O Federal
Capítulo 21
Camille
Tinha aqueles dias que até o som do lápis caindo no chão me
assustava, ou o burburinho de conversas me deixava alerta, incomodada, até mesmo minha atenção mudava, meu corpo suava com facilidade não importava o grau do ar condicionado.
— Você me ouviu, Camille?
Além de Romana, a garota do café também estava me encarando.
— Não, me desculpe. Pode, por favor, repetir?
— Você pode tirar a xerox desse processo para mim e entregar a Flávio? Estou atrasada para uma audiência.
— Claro. — respondi, dando-me conta das folhas que ela estendia para mim.
Antes de me levantar, desbloqueei pela milésima vez a tela do celular. Foram tantas mensagens que recebi desde a noite passada que precisei colocar o aparelho no silencioso.
Todas dele. Furiosas, ameaçadoras, repugnantes. Perguntava-me como Enzo conseguia todos os meus números, não importava quantas vezes eu o trocasse. Observei o relógio digital na minha mesa e levantei a fim de ir xerocar a papelada. Durante todo o dia a sensação que eu tinha era a de estar sendo vigiada, seguida — esse era o efeito Enzo em mim. Ele tinha uma capacidade quase expert de me tirar a paz, uma que a muito custo estava tentando reaver.
Comecei meu trabalho metodicamente, empilhei as folhas sobre o laser e cliquei no botão branco, ouvindo o som habitual da impressora.
— Pode...
O susto que tomei foi grande a ponto de eu colidir com quem estava atrás de mim, todas as folhas da mão de Flávio caíram e eu me abaixei para pegá-las, murmurando inúmeros pedidos de desculpas ao mesmo tempo.
— Ei... Tudo bem. — Ele tocou meu ombro e me ajudou a pegar todas as folhas do chão. — Está tudo bem? — perguntou, colocando os papéis sobre o balcão branco e tentando colocá-los na ordem numérica.
— Está sim. — respondi, ainda inquieta. — Eu faço isso, tem um processo que Romana me pediu que entregasse a você. — Apontei para a impressora e puxei as folhas já xerocadas para entregar a ele.
Flávio me avaliou por alguns minutos.
— Você pode vir até minha sala? — perguntou após avaliar o conteúdo da papelada.
Assenti, apreensiva e o segui ao longo do corredor até o elevador que nos levaria à presidência da corporação. Ele não disse nada, apenas clicou no número do andar e permaneceu concentrado no que quer que estivesse naqueles papéis.
— Houve algum problema? — perguntei, assim que ele indicou uma poltrona para que eu sentasse.
A sala dele era enorme e com exceção de um quadro amarelo, era na mesma paleta de cores dos outros ambientes, extremamente masculina.
— Foi minha mãe quem pintou. — disse ele, talvez por eu estar atenta aos pequenos detalhes da obra.
— Ela é muito boa. — elogiei, o quadro era voltado a um estilo barroco, algo que eu não costumava pintar, mas achava extremamente interessante.
— Sim, ela era sim.
O verbo no passado me fez desviar a atenção do quadro para ele.
— Infelizmente ela não está mais aqui. — Sentou-se e uniu as mãos sobre a mesa impecavelmente limpa.
— Eu sinto muito.
Ele assentiu e voltou a me fitar.
— Você costuma ter sempre essas crises de pânico? — inquiriu ele de um jeito direto.
Primeiro fiquei sem entender, depois olhei para a tela imensa atrás de mim onde provavelmente ele monitorava todos os departamentos, perdi a conta de quantas vezes fui até a área dos fumantes para controlar as crises de ansiedade por cada mensagem que recebi ao longo do dia, só não sabia que estava sendo monitorada, senti vergonha de imediato.
— Faz algum tempo.
Ele assentiu.
— Sabe que há pscicólogos a disposição?
— Sim, eu li no contrato — respondi. — Faço acompanhamento há algum tempo, tenho uma sessão marcada, mas me desculpe por sair tantas vezes...
— Não é por isso que estamos aqui. — Flávio me tranquilizou. — Eu preciso saber se é algo aqui na empresa que está te incomodando...
— Não, de jeito nenhum. — Mudei de posição na cadeira procurando as palavras certas. — São problemas pessoais que estou tendo que lidar, não é nada aqui.
Ele assentiu mais uma vez e consultou o relógio.
— Era só isso.
Saí da sala pensando em quando tudo aquilo iria acabar, a sensação que eu tinha era a de estar sufocada e eu queria gritar. Gritar tudo que eu estava sentindo, entrei no primeiro banheiro, incapaz de voltar para a minha mesa, lavei o rosto e olhei bastante o meu reflexo no espelho. Puxei o celular do bolso do terninho e prendi a respiração quando vi a luz vermelha brilhando, sinal de que havia novas mensagens, desbloqueei e antes que eu pudesse vê-las, o nome Marcone apareceu no visor, meu coração disparou, não de um jeito ruim como agora a pouco, mas também não do jeito que eu gostaria. Resolvi não atender, e nem olhar as mensagens.
Marcone
Tentei ligar uma segunda vez, mas a ligação caiu diretamente na caixa. Talvez o celular estivesse descarregando ou ela não quisesse atender. Pensei em mandar uma mensagem, mas desisti e coloquei o celular sobre a mesa. Pus o fone plugado no notebook novamente na orelha e escutei pela milésima vez o depoimento fajuto de Antonio, tudo no cara era falso. Minha intenção era ver de que forma ele mencionaria o nome da minha família.
— Você vai destruir o replay. — Resmungou ela, tirando o próprio fone e massageando o pescoço.
Ignorei, afinal uma das coisas que Andrea e Nina tinham em comum era a capacidade inumana de me tirar do sério.
— Você vai agora, gata? — Desviei os olhos da tela para Erick, o novato. Só conseguia lembrar dele dessa forma.
— Já disse para não me chamar assim. — Andrea retrucou de modo irritado e eu gostei, claramente. — Nos vemos mais tarde. — Ela colocou o cara para fora da sala, ao modo dela e voltou, devo dizer que ela estava diferente, até mesmo o cabelo vivia solto, uma mudança que eu aprovava. O rosto ficava ainda mais bonito emoldurado pelas madeixas douradas. — O que você está olhando? — perguntou para mim.
— Não estou olhando nada. — Desliguei o aparelho e voltei a desbloquear a tela do celular.
Não havia nada dela.
Perguntei-me o que havia acontecido, uma preocupação já comum quando se tratava de Camille surgiu e eu me levantei para encerrar o turno, pensando seriamente em desmarcar a cerveja com Flávio.
— Então você tem um encontro hoje... — comentei, enquanto caminhávamos pelo estacionamento digno de filme de terror.
— Não me enche! — Ácida como sempre. — Você não tem uma garota para se preocupar? — inquiriu ela, se não fosse Andrea eu diria que era ciúmes, mas ela não era dada a essas coisas.
— Na verdade mais de uma, uma delas é você. — Encostei no meu carro e cruzei os braços, observando-a procurar loucamente a chave dentro da bolsa abarrotada de coisas. — Está no seu bolso.
Ela revirou os olhos e me imitou, encostando-se no próprio carro e girando a chave no dedo fino.
— Ele é uma boa companhia, só faz perguntas demais, mas ninguém é perfeito. — Ela jogou a bolsa no banco do carona e manteve a porta aberta, enquanto olhava para mim, provavelmente esperando que eu dissesse mais alguma coisa.
— Boa noite, Andrea. — repliquei simplesmente, desistindo, quando se tratava de romances ela raramente me escutava.
— Até o plantão de amanhã. — Disse ela antes de entrar no carro e dar partida.
Consultei mais uma vez o celular e girei a chave na ignição, contrariado e preocupado. Encontrei Nina e Ben no sofá da sala, quando cheguei, eu não ia negar que tinha ciúmes da encrenqueira. Eu tinha. Mas o engraçado mesmo era a pose de bom samaritano que meu, infelizmente, cunhado vinha adotando ultimamente. Como se eu não o conhecesse.
Dei atenção aos dois antes de ir tomar banho e mandar uma mensagem para Flávio, avisando que eu não iria.
— Nós vamos pedir uma pizza, você quer? — Nina colocou só a cabeça para dentro do quarto.
— Não, provavelmente vou apagar daqui a pouco. — Ajeitei a almofada, sentindo o cansaço acumulado dar as caras, evitei um bocejo e fiz um gesto para que ela entrasse.
Nina beijou meu rosto e sentou na beirada da cama.
— Não consegui falar com Camille hoje, vocês se falaram? — perguntou ela.
— Eu liguei, mas ela não atendeu. — Peguei o celular sobre o criado-mudo a fim de ver se havia alguma mensagem ou ligação dela.
Não havia nada.
— Vá se divertir, eu estou cansado.
Nina inclinou-se para que eu beijasse sua testa e se afastou logo em seguida.