O Federal
Capítulo 25
Marcone
— As botas impedem que a gente saiba qual é a exata altura
dele. — Andrea apontou para o vídeo e eu cliquei na tela para paralisar e prestar atenção no que ela estava dizendo.
Mais uma garota tinha sido morta, e a internet ressucitou o caso de Will Tund, as comparações eram muitas, alguns bairros estavam pedindo mais segurança e até especificando um toque de recolher para mulheres entre as faixas de dezoito a vinte e cinco anos. Soltei o vídeo novamente, mantendo em câmera lenta. O filho da puta parecia saber exatamente onde cada câmera de segurança estava focalizada, em todos os momentos nos quais ele deixava a garota morta o rosto nunca deixava de estar coberto pelo capuz preto, as mãos tinham luvas também pretas e o corpo estava vestido com calça e moletom da mesma cor, nem ao menos um fio de cabelo ou uma digital fora encontrado no corpo da vítima pelos peritos.
— O que você acha? — perguntou ela.
— Que outras vão morrer. — Levantei-me e fui até a mesa de café, Andrea tinha me chamado quando eu já estava indo embora para ver o vídeo do caso bizarro que a polícia civil estava investigando.
A ideia de serial killers era muito fantasiosa para as pessoas, era até para mim, isso mudou quando tive que lidar com um deles. Não era bonito, muito pelo contrário do que achavam não tinha nada de loucura nessas pessoas, eu me recusava a considerá-los doentes. Havia era muita maldade e um perfil padrão. Geralmente eram pessoas que nunca levantariam suspeitas, bem vistas na sociedade, o próprio Will era manipulador de tal forma que conseguiu milhares de seguidores e simpatizantes, podia ser qualquer um deles e podia estar em qualquer lugar.
*
Enzo
Acionei o botão do carro para abrir a janela do lado do motorista, sem suportar mais o perfume enjoativo da mulher ao meu lado, completamente arrependido da ideia de levá-la a um motel qualquer. Virei a cara para me afastar das tentativas repetitivas dela beijar meu pescoço e vi uma silhueta que eu conhecia muito bem do outro lado da avenida.
Os cabelos, o formato do corpo, o sorriso.
Eu a reconheceria até no inferno, meu corpo enrijeceu assim que o homem que estava ao seu lado limpou algo em seu rosto e a beijou, o primeiro impulso que tive ao ver a cena foi pegar a arma no porta-luvas, desejando enfiar uma bala na cabeça dos dois. A mulher insignificante ao meu lado soltou um grito de susto quando passei a buzinar loucamente com o cano do objeto, como se eles pudessem ouvir e parar com as carícias.
— Saia do carro. — Gritei com ela fora de mim, ao invés de me obedecer, deu outro grito, o que me deixou ainda mais irado. — Saia.
Ouvi-a me chamar de babaca, enquanto batia a porta com força, deixando para trás o cheiro insuportável, não sei quanto tempo observei os dois. Pensando em como ela era uma puta da pior espécie, a forma como estava vestida, o jeito que se deixava beijar, sem pudor algum.
Marcone
— Onde está Bella? — Cami perguntou, sentando-se no sofá e olhando para o tapete vazio.
— No canil. — Sentei ao seu lado, puxando as pernas longas para o colo e segurando o pé delicado. — Ela tem exercícios regulares. — Meu polegar acariciou a tatuagem chamativa. Dessa vez as unhas estavam pintadas de um vermelho intenso, tal qual o batom que ela retocara minutos antes de virmos para o apartamento.
— Estou me sentindo cheia. — comentou, ajeitando-se de um jeito mais confortável no sofá da sala.
— Massa e milkshake não combinam muito. — Sem conseguir evitar o fascínio que eu tinha pelos pés dela, plantei um beijo no lugar tatuado. — Venha aqui.
Ela veio ajoelhada e enlaçou meu pescoço, todavia não permitiu que eu beijasse sua boca, deu uma série de beijos no meu rosto e então afastou-se para mexer na bolsa jogada ali perto no chão e tirar o celular de dentro. Camille voltou e sentou-se com as pernas abertas no meu colo, procurou minha boca e afastou-se com um sorriso, mirou o celular no meu rosto e eu ouvi o click da foto sendo registrada. Ela riu, olhando o próprio celular e depois voltou a me beijar, ouvi outro disparo e então ela se afastou novamente.
Afaguei a cintura fina, vendo-a deslizar o dedo pela tela do aparelho, a boca vermelha totalmente borrada pelos beijos que trocamos, fazia dias que meu autocontrole vinha sendo colocado a prova. Ela era a tentação em pessoa, e completamente inconsciente quanto a isso. , — Venha cá. — chamei novamente.
— Espera. — Ela mirou outra vez em meu rosto e ouvi os clicks, já impaciente para tê-la de novo em meus braços.
Sentei-me, comprimindo-a contra mim, segurei-a pela nuca e a beijei, delineando os lábios com a língua, ouvi-a gemer e se mexer agitada em meu colo. Tornando o beijo mais intenso, com o esfregar inconsciente que sua agitação causava entre nossos corpos.
— Olha. — Sem fôlego, ela interrompeu o beijo para me mostrar as fotos, meu rosto cheio de marcas dos beijos dela, outra não se podia ver nada além dos seus cabelos.
Ela ajeitou os meus cabelos com a ponta dos dedos, e me deu outro selinho de forma que a foto ficasse perfeita.
— Você gostou dessa? — Observei as fotos junto com ela, algumas totalmente distorcidas. — Quando vai buscar Nina?
— Ela vai me ligar. — Afastei os cabelos do ombro dela, um pouco vermelho por causa da minha, inexistente, barba mas que ela reclamava de lhe arranhar. — Eu gostei dessa.
Camille deu alguns toques no aparelho e colocou a foto como descanso de tela.
— Vou colocar no seu também. — disse, arrebitando o nariz. — Para afastar as agentes de você, já que eu não estou na delegacia.
O comentário me fez gargalhar, ela era possessiva, eu já tinha reparado antes. A forma sutil que marcava território.
— Meu celular. — Afastei-me a contra gosto, imaginando ser alguma mensagem de Nina, ela tivera uma apresentação a noite na faculdade e ficara de me ligar para ir buscá-la.
Todavia, não era ela.
Era uma chamada de vídeo de Estevan, o pai de Samanta.
— Quem é? — Cami perguntou, esticando-se um pouco para olhar.
— Um amigo, preciso atender.
Curvando-se, ela tirou da bolsa um pequeno pacotinho de lenços umidecidos e passou por todo o meu rosto, fez o mesmo com a própria boca, enquanto eu atendia a ligação.
— Estevan? — inquiri quando vi apenas o mar ao fundo, sinal que ele ainda estava navegando. Depois de vender quase tudo o que tinha, após a morte da filha, ele tinha sumido pelos mares do mundo, eram meses e meses velejando. Uma espécie de terapia.
— Veja que lugar incrível.
Ouvi apenas sua voz, senti alívio por perceber nenhum indício de que estava bebendo.
As estrelas e o mar tomavam a tela do meu celular, Camille ficou em um canto do sofá que não pudesse ser vista na ligação.
— Em que lugar do mundo você está? — perguntei.
— Caribe, filho — respondeu, mostrando finalmente o rosto na câmera. Saudável.
Nunca perdemos o contato, mesmo quando eu deixei Brasília, ele e Andrea eram os únicos vínculos que ainda existiam com a vida que eu tinha lá.
— Você está bem? — inquiri.
— Sim. — Vi-o estreitar os olhos.
— Venha cá. — Chamei Camille para que ela ficasse perto de mim e os olhos dele se iluminaram.
— Que bela. — Ele disse, ressucitando o charme há muito
apagado. — La chica es tuya[i]?
Ele perguntou na língua nativa, embora Samanta fosse brasileira, os seus pais eram espanhóis que se naturalizaram no Brasil.
— Sí[ii].
— Eu estou entendendo. — disse ela, e nós dois rimos.
— Essa é Camille, Estevan.
Depois de observá-la por bastante tempo, ele fez algumas perguntas, esquecendo que eu estava ali também, levantei para beber água e tomar um banho e deixei os dois conversarem.
Camille
Diante do espelho, eu toquei os meus lábios, inchados, sem qualquer vestígio de batom. Se eu fechasse o olhos ainda conseguia sentir a sensação da boca dele na minha, do corpo sólido perto do meu. Era inquestionável o tanto que esse homem mexia com minha cabeça, despi o vestido, recordando as sensações, ainda que não tivesse sido pele com pele. Ainda que fossem apenas beijos, a química era diferente, intensa, quase dolorosa. Deitei na cama ainda molhada do banho rápido, desliguei a luz e procurei com os dedos a parte mais agitada do meu corpo, bastava pensar nele para todo o frenesi voltar, toda a vontade, o coração disparando a medida em que eu revivia a sensação do que era nós dois juntos.
*
Acariciei levemente a cabecinha careca de Isabelle, as olheiras estavam fundas e a boca extremamente ressecada, ela estava há alguns dias sem aparecer nas aulas de pintura, e eu resolvi visitá-la, o pai dela não estava, Belle estava sob os cuidados de uma vizinha.
— Meu papai trabalha demais. — disse ela.
— Não fala muito, amor. — Continuei o afago.
— Vocês são namorados agora? — inquiriu, com teimosia, olhando para Marcone atrás de mim. Olhou para meu dedo e depois novamente para ele com ar bravo.
Já havia notado que a menina mexia com ele, talvez pelo fato do seu pai ter morrido com a mesma doença. Desde que havíamos chegado, ele estava quieto, totalmente diferente do habitual.
— Você não deu um anel para ela. — continuou a tagarelar, o tom vivo da voz, fazia um constraste imenso com a aparência apática. Segundo a mulher que estava com ela dissera, a quimeoterapia às vezes deixava a menina fraca assim, era um tratamento difícil.
— Ainda não tive tempo de comprar. — respondeu ele, e segurou a sua mãozinha.
Nos minutos seguintes ela nos contou sobre as coleguinhas que faziam o mesmo tratamento que ela, fomos embora antes do seu pai chegar.
— Ela é especial. — sussurrei, enquanto saíamos do bairro mal iluminado.
Marcone segurou minha mão e beijou de leve, fazendo um meneio afirmativo com a cabeça. Acabei fazendo outra comparação, numa situação como essa Enzo nunca me acompanharia, muito menos me deixaria vir, para ele seria um vínculo sem ganho, com pessoas que nada tinham a oferecer para mim.
Recostei minha cabeça no banco, pensando que talvez o amor romântico que minha irmã falava existisse mesmo, talvez eu tivesse encontrado um mocinho que se perdera fora de um livro de romance. Lembrei-me de como estive certa de que o melhor era me afastar dele, sentindo-me boba por ter pensado nisso. Não havia olhares de reprienda e sim de admiração. Uma das coisas que eu mais gostava quando programávamos algo para fazer juntos, era o jeito que ele me olhava, principalmente quando achava que eu estava distraída. Ele não me acusava de chamar atenção ou reclamava quando eu ria alto, tudo parecia muito certo, natural até.
Eu queria que Liz estivesse aqui para eu contar como ele era, e como eu me sentia tranquila, e sobretudo protegida. Ele me passava segurança e não medo, eu não precisava ficar pisando em ovos a cada palavra que eu fosse soltar ou a cada gesto que eu fizesse, eu nunca tinha me sentido tão minha, tão livre para não me envergonhar da minha personalidade.
O celular dele tocou e após uns segundos vibrando e ele atendeu, uma voz feminina preenchendo o carro.
— Andrea.
— Eu não consigo encontrar minhas chaves. — Ela soltou alguns palavrões antes de dizer a frase completa.
— Deve estar no seu bolso, Andrea. — Ouvi-o rir, porém tudo que eu senti foi ciúmes, o gosto amargo dele.
— Não está, porra.
— Eu não estou sozinho, então cuidado com o que você vai falar. — Ele consultou o relógio de pulso. — Onde você está?
— Dentro do carro pronta para passar na sua casa e pegar a chave extra.
— Eu passo aí.
Ele encerrou a ligação e olhou rapidamente para mim.
— Há quanto tempo vocês se conhecem? — perguntei, curiosa.
— Mais de dez anos.
Parei para pensar a respeito, era um bom tempo.
— Muito tempo.
— Fizemos faculdade juntos, escolhemos a mesma carreira. — Ele sorriu, talvez lembrando do passado. — São muitas histórias em comum. — Ele girou o volante, entrando numa rua que eu não conhecia, mas muito arborizada. — Você vai gostar dela.
Não demorou muito para que o acesso dele fosse permitido e entrássemos no estacionamento grande, de longe eu vi a loura encostada num carro branco que combinava muito com ela. Andrea olhou imediatamente para o lado do carona, embora a janela escura impedisse que ela me visse. Fiquei curiosa para saber o motivo dele ter uma chave do apartamento dela.
Andrea aproximou-se e se debruçou na janela, quando foi aberta.
— Como vai, Cami? — Ela sorriu e eu sorri de volta.
— Tudo bem.
— As chaves, Andrea. — Ele colocou na palma da mão dela e a olhou de modo rabugento.
— Obrigada, federal. — Ela piscou para mim. — Amanhã vou tirar outra cópia e devolver a você. Vocês querem subir?
— Outro dia. — respondeu ele.
Saímos dali direto para meu prédio, eu tinha muitas coisas do trabalho para fazer, então não poderia ficar mais tempo com ele.
— Está em casa. — Ele olhou para mim e eu me inclinei para beijar o seu pescoço.
Soltei o cinto de segurança e sentei de lado em seu colo, entrelaçando nossos dedos.
— Você precisa mesmo trabalhar? — O dedo indicador fez um caminho curto do meu lábio até meu queixo.
— Sim. — Dei um selinho e me afastei. — Sou uma advogada formada agora.
Beijei-o novamente antes de sair do carro, notando só então que o carro da minha mãe estava parado ali desde que chegamos. Joice me acompanhou antes que eu entrasse no elevador.
— Com quem você estava? — perguntou ela, encarando-me pelo espelho do elevador.
Senti vontade de não responder, a mágoa por ela não ter acreditado em mim ainda estava doendo muito, doeu por muitos dias seguidos.
— Porque a pergunta?
— Porque não é a primeira vez. — O tom arrogante que ela usava quando achava que não devia pedir desculpas, era assim que ela agia quando sabia que tinha me machucado.
— Me surpreende que você esteja prestando atenção. — Saí do elevador, ouvindo o som dos saltos altos dela fazendo eco pelo corredor.
Entrei na sala sem esperar, e sem paciência alguma para conversar com Joice. Ela era a última pessoa com a qual eu queria falar sobre ele. Fui direto para o meu quarto, disposta a realmente trabalhar e buscando não me arrepender de ter vindo para casa ao invés de ter ficado com ele.
— Quem é ele, Camille? — Ela entrou no meu quarto e eu tive que olhá-la.
— Como sabe que é ele?
— Miguel me disse. — Ela sentou na minha cama. — Ao contrário do que você pensa, eu me preocupo com você.
Contive a vontade de revirar os olhos.
— É alguém que eu gosto, mãe. — Cruzei os braços.
Ela assentiu.
— Eu gostaria de conhecê-lo.