O Federal
Capítulo 51
Marcone
— Eu vou te levar para um hotel, não pode ficar aqui. — Era
arriscado demais, o medo de que algo acontecesse com minha irmã estava me deixando irracional de tal forma que a dificuldade para pensar era grande demais. Uma das coisas que sempre ouvi dos agentes da policia federal era que eu tinha uma inteligência acima da média, que a minha capacidade e o caminho que eu fazia para chegar ao resultado de 2 + 2 era completamente diferente da lógica deles, mas agora nada disso parecia ter relevância, não conseguia pensar em nada, que dirá fazer essa soma. A preocupação de que algo pudesse acontecer a Camille também tornava o sentimento ainda pior, e isso tudo se mesclava a raiva que eu estava sentindo de mim mesmo e do infeliz que estava por trás disso.
— Mas e você? — perguntou assustada, agarrando-se a mim com um desespero igual ou maior do que o que eu estava sentindo, eu só não tinha tempo para explicar demais, para fazer-lhe entender que quem estava com minha irmã podia ir atrás dela também, se fosse uma tentativa de me atingir e provavelmente era.
— Eu vou ficar bem, mas eu preciso manter você em segurança.
— Eu posso ficar no apartamento de Aline. — Não gostei da ideia, todavia depois de entrarem aqui do jeito que tinham feito hoje, eu duvidava que algum lugar fosse realmente seguro.
Ouvi dois toques na porta e vi Andrea.
— Ben está aqui. — A frase foi dita com cautela, porque se havia alguém que eu estava com raiva era ele. — Não faça nada com ele. — Reconhecendo o meu gênio, ela avisou logo. — Ele trouxe Nina para cá porque ela queria esperar por você aqui.
— E porque ele a deixou sozinha?
Transtornado como estava, eu não confiava em ninguém.
— Ele já está se culpando, não faça isso você também. — Fez uma pausa.
Optei por escutá-la, Andrea era a única pessoa que eu realmente confiava dentro da polícia, tínhamos o mesmo tato, pensávamos do mesmo jeito, tínhamos o mesmo gênio e se houvesse mentira no que quer que ele tivesse dito, ela teria percebido.
Não alonguei minha conversa com Ben, ele realmente não estava melhor do que eu, mas não tinha nada que me fizesse ter uma direção que me levasse a algum lugar, segundo ele não havia nada diferente quando chegou ao prédio com Nina. Mas, havia sim, ele só não tinha notado. Eles já estavam observando desde quando ela entrou, sabiam que Nina estava sozinha.
Enquanto dirigia até o antigo prédio de Camille, percebi a agitação dela, as pernas e as mãos não ficavam paradas hora nenhuma, senti-me mal por ser responsável por isso, cobri seu joelho com minha mão e imediatamente ela reagiu ao toque.
— Não fique preocupada, não vai acontecer nada com você. — prometi.
— E se acontecer com você ou com Nina? — O tom foi alto tamanho o nervosismo dela. — E se for uma armadilha para machucarem você?
Eu contava que fosse exatamente isso, porque o alvo seria eu e a chance da minha irmã estar viva era maior. Mas eu não diria isso a Camille, não estava suportando vê-la chorar por minha causa.
— Não chore. — encostei o carro no acostamento, vendo Andrea nos ultrapassar e a puxei para meus braços, numa tentativa de que os soluços diminuíssem, todavia eles ficaram piores. E Camille disse coisas que não compreendi, mas que doeram mesmo assim, era como se todo o controle que achei que tinha tivesse escorrido pelos meus dedos e se transformado num inferno real e irrefutável.
Coloquei o carro novamente em movimento, sem ter outra escolha, enquanto ainda a ouvia chorar. Andrea já estava no prédio, quando chegamos. Camille se manteve abraçada a mim dentro do elevador como se não quisesse me deixar a ir a lugar algum.
— Você avisou que viríamos? — perguntei, demonstrando uma calma que não existia dentro de mim. Ela assentiu em silêncio.
A pior parte foi quando tive que deixá-la sozinha. Andrea passaria a noite ali, não tinha como confiá-la a outra pessoa.
*
De volta ao meu apartamento, eu deixei minha chave sobre o aparador e uma coisa mínima me chamou atenção. A chave extra não estava lá, apenas o cartão de crédito. Camille não a usava, porque para onde quer que fosse ela ia comigo e voltava comigo, fiz uma retrospectiva dos últimos dias, de todas as pessoas que tinham entrado aqui.
Joice. Benjamin.
— Desgraçado!
O porteiro também tinha aparecido aqui, suando como um porco.
Assim que terminamos, a campainha soou e eu fui atender. Era o
homem que Nina costumava dar os sanduíches, mas ele nunca vinha aqui, com exceção de quando trazia alguma correspondência, mas não havia nada em suas mãos. Deduzi que o sujeito devia estar querendo o café da manhã de todo dia, notei que ele estava nervoso, como se não esperasse que fosse eu a abrir a porta.
— Quer falar com Nina? — perguntei, estudando o homem um pouco mais. Ele assentiu com a cabeça e eu fiz um gesto para que entrasse.
Deixei-o na sala e voltei para o meu quarto, onde Camille penteava os cabelos já pronta para ir.
— Desgraçado. — Fui até a mesa onde Andrea tinha colocado a relação com o nome de todos os funcionários do prédio, a ficha completa deles, nome, endereço, telefone. Tentei o telefone do infeliz, mas sequer chamou, caiu diretamente na caixa. Gravei o endereço dele no Gps do celular e saí do apartamento, desesperado para que eu o encontrasse. Porque não tinha sido coincidência, se alguém tinha pegado aquela chave, esse alguém era ele. Afonso, o nome do desgraçado.
O endereço era em um bairro de periferia do Rio de Janeiro, embora não fosse o pior que houvesse nessa cidade. Pelo fato do carro ser escuro, eu desci antes de entrar no bairro. Dependendo do tipo de vizinhança que tivesse ali, ele poderia ser metralhado apenas por isso.
Não foi difícil achar a casa dele, era extremamente acabada e num pedaço da rua totalmente mal iluminado, bati na porta mais de uma vez, não havia uma alma viva na rua, sinal que o lugar era perigoso mesmo. Rodeei os fundo da casa, dando-me conta de que estava realmente vazia. A cortina da janela lateral da casa ao lado, foi aberta e fechada rapidamente. Fui até a frente da residência e bati na porta, ela foi semiaberta como a janela.
— Não precisa abrir — avisei sem paciência. — Só me responda se conhece o homem que mora nessa casa.
— Essa casa foi abandonada faz quase um ano — respondeu baixo, a curiosidade sendo maior que o medo, a porta abriu mais um pouco, de forma que pude ver o interior da casa. Péssimas condições.
— E para onde o dono foi?
— Não sei, moço. Ele tentou vender, mas o bairro é ruim, difícil achar comprador.
Cerrei os punhos, irritado. Nada tinha sido levado do apartamento, apenas ela, o que realmente era precioso para mim, um ódio irracional correu furioso pelas minhas veias. Quando eu colocasse as mãos nele.
Enquanto colocava o carro novamente em movimento, tentei repassar o que Nina já me contara sobre o sujeito. Quase nada. Ele tinha uma filha doente, se dividia em mais de um trabalho para tentar pagar o tratamento. Não fazia sentido nenhum. Nada de valor tinha sido levado, até mesmo o cartão de crédito permanecia lá, o objetivo dele era a chave. O fato das câmeras terem sido desligadas fazia sentido agora. Apertei com mais força o volante, odiando o pressentimento ruim que começava a me sufocar. Lembrei-me do sonho, um sinal de que alguma merda ia acontecer. Soquei o volante, furioso, fazendo a buzina soar loucamente e pisei no acelerador, para voltar ao prédio.
Camille
A noite parecia não passar, a todo momento eu ficava presa ao celular, esperando que ele ligasse para me dar uma notícia sequer, mas não aconteceu. Marcone não ligou nem para mim e nem para Andrea, e eu me perguntava como ela podia estar tão tranquila sabendo que ele estava correndo perigo, que Nina estava correndo perigo. Às vezes, a loira me assustava, a frieza com que lidava com algumas coisas parecia pouco natural.
— Ele sabe se cuidar, Camille. — disse ela, quando andei pela milésima vez pela sala do apartamento, ao invés de ir realmente para a casa de Aline, eu usei a chave do apartamento que tinha pedido quando planejei fugir. — Ele quer que fique tranquila.
— Eu não estou tranquila, não vou ficar tranquila. — Quase gritei exasperada.
Ela deu um suspiro, e percebi muito rapidamente que também estava preocupada. Mas Andrea era boa em não demonstrar as coisas. Toda essa história só me fazia lembrar de Enzo e do que Heloísa disse sobre ele machucar as pessoas que eu gostava. Estremecia apenas com a possibilidade dele fazer com ela metade das coisas que já fizera comigo, amedrontava-me pensar que podia ser ele a estar com ela.
— Quem você acha que é? — inquiri, querendo que ela tivesse ao menos uma pista.
— É o que Marcone está tentando descobrir agora.
— E por que você não vai ajudá-lo? Ele está sozinho!
Andrea me lançou um olhar que não entendi e suspirou novamente.
— Marcone sabe se cuidar.
O celular dela tocou e ela se afastou para atender, a conversa foi rápida e baixa de modo que não consegui escutar e nem acompanhar.
*
Não lembro bem, mas eu devia ter dormido por algumas horas, porque quando acordei já estava claro. Andrea estava sentada, parecia estar apenas esperando que eu acordasse.
— O que aconteceu? — perguntei, antes de qualquer coisa, sentando-me.
— Não aconteceu nada, Camille. Você só dormiu. — Ela fez uma pausa e digitou algo no celular. — Dois agentes vão vir para cá. — Abri a boca para retrucar, mas ela fez um gesto. — Vão ficar lá fora — completou. — A delegacia está um inferno, e há pendências que só eu posso resolver.
— E ele?
— Não tenho notícias ainda.
Os dois agentes subiram apenas para que eu os visse, não usavam fardas e nem havia qualquer indício de que fossem policiais, e para piorar a situação Joice entrou no apartamento um tempo após eles saírem.
— Soraia me disse que estava aqui. — Limpou as mãos no vestido, sem qualquer efeito, mas parecendo muito envergonhada. — Você poderia ter ido para casa, Camille.
Casa.
Soava até estranho saindo da boca dela, todavia eu estava muito cansada para discutir. Só queria que ela fosse embora.
— Vá embora, mãe. — Sentei no sofá exasperada e cobri o rosto com as mãos.
— Não sou sua inimiga, filha.
Olhei para ela com raiva, considerando-a doente, e ela percebeu. Porque o rosto tornou-se mais grave, cheio de pesar. Mas, eu já tinha visto essa máscara antes e pouco me importava.
— Eu disse coisas horríveis... — admitiu.
— Não é o momento, mãe. — Minha cabeça não estava funcionando direito, não com tudo que estava acontecendo.
A falta de notícias estava me enlouquecendo, na minha cabeça só surgiam imagens dos dois machucados. Nina e Marcone. Levantei, incapaz de ficar sentada e passei a andar de um lado para o outro, sem saber que direção tomar.
— Aconteceu alguma coisa, não foi? — inquiriu como se tivesse alguma importância para ela.
— Que tipo de negócio vocês têm com Enzo, mãe? A ponto de me envolver?
Pela forma como me olhou, diria a verdade.
— Ele pagou todas as dívidas do seu pai. Cada uma delas.
Eu ri. Uma risada completamente desprovida de humor, foi ácida, irônica.
— Por isso o silêncio esse tempo todo?
— Não foi desse jeito que está pensando.
Sem qualquer paciência, eu fui até a porta e a escancarei para que ela saísse.
— Não interessa a forma que foi, só saia.
Assisti-a sair e caminhei para a janela, onde pude ver o dia nublado. O tempo feio se igualando a como eu sentia por dentro, cheia de emoções ruins e desesperadoras, não senti fome e nada parecido, não sei se fiquei minutos ou horas ali, mas só me afastei quando vi ao longe o carro preto que já conhecia surgir na rua, assim como o sol apareceu. Prendi a respiração e corri para a porta, sem conseguir esperar que ele entrasse. Fiquei em frente ao elevador, esperando que os números mudassem, e quando o vi notei as olheiras, a raiva, o cansaço. Ele não devia ter dormido, quem dormiria nessa situação?
Abracei-o, aliviada por ele estar inteiro. Olhei-o, e Marcone fez um gesto negativo com a cabeça, sinal de que ainda não tinha notícia nenhuma de Nina, a sensação foi terrível, parecida com a que senti quando acordei e descobri que eu não tinha mais uma irmã.
— Quem está fazendo isso? — meneei a cabeça numa negativa, olhando os dedos dele, ainda podia ver pequenas cicatrizas, heranças dos socos que ele dera em Enzo, meu coração gelou com a certeza de era ele.
Era ele. Só podia ser ele.
— Tenho inimigos, Camille. — foi uma resposta simples, mas eu me perguntava se por dentro ele estava calmo, porque embora a voz soasse controlada, os olhos azuis estavam cheios de cólera. — Alguns que nem faço ideia.
E eu tinha trazido mais um, devia ter ido embora quando tive a chance. Teria evitado essa desgraça, se algo acontecesse com ela ou com Marcone, nunca me perdoaria. O problema era meu, não deles.
Ele não merecia nada disso, ela também não.
Meus olhos arderam tão cheios de lágrimas que a imagem de Marcone ficou distorcida, tudo a minha volta ficou.
Eu causei isso.
— Não vai acontecer nada com você. — o tom dele foi firme, todavia pouco me importava o que ia ou não acontecer comigo, eu só conseguia pensar que eu era a causa de todo esse tormento.
Mais uma vez Enzo interferia da pior forma na minha vida, e só havia um jeito de acabar com aquilo. Dar ao desgraçado o que ele queria.
Encostei os lábios nos de Marcone, enquanto todas as lágrimas escorriam por meu rosto.
— Eu não estou indo embora. — garantiu, interpretando mal o que quer que estivesse vendo em mim.
Quem iria embora era eu.