O Federal

Cris Araújo · Capítulo 5 de 63

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O Federal

Capítulo 4

 

 

Camille

 

Subi rapidamente a escada e entrei no quarto, respirando com

dificuldade. Encostei-me a porta e fechei os olhos, minha têmpora latejava de dor. Alguns minutos embaixo da água faziam as sensações ruins melhorarem, mas ele perguntou por ela. Por Liz. E a dor voltou, exaurindo as minhas forças. A força que a psicóloga dizia que eu precisava ter para recomeçar. Eu estava tentando. Nina estava ajudando, ela era tão amável comigo. Tão doce. Estar em sua companhia me fazia esquecer um pouco da culpa que eu sentia. Aquela sensação terrível.

Ouvi o som de passos e prendi a respiração. Devia ser ele. Marcone. Senti meu rosto corar. Eu via o rosto dele todo dia, mas por mais que eu revirasse a minha mente não sabia porquê. Eu não esqueceria se um dia o tivesse visto pessoalmente antes. Enfiei os dedos em meus cabelos e caminhei para a cama, sentei na beirada e tirei o roupão. Meus olhos caíram imediatamente na cicatriz horrorosa que eu tinha herdado daquele acidente maldito que matou minha irmã. Eu a matei. Minha irresponsabilidade. Eu não lembrava nada daquele dia, exceto de acordar e descobrir que Liz não existia mais por minha culpa. Enxuguei uma lágrima e deitei na cama encolhida, torcendo para que conseguisse dormir, algo raro ultimamente.

Despertei desorientada, sem saber onde estava. O canto dos passarinhos trouxe um relaxamento instantâneo, a sensação de estar em casa, num lugar seguro. Sentei, encostando-me na cabeceira da cama, estiquei o braço e peguei o celular sobre o criado-mudo. Levantei-me num pulo quase deixando o aparelho cair. Já passava das onze da manhã. Como consegui dormir tanto? Ignorei as mensagens, provavelmente da minha mãe. E corri para a minha mala perto do banheiro. Tomei um banho rápido e fucei as roupas até encontrar algo para vestir. Optei por um vestido branco na altura dos joelhos, ele era confortável e eu, não fazia ideia do que vestir. Fiz um rabo de cavalo, passando os olhos pelo chão em busca das minhas sandálias, calcei-as, perfumei-me e saí do quarto. Covardemente passei no quarto de Nina, apenas para saber que ela não estava mais lá. Respirei fundo e desci as escadas. A casa estava envolta no silêncio, passei pela sala de jantar e estar e fui para a cozinha, também vazia.

Caminhei para a área externa e aí o vi. Marcone estava perto da piscina, falando com alguém ao telefone, vestido numa calça jeans e numa camisa polo branca. Ele parecia relaxado, caminhou para mais perto da piscina e sorriu, ainda concentrado em sua conversa. Deixei que o visual dele me invadisse, as pernas longas musculosas e os braços fortes mostravam que ele devia praticar algum esporte ou ir à academia. Os músculos não eram exagerados, estavam dispostos na medida certa, deixando o corpo viril acentuado de uma forma natural. De repente ele olhou na minha direção, pegando-me no flagra, por algum instinto maquiavélico não desviei os olhos, embora estivesse corada até o pescoço. Prendi a respiração quando o vi começar a caminhar em minha direção, ainda respondendo a quem quer que fosse pelo aparelho. Entrelacei os dedos das mãos por puro nervosismo e perguntei-me onde Nina estava numa hora dessas.

Antes de chegar perto de mim ele guardou o celular no bolso da calça, pela manhã os seus olhos azuis eram mais claros, os raios de sol deixavam sua pele com um aspecto bonito e seus cabelos ainda mais pretos, estavam úmidos, provavelmente por causa de um banho recente. Ele teria acordado agora também?

— Bom dia, Camille. — Ele parou a minha frente e cruzou os braços, avaliando-me.

— Oi. — Respondi, e torci as mãos sem saber mais o que dizer. De perto pude ver mais claramente seu rosto e peculiaridades que à distância e durante a noite não captei.

O seu queixo era bem pontudo, o rosto recheado de covinhas ao lado da boca pequena, o nariz reto e os olhos incríveis. Ainda mais incríveis de perto. Mas sua postura era o que realmente era intrigante, a palavra perigo piscava como fogos de artifícios na minha mente. Ele era perigoso, a forma de se mover, era como se fosse um predador. O jeito altivo, determinado, intimidante.

“Eu a amedronto, Camille?”

A pergunta de ontem à noite lampejou na minha cabeça.

— Dormiu bem? — Havia um interesse genuíno na pergunta.

— Sim. — Respondi. — Nós estamos sozinhos aqui? — Perguntei, colocando uma mecha de cabelo imaginária atrás da orelha.

Um sorriso bem-humorado surgiu nos lábios dele, mostrando os dentes alinhados.

— Sim. — Deu uma resposta curta, analisando minhas reações. — Você está com fome?

— Onde está Nina e sua mãe? — Fiz outra pergunta.

— Eu as levei para a fábrica mais cedo, ainda estão lá. — Pigarreou e enfiou as mãos nos bolsos da calça. — Está com fome? — Voltou a perguntar.

— Já é quase meio dia. — Repliquei, mas, de fato, estava realmente faminta.

— E? — Ele arqueou as sobrancelhas.

— Estou mesmo com fome. — Rendi-me, olhando de soslaio para a cozinha, Marcone riu. Um som gostoso de ouvir.

— Vamos lá. Nina arrancaria meus olhos se ficasse sabendo que não fui gentil com você. — Comentou num tom debochado, que eu gostei e tocou meus ombros para que eu o seguisse de volta para a casa.

Sentei numa das cadeiras, e o observei remexer-se pela cozinha bem equipada. Ele parecia bem confortável, diferente de mim.

— Eu posso comer qualquer coisa.

— Não temos qualquer coisa aqui. — Retrucou ele, mexendo nas bandejas e tigelas sobre o balcão de mármore preto. — Esses pãezinhos são meus preferidos... — Sussurrou acho que para si mesmo, pegando um de dentro da pequena cesta e levando-o à boca. — Você quer? — Apontou para o pãozinho.

— Sim... — Respondi, meu estômago estava mesmo cheio de fome.

— Está vendo? — Começou. — Não é qualquer coisa.

Revirei os olhos.

Devorei alguns pãezinhos, queijo, uma fatia grande de bolo de cenoura e uma caneca de café com leite. Marcone não comeu, apenas bebericou por um longo tempo uma xícara de café preto, enquanto me observava quando achava que eu não estava olhando.

— Alguém nunca disse para você que observar as pessoas enquanto matam a fome é falta de educação? — Retruquei quase irritada. Eu disse quase.

A gargalhada gostosa que ele deu me fez sorrir um pouquinho.

— Bom, isso não impediu que você matasse a sua, não é? — Debochou ele, erguendo as sobrancelhas. — Estou, inclusive, estarrecido agora. Para onde essa comida toda vai? — O debochado inconveniente perguntou, como se quisesse de fato saber.

Meneei a cabeça, contendo um sorriso e olhei para o lado de fora. Um sol frio beijava a grama verdinha.

— Vou dar uma olhada nos cavalos. — Ele sussurrou. — Quer vir comigo?

— Aqui tem mesmo cavalos?

— Sim.

— Quero. — Peguei-me aceitando o convite animada.

— Ponha uma calça e botas. Vai se sentir mais confortável. — Marcone explicou, olhando-me com intensidade quando levantei.

— Acho que trouxe na mala. — Sorri, um pouco tímida pela forma como ele estava me olhando e quando não ouvi mais nada dele, saí da cozinha em direção à escada.

Tentei frear a animação, eu não o conhecia. Já tinha acontecido isso no passado e o resultado foi eu me dar muito mal. Sentei na cama e enterrei o rosto nas mãos, tentada a desistir e permanecer ali sozinha. Peguei o celular sobre o criado-mudo — duas mensagens da minha mãe, uma do meu pai, e uma que fez meu coração gelar.

 

Marcone

 

Tirei a pequena bagunça do café da manhã de cima da mesa,

enquanto esperava Camille trocar de roupa. Resolvi de última hora levá-la para ver os cavalos, na verdade eu pretendia ir ao escritório e analisar algumas imagens das câmeras de segurança da fábrica, provavelmente Andrea estaria chegando no fim da tarde com algumas informações que não quisera passar por telefone para mim, mas os olhos verdes chamativos me fizeram mudar os planos. Ela tinha baixado a guarda, estava mais relaxada perto de mim, e embora, eu não soubesse os motivos para deixá-la tão tensa na minha presença, vê-la tranquila e sem toda resistência a mim me deixou satisfeito de alguma forma.

Consultei o relógio e subi para o quarto que eu estava ocupando, pensei que talvez fôssemos nos esbarrar, mas a porta dela continuava fechada. Troquei o tênis por botas e peguei dois bonés pretos com a logomarca da fábrica sobre a cômoda. Saí e parei em frente ao quarto dela. Dei duas batidas.

Silêncio.

Novamente bati duas vezes.

Mais silêncio.

Estava me virando para ir procurá-la no andar de baixo, quando a porta foi aberta. Prendi a respiração com a mudança radical em seu rosto, os traços que até alguns minutos atrás estavam suaves, risonhos até, agora exibiam uma tensão alarmante, os olhos estavam opacos e inexpressivos e os braços cruzados.

— Está tudo bem, Camille? — Perguntei, minha voz saiu rouca, tensa.

Senti vontade de tocá-la e tirá-la do aparente transe, mas não o fiz. Temi assustá-la de alguma forma.

— Tudo bem se não quiser ir. — Tentei reconfortá-la, sem nem ao menos saber o que eu tinha feito de errado. Os olhos verdes encontraram os meus e senti-me confuso em como eles podiam mudar em frações de segundos, em uns momentos vazios quase gelados e agora intensos, perscrutadores.

— Eu quero. — Sussurrou simplesmente, dando um passo para frente e saindo do quarto.

Fiquei mais satisfeito do que esperava, peguei sua mão e a puxei pela escada, paramos na cozinha.

— Solte os cabelos. — Pedi. Ela não entendeu, mas obedeceu. As madeixas castanhas caíram como cascatas por seus ombros e costas. Coloquei suavemente o boné sobre sua cabeça, e arrumei seus cabelos atrás da orelha. Uma desculpa vergonhosa para tocá-la. — Fica bonito em você. — Elogiei e ganhei um sorriso do tipo “Pare com isso”. Coloquei meu próprio boné e saímos.

Andamos por quase vinte e cinco minutos, uma caminhada prazerosa por causa da paisagem. Havia um caminho longo de coqueiros, e árvores frondosas. O ar puro nos rodeava e um sol frio agradável tocava levemente nossa pele. As terras do meu pai eram vastas, bem cuidadas e cheias de frutos. Uma das curiosidades que me rondava era saber quem seria eu se tivesse escolhido a vida no campo, provavelmente estaria casado com alguma mulher daqui, deveria ter mais de um filho, afinal no campo, além do trabalho pesado, não havia muito o que fazer. De onde estávamos vi três cavalos, o homem que cuidava deles estava próximo ao maior, um de pelos negros brilhantes. Era o cavalo do meu pai, o preferido dele.

— Ali, está vendo? — Apontei para a casa dos animais, Camille estreitou os olhos, observando. — Estamos perto.

— São quantos cavalos? — Ela perguntou, segurando o boné por causa da rajada de vento, evitando que ele caísse no chão.

— Acho que uns sete. — Respondi, olhei-a rapidamente.

— É difícil montá-lo?

A pergunta me fez olhá-la.

— Se você fizer do jeito certo, não.

Caminhamos mais um pouco e descemos uma pequena ladeira em direção ao estábulo. Nem o capataz nem seu auxiliar estavam mais por ali. Rodeamos o local onde os cavalos estavam e os observamos por um longo tempo, quietos.

— Posso montar um deles? — Ela perguntou, olhando-os com admiração.

— Pode. — Estudei-a. — Já fez isso alguma vez?

— Não. — Tocou na aba do boné sem qualquer efeito. — Já vi vídeos no youtube. — Admitiu ela.

Senti vontade de rir, todavia, não fiz isso. Assenti e fui à baia. Selei o cavalo menos alto e mais manso e a ajudei a subir nele. Ela ficou alguns minutos desengonçada sobre a cela, o que foi bastante engraçado, mas depois, relaxou. Olhando tudo em volta, enquanto nossos cavalos nos levavam pela área verde por ali mesmo.

Passamos um bom número de horas montando e falando sobre os cavalos, mas tivemos de voltar para casa, primeiro porque Nina e minha mãe já deviam estar de volta e segundo porque Andrea ligaria a qualquer minuto para eu ir buscá-la no aeroporto.

 

*

Desviei novamente o olhar do mackbook para a área da piscina através da janela e resolvi girar a poltrona de uma vez. Nina, Camille e Ben, isso mesmo, esse puto tinha vindo junto com Andrea sem ser convidado e estava regozijado como um moleque dentro da piscina com minha irmã. Camille estava sentada na borda um pouco mais distante, embora soltasse algumas risadinhas das coisas ridículas que o palhaço fazia. Detive o meu olhar nela, os cabelos estavam num coque frouxo e ela usava um vestido vermelho justinho, apenas as pernas estavam dentro da água.

— Agora entendo porque queria tanto reencontrá-la. — O tom acusatório e debochado soou atrás de mim, eu me virei para encará-la.

Andrea estava encostada na mesa de braços cruzados, com uma pasta entre os dedos longos, olhando para Camille.

— Como você sabe quem ela é? — Questionei, eu não tinha contado ainda sobre ter encontrado a garota.

Sem responder, estendeu a pasta, uma foto de Camille estava grudada na frente e sentou-se na cadeira diante de mim.

— Consegui descobrir quem ela é, mas você foi mais rápido do que eu, a garota já está até aqui, na sua casa. — Deu uma gargalhada debochada e voltou os olhos para Camille. — Ela é linda. — Foi quase uma acusação admirada.

— Não foi por isso que queria vê-la outra vez. — Recostei-me na poltrona. — No momento em que a encontrei naquele carro não tinha como saber como ela era fisicamente. Estava muito machucada. — Voltei a analisar a garota lá fora, ela olhou em minha direção e desviou os olhos. — Por algum motivo eu só queria ter certeza de que estava bem.

— Você não é um monge, Marcone. — Bufou, fuzilando-me com os olhos.

Mas, Andrea sabia que eu não tinha me envolvido realmente com ninguém depois de Samanta, emocionalmente nunca. Apenas algumas saídas esporádicas com algumas mulheres que sabiam exatamente como eu era.

— Ela me atrai, não vou negar.

— Já tinha notado. — Esclareceu ela e olhou novamente para a garota. — Considerando a forma como ela me olhou quando chegamos, imagino que seja recíproco.

Não pude deixar de rir, embora curioso. As mulheres deviam mesmo perceber certas coisas em relação às outras da mesma espécie.

— A forma como ela olhou para você? — Perguntei, realmente interessado. Guardei a pasta dentro da gaveta.

— Algo do tipo: Quem é essa?

— Camille mal consegue ficar perto de mim, Andrea. Em um momento é doce e receptiva, no momento seguinte é arisca e desconfiada. — Meneei a cabeça numa negativa. — Ela não lembra de mim. Quero me aproximar um pouco, entender o que aconteceu naquela noite. — Expus, embora minha mente dissesse que aquela merda não era da minha conta, gritava na verdade, algo como: Afaste-se dela, cara.

— Entendo. — Disse, simplesmente. — Como a encontrou?

— Não encontrei. — Dei de ombros. O olhar afiado e incrédulo dela voou para a janela outra vez.

— Você é um idiota mesmo. — Resmungou, sem me olhar.

Gargalhei e isso piorou a cara de enganada que ela estava fazendo.

— Estou falando sério. — Tentei não rir. — Camille é inacreditavelmente amiga de Nina.

Algo fez sentido para ela.

— Você bem que poderia ter vindo sozinha, não é? — Foi minha vez de resmungar.

A estressadinha riu, entendendo onde eu queria chegar.

— Aquele puto pretende colocar a língua na boca da sua irmã, se prepare para ver isso. — Explicou satisfeita. A minha cara de nojo não passou despercebida por ela. A mulher explodiu numa risada zombando de mim.

Depois de mais cinco minutos de zombaria resolvemos nos concentrar no que realmente precisávamos fazer.