheio do que a última vez que a vi, também estava corada, em alguns pontos vermelhas.
— Você parece que vai explodir. — Não consegui evitar, era evidente que ela tinha ganhado alguns quilos, o rosto estava mais redondo. Ouvi sua risada por alguns segundos e então ela me encarou com a cara de poucos amigos.
— Você me esqueceu. — queixou-se.
Perguntei-me como as duas podiam ser tão parecidas, eu não ficava mais assustado como antes, tinha uma sensação de alívio. Eu não pude salvar a minha Samanta, mas eu consegui ser útil para tirar Francine de alguns problemas.
— Não esqueci, claro que não. — Sorri fácil para ela. — Como você está?
— Engordando muito. — respondeu, com ar culpado.
— Eu percebi, e o bebê?
— Crescendo, estamos bem. — Fez um afago na própria barriga, sempre achei que mulheres grávidas tivessem um encantamento só delas, uma aura que iluminasse tudo ao redor, agora mesmo parecia que meu quarto estava repleto de brilho, causado por um diamante raro. — Falta pouco para cinco meses.
— É menina ou menino?
— Decidi não saber. — Ela riu outra vez, ainda afagando a barriga. Ouvi o som do mar, calmo, tranquilizador.
— Onde você está?
— Em Angra.
Passamos algum tempo compartilhando os acontecimentos dos últimos meses, e marcamos um almoço quando ela voltasse ao Rio