O Federal

Cris Araújo · Capítulo 19 de 63

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O Federal

Capítulo 18

 

Camille

 

Coloquei todas as sacolas no tapete do quarto e fui

imediatamente abrir o closet, a moça que geralmente vinha limpar o apartamento tinha retirado várias roupas que eu não queria mais, faziam parte do meu passado. Eu queria construir algo novo, com tudo novo, inclusive as roupas que eu usava. Sempre fui vaidosa, bem mais que minha irmã. Liz sempre optara pelo casual, por jeans, moletons, camisetas — diferente de mim, sempre me enfeitei mais. Esse traço foi uma das características que mudara radicalmente em mim, e que somente ela percebera. Os cabelos viçocos e frequentemente brilhantes, tornaram-se sem vida, opacos, frequentemente presos, ou penteados para trás. A maquiagem eu passei a usar para cobrir hematomas, não para realçar os meus traços e as roupas, bom, essas foram ficando largas, folgadas, desengonçadas no meu corpo magro e cheio de hematomas. Observando a mulher cadavérica que eu era um tempinho atrás, perguntei-me como tinha permitido tudo aquilo acontecer. A cegueira era demais, a dependência ainda maior e meu amor próprio bem castigado, inexistente, quimérico.

— Você não tem nem um pouco de pena de jogar tudo isso fora? — Aline perguntou, olhando as prateleiras vazias do closet e arrastando-me para longe das lembranças.

— Não vão para o lixo, serão doadas às pessoas que precisam. Naia vai cuidar disso.

— E o encontro com o bonitão?

A pergunta fez um reboliço no meu estômago, ao mesmo tempo em que as horas pareciam estar voando, os ponteiros conversavam lentamente.

— Ele vem me buscar às oito. — Sentei no tapete em meio as sacolas de grifes diferentes.

Aline fez o mesmo, além de ser linda e inteligente ela era fascinada por moda, fotografia e maquiagem. Nas poucas vezes em que eu fui a sua casa, vi os ensaios fotográficos ou assisti aos ataques de pânico que ela tinha quando recebia respostas por e-mail das agências as quais enviava seu portfólio. Tinha feito trabalhos em agências pequenas, participado de alguns comerciais, mas o tão sonhado contrato internacional não tinha aparecido ainda. Ainda, como ela costumava dizer.

— Esse aqui. — Ela quase gritou, girando com um vestido vermelho em frente ao corpo. — Esse é fatal, você vai ficar parecendo aquelas modelos da Victoria’s Secret.

— Você não existe, Aline. — Ri, retirando as peças de dentro das dezenas de sacolas. — Que horas são?

— Falta muito para as oito ainda. — Ela parou em frente ao espelho, enfiando os dedos pela juba castanha, ela odiava que qualquer pessoa tocasse em seus cabelos.

Bufei com a brincadeira sem graça e me mantive concentrada nas roupas. Além de vestidos mais femininos, comprei algumas peças formais para usar em dia de estágio. Aline e eu fomos almoçar, antes de toda a bagunça ser realmente arrumada. Ela ficou parte da tarde tagarelando e tentando me ensinar a usar cílios postiços, algo que eu odiava, foi embora, quando enfim desistiu da ideia.

Foi difícil escolher algo para vestir, acabei entrando no banho com três vestidos sobre a cama, os cabelos estavam lavados desde o dia anterior, eles tinham aquela coisa de ficarem bonitos no outro dia. Enquanto fazia a maquiagem, o meu celular vibrou algumas vezes. Durante a tarde, Marcone e eu tínhamos trocado algumas mensagens bobas, nada diferente dos outros dias. Apesar de ter perguntado a mim mesma se estava fazendo a coisa certa em aceitar, a vontade de vê-lo de novo era maior do que qualquer outra coisa. Perguntei-me se ele sentia o mesmo, se era por isso que tinha feito o convite, deixei que um sorriso sutil surgisse no canto dos meus lábios. Eu colecionei alguns motivos para não gostar de ser bonita, por um tempo fiz de tudo para não chamar atenção, mas hoje, o sentimento era outro. Eu queria que ele me notasse, não como a amiga irmã dele, ou a garota que pintava quadros, eu queria que ele me notasse como a mulher que eu sabia que era.

Deixei para passar o batom por último, nenhum dos que testei deixavam o visual do jeito que eu queria. Saí, ainda vestida no roupão, para o quarto dos meus pais. Não bati na porta, nesse horário raramente estavam em casa. Fui direto para a penteadeira de Joice, um papel dobrado teria passado despercebido se não fosse o nome Elizabete Alencar escrito em negrito no envelope ao lado. Meu coração disparou imediatamente.

Soava estranho que ela se resumisse a um nome, a uma lembrança, a um papel.

Abri rapidamente para ler o conteúdo, e antes que chegasse ao final as lágrimas já estavam escorrendo por meu rosto. Enxuguei-as e li novamente, ao mesmo tempo em que escutei alguém entrar no quarto. Virei-me, deparando-me com meu pai.

— Vocês ganharam dinheiro com a morte dela? — Minhas mãos tremiam tanto que eu escutei o som do papel em movimento. — É isso, pai? Há um desse em meu nome também? — Enxuguei o rosto bruscamente, sem deixar de encará-lo.

Augusto não teve uma reação imediata. Olhou de mim para o papel e depois para a porta, por onde minha mãe passou logo em seguida.

— Também há um seguro de vida em meu nome? — inquiri novamente.

— Há um seguro de vida para cada um de nós, Camille. — Meu pai respondeu, ainda no mesmo lugar. — Você é praticamente uma advogada formada, devia entender como essas coisas funcionam.

— Eu nunca vou entender essa frieza de vocês. Nunca vou entender.

Esqueci-me do batom e deixei-os sozinhos. Odiando ter entrado ali. Escutei quando um deles passou a me seguir, mas não olhei para trás para ver quem era. A apólice ainda estava na minha mão, os picos de luz vieram trolando a minha consciência, a minha voz interior soou alta, como um alto-falante.

— Assassina. — Era como se eu pudesse escutar perfeitamente.

— Você a matou.

— Nós doamos o dinheiro para o projeto que ela dava aulas, Cami.

Ouvi a voz do meu pai e ergui o rosto para olhá-lo, sem sequer acreditar que era verdade.

— Vocês fizeram isso?

Ele assentiu, olhando-me com cuidado. Senti um pouco de alívio, era algo que Liz gostaria.

— Você vai sair? — Apontou para os vestidos sobre a minha cama, e eu assenti, dando-me conta de que a maquiagem devia estar borrada.

— Que horas são, pai?

— Sete e trinta e três. — Augusto respondeu e continuou a me encarar por um tempo. — Vai sair com Enzo?

— Não. — respondi rapidamente, evitando as lembranças ruins, os gatilhos e a reviravolta desagradável no meu estômago.

Ele assentiu, e caminhou para a porta.

— Boa noite, filha.

 

*

Era como se o som do meu coração anulasse todos os outros a minha volta, assim que eu saí do elevador. Ele tinha ligado exatamente às sete e cinquenta e nove para dizer que estava em frente ao meu prédio. Claro que eu não estava pronta.

Conferi os cabelos no espelho mais próximo e acenei para Miguel, antes de começar a descer o pequeno lance de escada que me levaria ao lado externo, ainda no primeiro degrau eu o vi, foi quase involuntário sorrir fácil. Deixei-me levar pelo visual dele, os meus olhos cobiçosos passearam pelas coxas grossas cobertas por uma calça escura e os braços fortes expostos. Os cabelos mantinham o corte mais curto nas laterais. Ele estava relaxado encostado no carro, os olhos azuis encontraram primeiro os meus e depois deslizaram de maneira intensa e totalmente lenta até os meus pés. E eu gostei disso, não havia um traço sequer de malícia quando ele voltou a olhar meu rosto, apenas uma intensidade crua, quase palpável.

— Você está mais bonita do que a última vez que nos vimos. — O elogio foi feito num tom suave, enquanto ele abria a porta do passageiro para mim.

O cheiro de menta misturado com a colônia dele chegaram em mim junto com o toque dos seus dedos no meu queixo, foi algo totalmente natural e familiar. Ele era familiar de alguma forma. Somente assenti, incapaz de dizer alguma coisa. Minha vontade era dizer o mesmo, que ele estava muito mais atraente do que da última vez. Perguntava que encanto era esse que esse homem despertava, como podia ser possível que tudo numa pessoa atraísse? A voz, o cheiro, até mesmo o franzir imperceptível dos lábios junto com o erguer das sobrancelhas grossas.

— Nina fez uma reserva num restaurante que ela disse que você gosta.

— Você contou a ela? — inquiri, imaginando qual teria sido a reação.

Ele deu uma gargalhada e fez um gesto para que entrasse no carro. Entrei e esperei pacientemente pela resposta.

— Sim. Geralmente não escondo nada dela. Não quero que ela esconda nada de mim.

Era justo, pensei comigo mesma. Fiquei curiosa sobre a reação dela.

— O que ela disse? — Movi-me um pouco na direção dele, flagrei por dois minutos os olhos atentos nas minhas pernas, se eu não estivesse presa a figura dele, não teria percebido.

— Ela disse que não sabia como não tinha pensado nisso antes. — Ele girou a chave na ignição e piscou para mim. — Ela é uma garota estranha, não acha?

Eu ri, achando graça dele.

— Aonde nós vamos? — perguntei, ignorando o desconforto familiar por estar dentro de um carro.

O prédio foi ficando pequeno, conforme nos afastávamos dele.

— Giuseppe.

— É meu restaurante preferido aqui no Rio. Eu ia com meu avô. — Meu vô era a minha melhor lembrança da infância. Ele morava na praia, lembrei-me de como eu chorava quando meus pais me deixavam o verão inteiro das férias, a lembrança me faz voltar ao passado. Eu sempre fui mais deprimida, Liz mais enérgica. Ela não se importava com o fato de ser deixada para trás, eu sim. Me corroía não ter a atenção dos nossos pais, me machucava que eles nem sequer ligassem para saber como estavam sendo as férias.

— Nina me deu a informação completa. — Ele sorriu de leve, tirando-me do passado.

— Há um motivo? — Encarei-o, esperando que ele entendesse a pergunta.

— Sim, eu queria ver você outra vez.

Senti uma vontade gritante de perguntar o porquê, cheguei a separar os lábios, inquieta para saber.

— Eu também queria. — Entre perguntar e ser sincera, eu optei por expressar como me sentia há dias. Eu queria vê-lo outra vez, ter uma oportunidade de comparar novamente o rosto dele com os traços que eu tinha pintado.

Sentir novamente aquela onda de atração que parecia tão certa mesmo que inexplicável.

Uma das mãos dele deixou o volante e procurou pela minha sobre a minha coxa. Os dedos afagaram levemente os meus, por segundos, enquanto os olhos passearam pelo meu rosto, mas fixavam-se mesmo nas minhas íris. Perguntava-me se era atraente para ele como o azul intenso dos seus olhos era para mim.

O ar a nossa volta mudou, e junto com o cheiro gostoso que vinha da pele máscula, veio o desejo de ser beijada.

Fazia meses que eu sequer queria um homem perto de mim. Era estranha a sensação de segurança que ele me passava, ainda que eu realmente tivesse visto como ele cuidava da mãe e da irmã. Era uma realidade que eu não conhecia, não com toda a leveza que ele tinha. O contato visual foi cortado quando o sinal abriu e o carro retomou o movimento.

Adorei o fato dele ter reservado uma mesa na área menos circulada do restaurante, o Giuseppe era muito bem frequentado, geralmente estava lotado a essa hora, principalmente a área do bar.

— Você já veio aqui antes? — perguntei, quando nos sentamos.

— Não. — Ele olhou ao redor atentamente.

— Você dorme? — Perguntei curiosa, lembrando de como ele tinha saído tarde da delegacia alguns dias atrás.

Ele riu bem-humorado.

— Claro. Por quê?

— Nina me contou sobre algumas vezes que você chega tarde ou no dia seguinte em casa.

— Não é um trabalho fácil, mas já acostumei.

— Já pensou em fazer outra coisa? — perguntei em seguida, seria minha vez de fazer perguntas, de conhecer o mundo dele.

Marcone pensou por um minuto, olhando-me. Era algo que eu tinha reparado, dificilmente ele desviava o olhar.

— Sim, há muito tempo atrás.

O tom dele me fez entender que talvez houvesse algo por trás do assunto.

— Você é mesmo linda. — Elogiou novamente e eu sorri, agradecendo a mim mesma por ter optado pelo vestido branco, sempre gostei de como a cor ficava em sintonia com minha pele.

— Você acha mesmo? — brinquei, completamente a vontade.

— Sim. — Ele me encarou por um tempo. — Sua irmã era parecida com você?

— Em nada. — Sorri com menos energia. — Sempre fomos completamente diferentes. Eu a amava muito.

— Entendo perfeitamente o que quer dizer. — O tom dele foi compreensivo.

— Eu me sinto muito culpada pela morte dela.

— Você lembrou de algo? — perguntou ele, ainda mais atento do que o comum e um tanto quanto confuso.

— Não. — Lembrei-me do que minha psicóloga disse a respeito da falta de lembranças. Segundo ela, eu só lembraria quando quisesse lembrar, era como se meu subconsiente tivesse omitido tudo para me proteger de mim mesma. Da certeza de que tinha sido eu a matá-la.

— E quanto aos dias anteriores ao do acidente, você lembra deles?

Tinham sido dias tranquilos, dias em que eu me reconectei comigo mesma. Embora Enzo não tenha deixado de me ligar ou mandar mensagem. Ainda assim, foram dias felizes. Longe dele e de tudo que sua presença representava.

— Sim, eu estava feliz.

Marcone assentiu, e como se quisesse mudar de assunto apontou para o cardápio.

— Não conheço a comida daqui, então aceito dicas e afins.

— É tudo muito bom, mas eu sempre pedia esse aqui. — Inclinei-me um pouquinho para tocar com o dedo no nome do prato: Picanha Giuseppe.

— Vai ser esse então. — Como que num passe de mágica, alguém que não prestei atenção veio pegar nossos pedidos. — Por que não se senta aqui? — Ele apontou para um lugar ao seu lado, onde poderíamos ficar mais perto um do outro.