O Federal
Capítulo 11
Marcone
Ao meu lado, Flávio chamou novamente a garçonete, a mesma
que passara discretamente um número de telefone, não sei se para mim ou para ele.
— Você precisa dormir com alguém. — Disse ele, eu o olhei, perguntando-me porque porra não recusei o convite de vir para cá. O celular em meu bolso vibrou assim que a garota aproximou-se diante de nós, ela era bonita, mas não do tipo que me interessava. Desbloqueei a tela do aparelho, e abri a mensagem de Nina me avisando que estava tudo bem e que ela não era mais criança.
Meus dedos passaram por meus cabelos como que a procura de fios brancos, por que era isso que ia aparecer em breve, eu ficaria velho antes do tempo por causa de uma garota de dezoito anos que ainda por cima era minha irmã. Uma encrenqueira. Não respondi nada, ciente de que Ben estava avisado do que aconteceria se ele não fizesse seu papel direito.
Quantos anos aquele puto tinha mesmo? Talvez eu devesse perguntar isso a Andrea.
— Você precisa dormir com alguém, cara. — Ele voltou a dizer, olhei em volta entediado.
Drink’s era o nome do Pub recém inaugurado de Flávio, ele era a
própria máquina de fazer dinheiro. Perguntava-me quantas outras casas como essa ele inauguraria ainda esse ano, fiz um gesto para que a garota levasse o chope já quente e trouxesse outro, ela ainda hesitou. Bianca, li o nome numa espécie moderna de crachá, que estava preso na blusa decotada que usava, provavelmente esperando por algo mais. A garota tinha seios chamativos e devia saber disso, talvez eu devesse pegar o maldito número e ligar depois, cansada de esperar qualquer reação minha, ela se afastou.
— Ela sabe que você é o dono? — perguntei, observando-a pelas costas.
— Provavelmente não, não fui eu quem a contratei. — Ele deu outro gole na bebida, olhando ao redor.
A garota voltou novamente, mas pelo pouco tempo que passou rondando a mesa, ela tinha entendido meu desinteresse, uma voz soou no microfone, anunciando que a pista de dança estava liberada, e o lugar pareceu lotar ainda mais. Flávio tocou meu ombro, a essa altura era quase impossível escutar o que quer que ele quisesse me dizer, eu o segui, tentando não esbarrar em ninguém ou derramar a bebida, até uma área menos cheia, vip. Subi a pequena escada e passei pelo segurança mal encarado.
As batidas da música ficaram mais distantes, imitei-o indo até a grade para olhar as pessoas lá embaixo.
— Júlia. — A voz de Flávio chamou minha atenção, voltei-me para ver a mulher loira abraçá-lo rapidamente. Ela era jornalista, tínhamos nos conhecido no final de uma coletiva de imprensa sobre um caso que a polícia federal estava investigando. Saímos algumas vezes um tempo atrás, ela era agrádavel, apesar da profissão. Eu não tinha muito respeito pela imprensa, eram poucos nesse meio que eu realmente levava a sério ou dava importância, embora eles tivessem o poder de destruir ou beatificar a imagem de alguém. Mas, ela era uma rara exceção.
— Não sabia que estava no Rio. — Depois de aceitar a bebida de uma das garotas que estavam servindo, ela dirigiu-se a mim.
— É como se eu não estivesse. — retruquei, beijando de leve sua bochecha.
— Flávio me contou sobre o seu pai, eu sinto muito.
Em meio ao som da pista e algumas bebidas, nós conversamos sobre os furos que ela estava perseguindo, e da guerra que estava travando com uma colega de trabalho por uma oportunidade de ser âncora do jornal que trabalhava, não vi o tempo passar, como eu disse ela era agrádavel, por isso tínhamos saído mais de uma vez, observando-a agora, entendia o porquê e pela forma como o pescoço esguio estava ficando corado a cada vez que nos encarávamos, se eu fizesse um convite, ela aceitaria. Eu estava prestes a fazer isso, até que meus olhos encontraram algo que tinha consumido o rumo dos meus pensamentos por semanas.
Encostada na lateral do balcão, estava Camille, nas mãos uma bebida, algo como coquetel pela coloração e a taça que ela segurava com delicadeza, os olhos perambulavam pelo ambiente, como se estivessem fazendo uma varredura, no rosto uma expressão de prazer, como se o que estivesse sugando pelo canudo fosse muito gostoso. Incapaz de afastar os olhos dela, permiti-me olhar a garota por inteiro. O vestido preto justo, os cabelos levemente ondulados, diferente de como eu me lembrava deles e os olhos, eu os reconheceria em qualquer lugar, a face estava corada e a testa meio luminosa, provavelmente devia ter dançado, fiquei decepcionado comigo mesmo por não ter visto isso. Um sorriso no canto dos meus lábios surgiu assim que eu percebi a correntinha que tinha lhe presenteado na cachoeira, senti-me satisfeito por ver que ela ainda estava usando.
— Você a conhece? — A voz de Júlia soou perto de mim, acusando-me da minha total falta de educação, eu nem ao menos me lembrava o que estávamos conversando antes. De onde estávamos era possível ver tudo que acontecia lá embaixo, de vários ângulos diferentes. Virei-me para olhá-la, ela estava observando Camille, como eu, provavelmente estive vidrado na imagem da garota a mais tempo do que percebi.
— Sim. — respondi baixo, não fazia ideia se ela tinha escutado, voltei a olhar para Cami, ela não estava mais sozinha, uma mulher estava ao seu lado fazendo um gesto para que fosse atendida no balcão.
Júlia não ficou muito tempo perto de mim, afastou-se sem mais perguntas e entrou numa conversa animada com as outras pessoas que estavam ali com Flávio.
Voltei minha atenção para Camille, e como se soubesse que estava sendo observada, ela olhou em minha direção. Foram apenas alguns segundos, antes que eu decidisse ir até lá, mas os olhos verdes intensos pareciam me queimar, houve um misto de emoções atravessando o seu rosto: surpresa, curiosidade, raiva e ... expectativa?
O tempo que demorei para chegar até onde ela estava tinha sido enorme, sem contar que do alto parecia muito mais fácil do que realmente foi, desvencilhar-me de todas aquelas pessoas tornou tudo ainda mais irritante. Quando voltei a colocar os olhos nela, Camille ainda estava na mesma posição, gostei de ver que ela me procurava com os olhos. De perto, pude ver melhor, o rosto, o vestido, e o cheiro característico dela.
— Não fazia ideia que você frequentasse esse tipo de lugar. — Foi a primeira coisa que ela disse, dispensando as preliminares ou os olás. Ela mordeu o lábio, desistindo de tomar a bebida.
— Olá, Camille. — provoquei-a. — Esse lugar é de um amigo. — Apontei para a área vip e percebi que Flávio estava vindo em nossa direção.
Ela ainda me olhava, os dedos brincando pelas gotinhas de água formadas na taça quase vazia que segurava.
— O que você está bebendo? — Cheguei um pouco mais perto, o suficiente para sentir o cheiro da pele e do xampu que vinha dos cabelos.
— Algo com morango e álcool. — Olhou de um jeito engraçado para o copo e sugou o líquido pelo canudo, como se quisesse ter certeza do que estava dizendo.
— Posso pedir outro para você?
Assentiu, afastando os cabelos do rosto com a mão livre, o movimento deixou o cheiro já marcante, ainda mais intenso e perceptível para mim.
— Você sumiu.
Eu a encarei, tentando entender o tom acusador, perguntei-me se ela tinha ficado ansiosa para que eu ligasse, tão ansiosa quanto eu fiquei para ligar. Atormentado, na verdade, a cada vez que Nina pronunciava o nome dela ao telefone meu ouvidos ficavam ligados, a procura de qualquer informação e isso era ridículo, especialmente por ser eu. A última vez que passei tanto tempo pensando em alguém foi meses atrás com Francine, no início foi quase uma obsessão, era como se eu pudesse respirar melhor estando perto dela, era como se eu tivesse a chance de proteger Samanta, como eu deveria, as duas eram idênticas em aparência e personalidade, e eu me senti bem em poder ajudá-la, em estar por perto quando ela se metia em problemas, no fundo eu ainda não sabia ao certo o que sentia por ela, exceto que a queria feliz como sabia que ela estava agora.
— A rotina não me deixa respirar. — Foi uma mentira grotesca, admito. Ligar ou mandar uma mensagem não levava mais que alguns minutos. — Eu pensei em ligar, mas não liguei. — Reformulei a resposta, ainda que não fosse aceitável.
— Hum... — Desviando os olhos de mim, ela mexeu outra vez nos cabelos, eu gostava da forma como eles caiam pelas costas estreitas, cobrindo-as quase completamente.
Senti vontade de tocar os fios, sentir a maciez que eles provavelmente possuíam.
— Essa é a Camille. — A voz alta o suficiente para sobrepor o barulho infernal da música, quebrou o momento.
A garota que vi mais cedo estava de volta com Flávio ao lado, perguntei-me de onde os dois se conheciam. Camille e eu nos viramos para eles ao mesmo tempo.
— Então, você é nossa pintora? — Flávio estendeu a mão para Cami, que o olhou confusa, eu mesmo estava sem entender nada.
— Ele é o fundador do projeto, Cami. — A amiga de Camille explicou.
— Ah, que prazer conhecer você... eu sou muito fã do que você faz por aquelas crianças. — Camille sorriu e colocou a taça sobre o balcão a fim de apertar a mão dele.
Os minutos seguintes foram de apresentações, descobri que a garota se chamava Aline e que o projeto do qual falavam era o mesmo que Nina frequentava de vez em quando. Surpreendi-me, pois não sabia que ele desenvolvia esse tipo de trabalho voluntário.
— Vamos subir. — Flávio convidou, apontando para a área vip, onde estávamos antes. — Lá é mais confortável.
Subimos os quatro, minha atenção voltada para Cami, e permaneceu assim por um longo tempo, enquanto eles falavam sobre o projeto e eu apenas ouvia, Júlia também estava alheia, provavelmente por não ter afinidade com os assuntos que Aline e Flávio discutiam. Camille estava calada, evitando olhar na minha direção, ainda que, ocasionalmente, eu sentisse que estava me observando, sugando ainda a bebida que eu pedira e o garçom trouxera para ela alguns minutos atrás.
— Flávio, nós temos que ir. — Aline avisou após olhar a tela do celular, instintivamente eu olhei o meu relógio de pulso, faltava pouco para as nove da noite. — Cami e eu íamos apenas jantar, eu que acabei arrastando nós duas para conhecer o lugar.
— Aonde vocês vão? — perguntou ele, deixando de lado o copo quadrado já vazio, o meu ainda estava intocado.
Os olhos grudados nos movimentos que Camille fazia, a mania de enrolar a ponta do cabelo, junto com sugar contínuo da bebida, ela respondia sutilmente quando Flávio fazia alguma pergunta, como se não gostasse de chamar atenção, algo quase impossível. Perdi a conta do número de cabeças que viraram para olhá-la passar até chegarmos aqui. Ela não parecia perceber isso ou não gostava.
— Em algum japonês, estou tentando mudar a visão de Camille sobre comida japonesa.
— Você não gosta? — perguntei curioso, achando engraçado o jeito que ela franziu o nariz.
— É cru. — reclamou ela, afastando apenas um pouquinho o canudo da boca.
— Nem todos são.
— Quero mostrar isso a ela. — Aline retrucou, guardando o celular na bolsa. — Vocês não querem vir conosco? — convidou, animada.
— O que acham? — Flávio dirigiu-se a mim e a Júlia..
— Por mim tudo bem, estou faminta. — Ela respondeu. — Onde fica o banheiro, Flávio?
Ele se levantou para acompanhá-la, eu os observei e então Aline se afastou para atender alguém no celular, eu me voltei para Camille.
— Você vai? — perguntou, deixando de lado a taça.
— Você quer que eu vá? — Foi uma brincadeira, mas ela balançou a cabeça que sim. — Você sai para balada com frequência?
Camille olhou ao redor, enquanto meneava a cabeça negativamente. Os dedos voltaram a deslizar pela taça, formando desenhos pelo vidro.
— Não muito, faz tempo que saí assim. — Olhou-me curiosa. — E você?
— Às vezes, para tomar um chope.
Seguimos para um restaurante perto dali, Camille hesitou entre vir no meu carro ou ir com a amiga falante e Flávio, no fim das contas as duas foram com ele. Eu conhecia o lugar, já tinha vindo aqui algumas vezes, mas sempre sozinho.
Aline era bem falante, desde que havíamos sentado, a conversa dela com Flávio girou em torno do tal trabalho voluntário e de crianças, o que me chamou atenção. Ele era um dos caras mais putos que eu conhecia, nunca imaginei nada disso vindo dele, muito menos que ele realmente se interessasse em saber. Flávio escutou tudo, perguntou sobre e chegou a fazer comentários, demonstrando que conhecia algumas das famílias que estavam inclusas no projeto. Um sentimento de orgulho surgiu, afinal, do modo que as pessoas levavam a vida atualmente, geralmente o tipo de surpresa que aparecia eram as desagradáveis.
Júlia, por outro lado, estava mais quieta do que o habitual. Não a vi participar de nenhuma das conversas, embora eu fosse tragicamente suspeito em fazer esse tipo de observação, a minha atenção estava totalmente voltada para Camille, observando-a eu percebi detalhes, outros que não tinha notado. Um sinal perto dos lábios, uma série se estrelinhas tatuadas na nuca, idênticas às que ela tinha no pé, enquanto as mãos delicados tocavam o cabelo, totalmente dispersa dos meus pensamentos.
— O que vai querer? — perguntei, passando o cardápio para ela, ávido por algum tipo de contato.
— Algo que não seja cru. — A resposta veio sem que ela me encarasse.
— A comida daqui é mais abrasileirada. — Apontei para um globo laranja iluminado, onde se lia Izakaya.
— O que isso quer dizer?
— Os pratos daqui são quentes, diferente do que é servido nos restaurantes tradicionais de comida japonesa. — Pisquei para ela, e um sorriso aliviado surgiu em seus lábios, os olhos marcantes passaram a analisar o cardápio com um pouco mais de entusiasmo, obviamente.
— O que você pediria se nunca tivesse comido essa coisa?
Evitei uma risada.
— Katsu Sando. — Apontei para a descrição do sanduíche no cardápio. — Não é cru.
— O que você vai pedir?
— O mesmo que você.
— Quero esse então.
— E você, Camille? — Flávio depositou a atenção nela. — O que faz além de dar aulas de pintura?
— Estudo direito.
— Está em que período?
— Prestes de apresentar a conclusão do curso.
Júlia aproximou-se um pouco mais de mim, guardando o celular.
— Preciso ir embora — ela sussurrou para mim de forma que só eu escutei. — Sofia está com febre.
Sofia era a filha dela, não me lembrava direito quantos anos a menina tinha, exceto que era muito pequena ainda.
— Minha mãe acabou de mandar mensagem. — Ela colocou o cabelo platinado atrás da orelha, e jogou nervosamente o celular na bolsinha a tiracolo pequena.
— Precisa de ajuda? — inquiri.
— Não precisa. — Olhou rapidamente para Camille, que ainda conversava sobre seu curso com Flávio. — Está claro seu interesse pela garota, não deixe a noite para lá por minha causa. — Ela sorriu de forma amistosa, agradável como geralmente ela era. — É só uma febre, minha mãe fica nervosa e... você entendeu.
Não tive resposta válida para dar, ela se despediu de todos e eu a acompanhei até o carro, trocamos algumas palavras e Júlia se foi. Quando voltei à mesa, os pratos já tinham chegado.
— A filha dela está febril. — Avisei, sentando-me de novo no meu lugar.