O Federal

Cris Araújo · Capítulo 22 de 63

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O Federal

Capítulo 21

 

Camille

 

Tinha aqueles dias que até o som do lápis caindo no chão me

assustava, ou o burburinho de conversas me deixava alerta, incomodada, até mesmo minha atenção mudava, meu corpo suava com facilidade não importava o grau do ar condicionado.

— Você me ouviu, Camille?

Além de Romana, a garota do café também estava me encarando.

— Não, me desculpe. Pode, por favor, repetir?

— Você pode tirar a xerox desse processo para mim e entregar a Flávio? Estou atrasada para uma audiência.

— Claro. — respondi, dando-me conta das folhas que ela estendia para mim.

Antes de me levantar, desbloqueei pela milésima vez a tela do celular. Foram tantas mensagens que recebi desde a noite passada que precisei colocar o aparelho no silencioso.

Todas dele. Furiosas, ameaçadoras, repugnantes. Perguntava-me como Enzo conseguia todos os meus números, não importava quantas vezes eu o trocasse. Observei o relógio digital na minha mesa e levantei a fim de ir xerocar a papelada. Durante todo o dia a sensação que eu tinha era a de estar sendo vigiada, seguida — esse era o efeito Enzo em mim. Ele tinha uma capacidade quase expert de me tirar a paz, uma que a muito custo estava tentando reaver.

Comecei meu trabalho metodicamente, empilhei as folhas sobre o laser e cliquei no botão branco, ouvindo o som habitual da impressora.

— Pode...

O susto que tomei foi grande a ponto de eu colidir com quem estava atrás de mim, todas as folhas da mão de Flávio caíram e eu me abaixei para pegá-las, murmurando inúmeros pedidos de desculpas ao mesmo tempo.

— Ei... Tudo bem. — Ele tocou meu ombro e me ajudou a pegar todas as folhas do chão. — Está tudo bem? — perguntou, colocando os papéis sobre o balcão branco e tentando colocá-los na ordem numérica.

— Está sim. — respondi, ainda inquieta. — Eu faço isso, tem um processo que Romana me pediu que entregasse a você. — Apontei para a impressora e puxei as folhas já xerocadas para entregar a ele.

Flávio me avaliou por alguns minutos.

— Você pode vir até minha sala? — perguntou após avaliar o conteúdo da papelada.

Assenti, apreensiva e o segui ao longo do corredor até o elevador que nos levaria à presidência da corporação. Ele não disse nada, apenas clicou no número do andar e permaneceu concentrado no que quer que estivesse naqueles papéis.

— Houve algum problema? — perguntei, assim que ele indicou uma poltrona para que eu sentasse.

A sala dele era enorme e com exceção de um quadro amarelo, era na mesma paleta de cores dos outros ambientes, extremamente masculina.

— Foi minha mãe quem pintou. — disse ele, talvez por eu estar atenta aos pequenos detalhes da obra.

— Ela é muito boa. — elogiei, o quadro era voltado a um estilo barroco, algo que eu não costumava pintar, mas achava extremamente interessante.

— Sim, ela era sim.

O verbo no passado me fez desviar a atenção do quadro para ele.

— Infelizmente ela não está mais aqui. — Sentou-se e uniu as mãos sobre a mesa impecavelmente limpa.

— Eu sinto muito.

Ele assentiu e voltou a me fitar.

— Você costuma ter sempre essas crises de pânico? — inquiriu ele de um jeito direto.

Primeiro fiquei sem entender, depois olhei para a tela imensa atrás de mim onde provavelmente ele monitorava todos os departamentos, perdi a conta de quantas vezes fui até a área dos fumantes para controlar as crises de ansiedade por cada mensagem que recebi ao longo do dia, só não sabia que estava sendo monitorada, senti vergonha de imediato.

— Faz algum tempo.

Ele assentiu.

— Sabe que há pscicólogos a disposição?

— Sim, eu li no contrato — respondi. — Faço acompanhamento há algum tempo, tenho uma sessão marcada, mas me desculpe por sair tantas vezes...

— Não é por isso que estamos aqui. — Flávio me tranquilizou. — Eu preciso saber se é algo aqui na empresa que está te incomodando...

— Não, de jeito nenhum. — Mudei de posição na cadeira procurando as palavras certas. — São problemas pessoais que estou tendo que lidar, não é nada aqui.

Ele assentiu mais uma vez e consultou o relógio.

— Era só isso.

Saí da sala pensando em quando tudo aquilo iria acabar, a sensação que eu tinha era a de estar sufocada e eu queria gritar. Gritar tudo que eu estava sentindo, entrei no primeiro banheiro, incapaz de voltar para a minha mesa, lavei o rosto e olhei bastante o meu reflexo no espelho. Puxei o celular do bolso do terninho e prendi a respiração quando vi a luz vermelha brilhando, sinal de que havia novas mensagens, desbloqueei e antes que eu pudesse vê-las, o nome Marcone apareceu no visor, meu coração disparou, não de um jeito ruim como agora a pouco, mas também não do jeito que eu gostaria. Resolvi não atender, e nem olhar as mensagens.

 

Marcone

 

Tentei ligar uma segunda vez, mas a ligação caiu diretamente na caixa. Talvez o celular estivesse descarregando ou ela não quisesse atender. Pensei em mandar uma mensagem, mas desisti e coloquei o celular sobre a mesa. Pus o fone plugado no notebook novamente na orelha e escutei pela milésima vez o depoimento fajuto de Antonio, tudo no cara era falso. Minha intenção era ver de que forma ele mencionaria o nome da minha família.

— Você vai destruir o replay. — Resmungou ela, tirando o próprio fone e massageando o pescoço.

Ignorei, afinal uma das coisas que Andrea e Nina tinham em comum era a capacidade inumana de me tirar do sério.

— Você vai agora, gata? — Desviei os olhos da tela para Erick, o novato. Só conseguia lembrar dele dessa forma.

— Já disse para não me chamar assim. — Andrea retrucou de modo irritado e eu gostei, claramente. — Nos vemos mais tarde. — Ela colocou o cara para fora da sala, ao modo dela e voltou, devo dizer que ela estava diferente, até mesmo o cabelo vivia solto, uma mudança que eu aprovava. O rosto ficava ainda mais bonito emoldurado pelas madeixas douradas. — O que você está olhando? — perguntou para mim.

— Não estou olhando nada. — Desliguei o aparelho e voltei a desbloquear a tela do celular.

Não havia nada dela.

Perguntei-me o que havia acontecido, uma preocupação já comum quando se tratava de Camille surgiu e eu me levantei para encerrar o turno, pensando seriamente em desmarcar a cerveja com Flávio.

— Então você tem um encontro hoje... — comentei, enquanto caminhávamos pelo estacionamento digno de filme de terror.

— Não me enche! — Ácida como sempre. — Você não tem uma garota para se preocupar? — inquiriu ela, se não fosse Andrea eu diria que era ciúmes, mas ela não era dada a essas coisas.

— Na verdade mais de uma, uma delas é você. — Encostei no meu carro e cruzei os braços, observando-a procurar loucamente a chave dentro da bolsa abarrotada de coisas. — Está no seu bolso.

Ela revirou os olhos e me imitou, encostando-se no próprio carro e girando a chave no dedo fino.

— Ele é uma boa companhia, só faz perguntas demais, mas ninguém é perfeito. — Ela jogou a bolsa no banco do carona e manteve a porta aberta, enquanto olhava para mim, provavelmente esperando que eu dissesse mais alguma coisa.

— Boa noite, Andrea. — repliquei simplesmente, desistindo, quando se tratava de romances ela raramente me escutava.

— Até o plantão de amanhã. — Disse ela antes de entrar no carro e dar partida.

Consultei mais uma vez o celular e girei a chave na ignição, contrariado e preocupado. Encontrei Nina e Ben no sofá da sala, quando cheguei, eu não ia negar que tinha ciúmes da encrenqueira. Eu tinha. Mas o engraçado mesmo era a pose de bom samaritano que meu, infelizmente, cunhado vinha adotando ultimamente. Como se eu não o conhecesse.

Dei atenção aos dois antes de ir tomar banho e mandar uma mensagem para Flávio, avisando que eu não iria.

— Nós vamos pedir uma pizza, você quer? — Nina colocou só a cabeça para dentro do quarto.

— Não, provavelmente vou apagar daqui a pouco. — Ajeitei a almofada, sentindo o cansaço acumulado dar as caras, evitei um bocejo e fiz um gesto para que ela entrasse.

Nina beijou meu rosto e sentou na beirada da cama.

— Não consegui falar com Camille hoje, vocês se falaram? — perguntou ela.

— Eu liguei, mas ela não atendeu. — Peguei o celular sobre o criado-mudo a fim de ver se havia alguma mensagem ou ligação dela.

Não havia nada.

— Vá se divertir, eu estou cansado.

Nina inclinou-se para que eu beijasse sua testa e se afastou logo em seguida.