O Federal

Cris Araújo · Capítulo 43 de 63

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O Federal

Capítulo 42

 

Camille

 

De: Marcone

Minhas melhores noites são com você.

 

Mordi o lábio inferior, evitando sorrir. Pelas minhas contas já

tinha relido essa mensagem mais de quinhentas vezes, e em todas elas eu ficava um pouco mais apaixonada. Coloquei o celular sobre a mesa e olhei para Isabelle, ela estava distraída e não quisera pintar nada durante a aula de mais cedo. A menina estava estranhamente quieta, o que não era habitual. Sentei ao seu lado e segurei a mão pequena.

— Sua vizinha demorou hoje, não foi? — Puxei assunto.

Ela deu de ombros, e continuou quieta.

Olhei o relógio do meu pulso e já passava da dezoito e trinta, não demoraria para Marcone vir me buscar.

— Você tem o número dela para eu ligar? — perguntei, não havia mais ninguém no prédio além de nós duas, como era aniversário de uma das crianças resolvemos fazer uma festinha durante a tarde.

— Ela não tem celular. — respondeu, baixinho, balançando as perninhas.

— Hum. — Ajeitei o lenço em sua cabecinha. — Que tal mais uma fatia de bolo, enquanto esperamos por ela?

Ela deu um sorriso gracioso e segurou minha mão. Naiá fizera um bolo de chocolate com muita calda. Cortei uma fatia grande para ela e uma fina para mim.

— Quem vai te levar pra casa? — perguntou ela, a boca meio suja de chocolate.

— Marcone.

A menina olhou para a minha mão, provavelmente em busca de um anel.

— Ele não veio mais aqui. — objetou ela de boca cheia, parecia contrariada.

— Ele trabalha muito, mas vou pedir que abra um brecha na agenda para vir ver você.

Isabelle sorriu.

A vizinha dela chegou alguns minutos depois para pegá-la, reclamou de que o trânsito estava ruim e os ônibus lotados demais. Assim que elas saíram meu celular vibrou com uma mensagem de Marcone, reclamando da mesma coisa. Aproveitei que ele iria demorar um pouco mais e passei a colocar algumas das telas secas nos lugares vagos no expositor, não tirei por um segundo sequer a atenção do celular caso recebesse alguma ligação.

Ouvi um ruído da porta se abrindo e não me virei, esperei para fingir surpresa quando ele se aproximasse, continuei arrumando os quadros.

— Eu esperei que a menina saísse.

Foi como um tapa na cara ouvir a voz de Enzo ali, o quadro que eu estava colocando caiu e por pouco não acertou meu pé. Ouvi o primeiro e o segundo passo, e então pela sombra no chão eu percebi que estava a poucos centímetros de mim.

— Eu só vim conversar. — Ele segurou uma mecha do meu cabelo e eu me retraí, esse tom e essa calma eram um presságio para uma tragédia.

Tentei me afastar, mas ele me virou, puxando-me pelo braço, e eu soltei um grito e cobri minha boca com a mão livre. Havia uma cicatriz imensa no lado do seu pescoço, ainda não completamente sarada.

— Está vendo o que aquele cachorro fez? — Ele apertou meu braço com mais força como se quisesse quebrá-lo e a outra mão segurou minha nuca, puxando-me para ver de perto a escoriação medonha. — Eu devia fazer o mesmo com você, te cortar inteira e depois mandar os pedaços para o desgraçado que te come.

Soltei um gemido esganiçado, enquanto a dor lancinante se espalhava pelo meu braço inteiro.

Os olhos dele ficaram marejados de lágrimas, algo que no passada me deixava profundamente culpada e confusa, agora eu não sentia nada, tudo que minha mente gritava era que eu precisava correr o mais rápido que eu pudesse.

— O que será que ele faria? — perguntou ele, apertando ainda mais, cheguei a ficar na ponta do pé por causa da força com que ele me segurava. — O que ele faria? — Ele riu, um sorriso cruel daqueles que vinham acompanhados de palavras mortais. — Ele não faria nada, sabe porque? — Dessa vez, ele puxou meu cabelo para trás de modo que pudesse encará-lo de frente. Todos os traços do seu rosto estavam tensos, a pele suada, e a barba por fazer. — Porque ninguém, escute bem, absolutamente ninguém consegue te amar de verdade. Você nasceu para ser um passatempo, daqueles bem chatinhos que não jogamos fora por pena, ou para o caso de precisar novamente. — Ele deu um sorriso maldoso, sabendo o que esse tipo de comentário fazia comigo.

Enzo conhecia todas as minhas fraquezas, eu era uma criança deprimida quando ele se aproximou e eu me apaixonei, me apaixonei pelo que eu achava que ele era, pelo que eu queria que fosse, e ele foi por um tempo. Esse desgraçado não começou me batendo, no início eram flores e palavras bonitas. Carinhos, afagos e tardes de sorvete e filmes de comédia romântica.

Esse era o começo de um fim inevitável, talvez o ideal fosse que ele me matasse mesmo, a doença dele se encerraria com a minha morte. Ou talvez o ideal é que fosse eu a matá-lo, tal qual ele fizera com várias partes de mim.

— Ele te mataria. — respondi, por fim à pergunta que ele fizera.

Os olhos dele fitaram a minha boca e com a mão livre ele me deu um tapa tão forte no meu rosto que acabei ferindo minha própria língua, senti o gosto do sangue.

— Ele te mataria, seu desgraçado! — No meu descontrole, comecei a socar várias vezes o peito dele, o que só o irritou mais. Com raiva, Enzo me empurrou e caí de costas, por pouco não bati a cabeça na ponta da cadeira.

Ele me rondou, enquanto eu ainda estava no chão e eu olhei para todos os lados em busca de algo pesado para atirar nele, mas tudo estava distante. Imaginava exatamente o que ele faria, chutar meu ventre até que eu desmaiasse de dor, como já acontecera antes.

— Eu vou matá-lo antes. — Enzo se abaixou perto de mim e a sua mão acariciou o meu cabelo. — Ele, a irmã dele, o cachorro e depois nós vamos embora. Só eu e você.

A ideia me deixou desesperada e eu sentei rapidamente, peguei o quadro que havia caído das minhas mãos e tentei acertá-lo na têmpora como Marcone havia dito, mas ele foi mais rápido e se afastou, só tive tempo de correr até a porta, mas Enzo me agarrou pela cintura e me prensou na parede, os olhos pretos estavam tão coléricos que pareciam estar saindo pelas órbitas.

— Diz que me ama. — sussurrou ele, causando-me asco. — Diz. — Dessa vez ele gritou, enlouquecido, as veias do seu pescoço ficaram alteradas, puxou tão forte o meu cabelo que o couro cabeludo parecia estar queimando.

— Eu te odeio. Eu te odeio. Eu te odeio. — Repeti isso tantas vezes mentalmente, que fazê-lo em voz alta foi libertador.

Vi a forma como ele engoliu em seco, os olhos ficaram vermelhos como brasas, mostrando o monstro que poucas pessoas conheciam. O ser humano violento e irascível que ele era. O puxão no meu cabelo diminuiu, e houve um afago rápido no meu pescoço, e embora qualquer um pudesse pensar que ele iria me soltar e ir embora, eu sabia que o pior dele viria a seguir.

Geralmente o carinho precedia as piores agressões, os socos mais fortes, as palavras mais agressivas, os momentos mais angustiantes.

O toque suave transformou-se num aperto sufocante em meu pescoço.

— Eu vou matar você e ninguém vai ver.

Enfiei minha unhas nos braços dele numa tentativa frustrada de causar-lhe alguma dor, mas ele parecia ter se transformado em pedra, os olhos estavam tão vidrados nas minhas reações que parecia não sentir nada. Todas as minhas tentativas de gritar foram em vão, o aperto só ficava mais forte, e minha falta de ar maior.

— Você não tem ideia do quanto eu amo você. — Ele desfez um pouco o aperto e eu tossi veementemente buscando o ar que me faltava, as mãos desceram pelo meu ombro e meu pânico cresceu com a possibilidade dele me tocando, senti um asco fora do comum.

— Me deixa ir... — supliquei em meios as tosses, algumas lágrimas foram descendo e o medo de morrer crescendo.

— Nós vamos. — disse ele, a mão alisou meu cabelo e eu me encolhi. — Para um lugar onde ninguém nunca vai nos achar. Só nós dois, eu já planejei tudo.

Enquanto ele ia contando as loucuras, eu fechei meu punho e me concentrei, tentando pensar no tanto de força eu teria de ter para fugir de um homem do tamanho dele. Encostei a cabeça em seu ombro, sentindo por um momento o perfume que um dia apreciei, mas que agora me causava repulsa. Enzo, no entanto, entendeu errado o meu gesto, ele baixou a guarda e eu acertei uma joelhada no meio de suas pernas com o máximo de forças que eu consegui reunir.

Ele deixou escapar um grito e me soltou curvando-se, foi minha chance de correr.

Marcone

 

Estacionei na vaga de sempre e permaneci sentado, atento a entrada do prédio. As luzes estavam quase todas desligadas, peguei um halls dentro do porta-luvas e liguei para avisar que estava esperando, chamou algumas vezes, mas ela não atendeu. O homem que geralmente ficava ali nesse horário para vigiar o lugar, não estava na guarita. Desisti de esperar e saí do carro, percebi o carro estranho estacionado do outro lado da rua, estranhamente silenciosa. O som dos meus passos na calçada tornaram-se agourentos, a porta de vai e vem do prédio foi aberta em um rompante e Camille esbarrou em mim, completamente descontrolada, chorando, suada, descabelada.

— Eii... — Segurei-a pelos ombros, tentando fazê-la me olhar, e então eu vi o estrago em seu rosto.

Ela olhou para mim como um animal machucado, as lágrimas eram tantas, uma após a outra sem cessar, mas não havia som nenhum, nenhum lamento, nenhum gemido, nada, apenas lágrimas silenciosas. O lado esquerdo do rosto tinha uma marca vermelha enorme, a boca carnuda estava inchada, partida e o pescoço, os dedos do desgraçado estavam visíveis ali.

Engoli em seco, imaginando toda a cena e foi como se toda a minha visão se tornasse vermelha, o lado ruim, o pior, aquele todo ser humano tinha, ele veio completamente a superfície.

Considerando a forma como ela tinha saído desesperada, o desgraçado ainda estava lá dentro, dei um passo em direção a entrada, mas ela segurou meu braço e se agarrou de forma tão desesperadora que eu abracei de volta.

— Não vai... — foi uma súplica, vi o medo e a vergonha no semblante dela, o corpo pequeno estava tremendo tanto que eu temi que ela caísse caso eu a soltasse.

A porta se abriu outra vez e o miserável saiu, estancou ao nos ver ali, o rosto foi assumindo uma expressão quase demoníaca tal qual a dos assassinos que eu já havia prendido ou matado. Eu a soltei, foi instintivo.

— Você bateu nela, porra?

O primeiro soco que eu dei o fez cair de costas na calçada, ouvi um grito assustado de Camille, mas não parei, foram vários, um atrás do outro, ele não teve nem chance de revidar.

— Marcone... — Foi só um soluço, e eu parei. Minha mão já estava suja do sangue do miserável, eu me virei para ela e pelo seu rosto eu vi que agora ela realmente conhecia cada parte de mim, todas elas, inclusive as menos bonitas, as que eu não gostaria que ela visse.

Enquanto eu a olhava, ouvi o miserável se levantar as minhas costas, e então o clique da arma sendo destravada soou e eu me virei para ele. A cara cheia de sangue exibia um sorriso de triunfo.

— Não, por favor... — Agora ela estava chorando de verdade, ouvi um soluço e em seguida ela já estava entre nós dois. — Por favor, por favor... não..

— Desculpa, mas eu te avisei. — Ele cuspiu o sangue e foi o momento de distração mais ridículo que já presenciei na vida.

Consegui tirar a arma das mãos dele, mas ela disparou.