O Federal
Capítulo 55
Nina
Outro jato de água caiu sobre mim e meu corpo tremeu ainda
mais, cada vez que a água caia ela parecia estar mais gelada, de forma que todos os meus músculos retraiam, eu conseguia ouvir os meus dentes batendo. A outra garota estava desacordada, eu já tinha tentado sair da posição em que estava para tentar acordá-la, mas tudo doía só de pensar nisso, e então mais água vinha, molhando-me inteira, escorrendo pelo meu corpo nu desde os cabelos até os pés.
Uma purificação.
Foi o que Erick dissera, que eu precisava estar pura para morrer. Estava rouca de tanto gritar e perguntar o porquê dele estar fazendo isso ou chamar pelo meu irmão. Eu me recusava a dormir. Tinha certeza que ele viria. Voltei a contar de um a mil, uma forma de deixar meu cérebro ligado e tirar a atenção das dores que sentia, ainda assim algumas lágrimas vieram. Elas sempre vinham quando eu ouvia passos, o medo de que ele me matasse porque era o que iria acontecer segundo ele.
Não havia escapatória ou lugar a ir.
Marcone
Além de Andrea, Benjamin e mais três agentes estavam na sala de inteligência da delegacia. O meu estado de espírito passou despercebido para os outros, mas não para ela. A mulher me conhecia demais, a arma que eu carregava também foi vista por ela dado ao olhar letal que me lançou.
— Que porra aconteceu? — inquiriu ela, olhando-me.
— Onde está Erick, Andrea?
Analisei cada reação dela, mas não houve nada agressivo. Ela só me encarou por muito tempo, como se o nome do homem com quem vinha dormindo não significasse nada. Mas notando em mim a desconfiança, éramos iguais em muitas coisas.
— Onde? — Dessa vez eu gritei, alterado e os homens ao redor não entenderam.
— Eu acho melhor você esfriar a cabeça. — Foi o que ela disse, e com o rosto totalmente contorcido veio até mim, senti vontade de me afastar. Doendo-me por dentro só de imaginar que ela fizesse parte disso tudo. — Calma. — Contrariando tudo que imaginei, ela segurou meu rosto e me fez olhá-la nos olhos. — Calma. — repetiu.
— Ele está com ela. — Muitas emoções passaram por seu rosto, desde a incredulidade a raiva, mas nenhuma condescedência.
O celular dela tocou e eu vi o nome dele, assisti sua mão tremer levemente e com um toque ela atendeu a ligação no viva-voz.
Primeiro houve silêncio, cheguei a me perguntar se o desgraçado não iria falar nada.
— A essa hora você já sabe. — o sujeito disse do outro lado da linha. — Você não se apaixonou por mim, se apaixonou?
Visivelmente ultrajada, ela colocou o celular sobre a mesa mais próxima e cruzou os braços, demonstrando uma vulnerabilidade que raramente via nela.
— Ah, claro que não... — o miserável respondeu a própria pergunta, olhei para o aparelho, assim como ela fazia. Vi a movimentação de Ben para rastrear a chamada. — Ele está aí, não está? — Ouvi uma risada baixa, que pôde ser ouvida devido ao silêncio mortal na sala. — Ele sabe, minha bela?
Senti-me congelar por dentro, sem saber o que esperar.
— Não se atreva. — Andrea reagiu pela primeira vez, entre dentes, como se soubesse exatamente o que Erick diria.
— Tão durona e tão carente, não é, Andrea?
— Onde ela está? — perguntei, odiando as coisas que ele estava dizendo, um mal pressentimento se formando dentro de mim, acumulando-se a todos os outros.
— Ele nunca te enxergou, não é? — O miserável continuou, ignorando-me por completo. — Como você consegue? Toda essa lealdade?
O silêncio seguiu áspero como se pudesse ser tocado.
— E você, Marco? — dirigiu-se a mim. — Nina grita esse nome o tempo todo aqui. Como se você pudesse escutar ou fazer alguma coisa.
Mesmo indiretamente o desgraçado me deu certeza de que ela estava viva, agarrei-me a informação e olhei para Benjamin, ele fez que não. Sinal de que não tinha conseguido rastrear nada.
— Mas estou curioso. — Fez uma pausa. — Nunca percebeu que ela é apaixonada por você?
Perdi a voz, ou qualquer reação, meu pescoço girou automaticamente para onde Andrea estava. Pálida, nervosa, fitando o aparelho como se fosse destruí-lo com as próprias mãos. Lentamente os olhos dela encontraram o meu rosto, e eu soube que ele não estava mentindo. O peito dela subiu e desceu de um jeito descompassado, o tempo pareceu parar, enquanto eu a observava. A vergonha, a humilhação, e uma espécie de ultraje doloroso cobriam a face extremamente branca. Num estopim, Andrea saiu dali correndo, deixando-me totalmente confuso e com um ódio muito maior desse cara.
— Consciente ou inconscientemente, você conseguiu ferir todas elas. Todas as três mulheres da sua vida. — Fez uma pausa. — Claro que eu tinha um plano muito melhor para a sua garota, mas chegaram antes de mim. Como você se sente? Sem controle, sem direção, sem saber de onde vem o próximo golpe? Estou louco para saber. Porque foi assim que eu me senti quando meu pai foi preso... e depois morto como um animal.
Pai.
— Ele era um estuprador, porra! — O lado extremo, moldado na raiva e na dor começava a emergir, a ganhar espaço. Puxei o ar com força, sentindo-me um imbecil de marca maior. Ele tinha razão, eu tinha ferido as três, a culpa era minha. — Eu vou caçar você como se caça a um rato, e quando eu te encontrar...
— Você vai me matar? Há coisas piores do que a morte... Por exemplo, você ser o responsável pela morte da sua irmã... Vai conviver com isso? Sabe o que é ver sua mãe adoecer e perder o juízo porque o marido não voltou para casa?
— E quanto às meninas que ele estuprou e matou? Que também não voltaram para casa?
— Elas estão num lugar melhor, purificadas e vivendo para o prazer.
O filho da puta carregava a mesma loucura do pai. A mesma loucura. As mesmas crenças. A mesma insanidade.
A ligação foi encerrada, um bolo desagradável se formou na minha garganta, permaneci encarando o aparelho, sentindo um peso inumano nas costas.
Saí dali, sentindo-me um crápula, Andrea estava encostada no próprio carro, consertou os óculos assim que me viu.
— Quanto tempo, Andrea? — No fundo, eu tinha medo da resposta.
— Vai considerar as merdas que aquele... — Ela desviou o olhar, talvez entendendo que era melhor dizer a verdade. — Muito tempo.
Senti um soco no estômago. Muito tempo. E eu não percebi.
— Antes de Sam.
Travei o maxilar, passando uma das mãos pelos meus cabelos.
— Como eu nunca percebi, Andrea? — Aproximei-me, temendo que as coisas mudassem a partir de agora.
— Porque eu nunca quis que soubesse. — Ela tirou os óculos e os colocou novamente. — Você é o meu melhor amigo. — Encostou o rosto no meu peito e eu a abracei. — É assim que tem que ser. — Ela afastou o rosto para me encarar. — Não muda nada.
Em pensar que num momento irracional cheguei a desconfiar dela.
Com pesar ela se afastou, olhando para um canto qualquer do estacionamento.
— Eu estava literalmente dormindo com o inimigo. — Olhou para mim. — Chegou a pensar que eu soubesse?
— Sim. — admiti e ela se retraiu ofendida.
— Vocês são minha família.
— Eu sei.
Entreolhamo-nos e ela veio me abraçar outra vez. Deixei-me levar pelo conforto, não me lembrava a última vez que tinha dormido ou respirado de verdade, muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo.
— A mãe dele pode saber onde ele está. — disse ela de repente.
— Você a conhece? — inquiri, lembrando-me de como Erick havia se referido a mãe, como alguém sem juízo.
— Sim, já estive com ela algumas vezes.
Andrea dirigiu dessa vez, segundo ela precisava descarregar a raiva.
— Como descobriu? — inquiriu ela, mostrando-se agitada atrás do volante.
— Marck se matou na minha frente, e vê-lo pessoalmente me lembrou que sempre achei Erick familiar, eu só não lembrava quando o tinha visto, mas ele é idêntico ao pai e a Marck. O mesmo cabelo, a cor dos olhos, os traços e o fanatismo. Ele está matando essas garotas, fazendo o que o pai fez. — fiz uma pausa. — Ele sabe como trabalhamos, Andrea.
— As perguntas dele fazem todo sentido agora. Se eu não o tivesse levado a aquele jantar na casa de Ben, Erick não saberia sobre ela.
— Ele sabia muito antes disso, estavam acompanhando a nossa rotina há muito tempo. — Olhei-a. — Ele não quer me matar, Andrea. Se quisesse já teria feito. — Não foram poucas as operações em que estivemos na mesma equipe. — Ele mataria vocês três, apenas para me enlouquecer.
Camille. Nina. Andrea.
As três mulheres da minha vida.
Cada uma delas tinha uma parte de mim, da minha lealdade e do meu amor.
Em posições diferentes, mas com valores exatamente iguais.
— A clínica em que Camille está é segura? — inquiriu ela, preocupada.
Nenhum lugar era.
— Não a deixei sozinha lá.
Embora Camille não soubesse, havia pessoas que a amavam. Naia e Miguel. O motorista e mais dois seguranças não deixavam de vigiá-la hora alguma, revezavam-se entre si, e não havia sido eu a pedir. Eles se ofereceram. Ela precisava acordar para descobrir o quanto era querida.
A senhora que abriu a porta da casa para nós era extremamente magra e cheia de rugas, não havia nada do filho nela, só um ar de bruxa. Das piores. Assim que entrei na sala senti-me no território do inimigo, porque a mulher não deixava de olhar minha cara. Ela sabia quem eu era. Sabia que havia sido eu a entregar o marido dela a prisão que ele merecia.
Percebi também que ela era brasileira com traços indígenas.
— Rute.
Andrea chamou a sua atenção, mas a senhora não moveu sequer um músculo para deixar de me encarar. Eu, todavia, olhei todos os cantos que podia — era uma casa grande e se ele estivesse exatamente aqui? Dei um passo a frente e a velha recuou, como se fosse eu o monstro. Para ela eu era o vilão e talvez fosse, afinal estávamos de lados opostos. Ela enxergava os fatos ao modo dela, sendo condescendente com os crimes do marido. A conclusão que cheguei é que eram todos doentes: ela, o marido e o filho.
— Onde está seu filho? — inquiri, estava se tornando uma pergunta chata. Porque a resposta que eu queria nunca aparecia.
— Eu não sei. — disse, finalmente.
A sala ficou em silêncio, e eu escutei o som de água caindo. Como num chuveiro grande.
— Você está aqui sozinha? — inquiri, olhando em direção ao corredor escuro, sem saber exatamente de onde vinha o som.
— Não tenho obrigação de responder nada ou de dizer onde está meu filho. — respondeu de forma grosseira. — Mas, fique a vontade para procurar.
Finalmente o ressentimento estava ali escancarado, não os julgava por me odiarem, mas que tivessem feito mal a mim e não a alguém inocente. As motivações deles tinham a ver com a família, nesse momento às minhas também. Então não me importava quem eu teria de machucar até encontrar o desgraçado.
— De onde vem o som da água que está caindo? — inquiri, sem me importar se ela daria outra resposta ácida.
— Há um vazamento no banheiro, a água escorre o tempo inteiro. — Olhou-me com raiva. — Mas meu filho não está aqui para consertar. — gritou fora de si. Mas não senti pena, a essa altura eu não tinha nem tempo para isso.
Nesse momento senti vontade de ter os mesmos sentidos de Bella, eu sentiria o cheiro de Nina se ela estivesse aqui. Ouviria seus gritos se fosse o caso.
Andrea caminhou para o corredor e desapareceu, talvez indo checar o que a velha tinha dito. Encaramo-nos por muito tempo, a tensão parecia que ia fazer a casa ir pelos ares.
— Não tem ninguém aqui. — Andrea avisou, voltando por onde havia ido.
Ainda assim continuei a encarar a mulher, minha intuição mandando que eu a apertasse até que algo saísse, recusando-me a sair dali sem uma resposta.
— Você viu o que aconteceu com seu marido. — Cruzei os braços realmente curioso. — Porque acha que vai ser diferente com seu filho?
Esperei ver medo, receio e até raiva nela, todavia o que ela respondeu soou num tom calmo.
— Se você sentir um pouquinho do que sentimos, e eu sei que sente. Erick não se importa de morrer...
Eram todos loucos, porra.
— Se minha irmã morrer, você não vai vê-lo nem para enterrar.
Saí da casa e antes de entrar no carro tirei o celular do bolso e fiz uma chamada para Benjamin.
— Conseguiu a localização dele? — inquiri, ouvindo Andrea atrás de mim.
— Não, cara.
Cerrei os dentes e me virei para olhar a casa atrás de mim. Vi a infeliz doente olhando na minha direção através da janela, como em um filme de terror do caralho.
— Eu quero que você traga Bella.
Guardei o celular no bolso, após encerrar a ligação e virei para Andrea, ela parecia perdida, desorientada.
— É como se eu estivesse num pesadelo. — disse ela, a beira das lágrimas, sem olhar realmente para lugar algum, afastando-se de mim ela se curvou para vomitar em um canto qualquer.
Aproximei-me para segurar os seus cabelos e ampará-la.
— Eu dormi com ele. — lamentou, como se sentisse nojo de si mesma. — Você entende o que isso significa? Eu dormi com ele...
— Significa que você não fazia ideia.
Olhou-me, lamentando e meneou a cabeça numa negativa.
— Você me avisou.
Ela olhou para a casa e eu a imitei no momento em que a mãe de Erick fechou o cortina da janela.
— Ele está aí. — Eu sentia, tinha certeza disso.
Andrea me olhou alarmada, dividindo-se entre me olhar e encarar a construção a nossa frente.
— Como? Eu olhei...
— O som da água vem de alguma parte subterrânea, de baixo e não do banheiro.
Parecendo se dar conta do que falei, ela olhou para o terreno em que nós pisávamos.
— São todos doentes. — Concluí.
Olhei a extensão do terreno e da casa. Se ele estivesse aqui, e eu tinha certeza que estava, essa merda acabaria hoje.
— Se acontecer alguma coisa comigo...
— Não vai acontecer nada. — ela me cortou, sem me encarar.
— Eu quero que você tire Nina daí e fuja para o mais longe que puder, até ter certeza que ele está morto. — Encarei-a, quando não obtive resposta. — Prometa.
— Não. — Num gesto cúmplice como anos atrás, quando ela decidiu que iria comigo atrás dos homens que mataram Samanta, Andrea segurou minha mão. — Nós três vamos sair daí vivos.