O Federal

Cris Araújo · Capítulo 57 de 63

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O Federal

Capítulo 56

 

Marcone

 

Benjamin chegou quase duas horas depois no lugar exato em

que indicamos nem longe e nem muito perto da residência, Andrea e eu nos afastamos da casa dando a impressão a velha que tínhamos ido embora. No entanto, a casa ainda era possível ser vista de onde estávamos — a noite escura e algumas árvores no davam essa vantagem. O que me levou a pensar no porquê de morarem distantes assim dos bairros que a maioria dos policiais moravam. Ele não ganhava mal.

Assim que Bella pulou do carro fiz um sinal para que ela não latisse, abaixei-me para afagar a cabeça grande e colocar o colete

nela. Uma roupa high-tech [1]para facilitar a nossa comunicação, mesmo que estivéssemos longe um do outro, eu a ouviria e poderia acompanhar onde estava através do celular.

— Você trouxe o que pedi? — indaguei.

Benjamin lançou um vestido de Nina, Bella já conhecia seu cheiro, todavia ela precisava saber exatamente o que procurar.

— Você vai encontrá-la, não vai? — Afaguei a cabeça de Bella, enquanto ela inspirava o cheiro do vestido, começando a ficar agitada. O estado de espírito parecido com o meu.

Ergui-me e vesti o colete a prova de balas que Ben trouxera, recarreguei a arma e acoplei o supressor de som.

— Acha que ele está sozinho?

A pergunta veio de Andrea.

— Alguém estava no carro junto com Marck. Então mesmo que ele esteja sozinho, ainda há outro. — Olhei para Ben. — Você cuida da mãe dele.

— Se tiver câmeras, ele já sabe que estamos entrando. — Ela apontou para o telhado da casa.

Bati na porta e ela foi aberta imediatamente, como se a infeliz estivesse esperando alguém, assim que viu que era eu tentou empurrá-la para fechar, mas fui mais forte.

— Saia. — Apontei para fora da casa com o cano alongado da glock.

Bella rosnou para mulher, enquanto ela saia tentando se manter o mais longe possível do animal.

— Ela já está morta — a mulher cuspiu quando se viu longe de mim, preparando-se para correr, mas Ben a segurou. — Já está no inferno... — continuou a gritar, enquanto era arrastada.

Mantive o autocontrole, dizendo a mim mesmo que ela estava mentindo para me fazer perder a cabeça, todavia isso não impediu meus batimentos cardíacos de ficarem loucos de raiva.

Dando as costas para a mulher, eu pisei com força no assoalho de madeira da sala, observando os passos de Bella, a agitação dela era a prova que minha irmã tinha estado aqui. A forma como ela caminhava, refazendo todos os pontos pelos quais Nina passara, segui-a quando ela foi para o corredor. Andrea ligou as luzes e Bella começou a arranhar veementemente uma porta. Andrea me cobriu, enquanto eu a abria.

Vazio.

A respiração de Bella estava completamente ofegante, eu podia ouvi-la perfeitamente bem pelo comunicador pequeno no meu ouvido. Ela farejou em círculos.

— Vamos lá, garota.

Depois de ir e voltar pelo espaço não tão grande, ela se sentou diante do armário grande que tomava toda a parede e olhou para mim, esperando que eu fizesse alguma coisa que desse a ela acesso ao que quer que estivesse do outro lado, porque com certeza havia algo.

Aproximei-me do móvel e segurei a borda, testando o peso para ver se era possível puxá-lo. A madeira clara dava a impressão de que era pesado, consegui afastá-lo e pude ver o início de uma porta.

— Me ajude aqui. — Estendi a arma para que Andrea segurasse. E forcei mais um pouco o móvel pesado, sentindo a mão e o ombro baleados arderem.

— Seu ombro está sangrando.

Senti o curativo sob a blusa ficar úmido, a minha grande sorte era o fato de ter sido de raspão. Esfolara apenas a carne, não chegou a atingir o osso. Ouvi com mais clareza o som de água, quando consegui tirar o móvel do lugar. Um misto de alívio e medo ao mesmo tempo, alívio por estar certo quanto ao desgraçado talvez estar aqui, medo por não saber se encontraria minha irmã viva ou morta. Os latidos de Bella me fizeram forçar a porta, para meu alívio não estava trancada sequer havia alguma fechadura. Assim que a abri Bella correu furiosa para o lugar escuro, deixando-nos para trás, embora eu a ouvisse pelo comunicador.

— Como nos velhos tempos. — Andrea sussurrou atrás de mim e eu me virei para olhá-la, certifiquei-me se ela estava de colete e a puxei para um abraço, encostei os lábios na testa um pouco úmida.

— Se a encontrar antes de mim, sabe o que fazer. — sussurrei. — Você foge.

Andrea não respondeu, só me seguiu para a escuridão. Liguei a lanterna do celular e desci os degraus da escada mal feita de madeira para o subsolo da casa. Encontrei uma lâmpada pendente e a acendi. Fiz um sinal para que Andrea descesse. Olhei ao redor do lugar, dando-me conta que apenas alguém louco teria tempo de fazer algo do tipo.

O chão de terra longo dava a impressão que Erick tinha cavado todo o terreno da casa, não vi Bella, embora a escutasse. O barulho da água ficava cada vez mais perto de onde ela estava. Segui o som em passadas largas, nada era ouvido, além de nossos passos e da água caindo, perguntei-me onde o infeliz estava escondido. Não havia apenas uma entrada, mas vários caminhos a seguir, como se ele tivesse feito com o propósito exato de confundir quem descobrisse o lugar.

O som de um tiro me fez correr, eu só não sabia se era aqui embaixo ou na parte de cima, os sons ficaram confusos, o eco distorcido e a má iluminação do lugar deixava tudo ainda pior. Um tanque grande ligado a uma mangueira grossa me deu uma ideia de onde vinha o barulho da água, corri mais um pouco e olhei para trás, dando-me conta que Andrea não estava mais atrás de mim.

Meu coração disparou quando vi uma silhueta jogada sob os jatos de água que caiam e respingavam em mim, tentei entender o que fazia a água cair até que encontrei a transmissão e aproximei-me para fechar. Abaixei-me perto do corpo, gelado e nu, os cabelos extremamente pretos e nenhum sinal vital. Me faltou ar, tirei os fios molhados do rosto e me dei conta que não era minha irmã. Mas era tão nova e tão frágil quanto. Os lábios da garota já estavam roxos, assim como uma parte do seu rosto, sinal de que ela já estava morta há algumas horas.

— Desgraçado doente. — Sem outra alternativa, eu deixei o corpo inerte da garota ali.

Peguei o celular do bolso para iluminar ao redor, o soco que levei sem esperar me fez cair de costa no chão duro. Senti o gosto de sangue na boca e me concentrei para ouvir os passos do desgraçado já que o celular tinha caído e eu não conseguia enxergar direito. Com sorte a arma ainda estava na minha mão.

— Você é insistente, porra. — grunhiu ele, e eu tive uma ideia de que lado ele estava.

Dei um chute que pareceu pegar em sua coxa e o peso de Erick tombou no chão.

— Você achou mesmo que eu não ia te encontrar? — Peguei o celular e o iluminei.

— Uma pena que tenha encontrado tarde demais.

As palavras me gelaram por dentro.

— Ajoelha. — Minha voz soou calma, considerando o tumulto desgovernado que eu estava por dentro.

— Ela está morta. Morta. — sibilou como um infeliz doente. — Como o meu pai! — dessa vez gritou, agitado, como se não estivesse na mira de uma arma.

— Agora, porra, ajoelha.

— Eu estou pronto para conhecer meu criador — zombou, ajoelhando-se e colocando as mãos atrás da cabeça. — Você está?

Ignorei a pergunta, dando-me conta de que ele era realmente doente. Um psicopata doente.

— Me diga onde ela está, Erick — pedi, foi um pedido. — Minha irmã não tem que sofrer por algo que não fez. — Fiz uma pausa. — Machuque a mim. Ela não.

O desgraçado sorriu de lado.

— Morreria por ela, não é? — afirmou, achando que eu estava distraído e tentado pegar uma pedra perto de seu joelho. Atirei, e o tiro foi tão silencioso que Erick só se deu conta quando a bala furou o chão perto da sua perna. — É exatamente por isso que é divertido. Enfiar uma bala no seu peito seria uma benção para você. — Deu um sorriso perverso. — Assistir ao seu desespero é muito melhor, saber que você vai sofrer é muito melhor. A morte é fácil, é até bonita.

Ele tinha assistido a tudo que aconteceu assim que cheguei ao prédio e não encontrei mais minha irmã. Estava assistindo o meu sofrimento, tivera certeza da minha fraqueza.

— Agora é muito pior do que o passado. — insistiu em me provocar. — Quem garante que hoje ou amanhã outra pessoa não dê um tiro na cabeça da sua garota? Ou que alguém entre naquela clínica e desligue os aparelhos que a mantêm viva.

— E quem garante que sua mãe não esteja morta agora? — Eu sabia que a velha doente estava viva, mas tive necessidade de feri-lo.

As minhas palavras o atingiram em cheio, num movimento rápido ele jogou o corpo pesado contra o meu, a arma caiu. E Erick voltou a me socar no ombro machucado mais de uma vez.

— Eu a matei e enterrei num lugar que nunca vai achar. — Puxei o canivete pequeno que sempre mantive no bolso e acertei em cheio suas costas, fazendo-o sair de cima de mim e procurar o objeto fincado na sua carne como um louco. Antes que pudesse levantar e pegar a arma, Andrea a pegou e mirou nele. As duas, tanto a minha quanto a própria.

— Não atire. — pedi, eu conhecia a expressão que ela fazia.

Andrea estava machucada. Ele a tinha machucado.

— Ele não vai dizer. — As mãos dela chegavam a tremer, tamanho o descontrole que se encontrava. — Podemos torturá-lo a noite inteira e esse desgraçado não diz.

— Não há o que dizer. — Erick gritou furioso. Talvez por causa da dor. — Qual a dificuldade de vocês acreditarem que ela esta morta? As pessoas morrem, em cada canto desse lugar há ossos de garotas como Nina. — Tentou mais uma vez tirar a lâmina das suas costas, falhando novamente.

— Ele não vai dizer. — ela olhou para mim, com cara de quem se desculpava.

Ela tinha razão.

Ele já havia dito.

Só não queríamos acreditar.

Eu não queria acreditar.

Nina podia estar na mesma situação da outra garota, morta há horas. O corpo só não tinha sido encontrado ainda. Fechei os olhos com força, enquanto uma lágrima só escorreu por meu rosto, uma certeza absoluta me esmagando. Não escutei o tiro, mas ouvi o tombo do corpo de Erick no chão.

— Eu espero que ele encontre o pai no inferno. — As palavras de Andrea foram cuspidas.

Abracei os meus joelhos ficando sem direção, memórias de quando a serelepe veio morar comigo, de tudo que fizemos juntos, de como ela conseguia me irritar e me deixar feliz ao mesmo tempo. Ouvi quando Andrea também se sentou, diferente de mim, o choro dela podia ser ouvido, tornando o lugar pior do que era. Tornando a escuridão ainda mais densa, e o eco ensurdecedor. Ela tinha muitos motivos para chorar. Fiz uma retrospectiva da minha carreira, e a única pergunta que soava com insistência era se tinha valido a pena. Se as minhas perdas valiam cada ano que me comprometi a servir ao meu país.

Um dos países mais corruptos do mundo.

A dor que sentia agora dizia que não.

A morte de Erick não traria a minha irmã de volta.

Da mesma forma que os homens que matei no passado não trouxeram Samanta de volta.

Erick tinha razão, a morte era fácil. Era pior para quem ficava vivo, quem tinha que se readaptar, quem não veria mais a pessoa. Não escutaria mais a voz. Não sentiria mais o cheiro. Não se irritaria mais.

Era pior para quem perderia um pedaço de si.

O uivo de Bella me tirou do transe, e eu enxuguei os olhos com o antebraço. Ela uivou novamente e me levantei. Quando os cães uivavam assim era porque eles queriam reunir a matilha.

Ela estava me chamando.

Peguei o celular e busquei a câmera que a mostraria, Bella estava deitada perto de uma caixa grande de madeira.

O corpo da minha irmã.

— Não vou conseguir, Andrea. Não dá...

— Você é forte. — Ela enxugou o próprio rosto. — Precisamos levá-la para casa. Fazer as coisas do jeito certo, vê-la pela última vez.

Pela última vez.

Bella uivou novamente e contrariando como eu me sentia por dentro, corri junto com Andrea para o lugar distante dali. O miserável tinha cavado além do próprio terreno. Assim que vi a forma como Bella estava deitada em cima da caixa, protegendo o havia ali dentro, tive a sensação de que meu coração estava sendo arrancado fora. Aproximei-me devagar e tateei a madeira. Puxei o trinco de ferro e abri a tampa, uma respiração forte saiu dos meus pulmões quando eu vi o corpo inerte e nu da minha irmã, os cabelos molhados como os da garota que encontrei antes. Tirei os cabelos do seu rosto e toquei a testa gelada, ainda molhada. Beijei-a ali, vendo como a pele estava branca demais. Segurei a base do pescoço e então senti a pulsação. Meu coração que parecia ter parado no tempo fora do meu corpo, retornou ao seu lugar e voltou a bater.

— Nina. — Dei tapinhas no seu rosto. — Nina.

— Ela está com sinais? — Andrea perguntou, já discando no próprio celular, embora fosse ser difícil que ele pegasse aqui embaixo.

Soprei o ar na boca da minha irmã, e toquei o seu coração. Ele ainda batia. Sem abrir os olhos ela começou a tossir e colocar água para fora, como se fosse apenas isso que tivesse ingerido.

— Graças a Deus. — Coloquei-a sobre a caixa e me desfiz do colete e da blusa para vesti-la. O corpo inteiro tremia.

— Você veio... — foi um sussurro seguido por tosses, quando seus olhos realmente pousaram em mim.

— É, estou aqui.