O Federal
Capítulo 13
Camille
DR Corporação.
O prédio alto localizado no endereço que recebi no meu e-mail tinha essa nomenclatura em tons de chumbo, dei uma olhada na calça preta que escolhi e vi duas mulheres saindo de lá, senti-me menos apreensiva quando notei que o que elas vestiam não era muito diferente. Olhei o relógio digital do celular, agora faltavam apenas dez minutos para o horário marcado. Retoquei o batom e finalmente saí do carro, andei sem olhar para trás até a entrada imponente e fiquei incomodada com o som seco que o meu salto não parava de fazer no piso de cor gelo. Todo ambiente era decorado nos tons de chumbo e branco, até mesmo o uniforme das seis garotas que estavam nesse primeiro piso tinha essas características.
A DR Corporação era uma multinacional voltada para a produção de drones e estava no mercado desde antes de eu nascer, os países que possuiam filiais eram a Flórida, o Reino Unido e o Japão, quase decorei tudo isso, para não acabar passando vergonha por não saber de nada.
— Camille Alencar. — A garota com traços asiáticos indicou uma poltrona para que eu me sentasse, afinal ainda não estava na hora. O ar condicionado mantinha o ambiente gelado, agradeci a mim mesma por ter vestido um blazer, caso contrário eu estaria congelando agora.
Às dez em ponto, a mesma garota me conduziu até o andar que eu seria recebida. Ao contrário do que imaginei, não foi Flávio quem estava lá e sim uma mulher negra muito elegante que devia estar na fase dos quarenta anos. Ela sorriu aparentando calma, e indicou a cadeira acolchoada para que eu sentasse. A decoração não fugia muito do que era visto nos outros andares.
Como eu temia, depois de uma série de perguntas sobre o que eu fazia no escritório de advocacia no qual estagiei por sete meses, Romana me perguntou o motivo de eu ter saído de lá.
— Eu tive alguns problemas pessoais no período do estágio. — Dei uma resposta, tentando soar convincente.
Não tinha sido bem assim, o estágio era uma parte obrigatória do meu curso, mas quando a quantidade de horas que seriam necessárias para a faculdade foi completada, o dono do escritótio me convidou a permanecer no grupo, todavia, a situação não foi muito boa, no fim das contas. Enzo me acusou de estar tendo um caso com o homem e num acesso de raiva me deu um soco tão forte no rosto que cheguei a pensar que nunca mais fosse enxergar.
— Não o aborreça e saia desse emprego idiota, você sabe que não precisa de nada disso. — Lembrei-me das palavras de Heloísa, ela dissera isso, enquanto colocava gelo no lugar onde fui atingida. E o pior era que eu tinha um nível extremo de gratidão por ela. Nesses momentos eu sentia como se estivesse sendo cuidada, afinal ela me dava remédios para dor, colocava gelo quando era preciso, me ajudava a camuflar os machucados com base, ou me oferecia óculos escuros quando a coisa estava muito feia.
Fiquei dias sem aparecer no escritório, o roxo tinha ficado tão intenso que nem mesmo a maquiagem conseguia esconder de forma satisfatória e quando apareci por lá, foi apenas para me desligar da minha função e fazer a vontade de todos eles.
— Temos um estagiário no nosso setor jurídico, seria muito interessante para nós ampliar o quadro desse departamento. — Ela sorriu, retirando a caneta de metal de cima de uma folha A4 e passando-a para mim. — O antigo escritório que você estagiou fez ótimas avaliações sobre você. Aqui está o contrato de estágio, nele você vai encontrar informações do seu interesse. Você tem 48 horas para ler, enviar as possíveis dúvidas e até desistir da vaga.
— Eu quero a vaga...
Ela deu uma risada e levantou-se, estendendo a mão para mim.
— Fique a vontade para ler e entender tudo que está escrito aí, certo?
Saí de lá exultante, doida para chegar em casa e contar a Naiá. Miguel me esperava na mesma vaga com o carro e seguimos pela avenida, estava tão animada, como não ficava há tanto tempo que cogitei parar e descer em algum desses quiosques do calçadão para tomar uma água de coco. Quando Miguel conseguiu achar um lugar viável para estacionar, uma mulher grávida chamou minha atenção, não ela exatamente, mas o homem que segurava sua mão. Ela parecia ter acabado de sair da água. A barriga já grande da mulher loira era acarinhada sutilmente por ela. O homem, um que eu conhecia, entregou-lhe um coco verde e logo depois enfiou um canudo nele, a forma que ela sorriu para ele foi tão íntima que precisei desviar os olhos. Desisti de sair do carro, temendo que me vissem, principalmente ele. Pedi a Miguel que me levasse para casa, enquanto minha cabeça trabalhava no que aquela mulher podia significar, Nina nunca me dissera que seria tia, ou que o irmão fosse ser pai. Pelo jeito tagarela dela de ser, era uma informação que com certeza ela soltaria em alguma de nossas conversas.
Olhei pelo retrovisor, mas não foi mais possível vê-los. Continuei tentando entender tudo ou resolver o quebra-cabeça que tinha se formado na minha mente, mas todas as resoluções eram desagradáveis. Gravei ao máximo as feições da mulher, eu a reconheceria se a visse outra vez, não havia dúvida quanto a isso.
A minha animação voltou quando contei a Naiá sobre a entrevista e lhe mostrei o contrato, falei sobre como o lugar era grande e que além de mim haveria outro estágiario, mas que eu não sabia quando o conheceria e se seria mesmo um homem.
— Quando você pretendia contar isso a mim e a seu pai? — Joice perguntou.
— Hoje, mãe. — respondi, odiando a ideia de que ela estava escutando atrás da porta.
— Saia, Naiá.
Fiquei furiosa com o tom que ela usou.
— Ela está me fazendo companhia, mãe.
— Não, ela está enchendo sua cabeça de caraminholas. Eu quero conversar com você a sós.
Naiá saiu, sem responder coisa alguma, e eu cruzei os braços, esperando, sem muito entusiamo, saber do que se tratava a conversa.
— Tenho a impressão de que a opinião dela seja mais importante do que a minha.
— Ela sempre se importou, mãe. — Não consegui evitar, e ela se voltou para mim magoada.
Porque ela sabia que era verdade, Liz e eu nunca fomos prioridades, as festas, os contratos, os terrenos para construção de mais prédios, as constantes mudanças de casa para mostrar status nas rodas da alta sociedade, isso sempre foi mais importante.
— Eu sou tão ruim assim?
Fiquei chocada com o tom que ela usou, não foi irônica nem autoritária, apenas magoada, como se realmente se importasse. Não tive coragem de responder, a resposta seria positiva.
— Quando sua irmã morreu, eu notei. — respondeu por si só, encarando-me de frente. — Nem acredito que ela morreu, e não consigo me lembrar quantas vezes eu a abracei, não tenho lembranças com ela... não lembro como ela se sentiu no primeiro dia de aula, por que não fui eu quem a levei. Não sei qual era a comida que ela gostava, nem quem eram os amigos...
Doeu em mim porque era verdade, não tínhamos construído lembranças, nem histórias juntas.
— Eu quero construir isso com você. — disse ela, aproximando-se e sentando-se na cama. — Quero ter uma história nossa, mas não vou conseguir sozinha, preciso que me ajude.
Observei nossas mãos, a dela pegou a minha sutilmente.
— Eu sei que Naiá esteve muito mais presente que eu, mas eu sou sua mãe. Eu quero que me trate como tal.
Eu tinha muitas coisas engasgadas para dizer, aliás tinha motivos para gritar que ela não tinha o direito de me dizer essas coisas, quando na verdade foi ela quem nunca realmente fez o papel de mãe que eu precisava. Contudo, eu me contive e apenas meneei a cabeça afirmativamente.
— Eu quero que respeite as minhas escolhas, mãe. — Disse com sinceridade.
— Ok. — Ela colocou o cabelo bem cuidado atrás da orelha e me olhou. — Então, onde foi essa entrevista?
Contei para ela tudo que havia acontecido, o nome da empresa e a forma como conheci o dono e lhe mostrei o contrato, fomos para seu quarto, onde ela encontrou os óculos de grau e acabamos lendo o documento juntas. Algo completamente inédito.
Durante o jantar, Joice comentou sobre o meu estágio com meu pai e não houve objeção, não fiquei muito surpresa quando ele disse que conhecia o pai de Flávio.
Quando voltei ao meu quarto, tentei ligar para Nina, mas todas as tentativas caíram na caixa de mensagem. Só mais tarde é que ela retornou.
— Eu estava na casa de Ben, ele trabalhou o final de semana inteiro, então acabamos nos vendo hoje. Como foi a entrevista?
Adorei quando ela perguntou isso, a questão traria a tona a cena que vi hoje cedo.
— Estou com o contrato de estágio em mãos, já dei uma lida e estou bem animada. — Dei uma pausa. — Na volta para casa, acho que vi seu irmão.
— Onde?
— No Leblon, ele estava com uma mulher. Ele vai ser pai?
Ouvi uma risada estrondosa, e me senti patética.
— Meu irmão respira trabalho. — disse entre algumas risadas, parei para pensar se eu não estava louca, mas eu havia visto. — Ele não vai ser pai e não tem namorada, a última namorada dele morreu há alguns anos e depois disso não houve outra. Você pode tê-lo confundido.
Meu cérebro parou de registrar o que ela dizia no momento em que as palavras namorada e morreu foram ditas, tentei racapitular as conversas que tive com ele, mas em nenhuma delas ele esboçara nada do tipo.
— Camille? Ainda está aí?
— Sim, eu estou.
Ainda falamos sobre o que aconteceu durante o dia, ela me contou que conheceu a sogra e parecia radiante com tudo, só reclamou que o rapaz trabalhava demais, com isso descobri um pouco sobre a rotina que o irmão dela tinha na delegacia. Não era algo fácil, noites fora, operacões de risco. A aflicão dela era nítida. Perguntava-me porque a escolha dele tinha sido essa.
Antes de dormir naquela noite eu fui ao quarto de Naiá pedir desculpas pela forma como minha mãe falara com ela, deitei-me ao seu lado na cama, como eu fazia quando era mais nova e estava com medo do escuro ou trovoadas, o pijama de algodão parecia ser o mesmo daqueles anos.
— Ela esta sentindo o peso do que não foi vivido. — Referiu-se à minha mãe de modo sábio, enquanto passeava as mãos pelos meus cabelos.
Fiquei quieta aproveitando da tranquilidade que era estar perto dela
*
Os dias foram passando, e uma nova rotina se estabeleceu. Meu
estágio começou assim que entreguei o contrato assinado, no mesmo dia Flávio me levou para conhecer todos os departamentos e me apresentou às pessoas que trabalhavam no mesmo setor que eu. A minha insegurança foi se dissipando ao longo do primeiro dia, a chefe do meu setor foi muito solícita em todas as minhas dúvidas e acabamos tomando um café juntas no final do primeiro dia. Como Flávio estava ciente das minhas aulas de pintura no projeto, meu contrato não era para todos os dias da semana.
Para minha surpresa havia um café da noite me esperando, a mesa estava posta com porcelanas delicadas e várias coisas que eu gostava estavam prontas, sorri imediatamente para Naiá e ela piscou para mim e disse discretamente que tinha sido ideia da minha mãe.
Entrei mais na sala e encontrei Nina e Aline, ambas conversando com Joice.
— Ela chegou... — Mamãe disse, e veio em minha direção, ela usava um macacão branco elegante, a aparência impecável como sempre. — Eu tomei a liberdade de convidar suas amigas para tomarem um café conosco, como hoje foi seu primeiro dia de estágio... Você gostou? — Havia uma dose imensurável de insegurança nela.
— Eu adorei, mãe. Obrigada. — Beijei de leve seu rosto e sorri para as meninas.
— Parabéns pelo primeiro dia.
Ela me abraçou, Aline fez o mesmo e depois de contar sem muitos detalhes como tinha sido o dia, afastei-me para tomar um banho antes de me juntar a elas. Não passei muito tempo no banheiro, no fundo eu estava animada para contar mais detalhes de como foi e estava faminta também. Vesti-me com um vestido folgado e voltei a sala com os cabelos ainda molhados, enquanto caminhava de volta para a sala de jantar, escutei a conversa das quatro.
— Eu achava que você era aqui do Rio mesmo. — Ouvi minha mãe dizer para Nina.
— Não, nasci em Minas, mas meus pais e meu irmão são de São Paulo.
Sentei de frente para ela e me servi de suco de laranja.
— Ainda tenho um pouco de sotaque, mas é bem pouquinho mesmo. — O tagarelar fácil dela continuou.
Minha mãe ainda comentou com Nina sobre a adaptação dela ao Rio de Janeiro e depois voltou-se para mim, interessada.
— E então, como foi lá?
— Foi muito bom, eu estava precisando de algo com o que ocupar a cabeça.
— Achei que o tcc estava ocupando bastante. — Aline brincou.
— Sim, mas não de um jeito bom.
Nós rimos.
— São pessoas legais, a minha chefe é muito solícita, tem muita experiência na área, acho que vou aprender muito.
*
Ignorei a mensagem de Aline, dando-me conta de que os dias tinham se passado rapidamente e que já era sábado outra vez. Embora a semana tivesse sido proveitosa, a agitação familiar de quando minha mãe tinha um grande evento para ir, trouxe a tona algumas realidades desagradáveis — ela e Heloísa passaram horas ao telefone, e logo depois Joice veio ao meu quarto. A festa de boas-vindas de Enzo havia chegado, e as constantes tentativas de me convencer a participar foram muitas, tudo aconteceria na casa de praia que eles tinham em Parati. A minha festa de noivado fora lá, eu conhecia a casa, conhecia o lugar e sabia exatamente o tipo de gente que iria.
— Sabe que está sendo mal educada, não é? — Joice perguntou, o cheiro forte de esmalte ainda podia ser sentido em sua unha.
Senti vontade de bufar, mas me contive, afinal, mesmo tentando me converncer a ir, em nenhum momento ela fizera chantagem ou fora desagradável como geralmente era nesses casos, meu pai também não insistiu. Virei-me para olhá-la e soltei um espirro, minha cabeça estava pesada e eu realmente não queria discutir.
— Vá terminar de se vestir, mãe... — Puxei outro travesseiro e o coloquei junto com outro sob minha cabeça.
— Tudo bem.
Suspirei aliviada assim que ela fechou a porta. Coloquei Someone You Loved na versão de Boyce Avenue no spotify e fechei os olhos sem acreditar que estava ficando gripada. Naiá tinha ido para seu final de semana de jogatina e eu ficaria o final de semana inteiro em casa.