O Federal

Cris Araújo · Capítulo 9 de 63

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O Federal

Capítulo 8

 

Camille

 

— Está em casa.

Olhei o prédio gigantesco a minha frente, e permaneci sentada olhando para a frente. Fazia quase uma hora que tínhamos chegado ao Rio de Janeiro, Nina pulara para o carro de Ben assim que saímos do aeroporto e Marcone me ofereceu carona, não que eu tivesse alguma outra alternativa: era ele ou pegar um táxi, algo que eu evitava ao máximo, geralmente eu usava o metrô, algo inadmissível para os meus país. Meu carro permanecia parado na garagem há meses, sentia-me mal só de chegar perto dele.

O porteiro estava olhando na minha direção da portaria, não sei se conseguia me ver, levando em consideração as películas que mantinham as janelas do carro escuras.

— Mora aqui há muito tempo? — Marcone perguntou, analisando o prédio.

Depois do nosso passeio em Capitólio não tínhamos mais ficado tanto tempo juntos, sozinhos, ele passara os últimos dias trancado no escritório ou na fábrica com a mãe. Nina me disse que estavam instalando um novo sistema na sede e por isso eles estavam passando muito tempo lá, apenas ontem ele tinha aparecido para ficar conosco na piscina, mas também não tivemos muito contato, Nina parecia chiclete no irmão, eu nunca tinha escutado tantas porras como o escutei dizer, enquanto ralhava com ela por algum motivo. Porra, Nina!, ele dissera incontáveis vezes, mas logo em seguida já estavam rindo outra vez, era parecido com o que eu tinha com minha irmã. Apesar de mais nova que eu, ela sempre fora a razão e eu a emoção. Sempre senti demais, principalmente sentimentos negativos, cultivei muitos deles desde que era pequena.

— E então? — Insistiu ele, esperando uma resposta.

— Não, sempre me mudei muito. Raramente algum lugar era bom o suficiente para meus pais. — Contei, sem orgulho nenhum. Sempre tive vontade de morar numa casa de verdade que tivesse quintal e tudo, mas sempre pulamos de edifício em edifício, acho que por isso eu tinha gostado tanto da fazendo, parecia um lar de verdade e ver o relacionamento de Mara com os filhos despertou certa inveja, eu não tinha um calor familiar, ou elo, não sei ao certo como dizer. O que tinha fora quebrado quando minha irmã morreu.

Marcone ficou um tempo olhando para mim, depois pegou o iphone do porta-luvas, mexeu em algo e entregou-o a mim.

— Coloque seu número. — Ele pediu, tranquilamente. — Caso minha irmã suma tenho para quem ligar.

Parei de digitar e o encarei boquiaberta, ele estava se divertindo as minhas custas, é claro.

— Sempre diz isso para pedir o número das amigas de Nina? — retruquei sem me conter, enciumada talvez.

— Não conheço nenhuma outra além de você. — respondeu, e me encarou de modo intenso. — Entre, está tarde. — Curvou-se e beijou de leve minha testa, o cheiro dele era bom, masculino, forte. Ouvi-o abrir a porta e descerrei os olhos, sentindo um quentinho por dentro, e logo depois frio, quando ele se afastou.

Ele saiu do carro e tirou a minha bagagem, poucas coisas do porta-malas. Caminhou comigo até que eu estivesse dentro do prédio. Fiquei sem graça, sem saber como me despedir dele. Tomando a iniciativa, Marcone beijou novamente minha testa e acenou, enquanto a porta se fechava. Fiquei subitamente saudosa por algo que não soube identificar de verdade. Não demorou muito para que eu estivesse na cobertura, do hall, escutei a voz da minha mãe. Pensei em mil formas de chegar ao meu quarto sem que ela me visse, mas seria inevitável. Ouvi a risada do meu pai, dando-me conta de que provavelmente não estavam sozinhos.

— Camille. — Minha mãe chamou assim que saí de trás da parede do hall.

Heloisa Coimbra e Eduardo Coimbra estavam sentados com eles no sofá, os pais do meu ex-noivo. Respirei fundo e dei alguns passos até eles, os quatro se levantaram.

— Boa noite — sorri brevemente para o casal e para meus pais.

— Sua mãe estava me contando sobre sua ida a Minas, estou feliz que esteja voltando a rotina normal. — Heloísa sussurrou com um sorriso, mencionando minha apatia e meu desequilíbrio nos dias seguintes a morte da minha irmã. Na verdade o quadro apenas tinha se agravado, a apatia já era inerente a mim há bastante tempo.

— Sim, Cami conheceu um doce de menina na faculdade, isso está ajudando muito. — Minha mãe envolveu meus ombros. Às vezes, eu sentia raiva da forma que Joice sempre tentava ser perfeita na frente dos amigos.

Claro que ela não era, estava longe de ser.

Joice Alencar era da minha altura, alta e magra, eu me via muito nela fisicamente. Os cabelos, os olhos, alguns traços eram muito parecidos, mas nossa personalidade não podia ser mais diferente. Minha mãe tinha completado quarenta e sete anos alguns dias antes da morte de Liz. A festa de comemoração fora enorme, aqueles eventos em que meu pai conseguia fechar vários contratos, não era nada familiar, era só uma forma de aumentar o ciclo de amizades lucrativas.

— Como foi a viagem? — papai perguntou, deixando o copo com um líquido âmbar sobre a mesinha de centro.

— Foi boa, depois eu conto tudo. — Fiz uma expressão de desculpas. — Estou cansada.

— Claro, filha.

Saí, mas não deixei de notar o olhar perscrutador de Heloisa, era sempre assim quando nos encontrávamos, ela me mandava esse tipo de olhar, avaliando, questionando, inquirindo, esperando algo que eu não fazia ideia do que era. O fim do meu relacionamento com Enzo não tinha sido bem aceito nem por meus pais e nem pela mãe dele, Eduardo mais parecia uma marionete nas mãos da mulher, nunca vi um homem mais mole.

Andei pelo corredor longo até meu quarto, abri a porta rapidamente e entrei. Revirei imediatamente a bolsa e tirei o celular, um friozinho na barriga de expectativa.

Uma nova mensagem

De Nina.

Dei um suspiro e me sentei na cama, meio decepcionada. Revirei os olhos, sentindo-me ridícula.

 

De: Nina

Desculpe não ter me despedido direito, mas eu aproveitei para ficar

um pouco com Ben. Você chegou bem?

 

Coloquei o celular sobre o criado-mudo e caminhei para o banheiro, deixando para responder depois do banho, aproveitei para lavar e secar os cabelos. Enrolei-me na toalha e saí, voltei para o quarto em busca da minha bagagem, embora minha atenção estivesse no celular, em talvez escutar o som de uma mensagem chegando. Coloquei as roupas sujas no balde costumeiro e arrumei as demais coisas conforme ia tirando de dentro da mala, no fim guardei-a na parte superior do closet.

Sentei na cama, começando a pentear as mechas dos meus cabelos, fiz a costumeira trança que usava para dormir e puxei o aparelho a fim de responder à mensagem de Nina.

 

De: Camille

Tudo bem. Seu irmão me trouxe.

 

Trocamos algumas mensagens e nos despedimos, caminhei até a porta que apenas eu tinha acesso na casa e entrei, o mundo de repente deixando de existir. Acendi o led, já sentindo o cheiro das tintas, das telas. As cores tornando o mundo lá fora insignificante diante das possibilidades ilimitadas que eu tinha a minha frente. Caminhei até o quadro que tinha se tornado meu favorito, pensando em como podia ser possível.

A cor, o contorno, os traços. Exatamente iguais. Devia haver um motivo, um porquê.

Olhei o ateliê ao redor, observando todas as telas, algumas delas estavam viradas para a parede, outras penduradas, e algumas ainda inacabadas. Voltei meus olhos para a minha preferida, meus dedos tocaram involuntariamente o pingente da correntinha no meu pescoço.

" Seus olhos estão dessa cor agora. "

Fechei os olhos e quase pude sentir a fragrância masculina, estava impregnada em meus sentidos, o cheiro dele. Olhei novamente para a tela, perguntando-me como era possível.

— Camille?

A voz da minha mãe me arrancou de dentro dos meus desvaneios, desviei o olhar da tela contrariada e fui encontrá-la.

Joice estava sentada na minha cama, as mãos pousadas sobre o colo numa postura ereta, elegante. Durante minha adolescência aquilo me fascinava, mas conforme fui ficando adulta tudo mudou, inclusive minha admiração por ela e por meu pai. Eles pareciam pedras de gelo, status e dinheiro acima da família. A minha repugnância apenas aumentou quando eles não derramaram uma lágrima sequer no enterro da minha irmã. Eu preferiria que eles tivessem gritado comigo, que tivessem me culpado — afinal eu era a culpada. Mas não houve nada disso, apenas um enterro, enquanto os amigos deles nos prestavam condolências forçadas. Eu senti vontade de dirigir sem rumo, para longe de tudo e sobretudo deles, mas estava numa cadeira de rodas e só o pensamento de girar a chave na ignição trazia clarões incomuns a minha mente já turbulenta. Imagine o meu desespero ao despertar e não lembrar nada, apenas receber a notícia de que a única luz da minha vida se fora em um acidente que eu provocara.

— Cami? — Havia afeto na voz dela.

— Mãe. — Sentei-me ao seu lado.

Tomei a iniciativa e a abracei, não éramos amigas. Nunca fomos. Eu tinha mais intimidade com Naiá, a babá que sempre cuidou de mim e que mostrara tanta dor quanto eu no enterro de Liz, do que com Joice. A forma espontânea que Marcone e Nina faziam carinho na mãe tinha me encantado, eu queria aquela sensação de lar na minha casa, mas não havia. Não podia negar que eles estavam tentando.

— É bom ter você aqui. — sussurrou ela, afagando de forma afetuosa o meu cabelo. Eu gostei. Ela estava tentando se aproximar.

— Também acho, mãe. — Sussurrei com sinceridade.

— Você comeu? Está com fome? — A voz dela soava estranha com aquelas perguntas.

Provavelmente porque nunca foram habituais.

— Fast-food no aeroporto. — Dei um sorriso.

Conversamos sobre a viagem, ela queria saber sobre os lugares que visitei e sobre a família de Nina, contei tudo, sentindo-me bem em compartilhar algo com ela.

— Heloisa contou que Enzo está voltando para o Rio.

Afastei-me como se tivesse levado um choque.

Enzo Coimbra era meu ex-noivo e uma das péssimas escolhas que fiz para agradar meus pais, nosso relacionamento acabara de forma pouco amigável, ele não aceitara e saíra da cidade, palavras da mãe dele, para lidar melhor com a situação. Eu não me importava, não depois de tudo que tinha me feito passar.

— Seria bom que ao menos tivessem uma conversa. Nossa família mantém essa amizade há muito tempo.

— Não vai haver conversa alguma, mãe. — disparei, enojada.

— Não é possível que você esteja tão irredutível assim, Camille. Foram anos de namoro.

Anos perdidos.

Senti vontade de dizer, mas me contive. Ela não entenderia. Na verdade, ela não entendia nada que não estivesse dentro dos próprios interesses.

— Nunca vou sequer chegar perto daquele homem outra vez.

— Daquele... homem? — Inquiriu, horrorizada.

— Eu estou cansada. — Encerrei a conversa e fui até a porta, escancarei-a para Joice saísse.

Ela me olhou, frustrada.

— Liz sempre foi... contra esse seu namoro. — Começou e eu já estava desesperada para que ela se calasse. — Imagino que...

— Você não imagina nada, mãe. Nada que passe pela sua cabeça chega nem perto dos meus porquês. — Soltei sem pensar. — Agora saia, eu quero descansar.

— Heloisa está planejando uma festa de boas-vindas e nós vamos. — Ela frisou a palavra nós, dando a entender que já tinha decidido por mim. Talvez alguns meses atrás fosse exatamente o que iria acontecer, eu iria com eles, mas não agora, então não fiz questão de responder apenas fechei a porta quando ela saiu.

Perdi a vontade de pintar, então não voltei ao ateliê. Deitei sobre a cama e peguei o celular, esperando que uma mensagem específica se materializasse ali. Todavia não aconteceu e eu acabei pegando no sono.

 

*

 

Rotinas matinais.

Olhei o relógio sobre o criado-mudo, faltava um minuto para as seis da manhã. Cobri a cabeça deixando escapar um gemido de desânimo — eu odiava acordar cedo — todavia, estava seguindo, tentando seguir algumas regras que eu mesma criara.

Nunca gostei de rotina.

O som do despertador me dizendo que eram seis em ponto aumentou um pouco mais a minha irritação, odiei mais ainda quando me dei conta de que teria de levantar para desligá-lo, afinal, tive a brilhante ideia de deixar o aparelho numa posição — estratégica — para que eu não o alcançasse da cama. O barulho foi ficando mais alto e eu afastei com raiva o edredom, praticamente usei a violência para desligá-lo, passei direto para o banheiro e me olhei no espelho grande. A trança que fiz estava parcialmente desfeita, terminei de soltá-la e espalmei as mãos no granito nude da pia, lembrando-me dos meus compromissos. Orientação daqui a algumas horas, almoço com Aline. Resolvi tomar logo um banho e pesquisar algumas empresas de advocacia. Eu queria trabalhar. Isso preencheria um pouco do meu tempo ocioso, além das aulas de pintura que eu dava no projeto Arte Vida, eu pintava, e trabalhava no meu tcc, algo que estava me deixando de cabelo em pé. Primeiro escolher um tema tinha sido difícil, embora o direito abrangesse várias áreas isso tornara a minha escolha ainda mais difícil.

Enrolei os cabelos para não molhá-los e entrei no boxe. O banho foi demorado, acabei despertando realmente embaixo da água, vesti-me e saí logo em seguida do quarto. Naiá estava na cozinha, ela era uma criatura estranha, na verdade todas as pessoas que saiam da cama antes das seis da manhã eram absurdamente estranhas para mim, e ela parecia não dormir. Se eu quisesse conversar às três da manhã ela me ouvia, se eu quisesse um suco ou uma fatia da minha torta preferida, ela estava lá. Às vezes me perguntava se ela era realmente humana.

— Minha menina. — Os olhos negros rodeados por rugas brilharam com lágrimas quando me viram parar perto do balcão.

Abracei-a forte, sentindo-me bem, era um abraço familiar, que eu conhecia.

— Quando você chegou? — Ela afastou-se para me olhar, deu um ligeiro aperto na minha bochecha, como se eu fosse ainda uma criança.

— Ontem a noite. — Sorri para ela. — Eu estava cansada, imaginei que estivesse dormindo, não quis acordar você.

Sentei no banco alto diante do balcão e esperei pelo habitual suco de laranja que eu costumava tomar pela manhã.

— Você gostou? — Inquiriu ela.

— Mais do que imaginei. — Toquei o pingente verde ainda no meu pescoço e olhei para ela. — O homem que pintei, ele estava lá.