O Federal

Cris Araújo · Capítulo 38 de 63

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O Federal

Capítulo 37

 

Marcone

 

A lua aqui parecia muito maior do que em qualquer lugar do

mundo.

Havia tantas pessoas andando para lá e para cá que era difícil acreditar que ainda estávamos dentro da fazenda. O evento era chamado por meu pai de Festa da Colheita, segundo ele devíamos muitas coisas a terra e a natureza, eu concordava. Até mesmo o ar que respirávamos dependia de todo o verde que nos rodeava.

Curiosa, Camille estava ao meu lado, caminhando e olhando para as pessoas e as barracas em volta, nas mãos um algodão doce que de minuto em minuto ela despedaçava para colocar na boca. Ela estava parecendo uma arizona, usava um vestido branco típico de mulher da capital, porém nos pés as botas davam o ar rústico que tudo aqui denotava e os cabelos estavam soltos, rebeldes por causa do vento e da umidade.

Há quanto tempo eu não via um algodão doce? Provavelmente desde a época em que eu ainda era um moleque.

Quando minha mãe me disse que iria manter a tradição de meu pai, eu me preocupei muito, principalmente com segurança dela e da fazenda. Embora todas as vilas e povoados das redondezas tivessem um respeito profundo pela família, eu não esquecia que Antônio tinha sua crias, havia um monitoramento 24 horas de seguranças em todas as entradas da fazenda era a única forma de eu ficar um pouco tranquilo no Rio de Janeiro.

— É tudo muito colorido. — Cami puxou o meu braço e eu me curvei um pouco para escutá-la.

Ela estava olhando para as mulheres que dançavam num pequeno palco improvisado, elas estavam reproduzindo a dança de São Gonçalo um dos padroeiros de Minas Gerais, e a cena era realmente colorida. Cada uma delas estavam vestidas de azul ou rosa e nas mãos tinham papel de seda da mesma cor do vestido.

— Por que só tem um homem? — Camille perguntou.

— Ele está representando o padroeiro.

Passei o braço por seus ombros e beijei a têmpora fria, continuamos a andar. Os pais dela e minha mãe que vinha atrás já não estavam mais na minha linha de visão, ou tinham parado em alguma das barracas ou tinham ficado para trás. E Nina tinha sumido com alguma das amigas que iria trabalhar nas barracas.

— Marco? — Olhei para o lado de onde vinha o grito e a vi na barraca de tiro ao alvo.

— O que ela faz aqui? — Camille perguntou, enquanto caminhávamos até lá.

— Ela não é um ser humano normal, está em todos os lugares ao mesmo tempo.

Camille ainda estava rindo quando chegamos na barraca laranja e verde. A serelepe estava toda empolgada, usando uma coroa de flores como a outra garota também usava. Ela me passou duas senhas e estendeu a mão com a palma virada para cima, esperando que eu pagasse.

— Escolha o alvo mais difícil, Cami. — Nina instigou, animada.

A outra garota pegou as duas senhas e me passou uma pistola com balas de borracha, era extremamente leve, diferente da minha 9mm.

— Qual você quer? — perguntei, analisando os brindes: chocolates, pelúcias, plantas artificiais.

— Aquele ali. — Ela apontou para o urso maior, e que consequentemente estava na pior posição na prateleira de madeira.

Imediatamente Nina colocou um cesto embaixo do objeto para que não caísse diretamente no chão caso o alvo fosse acertado.

Antes de mirar no alvo, observei o que realmente faria o objeto cair: se era o impacto ou o ponto onde fosse acertado. Cada um dos brindes tinha um dispositivo de plástico que só o faria cair se fosse acionado. Mirei e atirei exatamente no alvo, o urso caiu no cesto e Camille me deu beijo com gosto de algodão doce.

— Sua vez. — Entreguei a arma para ela, e a garota segurou, olhando de mim para o objeto.

— Você mira e atira. — Mostrei onde ela devia apertar.

Camille me deu o algodão doce e apontou a arma de brinquedo para outro ursinho menor, o rosto dela assumiu uma expressão tão concertada que achei engraçada.

O tiro passou longe do alvo, e as bochechas ficaram vermelhas como tomate.

Embora tivesse sido engraçado, eu não ri, é claro.

— Isso foi horrível.

— Não, isso foi normal. — eu sorri para ela e pedi mais uma senha a Nina. — Você não fica atirando por aí.

Coloquei o pacote do doce dela sobre o balcão e coloquei as balas que Nina me deu dentro da arma e passei para Camille.

Fiquei atrás dela e segurei seus ombros para que mudasse de posição, aproveitei e cheirei o pescoço perfumado.

— Eu vou errar outra vez. — sussurrou ela, arrepiada.

— Talvez você erre mesmo. — Admiti e beijei novamente o pescoço alvo. Segurei arma por sobre a mão dela e mirei exatamente onde ela devia acertar. — Aperte. Agora.

Ela apertou e acertou o alvo, soltou tantos gritos que eu dei risada.

— Isso é excitante. — sussurrou ela no meu ouvido.

— Atirar?

— Não, atirar com você falando no meu ouvido.

Era uma safada.

 

*

 

Camille

 

Abri os olhos assim que ouvi o ruído da porta, acendi o abajur

no criado mudo ao lado e vi Marcone, na verdade só a cabeça dele dentro do quarto. Olhei para trás e ouvi a respiração de Nina, baixinha, ela estava dormindo. Eu, todavia, não tinha conseguido pregar o olho desde que chegamos da festa. Marcone tivera que conversar com os homens que faziam a segurança da fazenda e da mãe dele, então não tive escolha a não ser vir para o quarto onde estavam as minhas coisas desde que cheguei.

Afastei as cobertas, a noite aqui era muito fria e nem estava chovendo. Tentei não mexer muito na cama e nem fazer barulho. Só soltei a respiração quando estava fora do quarto, ele tinha trocado de roupa, estava com cheiro de sabonete e café preto.

— Vai me levar para tomar chocolate quente? — perguntei, segurando a mão dele. Relembrando as madrugadas de quando o conheci, parecia fazer séculos, mas não tinha se passado tanto tempo assim..

— Não, vou te levar para meu quarto. — Ele abriu uma porta no final do corredor e esperou que entrasse.

Estava escuro, mas a janela de frente para a noite negra dava uma visão espetacular da lua cheia, era a única iluminação ali. Caminhei até a janela aberta e o vento frio arrepiou-me inteira.

Senti os braços dele ao meu redor e fechei os olhos.

— Você já pensou em morar aqui de novo? — perguntei, encostando a cabeça no peito dele, os dedos correram pela trança que eu havia feito no cabelo.

— Acho que será inevitável em algum momento.

Não havia contrariedade na voz dele.

— Você viria comigo? — perguntou, após um momento.

— Se você me pedisse em casamento... — brinquei, sem dar a resposta que ele queria.

— Então você quer um anel? — Aos poucos os dedos foram desfazendo a trança e cobrindo minha pele de arrepios.

— Não, eu quero você. — sussurrei a verdade.

Era verdade. Quanto mais eu ficava com ele, mas queria isso. Gostava das cores que o mundo que ele me mostrava tinha.

O afago em meus cabelos parou e Marcone me virou para ele, antes que ele me beijasse, introduzi os dedos pelos seus cabelos, estavam do jeito que eu gostava, totalmente desfeitos, faziam-no parecer mais jovem.

— Isso você já tem. — Ao contrário do que imaginei ele não beijou minha boca imediatamente, os lábios dele tocaram o meu dedo anelar, aquele que receberia uma aliança caso algum dia casássemos.

E eu quis isso. Imaginei como seria vê-lo no altar esperando por mim. Ter seu nome.

Ele encostou a testa na minha e os dedos afagaram a minha bochecha com delicadeza.

— Princesa.

Entreabri instintivamente minha boca para receber a dele, deixando-me ser beijada, ficamos muito tempo abraçados.

— Trouxe chocolate quente. — Ele sussurrou quando se afastou e me puxou para a cama. — Mas deve estar frio.

Achei graça e sentei, peguei a caneca que ele me estendeu e dei um gole. Até mesmo o chocolate tinha o gosto melhor aqui.

— Eu estava com muita saudade. — confidenciei, sentando de um jeito mais confortável na cama .

Marcone riu e acendeu o abajur na mesinha ao lado, colocou a caneca dele ali e tirou a blusa.

Eu me sentia muito tarada por ele, se tinha uma coisa que realmente apreciava era vê-lo nu. Todos os músculos definidos, todo o vigor masculino, combinado com a cara de homem que ele tinha. Era muita tara.

Ele fez um sinal para que eu fosse para perto e eu bebi um gole grande do chocolate e coloquei a caneca no chão, fui para seu colo, e passei o dedo do peito até a cicatriz que ele tinha na costela.

— Isso doeu muito? — perguntei, mantendo a palma ali, ele estava deixando beijos por todo o meu pescoço.

— Na hora eu não senti, só depois. — Olhou a minha mão ali. — Você gosta dela?

— Não gosto da ideia de alguém te machucando.

O que eu disse o fez sorrir e me beijar de leve na boca.

— Isso faz tempo, amor.

Quem sorriu fui eu dessa vez, gostava quando ele me chamava assim.

— É fácil ganhar uma briga?

Agora eu estava falando de mim e não dele.

— Depende de quem é o seu adversário. — A mão dele fez a alça da minha camiseta escorregar pelos meus ombros e meus seios ficaram expostos ao vento que entrava pela janela aberta e à boca dele.

— Se ele fosse um homem.

Marcone estreitou os olhos para mim, mas as mãos não deixaram de beliscar meus mamilos.

— Você não tem músculos, teria que bater primeiro e com muita força. Forte o bastante para que ele desmaiasse e você conseguisse fugir. — Ele puxou minha cintura de modo que grudamos um pouco mais, meus seios tocaram a musculatura rígida do seu peito, e fechei os olhos, apreciando o contato, quase esquecendo por completo das perguntas que queria fazer.

— Onde eu teria que bater?

Ele parou com os toques e me encarou, toda vez que Marcone me olhava assim era como se descobrisse cada parte da minha alma, achei que ele não fosse responder, que fosse fazer perguntas.

— Aqui. — Fechou minha mão em punho e a colocou na própria têmpora. — Se for forte o suficiente ele vai desmaiar ou ficar muito desorientado, e se for com um objeto pesado pode matar. — Senti um frio na barriga quando ele disse “ matar ”. Ele desfez o punho e manteve apenas meu dedo indicador e o médio esticados. — Aqui. — Colocou a ponta dos meus dedos na própria garganta. — De punho fechado ou com os dedos, se for exatamente aqui, ele vai desmaiar. — Beijou meus dedos e segurou meu queixo, o polegar foi exatamente onde Enzo tinha marcado, mas a mancha já havia sumido, e eu sabia que era isso que ele estava procurando, o dedo chegou a esfregar o lugar.

— E aqui? — Procurei pelo eixo rijo sob a calça de moletom, para distraí-lo e por que eu também queria provocá-lo, todavia eu tinha entendido algumas coisas sobre esse homem: ele não esquecia de nada, mesmo se não fizesse perguntas a respeito na hora. Ele nunca estava distraído, e era possível que Marcone já soubesse de muitas coisas sem eu sequer ter contado.

— Assim? Do jeito que está fazendo? — Ele soou excitado, as mãos se fecharam ao redor do meu pescoço e ele me beijou, tão gostoso como sempre.

 

Marcone

Deslizei as mãos para os seus ombros, observando as reações da garota. A forma como ela fechava o olhos e molhava os lábios com a própria língua, deixando-me mais excitado a cada momento. Por que era assim que eu me sentia com ela, sempre a ponto de gozar, antes mesmo de estar dentro da sua boceta.

Camille conseguia preencher cada pequena lacuna exposta que eu tinha, ela parecia entrar pelos meus poros e fazer morada ali, como se fosse seu habitat natural.

Coloquei-a na cama, ansioso pelo contato da pele quente e pela delicadeza das curvas tentadoras. Deixei-a nua, vendo a pele branquinha ficar toda arrepiada por causa do vento que entrava pela janela, despi-me também e cobri seu corpo com o meu, sugando sua boca e em seguida deixando um rastro pela pele eriçada, até chegar ao meio de suas pernas.

Um dos lugares que mais gostava de beijar e lamber no seu corpo, enfiei a língua por ali, ouvindo-a soluçar, e mexer os quadris em direção a minha boca, agitada como geralmente ficava durante o sexo.

Vez ou outra eu deixava marcas, meus dedos, minha boca, minha barba, deixavam pequenas lembranças pelo corpo delicado, Camille também deixava as suas em mim, algumas pelo meu corpo, mas a maioria eram mais profundas, no meu coração, nos pensamentos que eu dava ao longo do dia, em como ela ganhava espaço e tomava para si, aquilo que eu achei que nunca mais daria a ninguém.

A intensidade característica dos seus olhos que me tirava a razão, a voz, às vezes arisca, rouca, bem diferente da fragilidade instantânea que suas curvas demonstravam, chamando por mim, gemendo por mais, oferecendo-me algo, que eu já tinha como meu.

Ela era minha.

Cada pedacinho dela, cada nuance, inclusive as imperfeitas.