O Federal

Cris Araújo · Capítulo 36 de 63

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O Federal

Capítulo 35

 

 

Marcone

 

O tempo era sem dúvida um Deus, na verdade era uma das

coisas mais importantes na vida das pessoas, algo que eu tinha aprendido a respeito é que na verdade o tempo não curava nada, ele te dava a falsa impressão de esquecimento, quando na verdade tudo ainda estava lá. Do mesmo jeito. Você só passava a sentir de um jeito mais maduro. Era isso que o tempo permitia — o amadurecimento de sentimentos bons e ruins.

Guardei a chave de volta ao bolso quando já estava dentro do apartamento e fui até a cozinha beber água, olhei para a sacada onde três quadros de Camille secavam e caminhei para o meu quarto onde eu sabia que a preguiçosa estava. Tinha descoberto algumas coisas sobre ela durante esse tempo em que estávamos juntos.

Quase três meses.

Ela odiava acordar cedo, odiava a ponto de se irritar de verdade. As tpms dela eram piores que a da minha irmã, então eu me preparava assim que via os primeiros sinais. Ela era ciumenta, mas eu também era e já havíamos brigado por isso, algumas vezes. Não que demorasse muito para fazermos as pazes, eu realmente não gostava de ficar longe dela, principalmente quando estávamos chateados um com o outro. Ela era uma péssima cozinheira e provavelmente não havia salvação para isso. Além de tudo, meu cachorro não era mais meu, ela parecia ter lançado o mesmo feitiço que lançou em mim nele.

Bella entrou no meu campo de visão primeiro, ela seguia Camille por todo o canto quando estava aqui, havia um quadro dela pendurado na parede do meu quarto, destoando completamente da decoração, mas eu não me importava. Dei mais um passo e entrei no meu quarto, Camille estava na sacada, usando uma blusa minha, que provavelmente já estava manchada de tinta como tantas outras, ela estava pintando de novo.

Observei-a por um tempo, Bella já estava empoleirada novamente perto de Camille. Os pés delicados estavam descalços no chão que imaginei estar gelado. A blusa branca que ela vestia não cobria nem a metade das pernas compridas, notei apenas o cabo do pincel prendendo parte dos cabelos avermelhados.

Camille me notou e sorriu, olhando-me dos pés a cabeça, era a primeira vez que ela me via de farda. A safada deu um sorriso como se aprovasse e deixou o pincel que usava no banco ao seu lado — ela tinha forrado um dos bancos da cozinha para ter um auxiliar para os objetos que usava. Meu apartamento estava de pernas para o ar, claramente.

— Eu não sabia que eu gostava de homens fardados. — provocou ela, ainda me olhando, as mão subiram pelo meu peito e ela me beijou devagarzinho. — Não vai voltar mais?

— Na verdade eu estava aqui perto e resolvi subir por uns dois minutos, eu vou chegar tarde hoje.

Ela murchou um pouco, a cada noite que eu passava fora, a cada plantão, a cada vez que eu chegava esgotado demais, ela me questionava sobre a minha saída da polícia. Era algo que eu tinha prometido e que achei que levaria menos tempo, todavia não estava sendo do que jeito que imaginei.

Depois de algumas explicações sobre o porquê eu chegaria tarde, eu voltei para a delegacia.

 

Camille

Terminei de vestir o vestido e sorri para Bella, até mesmo para o banheiro ela me seguia, como uma sombra quando estava aqui. Marcone dizia que ela era dócil quando não estava em horário de trabalho, eu ria. Certa vez ele me contara como era a rotina dos cães farejadores, dos cuidados, que alguns morriam para salvar seus parceiros, falou também da disciplina e inteligência deles. No início, imaginei que um cachorro desse tamanho nunca me obedeceria, demorou mais que uma visita dela aqui para que eu perdesse o medo e entendesse que ela não me machucaria.

Bella saiu e voltou trazendo a sua coleira , a esperta queria sair, além de deixar a coleira perto dos meus pés, ela latiu algumas vezes.

— Você quer sair, não é?

Peguei a chave extra sobre o aparador da sala e treinei com ela as palavras que Marcone me ensinou a usar para que ela obedecesse.

Fica. Senta. Vem.

Ela obedecia sempre.

— Vamos lá. — Abri a porta e ela me acompanhou por todo o caminho até sairmos do apartamento, andou do meu lado sem necessidade da coleira, embora eu trouxesse sempre.

O passeio foi pelo jardim botânico, ele não ficava muito perto e nem tão longe do prédio. Havia algumas crianças ali e casais, não era nem quatro da tarde ainda, eu me sentei em um dos bancos e deixei que Bella brincasse por ali.

Embora o lugar estivesse tranquilo, a sensação que passei a ter era que estava sendo observada, afastei os pensamentos e continuei sentada. Tentando relaxar um pouco ao ar livre.

No caminho de volta a impressão aumentou, e o percurso pareceu ficar mais demorado do que a ida, um carro escuro estava desde a pracinha fazendo o mesmo caminho que o meu. Abaixei-me e coloquei a coleira em Bella, apenas para dar o tempo que o carro se afastasse e eu tivesse certeza de que não estava me seguindo. Ele se foi e eu suspirei aliviada, não era como se não tivesse pessoas na rua, havia muitas, mas, embora eu estivesse cada vez mais tranquila do que costumava ficar, ainda existia uma garota amedrontada dentro de mim.

Só fiquei realmente mais tranquila quando a fachada do prédio ficou evidente. Demorei tempo demais para ver que o mesmo carro estava estacionado ali em frente e que eu conhecia o motorista.

Enzo.

Ele vestia um terno preto, que lhe dava a aparência de um empresário engomadinho. Os cabelos loiros lambidos o faziam parecer até mesmo inofensivo, mas os olhos pretos, eram eles que mostravam realmente o homem que ele era. Como já sabia exatamente que iríamos entrar, Bella correu adiantada para dentro do prédio e eu dei um passo de cada vez, imaginando se ele teria coragem de fazer uma cena ali na frente.

Fazia algum tem que eu sequer ouvia seu nome ou pensava nele, até mesmo minha mãe não tocava nesse assunto. Até mesmo ela não interferia na minha relação com Marcone, embora a amizade com Heloísa continuasse. Eu sempre tive a sensação de estar sendo observada, no trabalho, no projeto, até mesmo quando saia com Marcone e Nina, mas sempre achei que fosse fruto da minha imaginação, tanto que quando ele me perguntava por que estava olhando tanto para algum lugar específico eu dizia que não era nada. Mas em alguns momento eu sabia que ele também percebia algo, era quando ele se tornava ainda mais atento ao que acontecia ao nosso redor.

— Então é aqui que você tem se escondido. — Foi uma afirmação cheia de sarcasmo.

Eu não gostei. Os olhos avaliaram meu rosto e meu corpo inteiro, da mesma forma como fazia quando não gostava de alguma roupa que eu vestia e me obrigava a tirar, ou quando puxava meu cabelo para que eu o prendesse. Eu não entendia como alguém podia ser tão doente.

— Se você não for embora eu vou chamar a polícia — sussurrei, olhando para os lados.

— E vai dizer o que? — objetou ironicamente. — Um cidadão de bem não pode ocupar a calçada do prédio do filho da puta que está dormindo com você? — Os olhos tornaram-se cruéis, iguaizinhos a quando ele iria falar algo que me ofenderia. — É só isso, Camille. Em breve ele vai se cansar.

Me feriu, era o que o esse homem sabia fazer.

Tentei passar por ele e entrar no prédio, mas Enzo segurou meu braço com força. Cheguei a pensar que alguém que estava passando na rua iria intervir, mas ninguém fez nada, apenas olhavam e não faziam nada.

— Me solta. — Debati-me freneticamente, mas Enzo me segurou com ainda mais força.

— Você contou a ele? Contou, sua puta? — Segurou meu queixo com força, ficaria a marca, eu senti os dedos dele machucarem de verdade a minha pele. — Ele pode estar fazendo o que quer com você agora, mas eu fui o primeiro.

Eu me senti tão pequena e usada, senti nojo de todas as vezes que eu o tinha deixado me tocar. Nojo de mim mesma, e mesmo sem querer chorar na frente dele, algumas lágrimas escorreram pelo meu rosto e ele sorriu.

— Chore mesmo. — Ele beijou minha testa, mantendo-me completamente presa.

— Me solta, por favor. — Em meio a todas as coisas que já me atormentavam, eu não sabia se alguma das pessoas que passavam por ali conhecia Marcone, e o que diriam a ele, mas elas não faziam nada. Comecei a me debater ainda mais, e então eu ouvi um rosnado, consegui me afastar quando a atenção dele se deteve no cachorro enorme que estava com todos os dentes para fora, encarando-o.

Dei mais alguns passos para trás, o coração batendo tão forte que parecia que ia sair pela boca. Bella desviou os olhos dele e me encarou, sem mostrar os dentes, como se esperasse por uma ordem minha. Eu olhei o homem que já havia me marcado de todas as formas ruins que uma pessoa podia imaginar, no corpo e na alma. Eram cicatrizes imensas que eu colecionava, ele olhava pasmo para o animal, mas sem sentir medo.

— Vai. — A palavra saiu entre dentes, e Bella voltou a rosnar e mostrar os dentes para ele.

Não vi onde ela o mordeu, ou quantas mordidas tinham sido, mas o ouvi gritar e me xingar, gritar de dor como eu já havia feito várias vezes por causa dele. Se era errado ou não, eu não me importei no momento, queria feri-lo da mesma forma que as palavras dele fizeram comigo. Se deixaria cicatrizes? Enzo havia deixado muitas em mim também.

Apenas quando me dei conta de que alguns curiosos começaram a parar e olhar, é que chamei Bella e corri para dentro do prédio, sem olhar para trás, ouvi apenas ele dizer que me mataria. Percebi que várias pessoas que trabalhavam no prédio estavam olhando também, curiosos desgraçados que não tinham feito nada. Cliquei no andar com os dedos trêmulos. E como se notasse o meu estado de espírito, Bella encostou a cabeça na minha mão, como se quisesse carinho, abaixei-me e a abracei.

— Obrigada. — Beijei a cabeça dela e permaneci assim até que a porta do elevador se abriu.

Ela estava visivelmente agitada, os pelos permaneciam eriçados. Perguntei-me se havia alguma coisa que devia fazer. As horas seguintes eu passei andando de um lado para outro, escutando repetidamente as palavras ferinas dele. Enzo era um monstro, da pior espécie, por que ninguém imaginava o gênio ruim que ele tinha, eu sempre fui a louca da equação.

Assustei-me quando a porta foi aberta, e Nina entrou falando com alguém ao celular, provavelmente o namorado. Ela desligou a chamada e me encarou por alguns minutos.

— O que aconteceu? — perguntou como se soubesse.

— Enzo esteve aqui. — contei, e então chorei. — Não sei o que fazer para isso acabar... — Toda vez que eu imaginava que nunca mais saberia dele, a sua sombra voltava a aparecer, como um fantasma. Parecia saber sempre mais do que eu imaginava que ele soubesse. — Não entendo como ele pode saber onde me encontrar. — murmurei, enxugando as lágrimas, eu odiava chorar, odiava.

— É óbvio que ele tem te seguido. — Nina meneou a cabeça, um vinco entre as sobrancelhas tal qual a que aparecia no rosto do irmão de vez em quando. Ela se aproximou mim e sentou ao meu lado, Bella a cheirou e como não teve atenção voltou ao tapete que gostava. — E se ele tem te seguido, ele sabe que você está com meu irmão.

Não respondi nada, lembrei-me das palavras cruéis.

— Você contou a Marcone sobre ele? — inquiriu, o instinto protetor que Marcone tinha por ela, era o mesmo que Nina tinha por ele.

Admirei que fossem assim um com o outro desde o início.

— Não tudo, não contei que eu apanhava, que eu era tratada como um lixo e que eu deixava, não disse nada disso. — Exasperei-me, e mais lágrimas vieram. — Eu não quero que ele mude se eu contar... eu gosto do jeito que ele olha para mim, tenho medo que mude.

Nina me olhou, compreensiva. As mãos dela buscaram as minhas.

— Meu irmão não é Enzo, Camille. — ela suspirou, e eu sabia que não ia gostar do que ela diria a seguir. — Eu amo vocês juntos, adoro. Mas se você não contar tudo, inclusive o que aconteceu hoje, eu conto. — Nina me olhou como Liz me olhava. — Já passou da hora de você expor esse cara e agora não é só você. Meu irmão pode se prejudicar por algo que ele nem sabe, ser pego desprevenido.

Ela tinha razão.

Eu só estava colocando Marcone dentro de um problema que eu sustentei por muito tempo.

— Eu vou contar. — Enxuguei o rosto e assenti. — Eu só preciso saber como fazer isso e não causar ainda mais problema.

— Foi ele? — Ela apontou para o meu rosto e eu fiz que sim, agora tendo certeza de que os dedos dele tinham marcado minha pele. Nina se levantou e voltou trazendo algumas pedras de gelo. — Quem te ajudou?

— As pessoas não se importam, ele poderia ter me matado ali e ninguém teria feito nada. — As coisas não deviam ser assim, mas elas eram. Enzo nunca me agredira em público, o fato disso ter acontecido hoje só me fazia entender que ele estava pior do que antes. — Bella me protegeu.

Ela veio para perto de nós assim que ouviu o nome ser pronunciado, Nina a olhou com carinho e afagou sua cabeça.

— Eu acho que você precisa ir realmente a polícia.

Eu não disse nada.

Já havia pesquisado sobre isso, nem sempre os homens iam presos e quando iam o valor da fiança era ínfima para fortuna daquela família.

— Você já arrumou suas coisas. — perguntou ela, quando não disse nada.

— Sim, já estão arrumadas

No dia seguinte nós iríamos para a fazenda, meus pais infernizaram a vida de Marcone até que ele encontrasse uma brecha para que eles pudessem conhecer minha sogra e claro, as terras deles, não que isso tivesse sido dito com clareza. Mas eu estava tão feliz por voltar para lá que o motivo ridículo dos meus pais não me importava, Marcone não havia comentado nada comigo, mas ele não era idiota para acreditar que eles queriam conhecer Mara. Meu pai não desperdiçava nenhuma oportunidade de negócios. Essa era a verdade.