O Federal

Cris Araújo · Capítulo 51 de 63

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O Federal

Capítulo 50

 

Marcone

 

Nunca estive tão ansioso para chegar em casa, como hoje.

Andrea ainda tentou parar num restaurante qualquer do aeroporto para comermos algo, mas não quis e ela estava devorando um fast food, enquanto eu dirigia pelo trânsito insano de tão devagar do Rio de Janeiro. A viagem a Minas tinha sido proveitosa, o infeliz resolvera falar, não sem antes fazer uma série de imposições que não foram aceitas, é claro. Antônio desejava cumprir a pena em regime semiaberto, mas a oferta era apenas para a redução da pena, o que eu já achava muito para ele.

Não era a primeira vez que eu lidava com o tráfico humano, mas fazendo uma observação repetitiva, era desumano.

De maneira prática, ele falou sobre cada nome que estava na lista, disse tudo, como as mulheres chegavam e saiam do país, não fiquei surpreso quando ele citou os Coimbra como os cabeças da organização do Rio de Janeiro, a empresa de turismo deles facilitava a entrada e a saída das garotas no país, além de serem os responsáveis pelos leilões de garotas menores de idade, essas eram as mais valiosas, principalmente se ainda fossem virgens. Antônio era o responsável por falsificar os passaportes, esses voltavam para ele quando as garotas chegavam ao destino: mortas ou vivas. O idiota chegou a debochar em algumas partes e disse nome a nome dos envolvidos, afinal ele já estava na merda. As redes sociais facilitavam a vida dele e o deslumbramento de muitas garotas também.

A maioria que conseguia fugir e tentava denunciar eram mortas, não só elas como os familiares também, e isso amontoava os casos sem solução dentro da polícia, apenas estatísticas que iriam para o jornal na manhã seguinte e que os responsáveis apenas ouviriam e nada em suas vidas mudaria, esse era o retrato fiel da impunidade no Brasil.

Consultei o relógio, quase quatro da tarde, as conexões que fizemos no voo de volta fizeram a viagem demorar mais do que deveria, o que me deixou ainda mais nervoso. Meu celular vibrou e eu conectei o bluetooth para atender, quando vi o nome da minha irmã no visor.

No primeiro momento não houve som algum, apenas o silêncio.

— Nina — chamei.

Houve mais silêncio, contudo eu conseguia ouvir a respiração baixinha, entrecortada.

— Nina — inquiri novamente, um mar de buzinas soando ao mesmo tempo. Toquei o botão para que as janelas subissem, atento a qualquer ruído, senti o desespero aparecer quando ouvir um suspiro, quase um chorinho baixo. Se o trânsito não estivesse parado, com certeza eu teria deixado o carro morrer, ante a ansiedade que me tomou.

Já pressentindo que havia algo errado e tinha, o silêncio pouco comum do outro lado da linha me dava certeza disso.

— Marco... Marco, tem alguém aqui.

Engoli em seco, Andrea parou o hambúrguer a meio caminho da boca, encarando-me.

Olhei o trânsito a minha frente, tentando calcular, o tempo que eu levaria para chegar ao apartamento antes que quem quer que estivesse lá, conseguisse o que queria, o resultado não era animador. Eu não estava nem perto do meu bairro.

— Tem alguém aqui... eu consigo escutá-los. — outro sussurro cheio de medo.

O primeiro pensamento que veio a minha cabeça foi: quem? Quem estava lá?

— Escute com atenção, ok? — Tive que despertar o lado polícial, porque o irmão dela estava morrendo de medo.

Medo por ela. E medo do desconhecido. Afinal, o prédio era extremamente seguro, pessoas estranhas não subiam sem ser anunciadas. A menos que...

— Eles vão te encontrar. — admiti para ela, porque era o que ia acontecer. Não havia a mínima chance de eu chegar antes disse. Se havia alguém com intenção de lhe fazer mal, faria, antes que eu conseguisse chegar em casa. O trânsito não andava, e eu não estava em uma cena de filme em que conseguiria sair correndo e chegar lá a tempo de resolver a situação. Do meu lado, ouvi Andrea em contato com Ben, ao que parecia o filho da puta não estava atendendo. — Não vou chegar a tempo...

— Não, Marco.

— Coloque no viva voz. — Se eu não agisse com frieza agora, ia ser difícil ter detalhes para descobrir quem era.

Nina o fez...

— Ela não está aqui. — Ouvi a voz desconhecida, nada que eu

já tivesse ouvido antes.

— Eu vi quando a cadela entrou. — outra voz, também diferente. Nada que trouxesse qualquer tipo de lembrança ou familiaridade.

— Daqui a alguns minutos eles vão te encontrar — avisei, porque era uma verdade.

— Marco, não... — um som de desespero, que me congelou inteiro. Fiquei sem saber o que pensar ou o que dizer, nunca me deparei com uma situação como essa.

— Eu te amo — ouvi o sussurro, seguido por um soluço baixinho.

Então a ligação caiu, e um inferno se instalou a minha volta. Era como se tudo que tentei evitar fosse acontecer novamente, porque eu não sabia quem eles eram e qual o motivo de estarem lá, fechei os olhos sem conseguir imaginar alguém machucando a minha irmã.

— Nina! — ainda tentei, mesmo sabendo que a ligação fora encerrada brutalmente.

— Isso não está acontecendo. — Andrea retrucou paralisada. — Ben, não atende. — ela disse exasperada. — Erick!, — soou desesperada, com o telefone ainda na orelha. — Onde você está?

Eu não escutei o diálogo, na minha cabeça apenas a imagem de Nina, e a raiva de mim mesmo por todos os detalhezinhos errados que eu deixei acontecer, começando por aceitar que ela morasse comigo, e todos os outros. Deixá-la sozinha agora, meu pensamento voltou para Camille, nesse horário ela ainda estava no estágio. Mas poderia ser as duas ao mesmo tempo.

Assim que o trânsito ganhou movimento novamente, eu dirigi muito mais rápido do que algum dia fiz na minha vida, não conseguia ver nada na minha frente. E quando cheguei ao prédio, ao contrário do imaginei tudo estava tranquilo, como se nada tivesse acontecido, como se minha irmã não tivesse me ligado amedrontada. Andrea foi pelo elevador e eu pela escada, dentro de mim uma pontinha de esperança para que tudo não passasse de uma brincadeira dela, todavia Nina nunca me dera trabalho quando o assunto era sua segurança.

Cheguei ao meu andar antes de Andrea, saquei a arma da cintura, mas para minha surpresa a porta não estava arrombada, tirei a chave do meu bolso com cautela e abri a porta devagar: não havia nada além do silêncio. Fui imediatamente ao quarto dela, tendo certeza de que estaria vazio e estava, no chão uma gota de sangue. Fechei os olhos, sem querer imaginar a origem dele.

— A porta não estava arrombada. — retruquei, quando ouvi os passos de Andrea. — Quem entrou aqui tinha a chave.

Eu esperava que Ben tivesse uma boa explicação.

 

*

— Quem tem acesso a essas câmeras? — perguntei ao gerente geral do prédio, quando notei que todas as filmagens do meu andar e da entrada de serviço estavam desligadas entre o momento que alguém entrou e saiu com Nina.

— Eu, e alguns funcionários da portaria e da recepção.

— Eu quero todos aqui, enquanto eu não souber que porra aconteceu com minha irmã, ninguém entra e ninguém sai daqui.

— Mas... — o homem tentou retrucou, mas desistiu assim que olhou para minha cara.

— Não vai sair ninguém. — reforcei entre dentes.

Dez minutos depois todos os funcionários do prédio estavam na minha frente.

— Falta um. — Lembrei do porteiro que Nina entregava lanches, ele não estava entre os outros. — Falta um. — repeti e encarei o homem engravatado que parecia ficar mais vermelho a cada vez que eu o olhava.

— Todos os funcionários estão aqui.

— Há um porteiro que não está aqui.

O sujeito pensou por um tempo e, então, fez uma expressão de quem se lembrava de algo.

— O único funcionário que não está aqui pediu demissão faz quase uma semana.

Andrea entrou na sala um tanto quanto apertada e fez um gesto negativo com a cabeça para mim, eu queria saber onde o idiota do Ben tinha se enfiado, a minha vontade era torcer seu pescoço até matá-lo.

— Ninguém viu nada. Ninguém sabe de nada — ela avisou assim que me aproximei.

Em meio a sensação de irrealidade, surgiu uma dor de cabeça terrível, como se meu cérebro fosse explodir a qualquer momento.

— Nós vamos encontrá-lá. — Andrea disse baixinho, pousando a mão no meu ombro.

— Quem garante isso, Andrea? — respondi com raiva, eu não devia ter ido com ela. O sonho com Samanta tinha sido um aviso.

Um aviso de que eu viveria um inferno parecido.

— Ela pode já estar morta. — O pensamento me congelou inteiro, mas era verdade.

O fato de entrarem na minha casa e a tirarem de lá, não fazia sentido nenhum para mim. Pensei em todos os casos que estive envolvido nos últimos meses, mas a única coisa que vinha a minha cabeça era o que Camille me disse sobre Enzo, sobre o filho da puta ser louco.

O que eu diria a minha mãe?

— Eu liguei para a DR — ela mudou de assunto. — Camille ainda está lá. Vou pedir que Erick vá buscá-la. Eu pedi que a perícia viesse.

Não faria diferença alguma, eu já tinha olhado tudo e os desgraçados não tinham deixado pista alguma, apenas o sangue da minha irmã.

 

*

 

Camille

 

O policial chamado Erick me conduziu para dentro do prédio, as pessoas que estavam barradas lá fora não ficaram nada felizes. Não consegui entender nada direito, exceto que havia algum problema. E pela cara dos policiais não era nada bom. Assim que cheguei ao andar de Marcone, vi Andrea ao telefone, ela fez um gesto para que eu esperasse e disse ainda algumas palavras antes de guardar o aparelho e cruzar os braços, olhando para mim.

— O que aconteceu? — inquiri, olhando ao redor, a movimentação de policiais e de funcionários do prédio que pareciam assustados e curiosos.

— Alguém levou Nina.

— O que? — Não entendi o sentido da palavra levou naquele momento. — Você quer dizer, sequestro, é isso? — meu tom ficou alto por que eu não conseguia entender realmente.

Andrea meneou a cabeça e coçou a sobrancelha, visivelmente preocupada e cansada.

— Não sabemos, Camille. Alguém a tirou daqui hoje, um tempo atrás. — Fez uma pausa e olhou de relance para a porta aberta. — É bom você ir falar com ele. Ele está precisando de um abraço agora.

Assenti ainda processando a informação, tentando colocar tudo no seu devido lugar. Caminhei devagar para dentro do apartamento, não havia sinal dele na sala, mas estava revirada, como se tudo tivesse a um passo de ter sido destruído. Respirei fundo antes de abrir a porta do quarto dele e só então o vi.

Respirei fundo, porque eu sabia a quantidade de amor que ele tinha pela irmã, Marcone estava sentado com o rosto enterrado nas mãos. Não fosse a respiração forte e acelerada dele, o quarto estaria completamente silencioso, totalmente alheio ao inferno que estava lá fora.

Aproximei-me sem saber o que dizer, nunca tínhamos invertido a posição, sempre fora ele a me acalmar, a pedir calma, a me dar consolo e segurança. Não sabia direito o que dizer ou fazer. Introduzi os dedos pelos cabelos escuros, quando cheguei perto dele e nesse momento Marcone ergueu os olhos, percebendo que eu estava ali.

Já tinha visto vários sentimentos nele: raiva, dor, mas nada se igualava ao que eu via agora, havia culpa numa quantidade inimaginável. O que quer que tivesse acontecido, ele se via como responsável. Sem dizer nada, Marcone envolveu minha cintura com os braços e encostou a testa na minha barriga, visivelmente perturbado.

— Levaram minha irmã, Camille. — o sussurro foi tão doloroso que fechei os olhos. — Ela me ligou e eu não consegui chegar a tempo...

— Você não tinha como saber. — Não sabia se eram as palavras certas, ele respirou pesadamente outra vez e me soltou, deitando de costas na cama com o antebraço sobre os olhos.

Eu sabia que todo ser humano tinha a sua vulnerabilidade, mas parecia errado vê-lo assim, Marcone afastou o braço do rosto e eu vi uma transformação que me fez perder a respiração, era ele, mas não era.

— Eu vou tirar você daqui.

— O que você vai fazer? — perguntei, com medo e com um mau pressentimento horrível.

Ele não respondeu, levantou-se. Vi-o pegar a carteira e a arma, que eu nunca tinha visto, não a dele. Meu coração disparou, sentindo de verdade o que a profissão dele representava. Perigo. Para Marcone. E para quem estava perto também.

— O que você vai fazer?

— Achar minha irmã, Camille. — Com pesar, ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.

Senti um frio insuportável, vendo-o se afastar um pouco de mim, enquanto se transformava em outra pessoa. Odiando o pesar que não abandonava os seus olhos. A culpa que parecia pesada demais.

— Não é culpa sua... — insisti, tocando o seu ombro, para meu alívio ele me abraçou, e eu o senti tenso — Não é...

Não sei quanto tempo ficamos abraçados.

— Eu vou enlouquecer se eu não encontrar a minha irmã, e se algo acontecer com você.

Marcone beijou minha testa, e afastou-se para me olhar. A fraqueza dele eram as pessoas que ele amava, e quem estava com ela sabia disso.